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5. ENDÜSTRİ 4.0 IŞIĞINDA İŞ SAĞLIĞI VE GÜVENLİĞİ

5.4. İş Kazası

As névoas que encobrem a delação – e dão aos personagens uma complexidade infensa a julgamentos cabais – espalham-se na verdade por todo o romance, que assume a ambiguidade como elemento indispensável para uma abordagem crítica da memória. Lacunas e contradições aparecem não apenas na matéria investigada, mas também no investigador, nas razões que o movem, nos procedimentos que adota e, inclusive, na eficácia de seu trabalho. A provisoriedade de seus esforços – que jamais podem ser concluídos frente à mobilidade do passado – realça a impossibilidade de uma postura ingênua em relação à escrita e à memória.

O romance mostra o amadurecimento do protagonista a esse respeito. Los informantes, livro que Gabriel escreve dentro da obra, é não somente uma herança da morte do pai, como ele mesmo diz (p.94), mas também uma resposta às omissões de seu livro anterior, Una vida en el exilio, que ao contar a vida de Sara evoca as listas negras sem mencionar uma única vez seu pai. Nesta nova tentativa, Gabriel não consegue evitar novos erros13, mas se mantém

12 Além disso, pesquisadores do compositor alemão, como Barry Millington (1991), apontam o antissemitismo

subjacente à obra, especialmente na caracterização do personagem Beckmesser, cantor medíocre e desleal derrotado pelo herói da ópera.

13 Como quando acredita que o pai estava apenas começando a estudar alemão, idioma que, depois vem a

saber, dominava na juventude. A retificação é feita no terceiro escrito co tido o o a e, o Posts iptu de , f uto de seu e o t o o E i ue.

permanentemente desconfiado, colocando em xeque tudo o que ouve, o que lembra e o que escreve.

O personagem recorre o tempo inteiro à memória, em recordações próprias e interpelações a terceiros, porém alerta para as ciladas e sinuosidades da lembrança. Gabriel sabe que, mesmo inconscientemente, a memória segue rumos tortuosos que, com frequência, se distanciam do ponto de partida. Com maior ou menor intensidade, lembrar é sempre criar, e por isso ele busca documentos capazes de corrigir sua memória quando necessário (p.94). É preciso, conforme afirma, obter provas que extrapolem o campo meramente imaginário (p.285),

No soy escéptico por naturaleza, pero tampoco soy ingenuo, y sé muy bien de qué magias baratas puede valerse la memoria cuando le conviene, y, al mismo tiempo, sé que el pasado no es inmóvil ni está fijo, a pesar de la ilusión de los documentos: tantas fotografías y cartas y filmaciones que permitem pensar en la inmutabilidad de lo ya visto, lo ya escuchado, lo ya leído. No: nada de eso es definitivo (p.94).

A postura cautelosa, no entanto, não lhe tolhe o ímpeto de rastreador secreto de memórias, desbravador de espaços íntimos obcecado em capturar lembranças que, reprimidas ou manipuladas, correm o risco de se perder. A ameaça de esquecimento paira particularmente intensa sobre a época que investiga, a Segunda Guerra Mundial, cujos sobreviventes são cada vez mais raros – e seus herdeiros nem sempre estão interessados em rememorar o passado familiar. Este aspecto do romance capta com perspicácia uma mudança fundamental na memória da Segunda Guerra. Com a morte da maioria das testemunhas, as reconstruções memoriais têm sido cada vez mais realizadas por herdeiros diretos e indiretos do conflito. Assim, no lugar da memória testemunhal, surge uma memória que o professor norte-americano James Young (2000) denominou de “vicária” – ou seja, exercida por quem não viveu diretamente as experiências lembradas. Outra categoria proposta para designar praticamente o mesmo é a de “pós-memória”, concebida por Marianne Hirsch (1997); em linhas gerais, refere-se à memória dos filhos sobre a memória dos pais.14

Sabe-se que fatos não experimentados podem ser lembrados se fizerem parte de um cânone de memória familiar, escolar, individual, política (lembro que meu pai lembrava..., lembro que na escola ensinavam..., lembro que aquele monumento lembrava... etc.), e se traduzem num discurso distante de quem exerce a memória a partir da experiência vivida (WALDMAN, 2009).

O alheamento dos filhos de Sara, assim como dos descendentes de outros alemães – “gente que [...] en algunos casos ni siquiera había escuchado la lengua fuera de las interjecciones o los insultos de un abuelo rabioso” (p.265-266) –, ilustra o isolamento de

14 Não entrarei aqui nas críticas, bastante duras, que Beatriz Sarlo (2005) faz aos dois acadêmicos e suas

Gabriel, o caráter solitário de sua jornada. “Seamos realistas, tú y yo estamos solos. Estas historias ya no le importan a nadie”, lhe diz Enrique (p.334). A solidão do protagonista é reforçada por sua condição de órfão. Gabriel começa o romance sem a mãe, perde depois o pai e, por último, fica também sem Sara, que considerava parte de sua família. Para além do impacto pessoal, as duas mortes representam para ele o desaparecimento, talvez irremediável, de experiências que desejava ver transmitidas.

Yo recordaba las palabras grabadas, levantaba la cabeza para ver a los otros comensales – mi familia – y pensaba eso que es siempre increíble: esto pasó a ustedes. Esto, que pasó hace medio siglo, les pasó a ustedes, y aquí están ustedes, vivos todavía, fungiendo como testimonio tangible de hechos y circunstancias que quizás morirán cuando ustedes mueran, como si ustedes fueran los últimos seres humanos capazes de bailar un baile andino que nadie conoce, o como si supieran de memoria la letra de una canción que nunca se ha puesto por escrito y que se perderá para el mundo cuando ustedes la olviden (p.85-86, grifo do autor).

Gabriel se nega a aceitar essa perda; insurge-se contra o esquecimento, convencido da importância de lembrar o passado e buscar com isso um esclarecimento sobre o presente. A luta pela memória – que se confina e esvanece entre culpas e rancores – o impele ao interior de residências, escarafunchando gavetas, remexendo fotos e surrupiando cartas de arquivos familiares. Sua principal justificativa, que não chega a formular, é o chamado “dever de memória” (HEYMANN, 2006), ou seja, o compromisso de não deixar que certos acontecimentos caiam no esquecimento, sob o risco de que voltem a ocorrer. Um exemplo desse esforço é a série de conferências que organiza com Sara, objetivando, precisamente, evocar fatos esquecidos cuja discussão, em meio às comemorações dos 50 anos da Segunda Guerra, tornava-se, “más que permisible, pertinente y necesaria” (idem, p.266).

O trabalho de Gabriel está ligado ao que Walter Benjamin chama de rememoração (Eingedenken), que contém diferenças fundamentais em relação à comemoração, como diz Jeanne Marie Gagnebin. Enquanto esta “desliza perigosamente para o religioso ou, então, para as celebrações de Estado, com paradas e bandeiras”, a rememoração, em vez de repetir aquilo de que se lembra, “abre-se aos brancos, aos buracos, ao esquecido e ao recalcado, para dizer, com hesitações, solavancos, incompletude, aquilo que ainda não teve direito nem à lembrança nem à palavra” (GAGNEBIN, 2006, p.55). “A rememoração também significa uma atenção precisa ao presente, em particular a estas estranhas ressurgências do passado no presente, pois não se trata somente de não se esquecer do passado, mas também de agir sobre o presente”, complementa Gagnebin (grifo da autora).

O passado que o pai queria ver adormecido torna-se um mar encapelado a partir das circunstâncias do presente. Não por acaso, o eminente mestre de retórica expressava horror ao jornalismo e outras práticas que, fincadas na atualidade, movem-se naturalmente por outros

tempos. Recordando-se do desprezo, dos sarcasmos aparentemente inofensivos com que o pai diminuía seu trabalho, Gabriel filho diz que “nada le generaba tanta desconfianza como alguien que se dedica a lo contemporáneo [...]. Prefería tratar con Cícero y Herodoto; la actualidad le parecía una práctica sospechosa, casi infantil [...]” (p.62). Este temor incute a compreensão da continuidade do passado, a consciência de que não há histórias definitivas nem silêncios incapazes de ser quebrados.

O livro de Vásquez não faz uma defesa incondicional da memória. Para o autor, a importância da rememoração não a isenta de um exame crítico. Por mais frutíferos que possam ser, os procedimentos do protagonista lhe causam conflitos éticos que ecoam por toda a obra. Reiteradas vezes, Gabriel se define como um ladrão – de memórias, histórias, documentos –, alguém que, traindo a confiança dos outros, rouba experiências para escrever seus livros. Longe de ser inédita, a ideia da escrita como fruto de um roubo já foi usada por escritores como Ricardo Piglia (1973), em referência a Roberto Arlt, e John Banville (2015), em recente entrevista à BBC. Contudo, na obra de Vásquez, a alusão tem outra complexidade, já que a „mercadoria‟ roubada é, muitas vezes, uma lembrança traumática que se deseja ver esquecida. É o que protesta Gabriel pai, exaltado, sem saber que a exposição que temia ocorreria somente depois de sua morte.

La memoria no es pública, Gabriel. Eso es lo que ni tú ni Sara han entendido. Ustedes han hecho públicas cosas que muchos queríamos olvidadas. [...] Por eso te habría denunciado, por estafador, además de mentiroso (p.74-75).

As acusações não detêm Gabriel, mas reverberam em seu pensamento até o fim do romance. Ao ir ao encontro de Enrique, ele pensa no “oficio cobarde y parasitario de referir la vida de los demás, así sean los demás gente tão próxima como un padre o una buena amiga” (p.284).

Al dármelas, al permitirme el acceso a ellas aunque fuera por una noche, había confiado en mí. Pero las cosas no salieron como ambos lo hubiéramos preferido: tan pronto como leí la primera carta supe que acabaría por traicionar esa confianza, y al llegar a la mitad de la segunda me puse en la tarea de traicionarla (p.321).

Se o fim muitas vezes justifica os meios, como poderia dizer Gabriel, este argumento se invalida quando as buscas cedem vez ao voyeurismo e o personagem viola intimidades sem qualquer propósito que não seja o de satisfazer suas ânsias mais recônditas (p.222).

Soy de los que abre puertas de baños ajenos para mirar qué perfumes, o qué analgésicos, o qué anticonceptivos usan los otros; abro mesitas de noche, esculco, miro, pero no busco secretos: encontrar vibradores o cartas de un amante me interesa tanto como una billetera vieja o un antifaz para dormir. Me gustan las vidas ajenas; me gusta examinarlas a mis anchas. Es probable que al hacerlo viole varios principios de la discreción, de la confianza, de las buenas maneras. Es muy probable

Em momentos como esses, Gabriel se entrega a um impulso voluptuoso cuja falta de utilidade prática assemelha-se às conexões lascivas que, segundo Barthes (1987), leitor e escritor estabelecem com o texto literário. O protagonista se diz guiado por “perversiones” e “fetiches” (p.222), palavras bastante usadas pelo autor francês na descrição sensualista que faz da literatura. “O texto é um objeto fetiche e esse fetiche me deseja”, escreve Barthes em O prazer do texto (1987, p.37). “Perversidade do escritor (seu prazer de escrever não tem função), dupla e tripla perversidade do crítico e do seu leitor, até o infinito”, comenta em outro fragmento (idem, p.25, nos dois casos grifo do autor)15.

A perversão do personagem é reforçada por referências sexuais que, embora discretas, aparecem em diversos trechos, estimulando sua curiosidade e alimentando suas culpas. Logo no começo, Gabriel relata a angústia que sofreu quando jovem ao saber que o diagnóstico de câncer de sua mãe foi dado no mesmo dia em que teve uma das primeiras ejaculações da vida, masturbando-se na frente de um catálogo de roupa íntima (p.48). Mais adiante, numa associação parecida, diz que o pai morreu na noite em que fazia sexo com uma amiga.

A veces se me ha llegado a ocurrir la posibilidad de esa coincidência: que T se hubiera sentado encima de mí y estuviera bajando y subiendo sobre mi erección como suele hacerlo, justo en el momento en que mi carro (manejado por mi padre) y el bus de Expreso Bolivariano (manejado por un tal Luis Javier Velilla) se desbarrancaban juntos a pocos kilómetros de Medellín (p.96-7).16

Desprezadas inicialmente, as críticas de um resenhista – que o acusa de narcisismo e exibicionismo (p.272) – levam Gabriel a considerar que, talvez, transformar em público o privado seja “un comportamiento tan enfermo como el de los hombres que van por las calles mostrándoles a las mujeres una verga gruesa por el simple placer de chocarlas” (idem). As reclamações de um amigo – contrariado por ser inadvertidamente incluído no livro – também o deixam ressabiado ao comparar sua obra com a entrevista despudorada de Angelina.

Gabriel beira o incestuoso ao ligar para Angelina da cama do pai morto, perguntando, em certo momento, como ela está vestida. Antes do telefonema, encontra um exemplar do Kama Sutra e chega a imaginar o pai e a namorada em uma das posições indicadas no livro. „“Cuando ella sujeta y masajea el lingam de su amante con su yoni, esto es Vadavaka, la Yegua‟. Angelina la yegua masajeaba el lingam de mi padre, aquí, en esta cama [...]” (idem, p.226).

15 Em artigo para o jornal Público (2013), o escritor português Valter Hugo Mãe também se reconheceu nesta

o dição: O es ito u pe ve tido po ue te tado pela i ti idade o o leito .

16 A experiência do sexo em um momento trágico aparece também em El ruido de las cosas al caer, quando o

p otago ista, A to io Ya a a, diz ue estava o u a a iga , p. o o e to da o te do candidato à presidência Luis Carlos Galán.

As conversas com Angelina evidenciam outra contradição do protagonista. Ao mesmo tempo que se rebela contra a manipulação das palavras – usurpando o passado e produzindo o esquecimento –, Gabriel trata a fisioterapeuta com superioridade, ridicularizando seu gosto e o manejo que faz do idioma. “No tiene que hablar de puertas”, diz (p.235), debochando de uma metáfora usada por Angelina. “Yo hablo como me dé la gana. Si no le gusta me callo, yo no hablo tan bien como ustedes” (p.235), responde ela.

Neste sentido, Gabriel incorpora um dos aspectos mais pronunciados da personalidade do pai: a soberba na utilização das palavras. Esta reprodução ressalta a complexidade de sua relação com a herança, e nos faz atentar, mais uma vez, para o lugar sempre ambíguo que ocupa como narrador. Gabriel esgrime interesses múltiplos em um percurso de contornos difusos. As fronteiras entre o ético e o imoral, o pessoal e o coletivo, o público e o privado não são as únicas que desafia em seu périplo pelo passado. Memória e história, jornalismo e biografia também se entrelaçam em seu trabalho.

Embora se valha principalmente da memória, Gabriel adota procedimentos historiográficos, como o amparo em documentos, a confrontação de dados e a transposição do discurso oral para o regime escrito. As descobertas que faz sobre o pai lhe inspiram cautela redobrada com os testemunhos. Sua postura reflete a decepção que tem com Sara, sua maior informante, que em Una vida en exilio moldou seu relato de forma a poupar a figura do melhor amigo. “„No te hagas la boba. ¿Tú sabías? Y si sabías, ¿por qué no está eso en el libro? ¿Por qué no me lo contaste durante las entrevistas?‟”, revolta-se Gabriel, ao saber que ela omitira a participação de seu pai em episódios relatados em seu primeiro livro (idem, p.77).

A parcialidade dos depoimentos de Sara não é a única amostra da natureza dupla dos testemunhos, sua condição essencial mas ao mesmo tempo falível. Em cada um dos interlocutores – como Angelina e Enrique –, Gabriel pressente omissões, razões subterrâneas por trás do que dizem. Como afirma Ricoeur (idem, p.504), por ser o “ato fundador do discurso histórico”– ou seja, o momento de transposição da memória para a história, da oralidade para a escrita – é natural que o testemunho seja questionado e confrontado com outros depoimentos. “A história pode ampliar, completar, corrigir, e até mesmo refutar o testemunho da memória sobre o passado, mas não pode aboli-lo”, diz o filósofo (idem, p. 505).

Até que ponto, no entanto, pode servir o rigor documental em um discurso parcial como o biográfico? Teria um filho a idoneidade para escrever sobre o pai e a melhor amiga do pai? A questão se impõe sobre os dois livros de Gabriel, porém com mais intensidade no

segundo, já que, além de seus dois principais personagens, ele próprio se representa no texto, assumindo sua parcialidade na perspectiva em primeira pessoa. Enquanto Una vida en el exilio é narrado em terceira pessoa e descrito por Gabriel como “un reportaje con título de documental para televisión” (p.13), Los informantes recebe diversos rótulos que explicitam, antes de tudo, sua condição híbrida: “confissão” (p.271, p.272, p.285), “crônica” (p.265), “memória” (p.273), “biografia” (p.273). Apesar das fronteiras porosas entre esses gêneros, chama atenção a reincidência da palavra confissão, que aparece também descrevendo o discurso de outros personagens, como Konrad, Sara e Gabriel pai. Nas entrevistas que concedeu ao narrador, Sara, “menos que responder, se confesaba” (p.28). Já Gabriel pai diz que, ao se casar, confessou tudo à mulher. “„La confesión es un gran invento‟. [...] „Los curas se las traen, Enrique, los tipos sabem cómo es la vaina‟” (p.304).

Confessar-se, para Sara e Gabriel, representa a possibilidade de se aliviar do peso de um passado que se tornou insuportável, seja pela culpa, seja pela experiência silenciada. Do ponto de vista literário, Alberto Giordano nota que, “menos que na verdade, que é informe e indistinta, quem se confessa pensa no futuro de seu ato”, nas possibilidades de transformação que ele encerra (GIORDANO, 2008, p.28, tradução nossa). María Zambrano aponta o desejo de se curar da desordem e da dispersão sofridas por uma vida quando a razão abre um abismo entre ela e a verdade (apud GIORDANO, idem).

Este ponto salientado por Zambrano – a luta contra a desordem – é, precisamente, um dos objetivos citados por Gabriel para explicar seu interesse pela escrita. Não por acaso seu relato começa com uma cena de caos, destruição e descontrole provocada por um dilúvio em Bogotá. Gabriel reconhece o que há de temerário em sair de casa nessas condições, mas ainda assim atende ao chamado do pai e se arrisca pela cidade desgovernada. O embate com a instabilidade prossegue por todo o livro e se estende, naturalmente, a outras instâncias. Um pai que, do dia para a noite, converte-se no oposto do que sempre fora. Um país tomado pela violência onde voltar para a casa é questão de sorte (p.20). Neste mundo inseguro, inconstante, imprevisível, Gabriel se entrega à escrita com a esperança de encontrar uma ordem, compreender um fluxo de acontecimentos que “siempre es desordenado y confuso” (p.32).

Mas sua fé esmorece no decorrer do romance. As sucessivas revelações do passado e as crueldades cada vez maiores da história colombiana mostram a insuficiência de seus esforços de compreensão. O assassinato do jogador Andrés Escobar – dias depois de ser responsabilizado pela eliminação da Colômbia na Copa – representa para o protagonista a gota d‟água,

un memorando [...] que subrayaba, más que la imposibilidad de entender a Colombia, lo ilusoria, lo ingenua que era toda intención de hacerlo escribiendo libros que muy pocos leen y que no hacen más que traer problemas a quien los escribe (p.279-280).

Longe de fornecer respostas, os livros deixam apenas perguntas ao autor e seus leitores. A dubiedade do protagonista o faz, simultaneamente, confiante e descrente no poder da escrita. A reticência é expressa já na primeira página, ao dizer que “contaba o trataba de contar” a vida de Sara (p.13, grifo nosso). A partir do quarto capítulo, o ceticismo fica ainda maior, quando as revelações sobre o pai demolem suas convicções mais sólidas. Refazendo com Sara a ronda final de Konrad, Gabriel observa que “nada, ni el relato más hábil, podía reemplazar la potencia del mundo de verdad, el mundo de las cosas tangibles y de gente que se frota contra uno y se choca contra uno [...]” (p.248-249). Mais adiante, prestes a encontrar Enrique, refere-se à “superioridad de los hombres vivos sobre nosotros, los simples habladores, los cuentacuentos, los comentaristas” (p.284), sentindo-se inseguro porque “sólo había redactado un informe, mientras él lo había vivido” (idem). O próprio Enrique suspeita ser incapaz de fazer com que o filho reviva as experiências que teve 50 anos antes. “¿Eso cómo se hace? Hasta imposible será” (p.297).

Esta desconfiança quanto às possibilidades da narração aparece em toda a trilogia e é decisiva para o final infeliz dos romances. Submetidos aos mais ásperos acontecimentos, os personagens não encontram na escrita explicações que os tranquilizem, nem alimentam esperanças quanto à receptividade e o poder transformador dos relatos. O aprendizado que registram é o da perda da inocência. O mundo é mais inseguro do que pensavam. Não há

Benzer Belgeler