Muitos teóricos se ocuparam em estudar a importância da contribuição
identitária dos negros para a construção da sociedade brasileira, como também a importância da luta do movimento negro contra o preconceito, a discriminação, as desigualdades raciais e, consequentemente, a peleja para a integração social dos afro- descendentes nos negócios públicos.
Diante das distâncias e aproximações entre as demandas da população negra e do poder público, o estudo sobre a problemática racial brasileira passou a ser uma prioridade de muitas pesquisas acadêmicas no sentido de orientar gestores do Estado a promover e implementar políticas públicas de promoção da igualdade racial.
Evidentemente, isso se deve à sistemática luta histórica travada pelas organizações do Movimento Negro brasileiro em todo território nacional e, também internacional, sobretudo, a partir da década de 1950-60 influenciados por uma série de estudos acadêmicos que pavimentaram o terreno para as exigências contemporâneas. Dentre esses, podemos destacar contribuições realizadas pelo grupo de estudo de sociologia da Universidade de São Paulo, que destacaram a fragilidade, se não a inexistência, de um paraíso racial em termos estruturais.
No final dos anos 1970 e inicio de 1980, temos a contribuição de pesquisas iniciadas em 1950 por teóricos representantes da escola de sociologia do Rio de Janeiro. A particularidade das pesquisas realizadas pela escola carioca em relação à escola paulista, é que elas se assentam em dados estatísticos.
51 Portanto, para aprofundamento de nosso estudo, consideremos de supra- importância uma breve revisão de algumas abordagens sobre tais estudos. Afinal, esses estudos tornaram em grande parte responsável diretos pelas concepções de ideias manifestadas por diversas variantes dos modos de organização política do Movimento Negro no Brasil no decorrer dos tempos e, especialmente, na cidade de Uberlândia (MG).
2.2 Estudo originário: abordagem Freyriana
Durante a segunda metade do século XIX, com os debates em torno da abolição e das especificidades étnicas e políticas do Brasil, a questão das raças se transforma no principal referencial dos estudos de Antropologia, Psicologia e Sociologia.
Ainda organizado politicamente sob a forma de Império – numa certa linha de continuidade com a tradição portuguesa – havia entre as elites do país uma busca de identificação do Brasil como uma nação „europeia‟ por origem, cultura, organização político-educacional e, além disso, por vocação e destino. Na literatura romântica nacionalista, a mestiçagem e as possíveis variedades étnicas aparecem idealizadas, alocadas em valores e narrativas europeizantes.
Dentro do país, no entanto, prevalecia a política de estabelecer as diferenças entre a parcela civilizada, aristocrática e superior da população – identificada à raça branca – e a parcela atrasada, não civilizada e “inferior” - identificada aos demais segmentos étnicos. Ou de reproduzir nas fronteiras do país a lógica do novo “cientificamente estabelecidas” entre os povos ou raças.
Até 1933, ano de publicação de Casa Grande e Senzala, era senso comum considerar que o Brasil estava condenado ao atraso por causa da mistura de brancos, negros e índios. Gilberto Freyre inverte essa ideia ao valorizar a mistura de etnias.
No seu trabalho Casa-grande & Senzala (2006), o sociólogo imprimiu em sua pesquisa uma visão poderosa e original dos fundamentos da sociedade brasileira. Sua mensagem representou um divisor de águas na evolução cultural do Brasil e contribuiu para que o país encarasse com mais confiança seu papel no mundo moderno. Contrapondo visões racistas de matrizes Eurocêntricas e Etnocêntricas, Freyre proporciona uma leitura positiva da sociedade brasileira naquilo que diz respeito a sua composição inter-racial.
52 Na análise sociológica descrita por Gilberto Freyre (2006) a população negra é apresentada de maneira positiva. Qualifica a mestiçagem como elemento de maior relevância e importância para a formação da beleza e plasticidade demográfica brasileira. Afirma que a relação entre etnias e culturas é o que diferencia o Brasil do ponto vista da integração social em relação a outros povos do mundo, sobretudo europeus. O autor desenvolve uma tese pautada por uma miscigenação ativa. Nesse aspecto, antes dos anos de 1930, ninguém fez mais do que Freyre para transformar a miscigenação de passivo em ativo, de objeto de trabalho literários pessimistas em motivo de otimismo nacional, esvaziando do debate herdado do fim do Império e da República Velha sobre suas consequências inapelavelmente negativas para o futuro do país.
Contudo, no aspecto estrutural do desenvolvimento da sociedade analisada, Freyre (2006) considerou a Abolição um ato desagregador e prejudicial para os negros. Segundo o autor, a Abolição da Escravidão não trouxe benefícios sociais para os ex- escravos, pois ao observar a sociedade brasileira no período pós - Abolição, o sociólogo declara que a abolição teria criado “um proletariado de condições menos favoráveis de vida do que a massa escrava”. Tal acontecimento gera uma incongruência, haja vista que para Freyre (2006), na sociedade erguida após a Abolição os escravos só teriam de se lamentar pela liberdade conquistada, pois essa “liberdade” lhes tirou a segurança, a boa alimentação e as oportunidades provindas do cativeiro.
De modo que da antiga ordem econômica persiste a parte pior do ponto de vista do bem-estar-geral e das classes trabalhadoras _ desfeito em 88 o patriarcalismo que até então amparou os escravos, alimentou-os com certeza, socorreu-os da velhice e na doença, proporcionou-lhes aos filhos oportunidades de acesso social. O escravo foi substituído pelo pária da usina; a senzala pelo mucambo; o senhor de engenho pelo usineiro ou pelo capitalista ausente (FREYRE, 2006, p. 51-52).
De certa forma, a teoria sociológica implementada por Freyre em Casa-Grande e Senzala (2006) é uma reflexão em torno da formação da sociedade brasileira absorvida por dois grandes temas. O primeiro diz respeito à adequação de nossas instituições à realidade brasileira e, o segundo, aos pretendidos efeitos negativos que a mestiçagem teria trazido para o futuro nacional. No primeiro caso, há um deslocamento da análise sociológica do público para o privado, e no segundo, a transformação da miscigenação em hipoteca de lucro.
53 Mais tarde, o meio acadêmico e, consequentemente, pelo Movimento Negro brasileiro Freyre passou a ser mais conhecido por ter propagado a ideia de uma relação benevolente entre senhores e escravos no Brasil. De fato, em Casa-Grande & Senzala, o estudioso sugere em vários momentos uma visão atenuada da escravidão no Brasil, inclusive antepondo-a a um cenário de violência que caracterizaria o regime escravista no sul dos Estados Unidos. Entretanto, cumpre salientar que, assim como o sociólogo caracteriza como branda a escravidão no Brasil, há também passagens em que ele denuncia o sadismo dos senhores e dos padres jesuítas com os escravos, a crueldade das senhoras em relação às escravas mais bonitas, a sifilização de indígenas e negros em virtude do contato sexual com os portugueses, entre outras imagens que sugerem a violência das "relações raciais" no Brasil. O fato dessas duas realidades – a benignidade e a violência – estarem presentes em Casa-Grande & Senzala é explicado pela habilidade de Freyre em construir a ideia segundo a qual a formação brasileira seria marcada por "um processo de equilíbrio de antagonismos".
O que se sente em todo esse desadoro de antagonismo são as duas culturas, a europeia e a africana, a católica e maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-se no português, fazendo dele, de sua vida, de sua moral, de sua economia, de sua arte um regime de influências que se alternam, se equilibram ou se hostilizam. Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio ou a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil, a formação sui generis da sociedade brasileira, igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre antagonismo (FREYRE, 2006, p. 69).
Nessa perspectiva visionaria freyriana, os conflitos existentes na sociedade brasileira seriam amortecidos, isto é, os antagonismos – que poderiam ocasionar choques violentos – caminhariam, no Brasil, para um processo de harmonização em relação à questão racial.
Em síntese, num primeiro momento, a obra de Freyre nos faz pensar numa construção positiva da sociedade brasileira no sentido de retaliar as teorias racistas (SCHAWARCZ, 2001), que persistiam no país até o início dos anos 1930. Na sociologia descrita pelo autor de Casa Grande & e Senzala, a população negra é apresentada pela primeira vez de forma mais positiva do que negativa. Ou seja, o autor enaltece o povo negro, qualifica sua identidade e propaga sua visibilidade. Portanto, Freyre qualifica a mestiçagem como um dos elementos de maior importância da beleza
54 e plasticidade demográfica brasileira. Afirma que a relação entre etnias e culturas é o que diferencia o Brasil do ponto de vista da integração social em relação a outros povos do mundo, sobretudo europeus.
Assim, a busca insistente de Freyre pelo equilíbrio de antagonismo na questão da formação e relação inter-racial existente em nossa sociedade, o leva à formulação de uma tese denominada “democracia racial12” brasileira. Hoje, isso soa estranho porque, na atualidade, ninguém é louco a ponto de escrever que o Brasil é realmente uma democracia racial.
Isso pode ser confirmado pelos militantes do Movimento Negro do Brasil e juntamente com pesquisadores (as) negros (as) que se posiciona contra o racismo, que a interpretação sociológica realizada por Gilberto Freyre não colaborou muito para explicitar a problemática da questão da desigualdade racial em nosso país. Esses atores entendem que a obra de Freyre tornou-se responsável direto pela criação do mito da democracia racial. Na interpretação de MUNANGA (2004); GOMES (2005); FERNANDES (1995); HASENBALG, (1979); e RIBEIRO (2006); a tese freyriana tornou-se um empecilho para que os indivíduos de ascendência escravista galgassem espaços na esfera educacional, econômica e política, entre outros espaços sociais importantes para processos de mobilidade social e exercício da plena cidadania.
2.3 A contribuição de Florestan Fernandes
O legado deixado por Gilberto Freyre (2006) passou a ser questionado na Universidade de São Paulo (USP) a partir dos anos de 1950-60. Na USP Florestan Fernandes liderava o grupo que fazia oposição à tese de democracia racial, do qual faziam parte Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni (Grupo de Estudo de Sociologia da USP).
Apesar de diferirem profundamente em suas avaliações sobre as relações raciais no Brasil, pelo menos num ponto Florestan (1978-1965) e Freyre (2006) são
12O conceito de “mito de democracia racial” passou a ser mais elaborado a partir dos estudos realizados
pelo o sociólogo Calor Hasenbalg em sua crítica a Gilberto Freyre, no seu livro Discriminação e
55 convergentes. Para ambos, a escravidão determinou a atual configuração das relações raciais no Brasil.
No âmbito da academia, o posicionamento contrário à herança deixado por Gilberto Freyre nos estudos sociológicos da questão racial brasileira passou a ser construído por Florestan Fernandes a partir dos anos 1950 baseados em dados empíricos. Encarregado pelo UNESCO para fazer um estudo sobre os negros no Brasil, Florestan, em 1951, passou a pesquisar a relação raça e classe em São Paulo. O autor supracitado acima se lançou ao confronto da ideia de que no Brasil não existia uma “democracia racial”, conforme a leitura do texto de Freyre leva a entender. O resultado do trabalho de pesquisa de Fernandes encontra-se na obra A Integração dos Negros na Sociedade de Classes (1965).
Nesse tratado, a síntese de Florestan Fernandes abriu caminho para o questionamento da ideia de “democracia racial” ao atribuir a desigualdade racial a duas heranças perversas do regime escravocrata, que impediram os negros de competir com os imigrantes: o racismo e a incapacidade dos negros de se integrarem à ordem social competitiva.
Para Florestan, a permanência do preconceito racial, apesar da intensa miscigenação operada na sociedade brasileira, é uma resultante da forma singular e incompleta pela qual se desenrolou, na evolução histórica dessa sociedade, a transição de uma estrutura social organizada com base em estamentos e castas, própria do período escravista, para uma estrutura de classes.
O exemplo mais fidedigno desse processo, segundo Florestan, se encontraria no Estado de São Paulo, mais especificamente na capital, onde a introdução do trabalho livre caminhou com um intenso fluxo da imigração europeia e, em menor grau, asiática, dificultando ainda mais a integração do negro na "ordem social competitiva" que se delineava. Portanto, a partir dessa redefinição do problema do negro brasileiro, o racismo resultaria, de acordo com o autor, essencialmente, dos processos anômicos gerados pelo descompasso entre a estratificação racial e a embrionária ordem capitalista moderna.
Por consequência, ao questionar a ideia de “democracia racial” e atribuir à desigualdade racial a duas heranças perversas do regime escravocrata, que impediram os negros de competir com os imigrantes: o racismo e a incapacidade dos negros de se integrarem à ordem social competitiva, Florestan Fernandes aponta que as dificuldades de ascensão social para a população negra podem ser percebidas nos seguintes aspectos:
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perdendo sua importância privilegiada como mão de obra exclusiva, ele (o negro) perdeu todo o interesse que possuíra para as camadas dominantes. As nossas observações evidenciaram duas tendências globais. Primeira uma que
se associa à proletarização. As parcelas da “população de cor” que lograram
classificar-se socialmente, em sua quase totalidade, cabem nessa categoria. Segundo, outra que se vincula à ascensão do negro e do mulato a ocupações ou profissões cujo nível de renda assegura um padrão de vida e prestígio social mais ou menos característicos das classes médias da sociedade inclusiva. A nossa experiência demonstrou que esta tendência afeta um número muito reduzido de pessoas. Além disso, existem casos esporádicos de
„indivíduos de cor‟ e de „famílias negras‟ de fato pertencentes aos estratos
superiores do sistema (FERNANDES, 1978, p. 156-157).
Para Fernandes (1978), o dilema racial da sociedade brasileira está relacionado ao fato de que a Abolição da escravatura Brasil ocorreu de forma precipitada sem assegurar aos negros livres uma verdadeira integração na sociedade dos brancos. Excluídos do mercado de trabalho e sem formação profissional e uma experiência no mercado de trabalho livre (competitivo), os antigos escravos necessariamente ficariam à margem dos processos de inclusão e modernização em marcha, dos quais somente os imigrantes (japoneses, italianos, alemães, poloneses etc.) passariam a se beneficiar em longo prazo.
Depois de pesquisar exaustivamente o processo de constituição da sociedade de classes em São Paulo, após a Abolição, Florestan Fernandes chegou a algumas conclusões que podemos considerar esclarecedoras sobre o processo de barragem econômica, social, política e cultural dos negros em nossa sociedade:
no período em que as famílias dos fazendeiros paulistas começam a fixar residência em São Paulo e em que se acentua a diferenciação do sistema econômico da cidade, o liberto defrontou-se com a competição do imigrante europeu, que não temia a degradação pelo confronto com o negro e absorveu, assim, as melhores oportunidades de trabalho livre e independente (mesmo as mais modestas, como a de engraxar sapatos, vender jornais ou verduras, transportar peixe ou outras utilidades, explorar o comércio de quinquilharias etc.) Quando se acelera o crescimento econômico da cidade, ainda nos fins do século XIX, todas as posições estratégicas da economia artesanal e do pequeno comércio urbanos eram monopolizadas pelos brancos e serviram como trampolim para as mudanças bruscas de fortuna, que abrilhantam a crônica das famílias estrangeiras (FERNANDES, 1978, p. 19).
Em suma, a sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de reeducar-se e de transformar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criados pelo advento do trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo (FERNANDES, 1978, p. 20).
57 De modo geral, o sociólogo expôs de forma dramática como os homens negros foram alijados dos processos de inclusão social. Porque, segundo Fernandes, a falta de formação profissional reduzia as chances de trabalho dos libertos e de seus descendentes. Sem trabalho digno e remuneração adequada, a população negra foi jogada em um processo de anomia (desorganização e desintegração social e psíquica), nos termos de Durkheim (1895), o que por sua vez dificultou o seu acesso aos mecanismos de ascensão, como a formação escolar, o voto democrático, a realização pelo trabalho, entre outros.
Após localizar a problemática na transição "da ordem social escravocrata e senhorial" para o "desenvolvimento posterior do capitalismo", Fernandes (1978-1965) desmistifica de forma empírica e direta o “mito da democracia racial” ao tratar do assunto sobre o racismo já nos anos de 1950, mostrando a condição de marginalidade em que viviam os negros no Brasil desde aquela época. Fernandes ainda conclui que a permanência do preconceito racial, da discriminação e da exclusão do negro, apesar da intensa miscigenação operada na sociedade brasileira, é uma resultante da forma singular e incompleta pela qual se desenrolou, na evolução histórica dessa sociedade, a transição de uma estrutura social organizada com base em estamentos e castas, própria do período escravista, para uma estrutura de classes.
Assim, para uma análise geral sobre a questão racial, enquanto Freyre (2006) enxergava uma herança positiva escravidão, visão consolidada na tese de que os negros acabaram colonizando os brancos, Florestan (1978-1965) preferia frisar o legado perverso da escravidão enfatizando as desigualdades sociais, políticas e econômicas.
2.4. Estratificação racial: uma questão política
Alguns teóricos da questão racial em sintonia com militantes do Movimento Negro considerarão a oposição existente entre Florestan Fernandes e Gilberto Freyre mais motivada por razões políticas acadêmicas do que uma práxis para a elaboração de políticas públicas para soluções das desigualdades entre negros e brancos existentes no
58 Brasil. Dentre esses teóricos, estão incluídos representantes da escola de sociologia do Rio de Janeiro, como é o caso de Hasenbalg (1979).
No final dos anos 1970, Carlos Hasenbalg ao publicar o livro Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil (1979), observa que ser branco e pobre no Brasil nunca será o mesmo que ser negro e pobre, porque apresentar aos negros pobres as mesmas políticas públicas de igualdade social que se apresenta aos brancos significa ignorar sua condição histórica. Para o autor, a discriminação racial que estava subsumida na escravidão emerge, após a abolição, transpondo-se ao primeiro plano de opressão contra os negros. Mais do que isso, ela passou a ser um dos determinantes do destino social, econômico, político e cultural dos afro-brasileiros.
Desde a Abolição, a população negra nas antigas sociedades escravistas das Américas tem estado na retaguarda do capitalismo industrial. Durante várias décadas após a abolição, os negros ficaram concentrados nas regiões agrícolas mais atrasadas como parceiros, pequenos arrendatários, camponeses e moradores (HASENBALG, 2005, p. 116).
Com a abolição do escravismo, o racismo, como construção ideológica e conjunto de práticas mais ou menos articuladas, foi preservado e em alguns acasos até mesmo reforçado (HASENBALG, 2005, p. 120).
Carlos Hasenbalg (1979) e Florestan Fernandes (1965) até concordam na rejeição do paradigma luso-tropicalista de Gilberto Freyre (1933), mas são diferentes um do outro. Ao trabalhar sua pesquisa, Hasenbalg considera a discriminação racial um dos elementos-chave da ordem capitalista na organização da sociedade brasileira. Por consequência, nessa perspectiva, o autor diverge de Florestan quanto à síntese racial brasileira.
Os argumentos de Hasenbalg (2005) contêm muitos elementos polêmicos voltados contra a escola de sociologia paulista representada por Florestan e seus discípulos, entre os quais se destacam Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso13, e que é muito claramente alvo de passagens como estas:
há vinte ou vinte e cinco anos considerava-se a sociedade brasileira dividida por um dualismo estrutural, entre instituições e padrões de relações sociais
13 A chamada escola de sociologia paulista abriu um caminho novo na análise das questões relacionadas
com a situação dos negros e os preconceitos raciais na vida brasileira. Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso são nomes que configuram como seus principais representantes.
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arcaicos e modernos. Os componentes tradicionais da sociedade (e a consequente degradação das massas, inclusive da população de cor) seriam o resultado da herança da plantação escravista, da monocultura de exportação e da preservação de uma estrutura agrária anacrônica. Apesar disso, na
"intelligentsia” e nos grupos sociais progressistas prevalecia uma atitude
otimista quanto ao futuro. De acordo com essa visão, o desenvolvimento econômico ulterior, juntamente com as reformas estruturais estabelecidas nos marcos de uma política nacionalista e desenvolvimentista, resultariam finalmente na integração econômica e social das massas até então excluídas. Os brasileiros de cor seriam incorporados nesse processo (HASENBALG, 1979, p.19-20).
[Uma] forma de ligar o passado escravista ao presente consiste em interpretar as relações sociais contemporâneas como área residual de fenômenos sociais resultantes da sobrevivência de padrões "arcaicos" ou "tradicionais" de