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I. BÖLÜM

6. Nefsin Hastalıkları ve Tedavi Yolları

Oliveira (1981) trata das relações entre a agricultura e a indústria no Brasil discutindo a ação do capital monopolista e a produção no campo. Salienta que seu estudo faz parte de um debate teórico “num momento histórico marcado pela luta dos trabalhadores da cidade e do campo contra o capitalismo monopolista” (p. 5). Como pesquisador assume sua posição nesse debate, sabendo que ele sofre alterações à medida que avança a luta dos trabalhadores, pois, “essa luta ao avançar, coloca-nos diante da necessidade urgente de pensar (para transformar) o futuro, e conseqüentemente encontrar o caminho (de preferência o mais curto) rumo a outra ordem social, no mínimo mais justa que a atual” (p. 5).

Oliveira (1981) entende que a expansão do modo capitalista de produção no campo se dá primeiro e fundamentalmente pela sujeição da renda da terra ao capital, quer comprando a terra para explorar ou vender, quer subordinando a produção de tipo

camponês. Explica que a expansão do capital se faz de forma desigual e contraditória. “É assim que ocorre com a chamada ‘modernização conservadora’” (p. 11) constituindo numa contraproposta à tese defendida por Silva (1981) na obra “A modernização dolorosa”. Por estar noutra direção a compreensão da expansão do capital na agricultura, Oliveira (1981) entende que a produção camponesa suporta a atrelagem exercida pelo capitalismo monopolista que a subordina num processo de sujeição da agricultura à indústria, provocando transformações abrangentes com a integração horizontal exercida pelas multinacionais:

A avicultura é sem sombra de dúvida o setor que tem apresentado nos últimos anos, transformações violentas. Desenvolvia ao sabor do capital comercial, que se incumbia de transacioná-la nas grandes cidades, a avicultura hoje é um apêndice da chamada integração horizontal exercida pelas multinacionais de ração (Sadia, Ralston Purina, Cargill, Central Soja, etc.) que fornecem “gratuitamente” ao proprietário dos galpões (que representam os maiores investimentos no setor, hoje subsidiado pelo Banco do Brasil) o pintainho e a ração além de outros tipos de assistência. O produtor cuida da criação e depois entrega os frangos (geralmente 60 dias após) a essas indústrias que lhe dá 10% do preço de mercado do frango (OLIVEIRA, 1981, p. 35).

A atrelagem da avicultura à indústria implica na subordinação, submissão e dependência dos camponeses produtores, retirando do campesinato qualquer perspectiva. Ou produzem para a indústria nas condições exigidas por ela ou ficam fora do processo produtivo. Para não serem isolados do processo produtivo e nem estarem sob o jugo das indústrias, parte do campesinato no Brasil decide lutar contra essa lógica perversa, se organizando para lutar pela terra.

Historicamente no Brasil o camponês se destaca por ser aquele que luta contra o capital e sua lógica, visando manter o domínio dos meios de produção. Ele resiste contra a expropriação e a exploração capitalista criando e recriando a condição camponesa e “inventando” alternativas para permanecer camponês e, contraditóriamente, participar do avanço do capitalismo no campo. Compreender essa forma de fazer agricultura no Brasil consiste em reorganizar teorias nas quais são defendidas as teses do paradigma da questão agrária, como a que fez Oliveira (2001) na sua obra “A agricultura camponesa no Brasil”.

Agricultura camponesa é aquela que se organiza a partir do trabalho familiar diferenciando-se da agricultura capitalista que se organiza a partir do trabalho assalariado. Oliveira (2001) constata a partir dos dados censitários agropecuários de 1970, 1975, 1980 e 1985 que a agricultura camponesa é predominante no

desenvolvimento capitalista no campo brasileiro. Como explicar que a modernização da agricultura, desde a década de 1970, não teve forças para implantar a agricultura capitalista de forma plena no campo? Como explicar a não efetivação total e absoluta da mão de obra assalariada, já que ela é a principal característica do modo de produção capitalista? Como o camponês se atreve a permanecer se desenvolvendo no capital e romper com as amarras advindas da sua lógica?

Esses questionamentos estão presentes nas análises de Oliveira (2001) que organiza suas reflexões na busca de respostas para esses e outros questionamentos em três tópicos: a) analisando as contradições do desenvolvimento capitalista na agricultura; b) examinando as questões teóricas da agricultura camponesa e c) estudando os conflitos pela terra no Brasil.

As contradições do desenvolvimento capitalista na agricultura se efetiva pelo aumento simultâneo do trabalho assalariado e familiar e pelo aumento simultâneo do latifúndio e dos posseiros na luta pela terra, num avanço contraditório e desigual como esclarece Oliveira (2001):

Se, de um lado, o capitalismo avançou em termos gerais por todo o território brasileiro, estabelecendo relações de produção especificamente capitalistas, promovendo a expropriação total do trabalhador brasileiro no campo, colocando-o nu, ou seja, desprovido de todos os meios de produção; de outro, as relações de produção não-capitalistas, como o trabalho familiar praticado pelo pequeno lavrador camponês, também avançaram mais (OLIVEIRA, 2001, p. 11).

As análises de Oliveira ajudam compreender que o capital não só não destrói o trabalho familiar camponês, como também “o cria e recria para que sua produção seja possível e com ela possa haver também a criação, de novos capitalistas” (2001, p. 20). A parceria consiste em outra modalidade de produção não-capitalista entre as relações capitalistas de produção como em Martins (1979) e Luxemburg (1985). Através dela o capitalista poupa investimentos em mão-de-obra como acontece nas reformas das pastagens, por exemplo.

É preciso entender que a força do trabalho familiar é o motor do processo de trabalho na produção camponesa. Ela é característica básica e fundamental da produção camponesa (Oliveira, 2001, p. 55-58) e, se houver assalariamento não se trata de um trabalhador expropriado totalmente. Como também o camponês que o contrata não é um capitalista e não trava com ele uma relação social de produção capitalista, “ao contrário, a forma de salário ocorre no interior da produção camponesa em função do

ciclo de existência da família. Neste sentido, a soma de dinheiro gasta no pagamento de salários aparece como redução do rendimento familiar” (SANTOS, 1978, p. 43-44 apud OLIVEIRA, 2001, p. 59).

Com relação às questões teóricas sobre a agricultura camponesa esclarece Oliveira (2001) que “a produção camponesa, [...], tem sido relegada a um plano secundário, embora todos saibam que aí reside um dos pontos de discórdia entre as várias vertentes teóricas” (p.47). A discórdia entre essas vertentes está na diferenciação que elas fazem do significado da exploração camponesa para o modo de produção capitalista. Ou, colocando em forma de questionamento: é possível conviver dentro do modo de produção capitalista duas maneiras distintas de exploração agrícola? Uma que se desenvolve a partir da força de trabalho familiar e outra que se desenvolve a partir do trabalho assalariado? Para o paradigma do capitalismo agrário a tendência é a cooptação da exploração capitalista pela hegemonia científica e tecnológica cuja força destrói tudo o que se encontra à sua frente de forma absoluta, transformando direta ou indiretamente, toda produção agrícola em mercadoria. E, pela mesma lógica capitalista, o camponês será metamorfoseado em agricultor familiar, o que significa dizer que a agricultura camponesa deixará de ser modo de vida para se transformar em uma atividade profissional cuja denominação adequada configura-se no conceito de agricultura familiar.

Para os teóricos do paradigma da questão agrária como Martins (1979); Oliveira (2001) e Luxemburg (1985), o modo de produção capitalista

não é na essência um modo de produção de mercadorias em seu sentido restrito, mas sim modo de produção de mais-valia. Assim, esse processo contraditório de reprodução capitalista ampliada do capital, além de redefinir antigas relações subordinadas à sua reprodução, engendra relações não-capitalistas igual e contraditoriamente necessárias à sua reprodução (OLIVEIRA, 2001, p. 48).

Por conseguinte, a convivência e o desenvolvimento dessas duas maneiras distintas de exploração agrícola não só é possível como necessária para a reprodução e acumulação do capital, que “desta forma, o capital igual e contraditoriamente desenvolve-se, permitindo a reprodução da produção camponesa, mas subordinando-a por todos os lados” (p. 60). Juntamente com a produção camponesa de base familiar está o regime de propriedade da terra. A propriedade familiar é propriedade privada, mas não capitalista com explica Oliveira (2001), pois,

a propriedade familiar não é propriedade de quem explora o trabalho alheio. Estamos diante da propriedade direta de instrumentos de trabalho que pertencem ao próprio trabalhador. É pois, terra de trabalho. É

portanto, propriedade do trabalhador, não é fundamentalmente instrumento

de exploração (OLIVEIRA, 2001, p. 61. Grifos no original.).

Analisando os conflitos pela terra no Brasil, Oliveira explica que eles se constituem na luta pela terra de trabalho empreendida pelos posseiros, índios, garimpeiros, seringueiros, colonos, trabalhadores rurais sem terra num enfrentamento violento, com derramamento de sangue, representado pelas marcas históricas da resistência camponesa. A violência contra a forma camponesa de fazer agricultura é a marca da exploração capitalista da terra em que o território capitalista brasileiro foi (e continua sendo) resultado da conquista e da destruição do território camponês. Por essa razão é necessário ampliar a compreensão da luta de classes pelo domínio e controle do território. É no território que os interesses antagônicos das classes sociais se efetivam, razão pela qual é imprescindível estudar esse conceito entendendo-o como campo de força (Raffestin, 1993) no qual se materializam as disputas capital-trabalho geradoras de conflitualidades (Fernandes, 2008).