6. ENDÜSTRİ 4.0’DA İŞ SAĞLIĞI VE GÜVENLİĞİ İÇİN YARDIMCI
6.11. Endüstri 4.0’da İle Entegre Olmuş Yerli Üretim İş Sağlığı Ve Güvenliği Ekipmanları
6.11.2. Yeni Nesil İş Gözlüğü
Longe de ser um mero pano de fundo, a Colômbia é um tema central do romance, condicionando o destino dos personagens e desempenhando um papel matricial nas infelicidades que se desenrolam na trama. A solidão de uns, o desengano de outros, as diferentes mortes e desventuras são, em maior ou menor medida, desdobramentos de práticas políticas hegemônicas e das inúmeras formas de violência encobertas pelo discurso nacional.
Ao erguer-se contra o esquecimento coletivo, Gabriel não se limita a rememorar um episódio esquecido, como o das listas negras, mas aponta mecanismos de silenciamento que
continuam a operar no presente, anulando divergências e dificultando possibilidades de mudança. Seu maior alvo é o discurso da nação como comunidade coesa e homogênea. Desbancar essa noção falaciosa é um esforço permanente do romance.
Da primeira à última página, Vásquez descreve diferenças asfixiadas, em um cenário em que harmonia e coesão existem apenas nas encenações do governo. Dos anos 1930 aos 1990, a Colômbia do livro é um país intolerante, violento, imprevisível. E é também, entre os vários traidores do romance, certamente o principal, por descumprir suas promessas e se voltar contra os que lhe juraram lealdade – ou, ao menos, confiaram em suas possibilidades. A perseguição sofrida pelos alemães – que, nos anos anteriores, haviam sido bem recebidos pelo governo – mostra, de cara, que não se trata de um país confiável. “Los colombianos son unos tramposos”, (p.35), comentavam os imigrantes antes mesmo de a ruptura com o Eixo mudar- lhes radicalmente a sorte.
Vásquez opta por uma narrativa polifônica em que, com exceção do protagonista e de seu pai, todos os personagens – que falam torrencialmente – experimentam o deslocamento de alguma forma: imigrantes estrangeiros, refugiados, migrantes domésticos. É como se, para narrar o passado do país, fosse preciso estar parcialmente fora. A história da Colômbia emerge, com suas fraturas, violência e imposturas políticas, pela voz e o olhar dos deslocados, aqueles que, por diferentes razões, não se sentem inseridos, autorizados, aceitos nem identificados. Sujeitos que, com frequência, vivem crises identitárias e expõem a provisoriedade e os altos custos do pertencimento.
Vítimas do nazismo, da violência e do preconceito, os informantes do livro são testemunhas da experiência nacional fracassada. Ao narrar a trajetória da família Guterman, Vásquez evoca o antissemitismo que prosperou na Colômbia nas décadas de 1930 e 1940. A campanha contra taxistas e as depredações a estabelecimentos comerciais de judeus aparecem no romance caracterizando um cenário hostil que, como indicam as menções a Luiz López de Mesa, chegou inclusive às esferas governamentais. Segundo Lina María Leal Villamizar (2011, p.2-3), um ano depois de se tornar ministro das Relações Exteriores (função que desempenhou entre 1938 e 1942), López de Mesa emitiu uma ordem determinando aos consulados a criação de “todas las trabas humanamente posibles a la visación de nuevos pasaportes a elementos judíos”. Com isso, durante a Segunda Guerra Mundial, a Colômbia impediu a entrada de pelo menos 15 mil judeus – muitos dos quais foram exterminados pelas tropas nazistas.
Na mesma época, o mais inclemente racismo era manifestado por segmentos que se orgulhavam de um catolicismo ardente. Esta contradição é exibida na aparição fugaz de
Josefina Santamaría, a companheira de Konrad que, além de narrar as últimas horas do alemão, testemunha o próprio banimento em uma procissão religiosa no coração de Bogotá. Caminhando em busca de Konrad pelos arredores da Praça de Bolívar – lugares “raros y hasta hostiles” (p.129) que ela não costumava frequentar –, Josefina passa por um grupo de católicas, senhoras “muito decentes” (idem) que, sem interromper a reza, olham para ela enojadas, dizendo: “una negra, una negra” (p.131). A hipocrisia dos bogotanos, da qual o romance fornece sobejos exemplos, também é explicitada nesta cena, quando Josefina menciona a separação entre homens e mulheres na cerimônia (p.132). Um cliente contumaz estava entre os fiéis, piedoso, e logo depois das orações corre para a pensão para gozar de seus favores. A falta de solidariedade também emerge de seu relato, quando ela conta as tentativas vãs de conseguir um táxi que levasse Konrad, agonizante, a um hospital.
Com seus múltiplos infortúnios, os personagens expõem “los modos que la vida en Colombia tiene para arruinar a la gente” (p.70). Não por acaso os símbolos nacionais se projetam como uma sombra sobre os momentos mais difíceis da vida do protagonista, como a internação e a morte do pai. No hospital, Gabriel nota que o seguro de vida é “una bandera patria de colores desteñidos” (p.21) e o hematoma do pai tem as formas de uma província do norte (idem). Mais adiante, quando se inteira do acidente que sacramentou sua orfandade, Gabriel usa uma camisa com os dizeres Colombia nuestra (p.98). Embora sem o escárnio do romance seguinte, Historia secreta de Costaguana, Vásquez não se furta a referências jocosas, como o fato de o fundador de Bogotá, Gonzalo Jiménez de Quesada, ter sua estátua permanentemente coberta de cocô de pombos (p.25).
As críticas mais virulentas vão para Bogotá. Perigosa e caótica, é descrita como “ciudad de mierda” por Angelina e Gabriel (p.239, p.243, p.245), lugar “demente” por Sara (p.250), e desperta o ódio irremediável de Enrique, que se muda às pressas depois da morte do pai (p.297). Seus habitantes, segundo o narrador, cultivam a morbidez, a fofoca, a mesquinharia. Assistem com indiferença a um desfile diário de tragédias. Posam de moralistas. Deleitam-se com a ruína alheia.
Essas observações são particularmente ácidas no episódio da entrevista dada por Angelina. Neste momento, ao descrever o sensacionalismo do programa, o gentílico “bogotano” torna-se um adjetivo pejorativo, usado repetidas vezes. “Uno de esos programas de interés rigurosamente local, de periodismo intenso y nocturno y sobre todo bogotano, que hoy son tan comunes, pero que en ese año de 1992 eran todavía novidad para los ciudadanos de esa capital ilustre”, comenta (p.193), referindo-se ainda à “emoción bogotana” (p.194) e à
“audiencia bogotana” excitada pelo passatempo de dessacralizar “figuras más o menos sacras” (p.194, grifos nossos).
A associação de nacionalismo e respeitabilidade – estudada, entre outros, por George Mosse (apud PRADO, 1999, p.46) – tem inúmeros exemplos no romance. As reações à entrevista de Angelina – com cartas furiosas endereçadas a Gabriel pai, mesmo este estando morto – realçam a obsessão coletiva pela imagem de moralidade.
Los colombianos de bien, los colombianos solidarios, los colombianos rectos e indignados, los colombianos católicos para quienes una traición es todas las traiciones: todos repudiaron cuando hubo que repudiar, como buenos soldados de la moral colectiva (p.254).
Não é fortuito que a caricatural homenagem a Gabriel pai vincule patriotismo e santidade, ao referir-se ao “incienso de la santa inspiración patriótica” (p.102). No discurso nacionalista, o patriotismo é tido como virtude, um requisito de integridade. E o poder é o píncaro dos patriotas, o lugar destinado aos que se superam no amor à pátria. Por isso, ao nomear seus escolhidos – os condecorados, os premiados, os reverenciados por diferentes motivos –, a linguagem oficial é tão farta de alusões a esse respeito. No palavroso texto da prefeitura, Gabriel pai é descrito como um “prócer” (p.101), um exemplo de “patriotismo puro y noble” (p.102), ao mesmo tempo que tem exaltadas as qualidades morais e a devoção religiosa. A vacuidade desse discurso contribui para deitar por terra qualquer argumentação em favor de uma identidade essencialmente colombiana, já que os atributos tidos como modelo nada mais são que uma compilação exasperante de clichês. A mesma falta de substância se nota nas cartas com as quais Margarita, a esposa de Konrad, tenta retirar o marido da lista negra do Departamento de Estado Norte-Americano. Para provar a lealdade de Konrad à Colômbia, Margarita cita o fiel cumprimento de hábitos que entendemos como o guia básico do colombiano de bem. São eles: a ida semanal à missa (p.160), o uso do espanhol em casa e – fundamental no caso de um imigrante – a adaptação aos costumes da pátria, em vez de impor os seus (p.160).
Note-se, no simplório rol, a presença obrigatória da língua e da religião, pilares do conservadorismo que, após um longo período do século XIX integrando um tripé da política nacional (a autoridade da língua, o hispanismo e a igreja católica17), continuam presentes no imaginário social colombiano18. As imbricações entre língua e poder, como notamos, constituem uma das preocupações centrais do romance. E as críticas à igreja não são
17 Sobre esta tríade, ver os já citados artigos de Erna von der Walde (1997) e Malcom Deas (2006). 18 Em 2014, a Colômbia tinha o terceiro maior percentual de católicos da América Latina (79%), segundo
parcimoniosas. Além da cena com Josefina – em que a hipocrisia dos fieis é desnudada: a hostilidade das mulheres, a concupiscência furtiva de um marido –, o universo religioso é tratado com sarcasmo em outro momento, quando um padre leviano apura às pressas, com um bloquinho de repórter, informações sobre o defunto que, sem jamais ter visto, enaltecerá.
Um desdobramento da questão da língua – que, na concepção tradicional de nação, é rígida e monolítica – é o embaraço que Konrad e Peter experimentam ao tentar se comunicar em espanhol. Envergonhado com o sotaque, os erros gramaticais e o sentido dúbio de suas frases, Konrad se sente um “productor de verrugas” (VÁSQUEZ, 2004, p.142) – ou seja, uma aberração – e por isso submerge numa retração cada vez maior. Longe de prever a pluralidade, o nacionalismo impõe a uniformização dos hábitos, a padronização da fala, e estimula com isso a proscrição dos desvios.
Talvez seja Konrad no romance a maior vítima das ilusões do pertencimento e da violência dos conceitos rígidos de identidade. Frente às dificuldades de se adaptar à Colômbia, opta por exaltar uma ancestralidade vaga e cada vez mais remota: os antepassados prussianos, os cristais da Boêmia. Mas os comentários de um nazista (que, embora colombiano, nega qualquer ruptura em sua linhagem germânica) mostram que, para Konrad, também não é mais possível, por mais que deseje, encontrar acolhida na nação com a qual sonhava. “Cada alemán casado con colombiana es una línea perdida para el pueblo alemán. Sí, señor. Perdida para la alemanidad (p.153)”, sentencia o nazista.
Assim, recolhido no Hotel Sabaneta, já sem a mulher e o filho, Konrad escreve cartas que testemunham seu desamparo, um sentimento análogo ao da orfandade, por se saber desguarnecido de qualquer proteção. À perda da nacionalidade, soma-se o desnorteio religioso, ambos associados na desintegração da fé e das referências. “Cuál es mi religión y cuál es mi país. Esas son las dos cosas a las que uno puede pedir y yo no tengo claro a quién pedirle nada. Esto es lo que se llama ABANDONO total” (p.323, maiúsculas do autor). Chega a ser irônico que, depois de tantas aflições identitárias, Konrad termine os dias com Josefina, que dormia com ele em uma pensão barata “sin que le importara un carajo de dónde venía ni para dónde iba ni por qué estaba en las que estaba ni cómo pensaba salir de ellas (p.134)”. Mulher saída de uma região de deslocamentos, o Caribe, e que como prostituta acostumara-se à itinerância, ao ir e vir de anônimos, às relações desenraizadas.
Com motivações diferentes e desenlaces opostos, as experiências de Konrad e Peter compartilham porém várias semelhanças. Nos dois casos, a crise identitária ao chegar à Colômbia não apenas se perpetua como se agrava com as perseguições internas (o antissemitismo, a germanofobia) e a suspensão, mais adiante, do passaporte alemão, que os
lança a um limbo, sem a possibilidade de recorrer a nenhum Estado. Peter, que como judeu se insere numa longa tradição diaspórica, também sente com pesar a perda da cidadania alemã, “como si se tratara de un objeto que se le hubiera extraviado por error, una llave caída de un bolsillo” (p.38). Por outro lado, a ascensão do nazismo havia estigmatizado de tal modo o idioma alemão que todos sentiam “lo terrible que era hablar en familia, usar con cariño o para decir cosas bonitas la lengua que, para todos los efectos prácticos, era la lengua del nacionalsocialismo” (p.142).
As dificuldades de adaptação dos dois – exacerbadas no idioma e nos contrastes culturais – acabam fomentando um fenômeno recorrente em quem abandona um país a contragosto. Trata-se da idealização da terra deixada e a crença num suposto poder redentor da extraterritorialidade – como se, no caso de Peter e Konrad, a distância da Alemanha pudesse dissolver as diferenças que fraturavam o país internamente. A esperança nesta comunidade harmônica é simbolizada, em boa medida, no hotel da família Guterman, batizado sugestivamente de Nova Europa. Ali, a pedido do dono, antagonismos políticos (e preconceitos étnicos) são deixados na recepção e a diversidade se equilibra como pode, sem desbordar para o conflito. A suposição de que esse bom convívio poderia estender-se para todo o país é taxada de ingênua por Sara, que diz que muitos judeus incorreram no mesmo erro (p.147). Uma ilusão parecida pode ter sido a de Konrad ao receber o casal de nazistas – e suportar, inclusive, recriminações a seu casamento –, acreditando que, acima da adesão a Hitler, importava o amor compartilhado pela Alemanha. Em seu ensaio “Nacionalismo e exílio”, Edward Said adverte para essas ciladas: “Como, então, alguém supera a solidão do exílio sem cair na linguagem abrangente e latejante do orgulho nacional, dos sentimentos coletivos, das paixões grupais?” (SAID, 2003, p. 50).
Sara e Enrique, em contrapartida, assumem uma identidade maleável, ambígua, em constante tensão. A inadaptação do pai representa para Enrique um antiexemplo que o faz lançar-se na direção contrária, rejeitando a linhagem germânica e esforçando-se em ser o exato oposto de Konrad: seguro, eloquente, sedutor. A recusa a essa herança deve-se não apenas aos fracassos do pai, mas também aos estigmas que, como vimos, fixaram-se entre os alemães daqueles anos. Apesar do radicalismo da juventude, Enrique chega à velhice com uma identidade híbrida: adota um filho moreno, muda de cidade e permite que o sotaque bogotano se contamine pelo espanhol de Medellín (p.297). Paralelamente, mostra-se flexível nas negociações identitárias, mantendo vínculos afetuosos com o idioma alemão.
A figura de Sara, da mesma forma, encarna a posição intermediária que caracteriza o sujeito diaspórico. Exemplo disso são as diversas vezes em que, por dominar os dois idiomas,
aparece como mediadora, ou conciliadora, em situações de encontro entre colombianos e falantes de alemão. Uma das mais relevantes ocorre pouco depois de chegar à Colômbia, aos 14 anos, quando atua como intérprete na reunião de um empresário suíço com o então presidente do país, Eduardo Santos, tarefa que possibilitou à família o apoio fundamental de Santos para a construção do Hotel Sabaneta.
Apresentada como uma mulher “prudente, incrédula, reticente” (p. 56), Sara também personifica a ideia de “estar dentro e fora”, apontada por Stuart Hall (2003, p. 416) como definidora da experiência diaspórica. A personagem não se identifica mais com a Alemanha, mas tampouco deixa de considerar a Colômbia um país estranho, mantendo um olhar permanentemente crítico. O distanciamento de seu país natal e da identidade que carregava aprofunda-se com o passar do tempo: ela afasta-se do judaísmo, monta árvore de Natal e, por mais que queira, não consegue explicar o trânsito entre sua própria infância alemã e a que vivem seus netos, “gente tan alejada de Emmerich [sua cidade natal], y de la sinagoga de Emmerich, como era posible” (VÁSQUEZ, 2004, p.81). “Los demás ven a sus hijos y se ven en ellos”, diz. “A mí eso no me va a pasar, somos distintos. No sé si importe”, comenta (idem), em um dos vários trechos em que reflete sobre sua identidade.
As repercussões do deslocamento em sua memória emergem com intensidade na viagem que faz a Emmerich, 30 anos depois de se mudar para a Colômbia. Suas reações confirmam o que diz Abril Trigo sobre o retorno à terra deixada após um período de afastamento – trata-se, segundo ele, de “umas das experiências máximas de estranhamento”, quando “o então-lá longamente preservado na memória se torna irreconhecível no aqui-agora do reencontro” (TRIGO, 2003, p.56-58, tradução nossa). Entre lembranças modificadas e episódios esquecidos, Sara percebe que a Alemanha já não é seu país, “no en el sentido, por lo menos, que un país pertenece a la gente normal” (VÁSQUEZ, 2004, p.190). Até o medo de chorar em público – que temia, por contrariar a determinação do pai – desaparece ao chegar à cidade da infância. Nem o túmulo de sua irmã, de quem mal se lembrava, consegue emocioná-la, e a antiga sinagoga da cidade não lhe parece muito mais do que um bloco de concreto. Anos depois, Sara muda-se de Duitama – onde ficava o hotel da família – para Bogotá, e se recusa a sair da cidade, apesar da recomendação dos médicos, que, devido a seu aneurisma, aconselham-na a viver em um lugar mais próximo do nível do mar.
A contraposição a estes deslocamentos está em Gabriel pai e Gabriel filho, que se recusam a deixar Bogotá, embora mantenham uma relação conflituosa com a cidade e o país. Chama atenção que, na juventude, o pai use a palavra “asilo” (p.122) para se referir ao Hotel Sabaneta, para onde vai nos fins de semana, fugindo da atmosfera de luto que sufocava sua
casa. Ali, rodeado por estrangeiros de todo o mundo, vive uma espécie de autoexílio, estabelecendo convívio tão íntimo com alemães que chega a dominar o idioma. Mais tarde, sua inarredável presença na Colômbia – de onde jamais se ausentará – explica-se pelo prestígio que a oratória lhe garante na sociedade. Em carta enviada ainda jovem a Sara, Gabriel refere-se ao “poder terrible” que as palavras outorgam em um país como a Colômbia, onde alguém ainda é capaz de moldar seu meio porque as palavras importam (p.192). Linhas antes, usa um ditado latino (Ubi bene ibi patria) para justificar o desinteresse em deixar o país. “Uno es de donde mejor se siente, y las raíces son para las matas. Todo el mundo lo sabe, ¿no es cierto?”(idem).
Neste quesito, as inclinações de Gabriel filho são idênticas. “Acaso ésta sea otra de las herencias de mi padre: la voluntad de no ser expulsado por esta ciudad tan diestra en expulsiones” (p.276), afirma, a poucas páginas do fim. A surpreendente declaração de apego – depois de inesgotáveis críticas à Colômbia e Bogotá – é mais uma das contradições do personagem, conforme vimos no tópico anterior. Nem sempre Gabriel se exclui dos reproches que faz aos colombianos. Quando Sara, por exemplo, liga para comunicar o acidente de seu pai, diz que a escutava “con cierta distracción y un efímero lamento altruista, como suele escucharse la noticia de una muerte ajena en Colombia” (p.97). Porém, menos que contraditória, a conciliação de um acentuado tom crítico com o apreço à cidade denota, mais uma vez, uma posição intermediária, um “estar dentro e fora ao mesmo tempo” que permite ao personagem um pertencimento reflexivo, uma inserção insubmissa.
Em um breve ensaio sobre a condição de escritor deslocado19, Vásquez fez o seguinte comentário sobre Los informantes:
[...] quiero pensar que todas las condiciones de mi experiencia como inquilino – las incertitumbres, las particularidades de una vida más o menos itinerante, la experiencia fragmentada, la percepción desde fuera de un país inestable y, sobre todo, el tratamiento de ese país como territorio desconocido – están incluidas de manera tácita en la novela (2009, p.188).
De fato, pela voz do narrador ou dos outros personagens, o livro contém diversas reflexões sobre a experiência do deslocamento. A identidade nacional, ou o pertencimento aos lugares, é uma questão generalizada e determinante nas vicissitudes individuais. Ao especular sobre os rumos de Enrique, Gabriel diz que, depois da morte do pai, ele teria começado a viver “como la criatura sin espalda, sin nacionalidad fija y de sangre mezclada que a veces, de
19
joven, le hubiera gustado ser” (p.212). Diz também que manter uma ausência de vinte anos tem suas consequências, e que Enrique, ao chegar a Bogotá, descobriria que aquela cidade não era mais a sua (p.217). Finalmente, refere-se à “claridad de los desterrados” (p.218).
Queremos entender esta observação como uma autorreferência, a afirmação de um lugar enunciativo que o autor, oito anos depois de deixar a Colômbia, acabava de encontrar para, finalmente, escrever sobre seu país.