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3. GÜNÜMÜZ KONUTUNDA MUTFAK MEKAN

3.3. MUTFAK MEKÂNINI OLUŞTURAN ÖĞELER VE EYLEM ARAÇLAR

3.3.7. Yıkama Üniteleri 1 Bulaşık Makineler

3.3.7.2. Mutfak Tezgâhları

Como foi explicitado nas discussões anteriores, o diálogo entre poesia e infância não se limita, exclusivamente, ao domínio da poesia escrita, em livros e nem no livro As Coisas. Ressalta-se que os limites entre a poesia cantada e a poesia publicada em livros não são casos excludentes, pois os textos do poeta que estamos discutindo migram de um registro para outro com certa freqüência.

O encontro entre o criar do artista e o brincar da criança também está presente na produção musical de Antunes, conforme veremos nas letras das canções Beija eu e Saiba. A primeira teve como inspiração a forma de linguagem adotada pela criança para pedir algo e/ou

solicitar atenção; a segunda foi concebida como uma canção para ninar adultos. A escolha dessas duas composições não foi aleatória, outras poderiam ser acionadas, porém, chama nossa atenção o fato de o elemento infantil ser agenciado para tratar de temas não necessariamente infantis. O devir-criança é, pois, um entre-lugar, pois não é infantil e não imita ou reproduz um dado modelo, instaura uma outra posição-sujeito que não é infantil e nem adulto, criando uma zona de indicernibilidade que aponta para ambos ao mesmo tempo.

Das canções selecionadas para discussão, Beija Eu apresenta, segundo depoimentos de Antunes, aspectos diretamente ligados a determinados usos da linguagem próprios da criança, principalmente, pela liberdade das associações e do teor de oralidade que lhe são característicos. Quando interrogado sobre a paternidade e as experiências obtidas dessa relação, Arnaldo comenta, não exclusivamente sobre laços entre pai e filho, mas, também, da ligação entre linguagem infantil e escrita poética.

Na verdade, todo o raciocínio infantil me fascina. Ele tem uma poética muito própria, capaz de dar baile em qualquer adulto. Outro dia, por exemplo, Rosa me disse: ‘dentro da boca é escuro’. Esse é um dos poemas do meu livro Coisas [também ilustrado por Rosa Antunes], uma obra baseada no raciocínio infantil. Minha música Beija eu, cantada por Marisa Monte, também foi inspirada na linguagem das meninas; elas sempre dizem ‘Pai, pega a Celeste’ e nunca “pai, me pega”, como quem já está mais crescido (p. 54)7.

Partindo dessa afirmação, pode-se estabelecer uma conexão com o que discutimos até o momento, justamente, pela consideração de uma poética inerente à infância, destacada por Antunes no fragmento anterior, que merece ser mencionada e, acima de tudo, relevante para este tópico. A sensibilidade de poeta e pai, extasiado pelo olhar de descoberta da criança e do adulto em face da descoberta infantil, presenteia o leitor/ouvinte com uma canção (Seja eu)

que, partindo do encontro com a infância, delineia uma relação erótico-amorosa, também, construída pelo signo da descoberta de si e do outro.

Seja eu, Seja eu,

Deixa que eu seja eu. E aceita o que seja seu. Então deita e aceita eu.

Molha eu, Seca eu,

Deixa que eu seja o céu. E receba

o que seja seu. Anoiteça e amanheça eu.

Beija eu, Beija eu, Beija eu, me beija.

Deixa O que seja ser. Então beba e receba Meu corpo no seu corpo,

Eu no meu corpo Deixa, Eu me deixo. Anoiteça e amanheça8.

Em termos gramaticais, segundo prescrição normativa da língua portuguesa, o texto da canção deveria aparecer com a expressão “beija-me”, “pega-me”, ou, segundo a oralidade comum da fala brasileira, apresentar as formas “me pega”, “me beija”, “me lave”. No entanto, nota-se que a forma de escrita utilizada incorpora outras vantagens, tanto no domínio melódico quanto escrito. No primeiro caso, percebemos que essa poética inerente à fala da criança alinha-se melhor ao registro sonoro, porque ganha fluência e andamento musical que, nesse caso específico, talvez o padrão gramatical exigido não conseguisse abarcar. No tocante

8

Canção composta por Arnaldo Antunes em parceria com Marisa Monte e Arto Lindsay – 1991. Disponível no site www.arnaldoantunes.com.br, consultado em 12/01/2007.

à escrita, por mais que a forma imperativa enfatize o “eu” como objeto indireto de “beija”, “seja” etc., não podemos esquecer o fato de que na “poética da fala infantil”, esse mesmo “eu” torna-se uma forma de posicionar-se como sujeito, desvinculado de uma norma de escrita. Para a criança que adota este tipo de fala, o “eu” é sujeito, o centro das atenções.

Ao aproximar-se da infância, ou entrar em um devir-criança na linguagem poética, cria-se, na canção, uma outra sintaxe cuja tematização erótico-amorosa ganha espontaneidade e dimensão semântica outra. De objeto indireto, passa-se a sujeito, e os contornos dessa relação são expostos de maneira inusitada, pois se o olhar da criança é o olhar da descoberta, o olhar amoroso entre os sujeitos descritos, também o é. Por essa razão, a descrição da comunhão entre dois sujeitos que se fundem na relação amorosa, enunciada nos versos iniciais “seja eu”, “deixa que eu seja eu” e “aceita o que seja seu”. Em seguida, as indicações de contatos corporais e a relação estabelecida entre o “eu” e o “outro”, a partir de expressões que unem e consolidam a união amorosa, ora aceitando a individualidade de cada um, ora reconhecendo-se no encontro do “eu” como o “outro”.

Molha eu,/ Seca eu,/ Deixa que eu seja o céu. (...) Deixa O que seja ser./ Então beba e receba/ Meu corpo no seu corpo,/ Eu no meu corpo Deixa,/ Eu me deixo.

Uma vez estabelecido o encontro e a conjunção entre os sujeitos, pode-se destacar que o efeito sonoro obtido pelo som aberto da palavra “céu” e “ser” em contraste com o som fechado de “eu/seu”, reforçam a comunhão amorosa e reiteram o sentimento amoroso como descoberta (“abertura”) do sujeito para o mundo, “o que seja ser”. Buscar o outro e buscar a si (em si) no outro?