• Sonuç bulunamadı

I. BÖLÜM

2. Nefs Kavramı ve Nefsin Güçleri

Como Ploeg (2008), Sabourin (2009) também identificou o processo de invisibilização sobre o campesinato no Brasil onde as análises interpretam o termo camponês como termo “recente no Brasil (anos 50). Sua origem é política, sendo associada às reivindicações da esquerda latino-americana em torno dos “campesinos” (p.29). E, justifica que, parte dessa interpretação, se deve ao modelo de desenvolvimento da agricultura brasileira, por privilegiar a grande propriedade produtora de monocultura exportadora. Para esse modelo o campesinato ocupa posição acessória e, de certa forma, dispensável.

Apesar de não ter utilizado o termo recampesinização, as análises de Sabourin (2009) trataram dessa temática, em que ressalta a reciprocidade e a redistribuição. Ambas constituem, junto com a troca, os modos de integração social diferenciados da troca mercantil. Pelo processo de recampesinização o enorme contingente populacional criará alternativas para se reproduzir com sua multidimensionalidade. Assim, a sobrevivência e a reprodução das famílias camponesas dependem de uma área extremamente reduzida, na qual “fazem de tudo para manejar esse recurso natural vital de forma a preservá-lo” (p. 278).

A precariedade e os obstáculos do acesso à terra incrementa valores culturais e simbólicos, como integrantes das práticas do processo de recampesinização, como, “as relações simbólicas de reciprocidade entre os camponeses e o meio natural, a terra e seus recursos, são ainda mais fortes à medida que o acesso à terra é precário, difícil (SABOURIN, 2009, P. 279). O legado cultural que sustenta o processo de recampesinização vai em direção à herança cultural camponesa em que “os primeiros sistemas de cultura e de criação de animais apareceram na época do neolítico, há menos de 10.000 anos, nalgumas regiões pouco numerosas e relativamente pouco extensas do planeta (MAZOYER e ROUDART, 1998, p. 14).

Para Sabourin um projeto camponês para o século XXI se opõe ao desenvolvimento fundado na troca capitalista que se caracteriza pela dependência, concorrência e exploração. A reciprocidade camponesa se caracteriza pela autonomia, cooperação e qualidade de vida:

A reivindicação, formulada pelos movimentos rurais mais ativos e organizados (MST, MPA, MPAB etc.), de um qualificativo de camponês que se oponha ao modelo de inserção competitiva da agricultura familiar no

mercado de troca capitalista, não é inocente (Aubertin & Píton, 2006). Bastante legítima, essa reivindicação visa o desenvolvimento de um projeto camponês moderno para o século XXI, construído em torno de três características-chave. São elas as noções de autonomia (segurança alimentar, autoconsumo, dispositivos próprios de aprendizagem e de produção de inovação etc.), de cooperação (cooperativas de crédito, fundos de crédito mutualizado, empreendimentos e projetos de economia solidária, etc.) e de qualidade de vida (produção mais sadia e ecológica, proteção dos recursos naturais renováveis, qualidade dos produtos, acesso à saúde e à educação pública etc.) (SABOURIN, 2009, p. 281-282. Grifos no original).

Sabourin debate a função da agricultura camponesa, sua identidade e modos de resistência para o contexto brasileiro no século XXI. Entre os novos elementos estão a análise da agricultura familiar em relação ao desenvolvimento sustentável e à gestão dos recursos de base comum, a evolução das relações de reciprocidade entre camponeses e o avanço das relações mercantis num meio em que o nível de monetização, via de regra, é baixo. Lançando hipóteses em torno da troca, da reciprocidade e da redistribuição, Sabourin considera a integração parcial do camponês como possibilidade de desenvolvimento contrapondo os argumentos de Abramovay (1998) sobre a incompatibilidade frontal entre o campesinato e o capitalismo, pois, “o

capitalismo é por definição avesso a qualquer tipo de sociedade e de cultura parciais”

(ABRAMOVAY, 1998, p. 129. Grifos no original.). Para Sabourin,

o caráter camponês destas comunidades rurais é apenas parcial, sendo por sua vez sujeito a evoluções. Por outra parte, se no Brasil a utilização do modelo camponês (Mendras, 2000) pode funcionar, é precisamente porque integra características como “uma articulação parcial com mercados incompletos” (Ellis, 1988), a importância da economia doméstica (Polanyi, 1957, 1975), o interconhecimento, ou ainda a dependência do poder local ( 2009, p. 22).

Estudando oito unidades produtivas: Unai (MG); Pintadas, Massoroca, Juazeiro (BA); Petrolina (PE); Tauá São Felipe (CE); Campina Grande e Solanea (PB) Sabourin (2009) verificou a teoria da reciprocidade nas práticas de solidariedade prevalecentes nas famílias e comunidades camponesas. Analisou sob um novo ângulo experiências como as de ajuda mútua e a utilização coletiva de fundos de pastos, como formas atualizadas de construção da vida social. Emergem possibilidades adequadas ao exercício de novas funções, no que se refere à condição profissional – sindicatos -, às relações com o mercado – cooperativas – e ao acesso mais amplo a bens e serviços – associações. As relações de reciprocidade em novos dispositivos, explica Sabourin:

É possível consolidar as práticas e iniciativas das comunidades rurais que visam produzir e compartilhar saberes quando novas relações de reciprocidade são estabelecidas com atores externos por meio da criação de

dispositivos de interação ad hoc. No caso da Unicampo e do curso de alternância de Unaí, essa interação se deu entre organizações camponesas e poderes públicos. Os beneficiários da Universidade Camponesa da Paraíba (agricultores das comunidades e dos projetos de reforma agrária do Cariri) associam o sucesso dessa formação coletiva à qualidade de aprendizagem (individual e institucional) e à produção de valores como confiança, partindo-se de relações de dádiva e de compartilhamento de saberes (Coudel & Sabourin, 2005). Em Unaí, o ponto era vencer os complexos ou a desconfiança associados ao estatuto de sem-terra, muitas vezes estigmatizado inclusive pelas outras categorias de agricultores familiares ou de assalariados agrícolas (SABOURIN, 2009, p. 239-240. Grifos no original).

Sabourin (2009) demonstra a existência de uma agricultura camponesa que mantém com o mercado capitalista uma tensa relação de autonomia e que atualizam, no plano material e simbólico, as estruturas de reciprocidade. A economia camponesa é articulada interna e externamente, pelas próprias formas de produção, ao mobilizar as forças sociais e os valores das comunidades locais e se apresentar como um caminho para a inclusão social.