Com referência a caracterização das classes de uso da terra e cobertura vegetal como suporte ao mapeamento e análise deste tema, dados de observação de campo são importantes para qualificar a vulnerabilidade e os riscos à degradação dos solos por erosão hídrica, particularmente nas áreas submetidas a processos agrícolas conduzidos pelos camponeses locais (agricultura familiar de subsistência com poucas práticas de conservação do solo).
Conforme observado nos trabalhos de campo, indicado nos procedimentos metodológicos foi possível visitar pontos ou áreas de amostragem para auxiliar na caracterização e mapeamento das classes de uso da terra e cobertura vegetal na área de estudo.
Nesses trabalhos de campo verficou-se a forma como os camponeses preparam a terra para a produção de cereais foi considerada no modelo para a determinação das classes de suscetibilidade do solo à erosão hídrica. O trabalho de campo, de forma propositada, coincidiu com o período de preparação da terra para a sementeira pelos camponeses. Neste contexto, notou-se um excesso de movimentação do solo e falta de proteção do solo ou cobertura de resto de colmos de milho durante o período de intensas chuvas, sendo uma das principais causas da degradação de solos por erosão hídrica, porque reduz as matérias orgânicas e nutrientes, se modifica as propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos. Isso faz com que as culturas sejam mais propensas à secas, uma vez que os solos não conseguem manter a umidade por muito tempo e, consequentemente, a produtividade é baixa por unidade de superfície. Assim, deve-se escolher melhor o tempo de preparação da terra para a sementeira, de modo a evitar que a primeira chuva não encontre o solo sem proteção; não se deve usar fogo para preparar os campos de cultivo; os restos de vegetação devem ser enterrados e não queimados, não capinar completamente até arrancar a raiz da planta, porque esta funciona como proteção do solo contra chuvas e vento.
Preparação da terra para a sementeira – são feitos canteiros paralelos e
perpendiculares à direção dos declives (mthumbila) Figura 29, e por cima se semeia o milho, intercalado com amendoim, feijão e aboboras. Esta técnica é utilizada em quase todo o Planalto de Angónia. Nestes canteiros são enterrados os restos de colmos de milho e outros vegetais, que não podem nascer de novo. Os restos de vegetais não são deixados na superfície do solo, mas enterrados. Esta operação deixa o solo desprotegido, apesar do campo de cultivo ficar limpo, tornando o solo suscetível à erosão hídrica. Por outro lado, uma vez que os restos da decomposição vêm à superfície, isso significa que o solo que está por cima resulta da decomposição de restos de vegetais da campanha agrícola passada. Este procedimento tornam disponíveis os nutrientes para as plantas e evitam que se percam por lixiviação. É um procedimento que se compara com a reciclagem dos
nutrientes.
Plantio direto – esta prática foi observada em alguns campos de cultivo de
camponeses pertencentes à Associação Ntaia Macasu, que divulga a técnica de produção de cereais no Planalto de Angónia, de modo a não movimentar o solo sem necessidade Figura 30. O solo só é movimentado onde se pretende semear. De acordo com a entrevista feita com a Presidente da Associação, foi referida esta técnica evita a perda do solo por erosão, visto que o solo está sempre protegido com
restos de colmos de milho e outros restos de vegetais da campanha anterior. Segundo a entrevistada esta técnica apresenta seguintes vantagens: i) diminui a evaporação da água e matém a água no solo e sua disponibilização às plantas; ii) provoca diminuição da temperatura do solo; iii) aumenta a fertilidade do solo, devido à conservação dos nutrientes e aumento da matéria orgânica; iv) preserva a estrutura do solo; v) aumenta a atividade biológica no solo; vi) diminui o custo de preparação do solo por enxada ou arado por unidade de superfície; vii) não há necessidade de semear novamente ou replantar as culturas depois de uma intensa chuva, porque a cobertura vegetal protege as sementes das chuvas. Mas, foram apontadas algumas desvantagens como: i) o solo em que se desenvolve este tipo de prática deve possuir boa drenagem e fertilidade que varia de média a boa; ii) requer o uso de herbicidas e é muito mais difícil o controle das ervas daninhas do que no método tradicional dos Ngunis; iii) os equipamentos para se desenvolver esta prática são mais caros que os tradicionais; iv) o camponês deve ter competência técnica (conhecimento) de manejo das culturas e dos herbicidas. Mas, apesar destas desvantagens, esta prática é a mais apropriada para a proteção dos solos.
Cultura em curva de nível – pode afirmar que os camponeses aplicam a prática
tradicional de cultivar em curvas de nível, não no sentido convencional da técnica. Durante o trabalho de campo, foi possível constatar que, as áreas cultivadas apresentavam cultivo em nível perpendicular à inclinação da vertente. Ainda, existem casos em que as águas pluviais, devido a sua concentração, rompem os cordões de contorno (curvas de nível). Nesses casos, os camponeses implementam curvas de nível adicionais para tentar conter o escoamento superficial das águas das chuvas (designados em cheua, língua local por cheni). Com esses procedimentos, os camponeses conseguem, em muitos casos, conter o arraste do material dos solos e possibilitar infiltração das águas. A distância entre os canteiros maiores varia de 50 cm a 60 cm e chega a atingir profundidade de 40 cm. Esta técnica funciona para evitar o agravamento da erosão laminar e em sulcos, mas não previne contra a erosão por impacto das gotas da chuva. O impacto das gotas da chuva sobre a superfície desprotegida do canteiro provoca a desagregação das partículas do solo, formando uma crosta fina que limita a infiltração das águas pluviais no solo. Pelo que foi possível observar, esta técnica tradicional pode ajudar no controle da erosão de solo, mas não evita a perda de solos por erosão. Pode-se afirmar, também, que esta técnica ajuda a manter a fertilidade do solo a um nível adequado por longo período de tempo, uma vez que os resíduos dos vegetais que são enterrados na campanha agrícola anterior ficam em cima do canteiro na próxima campanha, permitindo que os nutrientes possam ser capturados pelas raízes das plantas. Acredita-se que o uso adequado desta técnica, combinada com outras práticas tradicionais, pode contribuir para a redução da perda de solo.
Adubação verde – em boa parte dos campos de cultivos visitados, constatou-se que
alguns camponeses não cortam determinadas espécies de plantas, como a sasadenha e outras não comestíveis e que não dão uma boa lenha, carvão ou não são adequdas para madeira construção. Quando perguntados sobre a importância daquelas espécies, a resposta era sempre: “que dão força a terra” ou que “os meus pais nunca permitiam cortar esta planta e é por isso que nós fazemos o mesmo” (Figura 12).
Mas, na verdade, eles devem ter constatado que algumas plantas, como as leguminosas, têm capacidade para fertilizar o solo através da fixação do nitrogênio atmosférico ou então que as plantas reduzem o impacto das gotas da chuva e, desta forma reduzirem a erosão hídrica do solo através da sua interseção e dispersão e redução do tamanho das gotas da chuva. Como outra prática de conservação de solos, os camponeses colocam manhoua (excremento do bovino, suíno, caprino ou mesmo das aves) no campo de cultivo, para aumentar a produção e dar fertilidade ao solo. Alguns camponeses, em vez de queimar os colmos de pés de milho, colocam animais no campo de cultivo para comer os resíduos vegetais e limparem o campo.
5.7 Avaliação do Potencial Natural de Erosão (PNE) e Riscos de Degradação