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3. GÜNÜMÜZ KONUTUNDA MUTFAK MEKAN

3.3. MUTFAK MEKÂNINI OLUŞTURAN ÖĞELER VE EYLEM ARAÇLAR

3.3.5. Havalandırma

subcapítulos 3.1 “A canção portuguesa: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”- trecho do Soneto de Camões, adaptado à canção homônima de José Mário Branco - e 3.2 “A canção brasileira: e no entanto é preciso cantar” – excerto da Marcha da quarta-feira de cinzas, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes – são trazidos à tona os motivos, a influência e a utilização da poesia na canção, os diferentes gêneros musicais, além de outros temas. Sobre esta última parte da tese, há que se ressaltar que ao longo do texto há inúmeras análises de canções que não foram reunidas neste capítulo em razão de sua relação direta com os fatos abordados. Outro dado é que a diversidade musical e temática inviabilizou um mapeamento mais apurado da canção nos dois países. Portanto, privilegiou-se neste estudo a comparação dos processos mais do que o objeto canção, pois, demandaria um referencial teórico-metodológico e um corpo de análise infinitamente superior ao espaço aqui estabelecido.

Esta opção pela análise dos mecanismos de censura e de repressão está alicerçada numa documentação diversa, como nas treze entrevistas com sete músicos portugueses, quatro brasileiros e um galego, além do ativista político português Alípio de Freitas. Além disso, computa-se trinta depoimentos não gravados que foram obtidos pessoalmente, por telefone ou por e-mail. Foram copiadas centenas de processos portugueses da PIDE e da Censura. Do Brasil foram milhares de documentos consultados e copiados nos arquivos do DOPS e da Censura (no Rio de Janeiro e em Brasília). Esta gama de documentação, aliada à bibliografia e

à discografia, aponta também numa perspectiva de assinalar, através dos casos levantados, como estas estratégias dos Estados ditatoriais e dos músicos produziram processos semelhantes em realidades tão distintas.

Os efeitos destas ditaduras não foram observados unicamente na repressão ou na produção musical, são igualmente percebidos nos processos educativos, nas artes, nos meios de comunicação de então, o que, certamente, contribuiu para algumas das permanências na história. A herança deste período, porém, não se restringe a tais embates. Há que se comparar tais realidades de Brasil e Portugal, tendo no horizonte também a luta contra o esquecimento, remédio por vezes eficaz na luta contra as repetições nefastas (FREITAS, 1999, p. 01).

CAPÍTULO 1: A CENSURA

Quando algumas críticas são feitas à influência da música internacional na canção nacional, muitos músicos respondem-nas com a clássica frase: “para a música, não há fronteiras”. Esta pesquisa partiu desta mesma máxima. Durante as décadas de 1960 e 1970 circularam por inúmeros países canções que criticavam um estado de coisas de então: as ditaduras, o autoritarismo, a violência, o imperialismo, o anticomunismo, a repressão sexual e política, o conservadorismo, o moralismo, a miséria, a fome, a desigualdade social, o atraso econômico, as guerras e as armas, entre outros. Nos países em que havia censura, tais temas eram abordados também por meio de metáforas, dando origem a alguns semas comuns em diferentes realidades nacionais. Os mais diversos termos surgiram para denominar esta modalidade de canção: política, engajada, de intervenção, de protesto, de réplica, de circunstância, de testemunho, contestatória, nueva canción, nueva trova, nova cançó e nova canción galega, entre outros. Tal estudo parte do princípio de que uma história comparativa destes movimentos musicais contribui sobremaneira para o entendimento da história destes países no âmbito da cultura e de suas implicações sociais.

Apesar de se abordar a censura em dois países que viveram experiências com regimes ditatoriais, também nos chamados países democráticos e nos países do antigo bloco socialista19, neste mesmo período, ocorreram exemplos de censura em relação à canção popular. Marcadamente, este controle censório foi mais incisivo no tocante às questões

19 Há uma relativa bibliografia que se ocupa da censura à música, à literatura e à Imprensa nestes países. Como

em: DAVIES, R. W. Censura e falsificações na História da URSS. Lisboa: Edições 70, 1991 (neste trabalho também há uma interessante reflexão sobre o ensino de história na antiga URSS: “a história é ensinada nas escolas com base num programa-padrão e numa série de compêndios igual em cada uma das quinze repúblicas”. Conf. p. 209); CASCUDO, Teresa. A música soviética entre o degelo e a Perestroika (1953-1989). Música

russa: um breve panorama. Lisboa: Público, 2001, p. 69-93; Comitê d’autodéfense sociale – KOR. Les archives

de la censure polonaise. Esprit. Nº. 14, v.2, fev/ 1978, p. 160-65; CHENTALINSKI, Vitali. A palavra

ressuscitada: nos arquivos literários do KGB. Venda Nova, Portugal: Bertrand, 1996 (esta obra revela as obras e

os autores perseguidos do período estalinista, inclusive trazendo os casos dos escritores fuzilados e presos nos campos de concentração).

morais, a exemplo do que denunciou o músico francês Léo Ferré quanto ao papel obscuro dos comitês de escuta franceses inicialmente criados para retirar de circulação discos com problemas técnicos, mas que se transformaram em órgãos de censura, apesar de não institucionais, como afirma o músico sobre este problema na década de 1960: “Diz-se que não há censura porque não se pode proibir uma canção desde que ela não atente contra os bons costumes” (GOMES, 1984, p. 29).

Particularmente, a opção por esta comparação entre Brasil e Portugal advém das relações culturais e históricas entre os dois países; da língua portuguesa; da influência mútua na música; dos contatos entre as duas ditaduras; do intercâmbio entre músicos brasileiros e portugueses, expresso na discografia, nas memórias e depoimentos destes artistas. Estas relações guardam também seus paradoxos: o ex-presidente Juscelino Kubistchek, considerado por muitos como o maior democrata que passou pela Presidência do Brasil até então, exilou- se em Portugal a convite de Salazar.

Logo, não é surpresa que no Memorial JK em Brasília, no escritório de Juscelino, reinstalado naquele espaço, exista uma única foto em sua escrivaninha: a do “Excelentíssimo Dinossauro” como diria o escritor e jornalista José Cardoso Pires20, ou seja, do presidente do Conselho de Ministros21 António Salazar. Curiosamente, além do convite de Salazar, JK

também recebeu propostas de exílio dos ditadores Alfredo Stroessner22 do Paraguai, e de Francisco Franco da Espanha. No plano dos paradoxos, o português António Ferro23, o principal ideólogo do Estado Novo português, admirador dos ditadores Salazar, Mussolini e

20 No Arquivo do DOPS/PR, no ofício 7956 de 1975, emitido pelo Departamento de Polícia Federal para a

Superintendência Regional do Paraná, seu nome aparece numa lista de 55 jornalistas “impedidos de ingressarem no Brasil”, ao lado de Adelino Cardoso, Avelino Rodrigues, José Reis, entre outros.

21 Além do Presidente do país “eleito” pelo sufrágio direto e universal por sete anos, o governo era “[...]

composto pelo presidente de Conselho de Ministros e pelos ministérios. A posição do presidente de Conselho de Ministros, além de lhe permitir ocupar um ou mais ministérios, ainda lhe concedia poderes de fixar as diretrizes da ação governamental, coordenar e dirigir as atividades de todos os ministérios”. In: PASCHKES, Maria Luisa.

A ditadura salazarista. São Paulo: Brasiliense, 1985, p.17.

22 Governou o Paraguai de 1954 a 1989, exilando-se no Brasil, onde vive até hoje.

23 Em 1923, antes de sua entrada no governo Salazar, teve sua peça Mar Alto proibida logo após a estréia. Assim,

aquele que seria mais tarde o responsável pela política cultural portuguesa, também experimentou o remédio amargo que receitaria a tantos outros artistas (PORTELA, 1987, p. 24).

Franco, foi um dos assistentes da Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo. Logo, participou de um acontecimento radical da cultura brasileira, embora fosse, mais tarde, em Portugal, salazarista e adepto da cultura fascista24.

Segundo Artur Portela (1987, p. 23), apesar de não detalhar sua atuação no Brasil, António Ferro: “[...] participa na renovação modernista, ao lado de Sérgio Milliet, de Oswald de Andrade, de Mário de Andrade, de Manuel Bandeira. Participa na Semana de Arte Moderna de S. Paulo. Faz conferências nessa cidade, no Rio, em outros grandes centros”. No mesmo período, foi homenageado no Rio de Janeiro numa solenidade que contou com a participação até mesmo de Oswald de Andrade. Em 1957, seria a vez do presidente de Portugal Craveiro Lopes25 ser homenageado. Desta vez com um título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de São Paulo, recebido fora da USP, no conservador Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, para burlar os protestos contra tal agraciamento (LEONZO, 1995, p. 121). Estes títulos não cessaram neste caso, em 1969, segundo o próprio ex-presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Marcelo Caetano, já no seu primeiro ano de exílio no Brasil, teria também recebido o “Doutoramento Honoris Causa” e o “título de professor honorário” (CAETANO, 1974, p.70).

Estas homenagens denotam as relações existentes entre os dois governos, bem como entre os salazaristas que viviam no Brasil e o governo de Salazar. Contudo, as afinidades entre brasileiros e portugueses não se resumiam a isso, afinal, havia também uma forte oposição de portugueses no Brasil contra a ditadura portuguesa. Os contatos entre músicos dos dois países, pode ser inferido a partir de um exemplar da obra A caça aos coelhos e outros escritos

24 Claro que o Grupo Verde-Amarelo, liderado por Plínio Salgado, Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia,

Candido Mota Filho e Alfredo Élis, guardou inúmeras semelhanças com o projeto de país defendido por António Ferro: nacionalismo, autoritarismo e xenofobia, muito embora, posteriormente, o grupo tenha se afastado do fascismo do integralismo capitaneado por Plínio Salgado. Disponível em: Anos 20 – Verde-Amarelos: http://www.cpdoc.fgv.br/nav_historia/htm/anos20/ev_arteecultura_verdeamarelos.htm>. Acesso em 25 abril 2005.

25 Dessa visita do Presidente de Portugal ao Brasil, nasceu um documentário do diretor de cinema preferido do

regime, António Lopes Ribeiro, intitulado A Viagem Presidencial ao Brasil, 65 min., Sociedade Portuguesa de Actualidades Cinematográficas/SPAC, 1957.

polêmicos (1976), de Fernando Lopes-Graça (1906-1994), encontrado na Biblioteca do MEC/ RJ, com a seguinte dedicatória: “Para Guerra-Peixe, camarada e amigo, com um abraço”. Apesar da aparente simplicidade desta referência, ela aponta para a proximidade havida também entre alguns músicos de esquerda.

Um dos discos do músico português José Afonso, intitulado Traz outro amigo também, foi gravado em Londres em abril de 1970. Numa das sessões de gravação contou com a presença de exilados portugueses e do brasileiro Gilberto Gil. Segundo o português Luís Almeida, numa destas noites de exílio em Londres26, ao lado de Gilberto Gil, José Afonso e Caetano Veloso, o último teria expressado o desejo de fazer uma canção retratando Londres e José Afonso deu uma idéia cantarolando o que viria a ser mais tarde a melodia da canção London, London, “sem créditos, a não ser para os que assistiram ao parto da canção”.27

Além destes paradoxos e confluências, a história comparativa entre os dois países aponta o desconhecimento mútuo das realidades nacionais. Como diria o historiador português Sérgio Campos Matos, diferente de outros períodos da história, na atualidade, “[...] em Portugal, até mesmo entre os historiadores é freqüente o desconhecimento da história do Brasil contemporâneo. E, inversamente, o mesmo se poderá dizer em relação ao que se sabe de Portugal dos séculos XIX e XX do outro lado do Atlântico” (2001, p.320). Entretanto, isto não se restringe aos historiadores.

Um caso expressivo deste isolamento pode também ser percebido numa cena envolvendo Vinicius de Moraes e sua saudação: “Viva a mocidade portuguesa!” (CASTELLO, 1994, p. 302). Foi com esta frase que o músico e poeta brasileiro Vinicius de Moraes tentou saudar o público, ao lado de Chico Buarque, em 1968, quando faziam um show em Coimbra. Tal entusiasmo não foi correspondido pelo público, muito pelo contrário, houve

26 Cidade também escolhida por Odair José como exílio após conflitos com o governo brasileiro e com

multinacionais ligadas aos contraceptivos em razão de sua canção Pare de Tomar a Pílula, cujo lançamento coincidiu com as campanhas oficiais de controle de natalidade naquele ano de 1973 (Araújo, 2002, p. 59-68).

27 ALMEIDA, Luís Pinheiro de. O “London London” de Zeca. Disponível em: <http://www. instituto-

um silêncio absoluto até o fim do show. A escrita talvez salvasse o poeta já que ele não colocaria em maiúsculo a bravata. Certamente, o público de Vinicius não tinha esta feição fascista e isto denotava a relação das oposições com a Mocidade Portuguesa, criada 32 anos antes.

Este desconhecimento mútuo levou também a uma desastrada participação de José Afonso no VII Festival Internacional da Canção (FIC), ocorrido em 1972, no Rio de Janeiro. O maior nome da canção portuguesa foi escolhido para representar Portugal no Festival por meio de telefonemas a uma rádio, junto com o cantor português, Paulo de Carvalho. Este último foi escolhido pelo próprio Festival, porém a canção que ele interpretaria, Antes que seja tarde, de Pedro Osório e José Niza, segundo o último28, foi vetada pela Censura brasileira e teve que ser escrita por Niza uma outra letra: Maria, vida fria.

Contudo, a participação de José Afonso foi pouco notada e até mesmo ignorada pela platéia do festival (muito embora tivesse sido elogiado nos jornais antes do início do FIC), por mais que seu tema significasse muito para a realidade política brasileira. Afinal, a canção A morte saiu à rua denunciava o assassinato de um opositor político pela ditadura de Salazar. Ao se apresentar, foi prejudicado pela péssima acústica do Maracanãzinho e pelo barulho da platéia que ainda chegava ao recinto. Na verdade, o VII FIC foi também um festival de truculência, pois além da censura, todo o júri, presidido por Nara Leão, foi destituído e:

Ao tentar ler no palco do VII FIC um manifesto contra a destituição do júri nacional, Roberto Freire foi violentamente arrastado por policiais, que o levaram a uma sala e o espancaram barbaramente: de costelas quebradas, o jurado passou quinze dias no hospital se recuperando. Terminava a Era dos Festivais (HOMEM DE MELLO, 2003, p. 429).

28 Apresentação da versão em CD do disco de José Afonso, Eu vou ser como a toupeira, de 1972, relançado em

Por outro lado, José Afonso pôde conhecer muitos músicos brasileiros como o paraibano Jackson do Pandeiro29. A participação do músico português deve ter impressionado

também a jurada Nara Leão, tanto que ela gravaria dois anos mais tarde duas canções30 de Zeca Afonso (como também era conhecido). Ele veio acompanhado ao Brasil pelo jornalista José Viale Moutinho que, segundo seu depoimento informal ao autor, teria sido inquirido por um agente do DOPS, que só se identificaria como tal depois de uma longa conversa. O mesmo jornalista veria novamente um agente do DOPS, desta vez em Portugal.

Zeca Afonso, que também foi preso pela ditadura portuguesa em 1973, a partir das impressões que reuniu sobre a ditadura brasileira, compôs em 1976 a canção Alípio de Freitas denunciando a ditadura brasileira e a prisão do ex-padre português Alípio31 que, por sua vez, teve um papel importante nas Ligas Camponesas e na luta contra a ditadura brasileira:

Baía de Guanabara Santa Cruz na fortaleza Está preso Alípio de Freitas Homem de grande firmeza [...]

Lá no sertão nordestino Terra de tanta pobreza Com Francisco Julião Forma as ligas camponesas Na prisão de Tiradentes Depois da greve da fome Em mais de cinco masmorras Não há tortura que o dome32

Segundo Alípio33, esta homenagem aproximou-o de Zeca, visto que ambos não se conheciam, e fez com que ele tentasse no Brasil levantar os direitos autorais de Zeca Afonso.

29 Há uma foto deste encontro no arquivo da AJA – Associação José Afonso, em Lisboa.

30 Maio maduro maio e Grândola, Vila Morena. Ambas relançadas num box com praticamente todos os discos

da cantora vertido para o formato CD. As duas canções constam num dos CDs intitulado “raridades”. Box Nara

Leão: Fase 2, Universal Music, 2003.

31 Que teve, em dezembro de 2004, aprovado pelo Governo Brasileiro seu pedido de indenização pela prisão e

tortura sofrida no Brasil. Sobre sua trajetória política no Brasil, ver seu livro de memórias: FREITAS, Alípio de.

Resistir é preciso: memória de um tempo da morte civil no Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 1981.

32 AFONSO, José. Com as minhas tamanquinhas. Lisboa: Movieplay (Orfeu), 1996 (1976). n º. JA8008 (CD). 33 Depoimento ao autor em 27 nov. 2004, em Lisboa. Alípio de Freitas, ao voltar a Portugal, fundou a Casa do

Assim, responsável por esta empreitada, chegou a conversar com Nara Leão sobre suas duas gravações de canções do Zeca e que, segundo ela, teria vendido uma boa cifra deste disco. Ele também relembra as gravações feitas pela cantora Diana Pequeno34. Entretanto, em razão da venda de direitos da gravadora portuguesa para uma multinacional, Zeca Afonso não recebeu nada pelos direitos autorais. 35

Voltando ao caso da Censura no Brasil e em Portugal, apesar de similares, há de se destacar que as fontes documentais dos dois países, presentes nos arquivos da Direcção-Geral de Espectáculos, em Portugal e na DCDP, no Brasil, não se constituem num material sistematizado e com uma periodicidade regular, afinal, como resultado de regimes autoritários, guardam a especificidade da destruição de parte deste material ao final das respectivas ditaduras.

Outro dado é que estas fontes são expressões da documentação oficial produzida pelo Estado e, como tais, devem ser balizadas a partir dos debates políticos e culturais atinentes ao período. Logo, a observância de grupos sociais concretos, como os músicos e as expressões políticas que estes carregam, é fundamental para o entendimento do embate entre músico e Estado.

Para Marc Bloch (1998), há também a necessidade de por à prova este tipo de material, pois o documento é: “[...] uma testemunha; como a maior parte das testemunhas, só fala se interrogado. O difícil é elaborar o questionário. É aí que a comparação proporciona esse perpétuo juiz de instrução que é o historiador um precioso auxílio” (p. 123). Portanto, com base nesta preocupação em fazer “falar as pedras pisadas no cais”, como diria João

brasileiros que chegam a Lisboa. Esta associação teve um desenvolvimento e um histórico que lhe permitiu ser reconhecida pelo governo brasileiro como interlocutora dos brasileiros que lá vivem.

34 Na verdade, duas canções: Rio largo de profundis (1979) e Que amor não me engana (1982).

35 Apesar de responsável por esta procura, Alípio só soube da gravação de Roberto Leal de Grândola, Vila

Morena, por intermédio do autor da tese. Este, provavelmente, foi um disco com uma boa vendagem, pois

Bosco e Aldir Blanc, na canção Mestre-sala dos Mares, trataremos na próxima seção de como se operou a censura em Portugal.

1.1 A CENSURA PORTUGUESA: ESSA CÂMARA DE TORTURAR PALAVRAS36

Na segunda metade do século XIX, o fado já era uma importante referência musical lusitana. Não demorou muito para que, naquelas cantigas dos bairros populares, os músicos lançassem seus olhares e suas composições para os temas políticos:

Destruir a monarquia Haver no mundo igualdade São dois pontos sublimes Por que pugna a sociedade De que serve à pátria o rei, Toda a imbecil nobreza, Que p’la força da riqueza E p’la posição são a lei? O poder que ao vil darei À desordem e à anarquia, A vileza e a tirania, Tudo isso deve acabar, Cumpre ao povo sem esperar, Destruir a monarquia [...]

Este interessante trecho de uma cantiga foi recuperado pelo pesquisador Pinto de Carvalho e publicada37 em 1903 em Lisboa. O autor da cantiga acima é: “José Augusto revolucionário e republicano, o mesmo que depois havia de evolucionar para monárquico e ordeiro.” (CARVALHO, 1982, p. 219). Como se vê, Pinto de Carvalho não era dos mais simpáticos ao movimento republicano. A República foi proclamada em 5 de outubro de 1910. Uma década e meia depois, a instabilidade política governamental tornou-se um campo fértil ao golpe. A Primeira República portuguesa também não havia conseguido romper com o histórico atraso econômico de Portugal, ou sequer teve tempo para isso.

Com apenas 16 anos, a República e seus ideais recebia um duro golpe: uma revolução

36 Cf. PIRES, José Cardoso. Dinossauro Excelentíssimo. Lisboa: Arcádia, 1973, p. 36. 37 CARVALHO, Pinto de. História do fado. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982, p. 219.

militar em 28 de maio de 1926 que instaurou uma das mais longas ditaduras do mundo