I. BÖLÜM
2. Aristoteles’e ve İbn Miskeveyh’e Göre Mutluluk, İyilik ve Haz
O termo agricultura familiar era desconhecido até o final da década de 1980, nas interpretações das atividades agropecuárias no Brasil como constatou Neves (2007). Termos como camponês, pequena produção e produtor de subsistência eram consagrados para denominar o agricultor de baixa renda, sitiantes ou pequeno proprietário. Os termos utilizados fora do Brasil como, “family farm” ou produção familiar são categorizações reconhecidas para caracterizar as unidades de produção como objeto de estudo nos Estados Unidos e na Europa como analisou Neves (2007, p. 212-218) ao classificar as publicações de estudos de Sociologia Rural
Agricultura familiar ou agricultor familiar são conceitos que penetraram no Brasil no início da década de 1990 a partir das investigações de Veiga (1991), Abramovay (1992), aos quais, soma-se o número temático da Revista Reforma Agrária, na qual está a consagração do tema na academia como descreve Neves (2007):
Comungando com investimentos de outros colaboradores, Sônia Maria P.P. Bergamasco e Maria de Nazareth Wanderley se dedicaram à organização de um número temático da Revista Reforma Agrária, na Associação Brasileira de Reforma Agrária (vol. 25, nº. 2 e 3, maio-dezembro, 1995). No meu
entendimento, esses investimentos selaram a consagração do tema na academia e nos grupos mobilizados para constituição de políticas de apoio aos agricultores passíveis desse enquadramento (NEVES, 2007, p. 223. Grifos no original).
Desde então, o conceito agricultura familiar tem demonstrado enorme pujança, pois, assim que começou a ser utilizada nos meios acadêmicos, políticos e nos movimentos sociais impôs o deslocamento do uso de outras denominações como camponeses, por exemplo, como explica Neves:
Assim delimitada conceitual e empiricamente a agricultura familiar, o termo obteve imediato acordo consensual e impôs o deslocamento do uso de outras categorias como camponeses, produção familiar e pequena produção. A proposição da agricultura familiar como termo de apelação de um setor produtivo também correspondeu a procedimentos de mobilização política, visando à criação de princípios para enquadramento institucional de diferenciados usuários de serviços e recursos públicos (2007, p. 229. Grifos no original).
O acordo consensual para impor o termo agricultura familiar como noção analítica acabou propiciando investigações que se desenvolveram sem a necessária vigilância científica. Sem essa vigilância as investigações deixaram de detectar e de estabelecer as inevitáveis conotações políticas e ideológicas, em grande parte advindas, dos significados que lhe são atribuídos, pois:
Em certos contextos, o uso do termo agricultura familiar engloba tamanha diversidade que a diferenciação não pode ser contemplada; em outros contextos, qualifica um segmento específico que, por imprecisão, vai se distingüir de categorias socioeconômicas e de categorias qualificadoras de modos de vida. [...], cria o caos, onde deveria acenar como recurso de inteligibilidade. Obscurece onde, se tomada como categoria analítica, deveria facilitar o entendimento das relações sociais. Neste caso, não facilita o estudo de trajetórias diversas que pressupõem universos sociais e formas de ação ou intervenção social também distintas (NEVES, 2007, p. 232. Grifos no original).
Ainda que precário o conhecimento científico da situação econômica da agricultura familiar, Neves chama a atenção, para a avalanche de estudos, nos quais são atribuídos significados tão amplos e com tamanha heterogeneidade de usos ao termo agricultura familiar, que se assemelham a uma “arca de Noé” (2007, p. 231). À medida que esses estudos iam se avolumando emergiu a necessidade de consagrar o termo para
dar visibilidade ao projeto de valorização de agricultores e trabalhadores rurais sob condições precárias de afiliação ao mercado e de reprodução social, diante de efeitos da interdependência entre agricultura e indústria e do processo de concentração da propriedade dos meios de produção no setor agropecuário (NEVES, 2007, p. 230).
A consagração política acontece no segundo semestre de 1996, com o lançamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF6 - em que o agricultor familiar foi escolhido como sujeito de direitos. Todavia, é importante ressaltar que a agricultura familiar tem se constituído numa temática de alcance tão amplo e de tamanha heterogeneidade que só pode ser compreendida
se as ambigüidades, as indefinições e as contradições forem então necessariamente defendidas. Ela designa um número imenso de situações diferentes, encobrindo a especificidade de cada uma; autonomiza situações que só poderiam ser inteligíveis se colocadas em relação e em processo. A classificação mais extravagante, por exemplo, estabelece a divisão do setor agropecuário em subsetor patronal ou do agronegócio e subsetor familiar (NEVES, 2007, p. 231).
Para elucidar essas divergências de interpretações é indispensável demarcar bem o território teórico a partir da compreensão de que a unidade de produção é uma realidade multidimensional, heterogênea e complexa, pois
Para efeitos de construção de uma definição geral (conceitualmente universalizável), capaz de abstratamente referenciar a extensa diversidade de situações históricas e socioeconômicas e de tipos econômicos, a agricultura
familiar corresponde a formas de organização da produção em que a família
é ao mesmo tempo proprietária dos meios de produção e executora das atividades produtivas. Esta condição imprime especificidades à forma de gestão do estabelecimento: referencia racionalidades sociais compatíveis com o atendimento de múltiplos objetivos socioeconômicos; interfere na criação de padrões de sociabilidade entre famílias de produtores; e constrange os modos de inserção, tanto no mercado produtor como no consumidor (NEVES, 2007, p. 265. Grifo no original).
Portanto, há que se tomar cuidado ao admitir o termo agricultura familiar como objeto de análise, especialmente se não der a devida atenção ao dinamismo da conexão, disjunção e conjunção impulsionadas pelo dinamismo social no bojo do qual emergem as especificidades produtivas. A análise deve reconhecer e explicar como e quando os agricultores compartilham em múltiplos domínios sociais e campos diferenciados a partir dos quais eles desenvolvem suas ações.