• Sonuç bulunamadı

B. Türkiye’de Halk Hukuku Çalışmaları

2.3. Halk Hukukunda Yargı

2.3.2. Halk Hukukunda Ceza

Os movimentos sociais urbanos que apareceram no final do governo militar tiveram sua gênese nas organizações de bairro que se formaram a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica. Tais organizações de bairro, juntamente com o novo sindicalismo nascente na Região Metropolitana de São Paulo, cuja gênese também está relacionada às

CEBs e às pastorais operárias organizadas pela Igreja, se mostram como atores políticos importantes no desenvolvimento político ulterior do Brasil.

As organizações de bairro e o novo sindicalismo não apenas aparecem mais ou menos no mesmo período como também estão intimamente ligados. “Muitos operários, antes de se engajarem no movimento sindical, participaram de lutas nos bairros, bem como muitas vezes era no local de moradia que se organiza o movimento que ia ser deflagrado na fábrica” (Santos, 2008, p. 94).

Os moradores das periferias urbanas foram se organizando em torno de um conjunto amplo de reivindicações por melhorias urbanas, transporte público, contra o custo de vida, regularização fundiária etc.. Essas reivindicações estão ligadas à questão do direito à cidade. A partir de uma realidade que expulsava as camadas populares para as periferias, que não contavam com serviços básicos de saúde, transporte, educação e infraestrutura urbana, as organizações de bairro se tornam os principais agentes mobilizadores da população e provocadores do poder público para que as melhorias fossem realizadas na periferia.

A partir de 1979, são organizados grandes movimentos grevistas no país inteiro, com destaque para as greves do ABCD paulista que em 1979 durou 79 dias e envolveu 240 mil operários e em 1980 alcançou 38 municípios, envolveu 325 mil operários e cujas assembleias em um estádio de futebol na cidade de São Bernardo do Campo reunia de 40 a 60 mil trabalhadores. Depois dessas grandes mobilizações, os movimentos grevistas arrefeceram. No entanto, haviam deixado sua marca, possibilitando a organização dos trabalhadores em uma grande central sindical, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e a criação de um grande partido de esquerda, o Partido dos Trabalhadores (PT), que reunia não apenas os trabalhadores sindicalistas, mas também representantes de outros movimentos sociais urbanos e do campo, intelectuais de esquerda e grande parte dos participantes das Comunidades Eclesiais de Base.

Com as mudanças ocorridas na década de 1980, com a estagnação econômica e reestruturação produtiva das principais empresas e multinacionais presentes no país e a mudança na geografia da pobreza das grandes cidades – descritas no tópico anterior –, os movimentos sociais urbanos – incluindo o

movimento sindical – perderam força, ou melhor, mudaram sua forma de atuação.

Vale aqui destacar o papel da Igreja Católica ao longo desse processo. Até o final dos anos 1970, as Pastorais e as Comunidades Eclesiais de Base foram o principal meio de inserção social da Igreja no país. Os movimentos de bairro nasceram das CEBs, a Comissão Justiça e Paz nasceu de iniciativa da Arquidiocese de São Paulo, sob direção de Dom Paulo Evaristo Arns, e as Pastorais Operárias tiveram grande importância na consolidação do novo sindicalismo que se formava na região do ABCD paulista.

A arquidiocese paulista construiu, nos anos 1970, uma territorialidade que priorizava as camadas pobres da população. As CEBs e as pastorais operárias estavam localizadas na periferia de São Paulo. A estrutura da Igreja saiu da atuação estritamente paroquial, se descentralizou e tornou-se mais presente na periferia (Iffly, 2010). Importante frisar também o papel de destaque que religiosos (freiras e frades) e leigos passaram a desempenhar na atuação da Igreja. De fato, a Igreja Católica, não apenas no Brasil, mas em praticamente toda a América Latina, após o Concílio Vaticano II, passa a ter uma atuação diferenciada na arena política, tornando-se defensora de pautas progressistas e anticapitalistas.

A ação da Igreja Católica vai cada vez mais ao encontro dos anseios das camadas populares organizadas. Em um artigo publicado em 1984, Dom Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo escreve:

A Igreja reconhece que a situação entre as classes sociais é extremamente injusta. Há, de um lado, exploradores e, de outro, um contingente imenso de explorados. É preciso lutar, sim, em defesa da dignidade humana. (...) É pela união dos explorados, numa ação firme, mas sem ódio, permanente, que a Igreja prega a transformação não violenta da nossa sociedade. (...) A Igreja não pode ficar alheia ao que acontece com nossos fiéis. O dia a dia dos trabalhadores faz parte das preocupações da Igreja, porque os trabalhadores fazem parte da Igreja. A Igreja recusa a exploração. (...) A Igreja prega uma revolução do amor, pois acredita que os homens devem ser todos iguais em toda parte. É preciso lutar pelo fim das classes. Não é possível pregar a cooperação entre as classes sociais, quando uma classe social vive da exploração desumana das demais classes sociais. A Igreja não pode ser inocente útil em favorecimento da aplicação do capitalismo, nem do

comunismo, ambos eminentemente anticristãos. As regras e os limites de sua ação não são formulados nos gabinetes, mas nascem do sofrimento vivido pela imensa maioria da população. (ARNS, 1984 apud IFFLY, 2010, p. 118-9)

Tendo a Teologia da Libertação como paradigma e as CEBs e pastorais como meios de atuação, esse setor da Igreja Católica torna-se um dos principais responsáveis pelo nascedouro dos movimentos sociais no final do período militar no Brasil (1964-1984).

A atuação na periferia por meio das CEBs passa a ser o grande diferencial da Igreja. Atuar com os pobres e trabalhadores não é algo novo na Igreja, mas atuar na organização social desses atores a partir da atuação contínua em pequenos grupos é uma mudança qualitativa importante. Diferente de outros movimentos, aqueles que nasceram das CEBs e pastorais apresentam como metodologia a “pedagogia das pequenas ações”, que se constitui como elemento de um importante trabalho de base (Iffly, 2010 e Santos, 2008). As comunidades de bairro e pastorais passam a ser espaços de formação e “conscientização”. Não é à toa a presença constante de referências à educação popular, inspirada nas ideias de Paulo Freire, como método de trabalho nesses movimentos. A formação de pessoas “conscientes da exploração e de seu papel transformador na sociedade”, não apenas na linha de vanguarda, mas também em suas “bases populares”, por meio das pastorais e das CEBs, abre caminho para a consolidação dos movimentos populares nas periferias das cidades brasileiras nos anos 1970 e 1980.

Em meados da década de 1980 e no início dos anos 1990, com a mudança ocorrida na “geografia da pobreza”, empobrecimento dos centros urbanos e aumento da renda nas periferias, e com a retração do movimento sindical, em decorrência da estagnação econômica e do processo de reestruturação produtiva, a Igreja também começa a mudar suas bases territoriais de atuação. A periferia, espaço privilegiado pela Igreja nos anos 1970 por concentrar a população em situação de maior vulnerabilidade social, não é o único lócus de ação. Os centros passam o concentrar também um contingente significativo de marginalizados. A “opção preferencial pelos pobres” feita pela Igreja a partir da Conferência Episcopal de Puebla (1979) a leva a

voltar seus olhos para os centros urbanos e a população mais vulnerável, especialmente os moradores de rua. Ao se virar para essas populações, a Igreja se vê diante da impossibilidade de atuar somente pelo viés da “formação” dos grupos populares. As ações assistenciais se mostram de extrema urgência. Desse modo, “a ‘opção pelos pobres’ da Igreja de São Paulo, que tinha significado no passado uma ação sociopolítica, se traduz cada vez mais por um papel assistencial” (Iffly, 2010, p. 267-8). O que não significa que também não houvesse um trabalho de formação. Assim, a Igreja também passa a atuar na formação de “comunidades de sem-teto” e grupos de catadores de materiais recicláveis.

A realidade aponta para a necessidade de se modificar a forma de atuação dos movimentos pastorais da Igreja. Com a redefinição do papel do Estado, por conta das políticas neoliberais, a Igreja passa a atuar não apenas em movimentos reivindicatórios ou de protesto, como o Grito dos Excluídos, mas também a apoiar diversas iniciativas que buscam construir alternativas de inserção econômica das comunidades mais pobres, como os Projetos Alternativos Comunitários (PACs), que se configuravam como “alternativas de sobrevivência”, “soluções criativas e autônomas para os problemas dos excluídos” (Bertucci, 1996, apud Singer, 2002, p. 117). Os PACs iniciaram em 1984 e se configuravam como iniciativas de organização de pequenos grupos para produção ou prestação de serviços com o objetivo de gerar renda para uma população excluída do mercado de trabalho. Segundo Iffly, a principal mudança acarretada nas ações pastorais foi uma mudança de foco: tais ações vieram “antes suprir que afrontar o Estado ou o setor produtivo, porém de forma muito precária” (Iffly, 2010, p. 270).

Tal redefinição da maneira de atuar atinge não apenas a Igreja, mas também outras organizações da sociedade civil, como os sindicatos. Com o fechamento de diversas empresas nos anos 1980 e 1990 e a grande dificuldade de recolocação dos trabalhadores que perderam seus empregos, os sindicatos passam a atuar, quando possível, não apenas na reivindicação dos direitos sociais dos trabalhadores, mas também na organização desses trabalhadores em cooperativas de modo a esses assumirem a massa falida. Algumas experiências ocorrem em diversas partes do país, como por exemplo:

uma indústria de fogões em Porto Alegre (RS), uma mina de carvão em Criciúma (SC), fábricas de tecelagem em Recife (PE) e São José dos Campos (SP), fábrica de sapatos em Franca (SP), a maior usina de cana-de-açúcar do país, em Catende (PE), a maior forja do país, em Diadema (SP). De acordo com dados da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho (Senaes/MTE), existiam, em 2005, 174 empresas recuperadas por trabalhadores, ocupando 11.348 trabalhadores.

A partir dos anos 1990, os sindicatos passam a reconhecer essas iniciativas, criando novas institucionalidades para atuação junto a esses grupos, como a Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária (Anteag), criada em 1994; a Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS) da CUT, criada em 1998; e a União e Solidariedade das Cooperativas do Estado de São Paulo (Unisol) criada a partir do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em 1999.

Isso mostra que o período de 1980 e 1990 demandou dos movimentos sociais um novo modo de atuação, de caráter não somente reivindicatório, mas que tivesse como pauta a criação de alternativas de trabalho em um tempo em que o próprio direito ao trabalho não estava garantido. É esse contexto que permeia o aparecimento das primeiras organizações de catadores e, posteriormente, a articulação dessas organizações em um movimento de âmbito nacional.

Benzer Belgeler