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Osmanlı‟da Yönetim AnlayıĢında DeğiĢim: Edirne Hükümet Konağı

II. BÖLÜM

4.5. Osmanlı‟da Yönetim AnlayıĢında DeğiĢim: Edirne Hükümet Konağı

A história de Pryscilla Stephanie Gomes começa dia 14 de janeiro de 1976, em São Paulo, capital. Pryscilla nasceu em um bairro de classe média baixa da Zona Sul da capital paulista. Mudou-se algumas vezes de bairro, sempre na zona sul. Por 22 anos, morou em um bairro um pouco mais afastado do centro, já considerado periferia. Há quatro anos, mora em outro bairro de classe média baixa da zona sul da cidade. Mora com seus pais e com sua irmã, que é 12 anos mais jovem.

Pryscilla sempre se sentiu feminina. Desde muito pequena, gostava de bonecas. Tinha carrinho e caminhão e até brincava com eles, mas não gostava. Como não tinha

bonecas, fazia suas bonecas com frascos de desodorante, prendendo um pano na tampa, como se fosse cabelo.

Com cinco anos de idade, gostava de ver os longos cabelos de sua mãe, presos sob um lenço, em coque. Achava isso lindo. Uma vez, para imitar sua mãe, pediu que ela colocasse um lenço em sua cabeça também e sua mãe o fez, mas advertindo-a para que tivesse cuidado, pois seu pai não podia vê- la daquele jeito. Ela diz que já entendia, apesar da pouca idade, que seu pai não iria gostar, pois tinha um filho homem.

Ele não poderia ver, uma porque ele não iria gostar e outra porque aquilo não era pra mim. Já entendia mais ou menos. [Pensava] Que ele ia me bater. Ele não iria aceitar, porque ele tinha um filho homem e não uma filha. Ele não iria aceitar eu vestido naquela época, devido as pessoas falarem também. Apesar que muita gente na época já falava.

Ela aparentava ser muito feminina e isso fazia as pessoas comentarem, mas sua mãe sempre a defendia, dizendo que ela era uma criança normal, como qualquer outra criança. Pryscilla gostava de se maquiar, passar batom, e sua mãe também lhe dava cobertura, para impedir que seu pai a visse maquiada. Por conta disso, seu pai nunca a flagrou fingindo ser menina ou maquiada.

Teve uma vez que até me lembro, que não sei o quê que eu tinha feito, aí ele

chegou e minha mãe: “Vai pro banheiro tomar banho”. Tinha passado batom, uma coisa assim. Eu fui e ele não viu. Então assim, minha mãe era “a” mãe. Quando Pryscilla tinha seis anos de idade, a mãe de engravidou, mas a gravidez não se completou. As amigas da mãe iam visitá- la e uma delas levava um bebê. Pryscilla conta que adorava pegar o bebezinho no colo e ficava muito tempo embalando-o, como se fosse uma boneca. Nesta mesma época, gostava de ver as mulheres da TV, em seus programas favoritos, especialmente pelo exagero, porque elas usavam uma maquiagem carregada.

[Com] 5, 6 anos. Eu às vezes me vestia, me identificava com alguns personagens da época, Balão Mágico, o Bozzo, que tinha lá a Turma do Bozzo. Eu achava legal aquilo. Gostava de batom, achava bonito aquelas mulheres. maquiadas. Naquela época eram aquelas maquiagens bem pesadas, aqueles olhos bem pretos, aquele batom vermelho. Eu achava lindo aquilo.

Com seis anos ainda, Pryscilla começou a fazer troca-troca com os meninos e diz que teve certeza de que era disso mesmo que ela gostava. Só de ficar perto dos meninos, ela já achava muito bom.

139 Um pouco mais tarde, a família se mudou para um bairro mais periférico da Zona Sul. Ela conta que, na fase infantil, até seus 9 ou 10 anos, não sofria nenhum tipo de gozação, nem na vizinhança, nem na escola, mesmo as pessoas percebendo que ela era mais feminina, pois tudo era visto como brincadeira. Ao entrar no ginásio [atual Ensino Fundamental II], porém, começaram as primeiras ofensas, com termos como “bicha” ou “bichona”, que a deixaram receosa, chateada, mas não se sentia tão abalada..

“Ah, você é uma bichona!” Aí eu já fui começando sabe? Você já começa a ter

aquela coisa. Começa ficar assim receosa. Eu tinha muita amizade com as meninas, as meninas falavam dos namorados, revistinha, figurinha. Eu adorava. Onde tinha um monte de mulher eu estava junto. Os meninos zuavam. Mas era tipo assim, Não me abalava tanto, né? Aquilo assim, logicamente que eu ficava chateada, porque eu era motivo de comentário para o povo. Mas eu não me abalava com aquilo porque eu era uma pessoa e eu era isso. Porque sempre fui uma pessoa de personalidade.

Apesar da chateação de sentir algum receio, Pryscilla não se sentia abalada, porque dizia que já sabia que não teria como mudar o que era, seu sentimento, seu desejo. Pryscilla diz que sua puberdade se iniciou de forma precoce, aos 8 anos, mas manifestou-se com maior intensidade depois dos 12 ou 13 anos, qua ndo já tinha barba, muitos pelos no corpo, inclusive na área genital. Neste período, começou a fumar e a beber, saía para os bailinhos e matinês. Ela sempre ficava acompanhada das meninas, pois era com elas que se identificava.

Aos 15 ou 16 anos, começou a namorar uma menina na escola, como um tipo de um teste. O namoro durou cerca de dois anos, mas Pryscilla ficava confusa, pois ao mesmo tempo sentia atração pelos meninos, mas ela não queria aceitar que sentia uma atração que “não era para ela”.

Aí eu conheci uma menina na escola, e aí ela gostava de mim. Falava que eu era

bonita e não sei o que lá. Aí pensei assim: “Vou fazer um teste”. Aí a gente teve

um namoro. Durou dois anos até. Dois anos. Só que era assim, eu namorava com ela, mas sempre quando via um menino bonito eu ficava de olho. Mas até então

eu pensava: “Isso não é pra mim”. Eu estava com aquela confusão psicológica,

eu acho, né? Você não quer aceitar aquilo, quer viver isso, mas isso não é pra

Neste período, deixaram de chamá-la de “bicha”, pois ela namorava uma menina e tinha já uma barba cerrada, estilo cavanhaque, e tinha muito pelo no corpo todo: peito, braços, pernas, tornozelos. Ela diz, rindo, que era praticamente um “Toni Ramos82”.

Na verdade, um garoto da escola continuou ofe ndendo-a reiteradamente. Dos 16 aos 21 anos, quando finalmente ela terminou o colegial, ele a chamava de “bicha”, até mesmo quando namorou as meninas.

Tinha só um cara lá que eu não gostava dele. Me enchia o saco. Falava assim,

que eu tinha que sair da escola, porque lá não era ambiente pra mim. Era da

minha sala. “Porque você é "bicha" e não pode ficar aqui com a gente”. Era uma constante.Toda vez que eu trombava com ele. Porque ele era desagradável. Ele é uma pessoa desagradável. Sempre comigo. [...] sabe, ele enchia. Mesmo[eu] namorando [meninas], ele não se contentava. Ele era o único assim, sabe? Era. Estudei com ele muitos anos. Uns 5 anos. Sempre tem que ter uma pedra no seu caminho. Isso é fato. Depois eu descobri coisas e fiquei, está vendo como é a vida. [Na infância, não tive problema]. Por isso que eu falo, o meu problema maior foi mais a adolescência mesmo. Naquela confusão de gosto.

Você não quer aceitar uma coisa e acaba fazendo uma coisa que você não quer fazer. Juntava um pouco a família e um pouco assim, o preconceito de

algumas pessoas, né? Mas, normal. Não tive nenhum episódio assim desagradável. Não tive.

A grande dificuldade de Pryscilla durante a juventude foi seu sentimento ambivalente. Todo o tempo, sentia desejo por rapazes, mas não conseguia aceitar que tinha essa atração. Mesmo quando namorou garotas.

Com a primeira namorada, não houve relação sexual. Depois dela, houve outra namorada. Com esta, relacionou-se sexualmente, mas sentia que faltava algo. Sentia até algum prazer às vezes, mas sentia que o sexo “não a completava”. Ficou com essa garota por um ano, “fazendo papel de homem”. Daí começou a ver revistas e vídeos pornográficos com um amigo, o Thomas, que era “a bicha da história”, com quem tem amizade até hoje.

As pessoas comentavam que Thomas era “bicha”. Sua mãe dizia para não andar com ele, porque estavam comentando que eles tinham um caso.

Todo mundo falava que ele era "bicha", que ele era isso e aquilo. Que eu não podia andar com ele, aquela coisa. Foi quando começou a revolucionar tudo.

Foi quando minha mãe começou a falar: “Olha, não fica andando com o Thomas,

82Referência ao ator de novelas da emissora Rede Globo de televisão que sempre fez papel de “galã”, o moc inho dos casais românticos, conhecido por ter e xcesso de pelos no corpo.

141 porque o pessoal está falando. Estão falando que vocês estão saindo”. “Nada a ver mãe, é um amigo”. Às vezes eu ia pra casa dele, a gente ficava ouvindo

música. Entre eu e ele não tinha nada. Mas a gente via fotos. Tinha VHS, a gente via. Aquilo despertou de novo.

Eles viam filmes pornográficos homossexuais e também heterossexuais, mas nestes Pryscilla se identificava com a mulher, não com o homem. Olhava se o homem era bonito, avaliava o tamanho do pênis, era isso que mexia com ela.

Nesta fase, o namoro terminou e ela ficou sem nenhum relacionamento. Junto com Thomas, começou a frequentar a boate gay. Ela diz que foi nessa fase em que “tudo começou”, referindo-se ao início de seu processo de assumir-se como mulher. Ela relata que a primeira vez em que foi à boate, sentiu um misto de encantamento e estranhamento.

Eu já estava com 17 anos. Foi quando começou tudo. A gente foi pra uma boate, era uma boate gay. Foi eu, ele e mais duas pessoas. Aí eu entrei naquele lugar, sabe? Escuro, aquele jogo de luz, música. Vi os outros se beijando. Pensei: “Que lugar é esse?” Ai me falaram: “Se solta, fica a vontade”. Se você gosta disso, você se joga. A primeira vez que eu fui não aconteceu nada. Andei, vi como que era, fiquei meio assim. “Gente, o que é isso? O que eu estou fazendo aqui?”

Porque eu nunca tinha ido. Isso foi final dos anos 80, começo dos anos 90, mais ou menos. Só sei que a segunda vez eu fui pra boate, fui de novo. “Vamos comigo?” Falei: “Vamos, vai”.

Na segunda vez em que Pryscilla foi à boate, ainda com visual bem masculino, pois usava barba e óculos, um rapaz se aproximou para conversar, sentiu-se atraído, quis beijá- la. Mas o beijo apavorou e Pryscilla fugiu.

“Eu queria ficar com você”. Falei: “Mas como assim você quer ficar comigo?” Falou: “Ah, eu quero ficar com você”. Eu não entendia o que era ficar, porque eu nunca tinha ficado com homem. Aí ele veio e me abraçou, e me beijou.

Quando ele me beijou eu empurrei ele. “Não, não quero isso não. Não é pra mim

não”. Aí cheguei no meu amigo e falei: “Quero ir embora. Esse lugar não é pra

mim”. Não gostei, porque o medo falou mais alto. Não. Eu sentia assim: “Meu,

está todo mundo me olhando. O mundo inteiro está me vendo fazendo isso. O

mundo inteiro vai acabar comigo agora”. Pensava nisso. Falei: “Não vou mais

em boate”. Então, na época [senti que] estava exposto mas não tinha nada a ver.

Era um lugar fechado. Fiquei um tempo sem ir, depois eu fui de novo.

Pryscilla não gostou da experiência porque sentiu medo, sentiu-se exposta e em risco, mesmo estando em um lugar fechado. Ficou um tempo sem frequentar o local, mas depois de um mês e meio começou a lembrar do rapaz, do beijo, e sentia desejo, tinha

vontade de se masturbar. Resolveu voltar a frequentar boate, mas foi sozinha, em outra boate gay. Desta vez, ela ficou com um rapaz.

Mas assim, o prazer já estava falando um pouco mais alto. Aí dessa vez ele começou a andar comigo de mãos dadas na boate. Eu ficava assim ó. Se

escondendo. Ele falava: “O que foi?” “Não, não foi nada não”. Achando que

todo mundo ia me condenar. Só que até no entanto não, porque o propósito de todo mundo que estava ali era esse.

Pryscilla ainda sentia medo e vontade de se esconder, mas o prazer começou a ser maior que o medo. De qualquer forma, sensação ainda era a de que todo mundo iria condená- la.

Na escola, por ter namorado com garotas, não havia mais ofensas, ninguém falava mais nada. Viam-na como uma pessoa que estava sem namorar, mas não como “bicha”. Ela andava com uma turma de rapazes, entre eles alguns primos, e garotas, mas não tinha coragem de contar para ninguém sobre o que tinha acontecido na boate.

Aos 19 anos, ela conheceu Marcelo, o seu “primeiro homem”. Pela primeira vez na vida, ela tem uma relação sexual com um homem. Relaciona-se com ele por cerca de um ano, mas não o considera um namorado, porque era um relacionamento secreto. Para poderem se falar e marcar encontro, ele ligava para a casa dela, mas ela ligava para ele do orelhão. Até ela conseguir comprar um celular, o que facilitou um pouco as coisas. Nunca ficavam juntos fora do cinema de filme pornô ou da boate gay, ninguém mais sabia que se relacionavam. Só ele e ela. Ela diz que achou melhor assim. Para fazer sexo, encontravam-se às vezes em motéis, mas tinham de chegar separados.

Às vezes a gente se encontrava no motel. Mas naquela: vai você, depois eu vou. E a

vergonha agora de chegar lá no motel? (risos) Era o fim. Mas eu pensava: “Eu não posso, eu gosto. Me dá prazer”. Me dava muito prazer. Quando a gente estava junto

assim, que fazia tudo. Era uma loucura. Era muito bom.

O sentimento de Pryscilla era muito ambivalente, havendo sempre muita vergonha e, ao mesmo tempo, um forte desejo. Com esse rapaz, ela teve todas as suas primeiras experiências com um homem.

Foi com ele. Com ele foi tudo. Foi o primeiro amasso, foi o primeiro beijo, primeira transa, primeira penetração. Sexo completo. Foi o primeiro homem que eu via nu na minha frente assim.

143 Segundo Pryscilla, ele foi sua primeira paixão, seu primeiro amor e também foi sua primeira grande decepção, pois depois de um ano ele sumiu. Ele simplesmente deixou de aparecer na boate, nos locais em que se encontravam. Ligou um tempo depois dizendo que não dava mais. Que estava com problemas com o pai, de quem ela nunca teve nenhuma informação, viu foto, nada. E assim acabou. Ela fico u tão arrasada, que acabou se abrindo com uma colega no trabalho. Nesta época, ela ainda estudava, mas já trabalhava como cozinheira em um restaurante. Essa amiga foi a primeira pessoa que lhe deu apoio.

Depois, Pryscilla contou para uma prima, com quem estudava e com quem se dava muito bem. Demorou muito para conseguir falar, mas assim que contou, a prima teve uma reação muito tranquila: “Isso é tão comum. Pensei que você ia me contar algo pior”. No restaurante, conheceu uma colega de trabalho que gostava de mulheres. Daí as coisas começaram a ficar mais fáceis. Passou a aceitar-se como gay.

Aos 24 anos, saiu do restaurante e passou em um concurso público e foi trabalhar nos Correios. Ainda não se vestia como mulher.

Só que na naquela época eu ainda não era mulher. Era menino, normal. Cheguei

no correio e tive que fazer todo aquele ritual porque: “Eu estou em uma empresa pública, eu não sei como vai ser”. Só que assim, naquela época eu já me aceitava gay. Já era gay.

O encontro com a amiga lésbica e a aceitação da prima lhe permitiram a autoaceitação como gay. Mas ainda precisava firmar-se no trabalho para poder se assumir publicamente. E para sua família, pois até aquele momento, apenas a prima e alguns amigos com quem ia nas boates sabiam que gostava de homens. Por isso, ao entrar para trabalhar nos Correios, Pryscilla resolveu fazer “papel de macho”.

Fiz isso porque na época porque fiquei com medo deles não aceitarem. Porque eu já estava começando entender esse negócio de preconceito, do que você pode e não pode.

No entanto, ela conheceu um rapaz no trabalho com quem se deu muito bem, o Milton. Como eram muito amigos, os demais colegas começaram a fazer chacotas continuamente, dizendo que eles eram “viados”, que transavam, etc.

Pryscilla reagiu, chegou a ter uma conversa com o encarregado, dizendo que sairia do trabalho se aquilo continuasse assim, pois estava sentindo muito incomodada, não

aguentava mais aquela gozação constante. Ela tinha receio de perder o trabalho, mas, sobretudo, tinha medo de perder o trabalho por ser identificada como gay.

O meu medo naquela época era perder o serviço, não queria perder o serviço devido eu ser gay. Eu poderia perder por qualquer outra coisa, menos por isso. Eu não iria aceitar. Então eu cheguei e abri o jogo. No entanto, este meu amigo, não era nada.

Assim, além do medo de perder a estabilidade financeira conquistada, ter o estigma de gay era algo insuportável para Pryscilla e a amedrontava, pois, ela pensava, colocaria em risco a própria sobrevivência. Mas curiosamente perder sua fonte de renda por outro motivo causava- lhe menor temor.

O chefe tomou uma atitude. Fez uma reunião e exigiu que aquilo parasse. E aí as piadas ofensivas pararam. Nestes cinco meses em que passou por essa situação, Pryscilla nunca havia participado do churrasco mensal promovido pelos colegas. Quando as piadas acabaram, ela começou a frequentar e a relação com a turma do trabalho passou a ser tranquila.

Milton, na verdade, não tinha relacionamento com homens, mas de alguma forma parecia que sim, talvez porque fosse mais feminino como ela. Ela mesma, apesar da barba, não tinha muito como disfarçar um jeito feminino. Achava que até sua voz era feminina, ainda que fosse um pouco mais grossa do que é atualmente. Pryscilla dizia que achava que Milton era gay e chegou a perguntar- lhe. Ele disse que nunca tinha se relacionado com homens, mas estava aberto à experiência, dizendo que queria “provar do doce e do amargo”. Pryscilla apresentou Milton para seus amigos e começam a frequentar as boates gays juntos. E conheceu Marcos, uma pessoa com quem se relacionou durante nove anos e com quem chegou a morar junto.

O Marcos foi seu primeiro namoro de verdade. Com ele, Pryscilla frequentava bares, cinema, casa de amigos, viajava junto. Frequentava sua casa como amigo. Depois de sete meses de relacionamento, ela resolveu que precisava contar para a família. Reuniu- se com o pai e a mãe e foi direto ao assunto.

Olha, eu tenho uma coisa pra falar, eu vou ser claro e objetivo. Sabe o Marcos? Então, o Marcos não é meu amigo, ele é mais que um amigo. Ele é meu namorado”. Meu pai ficou parado olhando.

145 Curiosamente, sua mãe, que antes a ajudava a esconder-se de seu pai, foi quem reagiu pior. Pryscilla surpreendeu-se com a reação do pai, tranquila.

Minha mãe gritou e aquela coisa toda. E eu: “Mas porque ela está tão assim, né?” Eu

pensei que meu pai iria ter uma reação assim. Vir pra cima. E minha mãe: “Como você pode?” E meu pai: “É isso que você quer para a sua vida? Faça o que você quer. Mas

cuidado, porque este é um caminho perigoso. Mas como você já é de maior, então boa

sorte”.

Ela ficou chocada, pois esperava uma reação violenta. Pensou que iria apanhar, que seu pai não aceitaria, que diria que tinha num filho homem, etc. No entanto, ele somente advertiu para que ela se cuidasse, pois teria de enfrentar muito preconceito. Foi assim que Pryscilla entendeu o significado de ser um caminho perigoso. Já a mãe teve uma reação que a assustou: gritava, chorava, dizia que estava tudo estava se acabando, fez uma confusão. Mas depois a família se adaptou à situação e Marcos passou a frequentar a casa. Depois de um tempo, foram morar juntos.

No período em que moraram juntos, Pryscilla foi se tornando mais feminina. Deixou o cabelo crescer, às vezes eles faziam festa e ela “se montava”.

É. Era festa, não era uma coisa para a minha vida. Eu não tinha decidido nada ainda, mas a vontade era grande.

No entanto, o relacionamento não foi muito estável. Marcos a traía muito e eles tiveram muitas brigas por isso. Em uma briga, depois de alguns anos juntos, ela anunciou pela primeira vez o desejo de se assumir mulher.