B. Türkiye’de Halk Hukuku Çalışmaları
2.1. Halk Hukuku Düzeninde Yasama/Norm Üretilmesi
2.1.2. Normlar
Ao contrário do Brasil, onde a profissão de catador se desenvolve na segunda metade do século XX, na França, após o auge da atividade dos trapeiros no século XIX, as transformações na indústria e nos serviços de coleta de lixo realizados pelas prefeituras acarretaram um longo processo de perseguição e de esvaziamento da profissão. Por um lado, a indústria de papel passou a substituir os trapos por celulose – vinda dos troncos das árvores –, fazendo desaparecer a indústria de reciclagem de trapos o que,
2 Há registros da construção de uma fábrica de papel no Rio de Janeiro em 1809 e outras em
1837 e em 1841. Tais fábricas logo fecharam as portas. Em 1852, o Barão de Capanema construiu uma fábrica em Petrópolis e se tornou o principal fornecedor de papel no país mantendo-se no mercado até 1861, quando parou de produzir. Devido à importância do papel nas atividades cotidianas de nossa sociedade e à pequena produção nacional, o governo imperial baixou a tarifa de importação do papel. Com a redução da tarifa de importação, o preço do papel importado ficou mais competitivo e inviabilizou a produção no Brasil.
consequentemente, atingiu inequivocamente a atividade de coleta realizada pelos trapeiros. A indústria química também substituiu o fósforo vindo dos ossos de animais por processos químicos mais rentáveis. Tais mudanças não foram imediatas. Durante algumas décadas, coexistiam a produção de papel a partir de trapos e a produção a partir da celulose.
Sucessivas interdições atingiram os catadores de Paris a partir do fim do século XIX. A mudança no processo de coleta de lixo começa na década de 1880 e se aprofunda nos anos 1940. Inicialmente, tais mudanças parecem ser benéficas aos trapeiros parisienses, no entanto, chegadas ao fim, o trabalho deles praticamente desaparece de Paris e de outras cidades francesas.
Com a prerrogativa de evitar sujeira nas ruas, em 1883, a prefeitura cerceia a coleta feita pelos trapeiros e passa a utilizar regras, mão de obra, veículos e equipamentos que tiram dos trapeiros a possibilidade de manipularem o lixo. Primeiramente, restringiu-se o horário em que as pessoas poderiam colocar seu lixo para fora, depois exigiram um tipo específico de lixeira que dificultava o acesso ao lixo, por fim, passaram a utilizar caminhões a diesel, que tornou a coleta muito mais rápida. Tal procedimento reduzia o tempo de os catadores ambulantes coletarem o material antes de o caminhão da coleta passar.
Tais ações fizeram com que os trapeiros de Paris se mobilizassem. Nas negociações com o poder público, os catadores fixos conseguiram autorização para realização da coleta em domicílio antes de o caminhão de lixo passar. Vários trapeiros ambulantes foram contratados para seguirem junto com o caminhão e fazerem uma separação do lixo durante a coleta. E, ainda, a prefeitura montou um galpão de triagem para que trapeiros fizessem a separação do lixo antes de sua destinação final. O lixo de Paris jamais foi tão bem aproveitado quanto no início do século XX, quando esse sistema funciona plenamente. O processo de triagem era realizado em três momentos: antes, durante e depois da coleta. (Barles, 2011).
Essa situação dura três décadas. A partir dos anos 1930, já abalada pela retração da indústria de reciclagem, a atividade de catação volta a ser cerceada, sob o argumento higienista. Em 1946, a catação nas ruas é definitivamente proibida e a coleta de recicláveis é realizada exclusivamente
nas usinas de triagem, sob o comando de empresas contratadas. Desse modo, o processo torna-se bem menos eficaz. Em 1923, haviam sido coletadas 120.000 toneladas de material reciclável em Paris, em 1939, 3.000 toneladas e em 1967, apenas 2.000 toneladas. Com o fim do trabalho dos trapeiros nas ruas de Paris e o índice de reciclagem de menos de 2%, Paris passa a destinar seu lixo para a incineração, um processo mais caro e mais danoso ao meio ambiente.
O desaparecimento dos trapeiros em meados do século XX se deu em decorrência das sucessivas interdições ao trabalho de coleta e de separação nas ruas e da absorção da mão de obra pelas empresas responsáveis pela coleta, tratamento e destinação final dos resíduos. Tal combinação de fatores gerou tanto o fortalecimento das empresas que operavam o sistema de gestão de resíduos sólidos, que passaram a contar com a totalidade do mercado e com a mão de obra especializada dos trapeiros, quanto o desaparecimento dessa categoria de trabalhadores, uma vez que os trapeiros foram substituídos ou transformados em “trabalhadores taylorizados” do serviço de limpeza urbana.
Não é de se admirar que tal processo tenha se dado durante o período conhecido entre os franceses como os “Trinta Gloriosos”, de consolidação da “sociedade salarial” francesa (Castel, 2001). Principalmente a partir do pós- guerra, a consolidação do mercado de trabalho assalariado praticamente universalizou esse tipo de relação de trabalho, chegando a mais de 82% da população economicamente ativa em 1975. Conforme análise de Castel, tal consolidação só se fez possível a partir da reunião de uma série de condições: a separação entre os que trabalhavam efetiva e regularmente e os inativos ou semiativos, a racionalização do processo de trabalho, a ampliação do mercado de consumo a todos os trabalhadores e o acesso a direitos sociais e a serviços públicos. Tais condições se formaram também no setor de serviço de limpeza urbana e de reciclagem, fazendo com que essa categoria de trabalhadores fosse absorvida pela então “irresistível” força de atração da sociedade salarial.
Nos Estados Unidos da América, diferentemente da França, os catadores jamais se consolidaram enquanto classe, conforme já foi dito, pois eram, em sua maioria, mulheres, crianças e imigrantes que realizavam
temporariamente tais atividades. A racionalização do serviço de limpeza, a expulsão desses catadores do manejo dos resíduos sólidos e a absorção desses trabalhadores pelo mercado formal de trabalho ocorreram ainda mais facilmente, não encontrando resistência de classe, uma vez que essa não existia. O que ocorre nos EUA é um reordenamento dos processos pelos quais as empresas conseguem seus materiais recicláveis, que passam a ser adquiridos, em grande parte, pela coleta seletiva institucional, e não apenas pelos catadores. Conforme apontam Snow e Anderson (1998), o trabalho de coleta e separação de materiais recicláveis é visto, mesmo entre a população que vive nas ruas, como degradante, sendo deixada para as parcelas mais miseráveis da população de rua: mendigos e doentes mentais.
Os andarilhos tradicionais e hippies e os mendigos redneck também catam lixo apenas raramente, e essa, claramente, não é uma forma apreciada de trabalho à sombra. Os mendigos tradicionais e os doentes mentais, por contraste, tendem a catar lixo de modo bastante regular. Trata-se da principal atividade de subsistência dos primeiros e o segundo mais importante meio de sobrevivência dos doentes mentais, depois da assistência pública (Snow; Anderson, 1998, p. 266-267).
Com a escassez de mão de obra para a coleta e separação do material reciclável, torna-se praticamente impossível a formação de uma categoria influente de trabalhadores do lixo, que lute pelo direito e reconhecimento do trabalho.