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Okul Rehberlik Çerçeve Programı ve Öğretim Programları İçerisinde Yapılan

Belgede Bilge TOPALOĞLU (sayfa 96-101)

4. Bulgular

4.4 Okul Rehberlik Çerçeve Programı ve Öğretim Programları İçerisinde Yapılan

Haraway é sem dúvida a grande inspiração de Preciado na importância da técnica na construção dos corpos, e da técnica enquanto prótese que pode ser subversivamente apropriada. No entanto, existe uma diferença fundamental: se em Preciado encontramos igualmente a importância de processos técnicos, materiais, articulados com signos, não encontramos nenhuma figura daquilo a que Haraway chama o coiote (2004, 115), ou seja, a forma matreira e fugidia como o mundo nos chama a si, não enquanto materialidade essencializada mas enquanto materialidade aberta; se há uma grande atenção e detalhe na apresentação e apropriação das técnicas não há a mesma atenção à complexidade inhumana do próprio corpo humano; já em Testo Junkie (Preciado 2008) há maior atenção a características microbiológicas do corpo humano. Neste sentido a re-apropriação tecnológica do tecnocorpo não é nunca totalmente previsível, ao contrário do que as experimentações contra-sexuais parecem pressupor.

Haraway defende aquilo de denominou de “artefactualismo” (seguimos aqui a tradução espanhola pois mantém o sentido maquínico de “artefacto”, de organismos que são produzidos humana, inhumana e maquinicamente, que se perderia com artificialismo): os organismos são a articulação imperfeita e parcial de actores colectivos, através de práticas tecnocientíficas situadas,

ou seja, em lugares e tempos determinados (2004, 65-66). Estas articulações situadas produzem uma forma particular de natureza (66), simultaneamente enquanto ficção e facto. A razão pela qual estes colectivos são artefactos, ou sempre sociais, é porque são constituídos por “actantes/actores” muito heterogéneos: humanos, máquinas e inhumanos. Os inhumanos são os não humanos não máquinas, para os quais usa a metáfora do coiote, enquanto processo dinâmico, ardiloso e fugidio do próprio mundo (115-116), mundo que não é pré-existente às articulações que mantém com todos estes actores (126-127). A relação entre estes actores não é assim de representação mas sim de articulação (89) diferencial e interseccional (329), da qual resultam “monstros” (105-106) ou articulata. A forma como a diferencialidade implica novas materialidades é fundamental para Haraway e representa para ela um distanciamento de Derrida (53).

O mundo que nasce do monstruoso artefactualismo (70) é um mundo cyborg (117), ou seja, um mundo que nasce da consciência da forma como a tecnologia, as práticas tecnocientíficas, afectam e produzem novos significados corporais, novas sociabilidades, assim como são produzidas por estas (23). O cyborg é uma metáfora política (8) e não estritamente ontológica, o mito político das identidades comunicantes, parciais, transitórias de todos os actores/actantes envolvidos e das fronteiras que se re-constroiem. Preciado é herdeira directa desta visão.

Mas a natureza é um colectivo monstruoso com uma função política muito especial, a de ser um lugar (retórico, instrumentalizável) de encontro político, de partilha, de comun/idade situada (126-7). A natureza surge como local de reconstrução da cultura pública, do espaço público. Os laços entre estes participantes não são laços naturais mas sim de escolha, afinidade (13); uma escolha política vital, para a sobrevivência duma certa humanidade, a genérica, mas em ninguém representada (49) e dum certo espaço público. Essas afinidades não são no entanto meras simpatias, identificações (38-39); são conversas intermináveis na articulação das diferenças; são encontros parciais, estratégicos, no sentido em que são os encontros possíveis naquele momento para possibilitarem determinados mundos sociais e para se oporem a outros. Em Preciado, a apropriação tecnológica resulta noutra tecnocorporalidade que constrói outro comum, um comum desheterosexualizado.

Em Haraway os organismos e corpos, inclusive o corpo humano, são construídos por um aparelho de produção corporal do qual os corpos enquanto objectos de conhecimento são actores material-semióticos (67-68) , ou seja, são o resultado da articulação de colectivos de distintos tipos: técnicas, discursos e parceiros materiais. Mas estes actores não são os únicos a trabalhar nas articulações colectivas que são os aparelhos de produção corporal. A interacção social, o momento histórico, contribuem para o estabelecimento de fronteiras e interfaces específicas e situadas. A teoria é o local onde o social e o técnico implodem um no outro e geram materialidades,

corporalidades (68) sempre algo monstruosas e imprevisíveis. Preciado vai concordar inteiramente com o carácter situado das relações entre técnicas e signos.

O género, afirma Haraway, faz parte da produção do aparelho de produção corporal e, como tudo nele, é um efeito material técnico-semiótico situado que hierarquiza determinados colectivos em relação a outros (329). Preciado assume igualmente que contra-sexualizar, além de ser um programa de experimentação produtiva doutros corpos, é também uma luta contra a dominação duns corpos por outros.

Os colectivos construídos por estes actores inapropriados/áveis em relação diferencial, inapropriados/áveis porque desterrritorializados pelas novas articulações, são as naturezasculturas (204) coiote. Preciado apropria-se do termo naturezacultura mas nunca adopta a postura de humildade face à dinâmica da materialidade que tal implica.

A forma como significados e tecnologias/máquinas se inter-relacionam na produção dos corpos tem também consequências para a relação dos corpos com as máquinas, fazendo delas próteses íntimas amigáveis (36) corporalmente inscritas (121), aspectos dos quais Preciado se apropria na íntegra. O carácter protésico das máquinas, mesmo um carácter erótico da tecnociência (130), retira às máquinas a tónica ameaçadora e exterior habitual (38) e faz delas tecnologias de re- construção das categorias e práticas corporais, por exemplo, do prazer, do género e da identidade individual, concepções em que Preciado se apoiou para abandonar um feminismo temeroso da tecnologia em direcção a um feminismo protésico, um feminismo que encorpora a inscrição tecnológica. Haraway volta a dar pistas quanto ao papel subversivo e erótico das tecnologias quando afirma mais tarde que uma prática feminista anti-racista deve procurar um alinhamento entre técnicas e erotismo, repensando a pornotécnica (112). As práticas contra-sexuais de Preciado são exactamente a apropriação e subversão das pornotécnicas dominantes, fazendo parte duma contra-pornografia a que Haraway chamaria uma contra-pornotécnica. Essa subversão pode fazer- se, para Haraway, através da deslocação de significados/inscrições/incorporações, a que chama transferências de competências ou substituições na cadeia materio-metafórica (74) do aparato de produção corporal. Esta é exactamente a estratégia que Preciado vai adoptar nas suas experimentações, ao transferir o dildo para outros locais materiais e semióticos.

No entanto, Haraway crê também no poder emancipador duma linguagem wittigiana, em desvio, como prova a frequente citação da questão de Sojourner Truth, , “Ar’n’t I a woman?” (59), aspecto que Preciado recusa.

Belgede Bilge TOPALOĞLU (sayfa 96-101)