3. GÜNÜMÜZ KONUTUNDA MUTFAK MEKAN
3.3. MUTFAK MEKÂNINI OLUŞTURAN ÖĞELER VE EYLEM ARAÇLAR
3.3.6. Aydınlatma
Em outra publicação do livro As Coisas, selecionamos o poema “Cultura”, publicado, posteriormente no kit Nome (1993), recebendo uma versão em CD, Livro e Vídeo.
Nesse poema, composto de imagens que lembram inscrições rupestres e de uma escrita que se aproxima da linguagem infantil, Antunes adota procedimentos de escritura similares ao do poema Abertura, comentado anteriormente. A disposição gráfica do texto (tamanho das letras e fragmentação da narrativa) e das imagens (garatujas)4 realçam a opção pelo uso de uma tentativa de construir uma zona de vizinhança com a infância, caracterizada pela harmonia entre texto e imagem. Tal postura remete-nos à noção de devir-criança esboçada por Deleuze. Nota-se que Arnaldo não procura imitar a escrita infantil, mas instaurar um entre- lugar que não aponta para a criança e nem para o adulto especificamente. Por outro lado, o poema não está direcionado para criança ou para um leitor infantil a partir de determinada faixa etária. Pode, inclusive, ser utilizado com crianças ou ser lido por, considerando que a arte não tem idade. Talvez por esse motivo, esse poema/canção (Cultura) integra o disco Canções de Curiosas, do Grupo Palavra Cantada e seja, também, interpretado por um coro de crianças. Antunes participa de alguns discos do Grupo Palavra Cantada, ora realizando parcerias, ora interpretando canções. Há canções do referido compositor no disco Canções de Ninar, Canções de brincar, Meu neném.
Continuando o teor ilustrativo dessa discussão, segue abaixo o mesmo poema, publicado no kit Nome:
Esse poema, incluído no livro Nome, apresenta-se disposto em estrofes de dois versos, distribuídas em praticamente quatro páginas do livro. Os versos são materializados em página de cor escura (preta), juntamente com um conjunto de imagens de cores variadas de animais e/ou objetos que apontam, analogicamente, ao conteúdo do poema.
No encarte de CD, esse mesmo poema recebe uma nova disposição gráfico-visual, incluindo melodia.
Nesse suporte, encarte de CD, o poema é disposto em quatro estrofes de quatro versos, com imagens (desenhos de animais) reduzidas e situadas antes do texto. O ponto final que concluía os versos no texto anterior foi retirado nesta edição. Alterações produzidas, talvez
pela limitação de espaço, uma vez que, no livro Nome, este mesmo poema ocupa um número maior de páginas e, no encarte de CD, encontra-se disposto ao lado de outro poema (“Tato”). O conteúdo do poema permanece textualmente o mesmo, muda-se a disposição dos versos e das imagens visuais, reduzidas no encarte do CD.
Cada período e/ou verso do poema, conforme Alcântara (2003), encerra uma possibilidade de exploração do assunto como se bastasse ler uma única linha do poema, característica próxima de uma “gramática infantil”. Acreditamos que os termos “gramática infantil” e “lógica do pensamento infantil”, utilizados no estudo da autora citada, e por nós, em uma versão inicial deste trabalho5, apontam para um processo de imitação da escrita da criança, algo que não corresponde claramente ao processo de escrita do referido texto, pois não estamos diante de um poema e/ou canção produzido para criança. Trata-se de um texto que aproxima ou remete para o universo infantil e, ao mesmo tempo, dele se distancia.
Na versão em vídeo, o poema “cultura” apresenta-se com a disposição gráfico-visual do livro (duas primeiras imagens), incluindo a melodia do CD mais os recursos multimidiáticos do vídeo: movimento e interação de imagens.
Em todas as versões, há uma construção sintática nominal, com a presença do verbo “ser”, funcionando como elemento de ligação do jogo lúdico de associações “isto é aquilo”, constante no poema. Este tipo de sintaxe binária, que une ou aproxima dois elementos (nomes), funciona como tentativa de totalidade, resultado da soma ou associações entre dois termos, alguns por causalidade (girino/peixe/sapo), por associações inusitadas (bigode/antena/gato), por metonímias (escuro como metade da zebra), por antítese (silêncio/papo, batalha/trégua). Ao acionar o devir-criança da/na linguagem poética, o texto de Antunes incorpora elementos lingüísticos, cujo efeito de sentido beira o
5 Trata-se de parte do texto que integrou o Relatório para Exame de Qualificação desta Tese, apresentado em
óbvio, o simples, a estranheza, da linguagem infantil6, em um jogo de “parece mas não é”. Cada versão do poema, publicada em suportes diferentes, circula de uma determinada maneira na sociedade, sofre alterações na recepção e, conseqüentemente, na leitura. O poema “Cultura”, nas diferentes versões expostas, opera sentidos diferentes, ora reforçados pelas imagens coloridas na versão livro Nome, ora pela ênfase musical no CD Nome e pela interação entre o verbal/visual/sonoro somados aos movimentos de imagens no vídeo Nome. Se na trilogia Nome este poema ganha três versões e, conseqüentemente, três suportes diferentes, no livro As Coisas, a simplicidade das imagens e ausência de recursos tecnológicos confere-lhe outra materialidade. Conforme assegura Cavallo (1998), “é preciso considerar que as formas produzem sentido e que um texto se reveste de uma significação e de um estatuto inéditos quando mudam os suportes que o propõem à leitura” (p. 06).
No kit Nome, o poema ganha uma estrutura circular, saindo de um código para outro e construindo uma leitura diferenciada do elemento “cultura”.
Estruturalmente, “cultura”, em cada suporte em que foi publicado, recebeu alterações no tocante à disposição gráfico-visual. Aproxima-se mais de uma estrutura clássica de poesia na versão livro Nome, sobretudo, pelo uso de dísticos (estrofes de dois versos) que reforçam a unidade sonora do poema, a unidade métrica (próxima do decassílabo) e a distribuição espacial das estrofes, conjugada com as imagens de desenhos coloridas, integrantes do todo. Pode-se dizer que a identidade desta edição resulta da soma do elemento verbal e visual (livro) e do movimento e da interação de imagens e som no vídeo. Já no encarte de CD, o poema está distribuído em quatro estrofes de quatro versos,
6 O poema dialoga também com os procedimentos típicos da poesia produzida para crianças em que
“predominam conectivos coordenativos, adjetivos associados a impressões sensoriais, circunstâncias de lugar e verbos de estado ou de percepção, como ser, ter, ver (BORDINI, 1986, p. 64).
sem a ênfase das imagens como na versão livro/vídeo Nome. A ênfase nesta versão de “cultura” incide no elemento musical.
Se comparado com a versão do kit Nome, “Cultura”, do livro As Coisas, perde os requintes de construção (versos, estrofação, etc.) e edição (imagens, cores e movimentos) para figurar, por meio de desenhos primitivos e estrutura prosaica, em uma aparente simplicidade formada por frases entrecortadas, proposições ou um jogo, aparentemente, óbvio de completar frases ou palavras e propor novos jogos. “É como se o receptor tivesse que completar as palavras propostas pela mensagem e iniciar, seguindo a regra, um novo jogo, até que se forme a mensagem poética de cultura”, conforme analisa Frigeri Berchior (1999).
O teor fragmentário do poema é reforçado pelo uso, como já foi dito, de uma sintaxe nominal, com frases entrecortadas e pelo uso do ponto final, vislumbrando um encontro com a infância de mundo e de linguagem, conforme Antunes (op. cit), reforçando a potência lúdica, criativa e poética obtida a partir desse “encontro” entre o brincar e o criar, materializados no texto.