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As informações elaboradas e divulgadas pelas sociedades anônimas e empresas de grande porte, como apontadas no Quadro 9, são regulamentadas pela legislação societária, abarcada pela área de estudo da Contabilidade Financeira ou Societária. Como já foi exposto, anteriormente, essa legislação sofreu grandes alterações, tendo em vista o processo inicial de adoção das normas internacionais de Contabilidade.

Sendo que, entre as alterações introduzidas pela lei 11.638/07, a “nova lei contábil” como ficou conhecida, foi criado o Comitê de Procedimentos Contábeis (CPC) - órgão que congrega entidades não governamentais, Conselho Federal de Contabilidade, Academia, representantes das entidades privadas, para discussão e emissão de uma única norma -, têm-se os órgãos públicos, como a Comissão de Valores Monetários (CVM), o Banco Central (BACEN), com poder de emitir resoluções, os quais apoiam o pronunciamento do CPC para novas práticas da Contabilidade societária.

Nesse contexto de alterações, a legislação societária teve seu escopo ampliado, passou a englobar, além das sociedades por ações, as sociedades de grande porte, ainda que não constituídas como sociedades por ações. São consideradas de grande porte, a sociedade ou conjunto de sociedades sob controle comum que apresentar, no exercício social anterior, ativo total superior a R$ 240.000.000,00 (duzentos e quarenta milhões de reais) ou receita bruta anual superior a R$ 300.000.000,00 (trezentos milhões de reais) conforme estabelecido pela Lei 11.638/07.

Contudo, as demais empresas, ora consideradas pequenas e médias empresas (PME) por esse critério, também foram diretamente impactadas com o movimento de convergência às normas internacionais de Contabilidade. Dessa maneira, são consideradas pequenas e médias empresas aquelas que não têm obrigação pública de prestação de contas e cuja elaboração de demonstrações contábeis, além de fins internos de gestão é direcionada para

usuários externos, como sócios que não estão envolvidos na administração do negócio, instituições financeiras e agências de avaliação de crédito.

Diante da demanda de informações de qualidade para qualquer porte de empresa, seguindo a tendência do mercado internacional, o CPC emitiu Pronunciamento Técnico

aprovado pela resolução CFC no. 1.255/09 que trata da adoção das normas internacionais de

Contabilidade para as PME. Trata-se de um documento resumido, por serem excluídas as operações consideradas não pertinentes ao cotidiano das PME (IUDICIBUS et al., 2010, p. 25).

Sob as condições expostas pela ampliação do escopo da legislação societária e pela força do CPC como órgão regulamentador, a Contabilidade societária sofre grandes avanços e vai subsidiar o desenvolvimento de qualquer que seja o tipo e porte de empresa que queira elaborar suas demonstrações contábeis com informações de qualidade, no sentido de relevância, compreensibilidade, confiabilidade e comparabilidade, posto que a Contabilidade societária é

[...] aplicável agora às companhias abertas, às sociedades por ações fechadas, às sociedades de grande porte, às pequenas e medias empresas (qualquer que seja sua forma jurídica), conforme nossa nova legislação e conforme procedimentos do CPC, o que significa conforme as normas internacionais hoje aplicadas ou em fase de aplicação em aproximadamente 140 países (IUDICIBUS et al., 2010, p. xxvii).

Nesse contexto, a legislação societária define um conjunto de informações relevantes para prestação de contas da situação patrimonial e financeira aplicáveis a todas as sociedades mercantis brasileiras, conforme apresentado no Quadro 10. Sendo que as sociedades por ações têm obrigação da apresentação dessas informações à CVM e a outros órgãos governamentais que tenham atribuição legal de regulação pertinente a determinadas atividades econômicas, além da obrigação da divulgação pública anual.

Quadro 10 - Informações pela Contabilidade Societária. Tipo de Informação Objetivo

Demonstrações Contábeis

Relatório de Administração

Evidenciar a posição patrimonial e financeira, o desempenho e as mudanças na posição financeira da organização em determinado período passado.

Evidenciar os negócios sociais e os principais fatos ocorridos, os investimentos em outras empresas, a política de distribuição de dividendos e de reinvestimento de lucros etc.

Notas Explicativas Corroborar com informações adicionais relevantes ao entendimento dos itens constantes do balanço patrimonial e da demonstração de Resultado. Parecer dos Auditores

Independentes – CVM Imprimir transparência e credibilidade às demonstrações contábeis. Parecer do Conselho Fiscal Transmitir confiança à assembleia geral de acionistas quanto veracidade

da real situação financeira divulgada nas demonstrações contábeis. Fonte: Elaborado com base em Iudicibus et al.(2010, p. 2-36) e Comitê de Pronunciamentos Contábeis (2011).

Desse conjunto de informações, têm destaque as Demonstrações Contábeis por se tratar de informações que devem ser elaboradas para fins de gestão, além de prestação de conta a sócios ou credores, independente do tipo e porte de sociedade, mesmo que não se enquadram como sociedade por ações ou de grande porte.

O CPC (2011) emitiu documento “Pronunciamento Conceitual Básico – Estrutura Conceitual para Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis”, conhecido como CPC_00_R1, adotando integralmente a estrutura das normas internacionais de Contabilidade, com destaque à maior aderência ao conceito da “Primazia da Essência Sobre a Forma” para reforçar as características qualitativas da informação contábil (IUDÍCIBUS et al., 2010, p. 31,). Essa estrutura conceitual estabelece os conceitos que fundamentam a preparação e apresentação das demonstrações contábeis. A condição de alinhamento às normas internacionais de Contabilidade oferece maior transparência e comparabilidade, excluindo assim fatores econômicos, sociais, culturais e legais que impactavam fortemente na elaboração das demonstrações e as diferenciavam entre os países (LAGE; LONGO; WEFFORT, 2010).

As demonstrações contábeis exigidas pela legislação societária, descritas no Quadro 11, podem ser consideradas como produto informacional da gestão da informação contábil.

Quadro 11 - Produtos informacionais da Contabilidade Societária. DEMONSTRAÇÕES

CONTÁBEIS

Sigla Finalidade da informação e conteúdo

Balanço Patrimonial BP Informar a posição patrimonial e financeira da empresa em determinada data. Divulgar os elementos diretamente relacionados à mensuração dessa posição:

- Ativo: recurso controlado pela entidade como resultado de eventos passados e do qual se espera que resultem futuros benefícios. - Passivo: obrigação presente da entidade, derivada de eventos já ocorridos, cuja liquidação se espera que resulte em saídas de recursos capazes de gerar benefícios econômicos.

- Patrimônio Líquido: Representa a riqueza líquida da empresa; é o valor residual dos ativos depois de deduzidos todos os passivos. Demonstração do

Resultado do Exercício

DRE Informar o resultado econômico gerado pela dinâmica operacional em determinado período. Os elementos diretamente relacionados com a mensuração do resultado são:

- Receitas: entradas de recursos que resultam em aumento no Patrimônio Líquido

- Custos, despesas, impostos: saídas de recursos que resultam em decréscimo do patrimônio líquido.

- Resultado: a diferença entre as entradas e saídas de recursos Demonstração do

Resultado Abrangente DRA Estender a DRE para evidenciar os ganhos ou perdas que são reconhecidos temporariamente na DMPL. Demonstração das

Mutações do Patrimônio Líquido

DMPL Evidenciar a mutação do patrimônio líquido, em termos gerais as novas integralizações, ajuste de avaliação patrimonial, etc. ou em termos de transferências de reservas para o capital, ou de lucros acumulados para reservas, entre outras transferências.

Demonstração dos

Fluxos de Caixa DFC Evidenciar as movimentações de disponibilidades em determinado período. Os fluxos de entrada e saída de caixa são classificados em três grupos:

- atividades operacionais -atividades de investimentos - atividades de financiamentos Demonstração do

Valor Adicionado DVA Informar o valor da riqueza gerada pela empresa e a forma de sua distribuição pelos fatores de produção (capital e trabalho) e ao governo. Elaborada a partir da DRE, portanto, seus elementos são as Receitas e Despesas, porém são classificadas sob outras condições.

Fonte: Elaborado com base em Iudicibus et al.(2010) e Comitê de Pronunciamentos Contábeis (2011). Cada demonstração tem seus objetivos específicos, em conjunto e alinhados promovem uma organização informada para embasar seus processos decisórios no ambiente interno e uma organização fonte de informação que procura satisfazer as necessidades informacionais de seus stakeholders.

As necessidades informacionais dos usuários externos em relação à informação contábil-financeira são divergentes nas especificidades, mas congruentes na finalidade, pois todos buscam conhecer a posição financeira da organização para apoiar suas decisões pertinentes às suas particularidades. A estrutura conceitual emitida pelo Comitê de

Pronunciamentos Contábeis (2011) destaca os principais usuários externos e suas necessidades como sendo:

Investidores: buscam conhecer o risco inerente ao investimento e o retorno que esse é capaz de gerar. A informação os auxiliam a decidir se devem manter o investimento, aumentá-lo ou reduzi-lo;

Empregados: almejam informações sobre a estabilidade e a lucratividade da empresa para avaliarem as possibilidades de remuneração, benefícios e oportunidades de carreira;

Credores: os diversos credores como instituições financeiras, fornecedores e outros analisam a capacidade da empresa em saldar seus empréstimos e juros, ou seja, a importância devida no referido vencimento;

Clientes: buscam informação sobre a capacidade financeira, da entidade, para manter sua continuidade operacional. Com essa informação avaliam o risco dela como fornecedor e podem decidir pela manutenção, aumento ou redução de negócios;

Governo e suas agências: estão interessados na destinação de recursos e nas atividades das entidades. Com base na informação contábil-financeira o governo e suas agências estabelecem políticas fiscais, determinam a renda nacional e outras estatísticas econômicas;

Público geral: a informação é relevante para a sociedade conhecer a evolução do desempenho da entidade e os desenvolvimentos. A sociedade cada vez mais busca informações para avaliar o equilíbrio das contribuições e impactos que suas atividades podem gerar.

Para atingir esses usuários com informação de qualidade alguns pressupostos básicos devem fundamentar a elaboração das demonstrações contábeis conforme estabelecido pelo CPC (2011):

- Regime de competência: destaca a confrontação entre receitas e despesas, dessa forma as demonstrações são preparadas não somente sobre as transações passadas envolvendo pagamentos e recebimentos, mas sim as transações que vão gerar entradas ou saídas de caixa no futuro;

- Continuidade: destaca que a entidade continuará em operação no futuro, presume que a entidade não tem a intenção de entrar em liquidação.

A nova estrutura conceitual das demonstrações não destaca mais a denominação dos tradicionais princípios fundamentais de Contabilidade, o destaque está centrado nas características qualitativas que a informação contábil-financeira deve ser revestida (IUDÍCIBUS et al., 2010). Essas qualidades são discutidas por Iudícibus et al.(2010) e Lage,

Longo e Weffort (2010) como imprescindíveis para alavancar a relevância e o uso das demonstrações contábeis, sendo resumidas em:

- Compreensibilidade: a informação tem que ser prontamente entendida pelo usuário; - Relevância: a informação é relevante quando pode influenciar decisões econômicas dos seus usuários, subsidiar avaliações ao impacto de eventos passados, presentes e futuros ou ainda confirmando ou corrigindo as suas avaliações;

- Materialidade: a materialidade da informação a faz relevante se a sua omissão ou distorção puder influenciar as decisões econômicas do usuário;

- Tempestividade: a informação tem que ser oportuna, no sentido em que a demora indevida na divulgação da informação pode provocar a perda da relevância;

- Confiabilidade: a informação deve estar livre de vieses e representar adequadamente a natureza daquilo que se propõe a representar;

- Primazia da essência sobre a forma: para uma representação adequada, a informação contábil deve retratar a substância e realidade econômica da transação em detrimento ao registro pela sua forma legal;

- Neutralidade: a informação deve ser neutra no sentido de ser imparcial. Ela deve informar, mas não induzir;

- Prudência: a informação deve carregar prudência, no sentido de certo grau de precaução em operações que demandam julgamentos necessários às estimativas em certas condições de incertezas;

- Integridade: a informação deve ser completa, dentro dos limites de materialidade e custo. Uma omissão pode tornar a informação falsa ou distorcida;

- Comparabilidade: a informação contábil-financeira deve oferecer a possibilidade de ser comparada ao longo de um período, a fim de apontar tendências na posição patrimonial e financeira e no desempenho econômico. O usuário deve ser capaz de comparar as demonstrações contábeis entre diferentes entidades dentro ou fora do próprio país. A representação fidedigna pela essência econômica de uma transação relevante deve naturalmente inserir determinado grau de comparabilidade com a representação fidedigna de operações similares de outras entidades que divulgam a informação contábil-financeira.

Todas essas características qualitativas são os atributos que tornam as informações das demonstrações contábeis úteis aos diversos usuários, internos e externos. As quatro características fundamentais são: compreensibilidade, relevância, confiabilidade e comparabilidade, as demais são atributos intrínsecos à concretização dessas (LAGE; LONGO; WEFFORT, 2010).

Se a utilidade da informação está vinculada à qualidade da mesma, pode-se inferir que o uso das demonstrações contábeis está condicionado ao reconhecimento, pelo usuário, das características qualitativas em que essas informações estão imbricadas e que respondem à sua necessidade informacional.

Esse reconhecimento é relevante se for levado em consideração que o desenvolvimento da organização é dependente de vários fatores, entre esses um relacionamento eficiente com seus stakeholders, que podem ser fidelizados através da comunicação de seu desempenho com informações de qualidade. Entre os demais fatores para garantir o desenvolvimento da organização, está a gestão financeira da empresa, que envolve análise das demonstrações contábeis para tomada de decisões pelos usuários internos: diretores, gerentes e funcionários envolvidos na dinâmica financeira da empresa.