II. BÖLÜM
2.4. Kent Mekânında DeğiĢim
travesti :tra.ves.ti sm (fr travesti) 1 Disfarce sob o traje de outro sexo. 2 por ext Disfarce.56
Significado de Travesti: s.m. e s.f. Em espetáculos ou shows, o artista que se veste com roupas características do sexo oposto. Geralmente, refere-se aos homossexuais cujas vestes e/ou comportamentos denotam particularidades ou ações características do sexo oposto. (Etm. do francês: travesti)57
Significado de Travesti:
1 Disfarce sob o traje de outro sexo.
2 Papel de um ator com vestuários usuais no outro sexo. 3 Pessoa que pratica o travestismo.58
O oculto superexposto, a representação teatral, a performance de “sexo” - considerando o gênero como irremediavelmente conectado ao sexo biológico, aprisionado ao binarismo de “um sexo” e seu “oposto”-, são as noções mais evidentes do senso comum. A travesti é vista sob uma nebulosa mistura de sexualidade, gênero e
performance teatral. Uma rápida busca nos dicionários disponíveis na internet mostra
que a ideia mais presente é a do disfarce.
Por outro lado, no mundo acadêmico, temos definições que colocam as travestis como aquela que está “na fronteira” entre os dois sexos. O binarismo revisitado, com aparência de ruptura. Em outras definições, temos o travestismo como prática, a travestilidade como identidade, a passagem de um sexo ao outro como travessia interrompida. Não há consenso.
Não há consenso tampouco para as pessoas que colaboraram com esta pesquisa. Para Roberta, a primeira entrevistada, ser travesti é ser a “essência do homem e da mulher”, mesmo que ela não se veja nem como homem, nem como mulher:
56 Fonte: Michaelis Moderno Dic ionário da Língua Portuguesa (Versão On line). Disponível e m:
http://michaelis.uol.co m.br/ moderno/portugues/index.php?lingua=portugues -portugues&palavra=travesti
Acesso: 19. jan .2015
57 Fonte: Dic ionário Online de Português. Disponível e m: http://www.dic io.co m.br/travesti/. Acesso: 19. jan . 2015
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Então, eu não me vejo como homem, mas também não me vejo como mulher. Eu me vejo como travesti, porque a travesti é uma essência desses dois, essência do homem e da mulher. Eu me vejo isso, não consigo me ver diferente .[Roberta
Barretto]
Para Kharla, ser travesti é se sentir mulher, tendo a consciência de que não é mulher, mas, segundo ela, um homem que se adapta em um corpo feminino:
Na realidade, eu não me considero mulher. Me considero travesti. Entendeu? Não
sou mulher, mas também não souhomem.
Ah... travesti pra mim é o homem que se transformou, que se adapta em um corpo feminino, entendeu? Eu me sinto, sim, mulher, mas eu também tenho a
consciência que eu não sou mulher. [Kharla Pinheiro]
Já Camily, não se considera nem homem e nem mulher, porque ela tem um corpo feminino, mas um órgão masculino:
É engraçado, porque, tipo assim, eu não sou nem homem e nem mulher. Porque assim, homem tem uma aparência e comportamento masculino. Mulher uma aparência totalmente feminina. Eu me considero travesti, né? Porque eu só tenho um corpo feminino, mas com um órgão masculino. Então só muda o gênero, sou
travesti. Nem homem e nem mulher. Quando me perguntam: ‘Ah, você é homem?’ ‘Não, eu não sou homem. Sou travesti. Não sou homem e nem mulher. [Camily Pergolini]
Para Rebecca, ela tem um pouco de homem e um pouco de mulher, está no meio dos dois. Mas quando não se sente muito bem, sente-se “mais menino”:
Um pouco dos dois, homem e mulher. No meio dos dois. Tem coisas que me percebo masculino, outras feminino. Até então, quando a gente sai, eu tenho uns olhares daqueles de que... quando a gente não está muito bem, fica assim meio masculino. Aí a gente já se sente um pouco mais menino. [Rebecca Thyfany]
Rebecca tem um grupo de amigos muito queridos, mas mesmo entre eles se sente deslocada, pois acha que não a entendem totalmente, pois alguns são gays, outra é travesti. E ela se sente trans, sente-se mulher, apesar de ter se chamado de travesti durante todo o tempo em que contou sua história. Diz que às vezes fica confusa, sente- se totalmente mulher, mas daí por algum motivo “volta a se ver como é”:
Tipo assim, é por causa, como eu tomo hormônio, isso vamos dizer, mexe um pouco com a gente. A gente fica com aquela beleza, mulher totalmente. Aí é
quando a gente cai em si mesmo e fala: “Não, eu não sou mulher. Sou isso, sou
Pryscilla, que se autodenomina transexual, vê a travesti como uma pessoa metade homem e metade mulher, especialmente no que tange à questão da prática sexual. Para ela, a travesti teria alternadamente um papel sexual ativo (equivalente ao masculino: penetrar), ou passivo (exercendo o papel feminino: ser penetrada). Ela, por sua vez, diz que se sente mulher todo o tempo, mas também exerce o “papel ativo” em 9 de 10 de suas relações sexuais, apenas para agradar seus parceiros. Cumprindo, talvez, o papel que se espera da mulher – agradar –, Pryscilla subverte suas próprias definições:
Ao meu ver, assim... a travesti, ela seria uma pessoa que, assim, vive metade homem e metade mulher. Assim, tem vontade de se vestir de mulher, mas ainda tem aquela parte do homem que mexe com ela, que, no caso, seria o sexual. Às vezes ativo, às vezes passivo.
No meu caso, eu me considero trans, não por querer operar e virar mulher definitivo, não. Uma, porque eu não sou ativa. Não é a minha praia fazer a linha ativa na parte sexual. E eu não me vejo homem. Não tenho jeito de homem, não tenho nada. Eu vivo mulher 24 horas.
Às vezes tenho [vergoinha de ficar nua] . Quando eu saio com alguém, assim, que eu já tenho alguma liberdade, pra mim não é tanto. Mas vamos supor que eu conheci um rapaz, saí com ele e a gente vai pra um motel. Eu fico, assim,
envergonhada. E muitos falam: “Não precisa ter vergonha. Eu sei quem você é. Deixa eu ver”. Eu acabo mostrando, assim, mas depois: “Ah, deixa quieto”. É do meu eu isso aqui. Não sei explicar. Eu não sei se [ter pênis] seria um incomodo
ou não, porque, assim, cirurgia, coragem eu não tenho. Eu acredito que se um dia eu fizer, eu vou me arrepender. E muitas pessoas já me falaram que não gostaram, outros falam que gostaram. Eu não vou fazer porque eu nunca passei por nenhuma situação mais agravante referente a isso, porque todas as pessoas que eu tive relação... é o que eu sou. De 10 homens que eu saio, 9 faz a festa. Gosta [de ser penetrado]. Tem um mesmo que eu saio com ele, você olha assim e não acredita. E ele adora fazer um boquete. Ele adora! Mas você olha, às vezes
fico olhando e penso: “Meu Deus, eu não acredito”. Não dá pra acreditar, mas é
verdade. Não [acho ruim]. Acho interessante. [Mas] Prazer mesmo... [é dar]. Dar pra mim é tudo! Mas já teve situações que eu tive que comer. Não poucas,
muitas. Uma vez sai com um rapaz. Cara! Foi muito engraçado! Terminei e ele virou assim, falei: “Você vai descansar?” Ele: “Não, eu quero que você me coma”. Eu pensei: “Ai meu Deus do céu”.Foi a maior frustração, aquele homem
perfeito. Corpo, rosto, voz, pênis. Tudo! 2, 3 anos atrás não, mas hoje pra mim é
comum. Eu faço. Só pra fazer a vontade dele. A maioria quer. [Se não tivesse
pênis], Não teria tanto sucesso. Não interfere. O que mexe comigo é o nome. É uma coisa assim que não dá.
Sharon se sente mulher, mas ela se diz travesti “pela lógica”. Para ela, ser travesti é um comportamento que vai além de “colocar uma saia e sair rebolando”, tem toda uma identificação com a maneira como as mulheres se comportariam em cada situação, aparentemente mais requintada ou, pelo menos, mais elegante. Somente se sentir
87 mulher, para Sharon, não é suficiente. Para ela se considerar mulher, seria necessário ter vagina. Se ela pudesse fazer cirurgia para construir uma, então ela seria mulher:
Eu me identifico como travesti mesmo. Travesti não é só você vestir uma saia, sair rebolando no meio da rua. Você tem que ter um comportamento, porque a gente se espelha nas mulheres. E uma mulher não vai sair fazendo escândalos no meio da rua. Eu acho que ser travesti não é só por uma saia. Ser travesti é também pensar como mulher, ser uma mulher. Fazer o que uma mulher faria. Porque você ser mulher realmente, eu acho que é quando a gente consegue chegar naquela fase de transgenitação. Quando você consegue fazer sua vagina...
e você ser mulher. Aí sim dá para você dizer: ‘Agora sim eu sou uma mulher!’
[Se eu pudesse fazer cirurgia], É, eu seria uma mulher.” Sim, eu sou uma travesti. Não tanto pelo desejo, mas pela lógica, né? [Sharon Pinheiro]
Iara não se sente homem, mas também não se sente mulher. Ela se sente travesti, se identifica como travesti. Sua identidade é de travesti. Mas Iara relata, em um desabafo, que se sente sofrendo violência dentro da militância LGBTT, já que as pessoas a pressionam para se assumir como “pessoa trans”. Seu sentimento é que as pessoas a querem higienizada e travesti seria um termo sujo:
Eu não me considero nenhum dos dois [homem ou mulher]. [E você se considera travesti?]: Sim.
[Estou repensando meu lugar na militância] Então, talvez se eu me inserir na educação, quebrar o preconceito que eu tenho [sofro] na sala de aula. Vou dar aula, vou trabalhar com criancinhas e com criancinhas eu não preciso falar de travesti. Mas eu consigo abordar respeito, solidariedade, tolerância, um monte de coisa que eu vou criar cidadãos e cidadãs com outro pensamento que vai poder
olhar pra uma travesti e não achar nada demais. Vai só saber que é diferente dela, porque diferente todo mundo é, e acabou. Então eu estou nesse momento
mesmo. Porque eu sinto que ali não vai mais. [No centro onde trabalho], [na] Militância, o machismo me consome. A militância fez mal pra mim, Valéria, nesse sentido. Ela me fez mal nesse sentido. Porque, por exemplo, dependendo da piada que você faz, eu já fico... sabe? E eu não posso te falar, porque, por exemplo... sabe? Porque tudo me incomoda hoje em dia. E em todo lugar eu vejo acontecendo. Quando vem de uma pessoa ignorante, pra mim beleza. Mas quando
isso vem [de diversas entidades da militância], eu [penso] “O que eu estou fazendo aí?” Agora eu estou nesse processo de violência. Porque eu estou
sofrendo essa violência o tempo todo. Eu estou sofrendo violência [dentro da
militância LGBTT], por exemplo, porque eu sou travesti. Porque eu não assumo a transexualidade. Porque eu não assumo ser uma pessoa trans. Porque eu tenho
que usar o termo pessoa trans.
Cynthia Toledo se identifica como travesti. Para e la, travesti é fantasia, sonho, mas acima de tudo, ousadia. E ela não precisa se identificar. Ela tem já tem identificação:
uma carteira de identidade com nome masculino (e não quer mudar). O resto, as pessoas que descubram:
Travesti. Travesti é um sonho, uma fantasia, uma capacidade. Eu sou a imagem personificada da palavra travesti, eu nasci biologicamente homem e eu tenho certeza que você não vê esse homem diante de você. Isso aqui é uma fantasia, um sonho, é uma ousadia acima de tudo. Não [me sinto] nas fronteiras, porque as pessoas precisam demarcar lugares. E se eu me colocar como sexo primeiro, eu estou desfazendo dos outros sexos que são muitos, e se eu me colocar no último, também estou desfazendo de mim, então eu prefiro abolir essas situações quando se fala de ser humano. Eu não me sinto na obrigação de me identificar. Eu já tenho uma carteira de identidade que me identifica quando há a necessidade. E o resto as pessoas que descubram.
Podemos dizer, então, que as pessoas que contribuíram com esta pesquisa têm em comum o fato de terem sido designadas como “homens” ao nascer, tanto oficialmente (pelo Estado, em seus documentos de identificação), como pelos scripts de gênero que a produção discursiva de sua socialização exigia que encenassem. Mas todas elas sentem- se desempenhando o papel principal de suas próprias vidas e não os papéis secundários de tramas banais. Todas se reinventaram, fantasiando seus figurinos para viver suas fantasias. Todas romperam com as mesmices do binarismo de gênero. Mesmo q uando incorporaram o próprio binarismo, fizeram- no à sua maneira, subvertendo a norma para viver o sonho. Todas ousaram. O nome dessa liberdade, inaceitável para a maioria das pessoas que se escorou no intolerante comum, é o mesmo: travesti.