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KONUTLARDA STANDARTLAŞMA VE MODÜLER MUTFAKLARIN ORTAYA ÇIKIŞ

2. KONUTTA MUTFAK MEKÂNIN TARİHSEL GELİŞİMİ

2.5. KONUTLARDA STANDARTLAŞMA VE MODÜLER MUTFAKLARIN ORTAYA ÇIKIŞ

Além desses distintos recortes regionais, é importante ressaltar que o Vale do Jequitinhonha apresenta diferenças internas definidas a partir de sua formação socioeconômica e histórica. No Alto Jequitinhonha, a ocupação do território se deu, sobretudo em decorrência da mineração de ouro e diamante, com a chegada dos bandeirantes paulistas

às ―minas dos matos gerais‖, na parte final do século XVII. Já a parte do médio Jequitinhonha

(Serro, Diamantina, Itacambira e Minas Novas) e sua porção localizada mais ao norte do estado (Rio Pardo de Minas e Salinas) foram ocupadas a partir do início do século XVIII. As pesquisas históricas indicam que a ocupação do Baixo Jequitinhonha ocorreu com um século de diferença, em decorrência principalmente do lento processo de avanço da pecuária para o

norte e nordeste do estado. É a chamada ―sociedade do couro‖ mineira. Apenas no início do

século XIX, com a abertura do Rio Jequitinhonha para a navegação, é que o baixo Jequitinhonha (Pedra Azul, Jequitinhonha, Almenara e Salto da Divisa) passa a compor a história do Estado de Minas Gerais.

Ao longo do século XX, a economia do Vale do Jequitinhonha permaneceu centrada nas atividades agrícolas. O cultivo de eucalipto passou a ter grande presença na ocupação das terras do Vale e a mineração tradicional concentrou-se no Alto Jequitinhonha. No baixo Jequitinhonha, predomina a pecuária e, no médio, mesclam-se a agricultura, a pecuária e a mineração, inclusive com novos tipos de exploração, como a de grafite, lítio e granito, no eixo Araçuaí, Pedra Azul e Medina.

No âmbito social, o Vale do Jequitinhonha é descrito com ambivalência: à miséria, à pobreza, ao abandono e à estagnação, apresentados nos trabalhos acadêmicos, contrapõe-se a riqueza em termos culturais, expressa no artesanato (sobretudo de barro e madeira), na música e nas festas sagradas e profanas. Entretanto, oficialmente, a região, como uma marca das assimetrias econômicas sociais no estado, passa a representar uma porção de Minas Gerais caracterizada por altos índices de pobreza, estagnação econômica histórica, por um baixo dinamismo econômico e social e intensos movimentos migratórios (RIBEIRO; GALIZONI, 1998 e 2000), assumindo uma posição desfavorável em relação às outras regiões de planejamento. Devido a esses fatores, desde a década de 1970, tem sido local de experiência de políticas públicas com o objetivo de promover o seu desenvolvimento.

O Vale do Jequitinhonha, como região distante dos grandes centros urbanos do Estado de Minas Gerais e do país, carrega em si pelo menos quatro grandes características, descritas por Sevilha (2012), que as entende como um conjunto de significados com valorações negativas:

1. Região tipicamente rural, oposta ao ―urbano etnocêntrico‖. Nesse sentido, é vista como um resíduo do atraso, a ser superado pelo desenvolvimento e pelo progresso.

2. Região inserida (em parte) no semiárido nordestino brasileiro, por isso também é o

sertão, ―(...) estigmatizado negativamente (por uma característica natural) enquanto área a ser dominada, transformada e agregada‖ (SEVILHA, 2012, p.39).

3. Região interiorana, que traz em si um conjunto de valorações sociais construídas a partir do processo de ocupação territorial brasileiro que tem como um dos seus pontos centrais a litoralização do poder político em detrimento do interior do país (em grande medida estruturado mediante ações das elites oligárquicas regionais). Interior e litoral, espaços antagônicos e desarticulados, mas elementos de um mesmo sistema econômico, político e cultural.

A construção social de estigmas regionais no Brasil é entendida como parte de um sistema arquitetado mediante alianças entre elites regionais (poderes regionais) e centrais com o objetivo de expropriar as potencialidades regionais (humanas e naturais) para atender projetos políticos de interesse de uns poucos (OLIVEIRA, 1987; CASTRO, 1992).

Essa região ―inventada‖ a partir da descoberta de sua pobreza econômica na década de 1970 e, simultaneamente ―(...) do discurso de sua superação, produzido e articulado, em

especial pelo Estado. Discursa-se sobre o fim da pobreza regional, mas não sobre o modelo

socioespacial produtor de tais condições‖ (SEVILHA, 2012, p.39);

4. Região que carrega o estigma da miséria. Na década de 1970, o Vale do Jequitinhonha era

conhecido como o ―vale da miséria‖, denominação cunhada pela Organização das Nações

Unidas (ONU), e que permanece sendo utilizada para definir a região.

Em síntese, pobreza, miséria, sertão, sertanejo, atraso e povo avesso ao progresso passam a qualificar uma região marcada por conotações negativas.

O Vale do Jequitinhonha, como uma região produzida a partir da criação da CODEVALE, é descoberta como uma porção de Minas Gerais e divulgada principalmente por sua pobreza. Os agentes políticos, inseridos na região, delimitada como Vale do Jequitinhonha

ou não, ―constroem o discurso em torno da ideia de superação de sua miséria, angariando

adeptos, apoiadores e, em especial, votos a partir da tão proclamada ―redenção do Vale‖

(SEVILHA, 2012, p.42), que passa a ser conhecido como o ―Vale da Miséria‖, o ―Vale da Fome‖, o ―Vale da Morte‖, denominações apoiadas nos indicadores sociais e econômicos em

contextos em que se discursa sobre o fim da pobreza regional, mas não sobre o modelo

Essa nova realidade, no entanto, começa a atrair a atenção de diferentes agentes (políticos, midiáticos, pesquisadores etc.), que procuram entender os fenômenos sociais que ali têm lugar. Apesar de ser uma região com uma bacia marcada por distintos ecossistemas (cerrado, caatinga e mata atlântica) e com uma grande diversidade social, econômica e

cultural, é vista, pelos ―de fora‖, como palco da pobreza econômica, da seca, dos migrantes

pobres e da exclusão. Esse retrato do Vale estereotipa as pessoas e impregna na região características que homogeneízam uma determinada realidade.

Cabe aqui indagar qual é o interesse em perpetuar na mídia (impressa e televisionada) a imagem do Vale do Jequitinhonha como uma região da pobreza. Segundo Sevilha, uma das questões centrais é que:

O discurso da ―pobreza jequitinhonhense‖ se torna alicerce na história da região para

duas racionalidades e práticas a partir delas. Uma é construída por alguns grupos socioeconômicos (não apenas da região) que, a partir do discurso regional, angariam recursos governamentais para investimentos, por vezes em forma de isenção via Estado, em empreendimentos produtivos. Outra, construída a partir dos interesses desses grupos (e utilizadas por eles estrategicamente), caracterizada pela produção

de uma baixa estima social, pessoal e coletiva na ―população regional‖ (das

populações locais), que legitima projetos de intervenção desenvolvidos de ―cima

para baixo‖. (SEVILHA, 2012, p.42)

A construção de uma região e suas imagens projetadas em nível nacional são geralmente produzida pelos outros. O Vale do Jequitinhonha pode ser visto e identificado, conforme o agente, como uma bacia hidrográfica (do rio Jequitinhonha), uma região estatal (da CODEVALE) ou, ainda, como uma região identitária, onde tem lugar um movimento cultural expressivo. Esta é a visão de artistas e militantes socioculturais que propõem outra representação que não seja a pobreza e a miséria, para além de um olhar economicista, com outros significados e outras conotações.

A celebração da cultura popular e da identidade do Vale do Jequitinhonha tenta apresentar outro olhar sobre a região. Vista como uma região extremamente diversificada, tanto pelo histórico de ocupação, quanto pelas características geográficas e atividades econômicas existentes (SOUZA, 2010), há movimentos culturais que entendem sua diversidade, mas reconhecem como elementos comuns as influências dos negros, a religiosidade popular, o artesanato (de madeira e barro), a produção para o autoconsumo e as formas de sociabilidade comunal. As diversas expressões da arte popular passam a representar um modelo de vida e resistência, e constituem também um forte componente para que a própria região possa ser reconhecida, nascendo assim uma região com uma identidade cultural. As manifestações culturais do Vale, como, por exemplo, o FESTIVALE, mobilizam

os agentes sociais locais (e os de ―fora‖) para apresentar a riqueza das expressões artísticas ali

existentes.

Diante dessas diferentes representações, outras indagações se apresentam: seria possível propor uma diferenciação socioespacial considerando apenas a pobreza econômica? Em que medida a pobreza econômica apresenta especificidades regionais? E de forma mais específica, é possível tratar uma região homogeneamente como pobre sem considerar as diversidades regionais? Até que ponto os ―projetos de desenvolvimento‖ ampliar a pobreza no âmbito da região?

Entretanto, há quatro fenômenos que marcam consideravelmente os processos existentes no Vale do Jequitinhonha, sobretudo na década de 1970, que contribuíram consideravelmente para sua forma sócioespacial. Trata-se da chegada de ―projetos de

desenvolvimento‖ com a justificativa do ―desenvolvimento‖ do Vale e um forte fenômeno

regional que se refere a uma sociedade em movimento através dos processos migratórios, as chegadas e partidas.

2.2. Mobilidade espacial no Vale do Jequitinhonha: uma sociedade em movimento

A mobilidade espacial, com suas distintas tipologias (temporária e definitiva) ou temporalidades (mais curtas ou mais longas), sempre foi um fenômeno presente nas estratégias de reprodução social de famílias e indivíduos do Vale do Jequitinhonha. Historicamente, o Vale do Jequitinhonha caracteriza-se como uma região mineira de

emigração, representada pela grande perda ―líquida‖ de sua população, sobretudo a partir da

década de 1960. No período entre 1970 e 1980, o Vale sofreu uma perda populacional de cerca de 266 mil pessoas, o equivalente a um terço da população recenseada em 1980 (MEDEIROS SILVA, 1986).

Todas as famílias conhecidas durante o período de desenvolvimento da pesquisa de campo, independentemente de suas diferentes condições econômicas, sociais e culturais, tinham um elemento comum, que é parte constitutiva da dinâmica dessas populações: a migração de membros do grupo familiar, de vizinhos e/ou parentes. No entanto, não foi e não parece ser possível estabelecer uma relação entre pobreza econômica e migração. Pessoas oriundas de famílias com boas condições materiais de existência migravam da mesma forma que os mais pobres, ainda que sua partida tivesse significados muito distintos. Jovens de

classe média migravam para a progressão nos estudos em outras regiões brasileiras, ou até mesmo no exterior, sobretudo Inglaterra e Portugal.

Entre os mais pobres, é muito mais comum à migração de trabalhadores, ou a migração campo-cidade pela impossibilidade da permanência, dentre eles, devido à seca, ou a expulsão de seus locais de morada.

Há uma afirmação recorrente nos estudos sobre dinâmicas migratórias que atribui ao mercado de trabalho e à questão da renda um papel definidor na opção pela migrar, e isso está atrelado aos desequilíbrios regionais dos fatores de produção e o dinamismo do mercado de trabalho. Mas, na experiência do Vale do Jequitinhonha, a migração não está relacionada apenas a esses dois fatores: renda e trabalho, elementos que são particulares do Vale do Jequitinhonha, mas também esta presente na dinâmica migratório daquela região. Se esses elementos estão presentes na escolha pela partida e são fatores propulsores da mobilidade espacial, há outros que interferem nesse processo, como por exemplo, o que move mulheres e homens homossexuais, marginalizados numa sociedade machista patriarcal. Preferem migrar como escolha ou possibilidade de viverem com maior liberdade. São casos em que a migração não tem como motivo a busca de emprego e rendimentos, ainda que ambos sejam fundamentais para a permanência dessas pessoas nos locais de destino, principalmente no caso dos que trocam o Brasil por países da União Europeia.

No Vale do Jequitinhonha, é possível perceber algumas regularidades empíricas sobre a mobilidade espacial: I- forte mobilidade de trabalhadores temporários, sobretudo homens jovens e com baixa escolaridade; II- forte mobilidade espacial de jovens (mulheres e homens) com idades entre 17 a 35 anos, com diferentes condições materiais de existência; III- forte migração de jovens de classe média para a progressão nos estudos, tendo como destino principalmente Diamantina (MG), Teófilo Otoni (MG) e Belo Horizonte (MG), no Brasil, bem como Alemanha, Estados Unidos, Canadá e Itália, no âmbito do Programa Ciência sem Fronteiras do Governo Federal Brasileiro; IV- migração de famílias em busca de melhores condições de vida.

Os destinos e os significados dessas mobilidades são diversos, mas alguns pontos parecem ser comuns:

1. o enfoque neoclássico que relaciona a migração à busca de melhores empregos, salários e oportunidades explica grande parte dos processos migratórios, mas há outras variáveis altamente subjetivas, tais como questões de gênero, sexualidade ou religião etc.;

2. pessoas de todas as idades migram, mas os jovens solteiros são mais propensos a migrar;

3. os significados da migração mudam consideravelmente entre famílias com condições financeiras diferentes; aquelas com mais recursos têm objetivos definidos, por exemplo, a progressão de estudos, além de condições melhores e escolha mais ampla de destinos;

4. não é possível estabelecer uma relação estreita entre migração e pobreza: contrariamente, a pobreza é um forte elemento de imobilidade, mesmo que a migração seja altamente desejada; entretanto, chegadas e partidas, o estar e ficar ou estar, ficar e partir estão presentes no cotidiano de todas as famílias.

Um fenômeno populacional consideravelmente expressivo no Vale do Jequitinhonha refere-se a uma mobilidade do trabalho do tipo sazonal, observada principalmente nos grupos domésticos residentes no meio rural, que produz trabalhadores híbridos: parte do ano eles se assalariavam em trabalhos precários (sobretudo no corte da cana-de-açúcar e na construção civil), e no restante do tempo, retornam a suas localidades de origem e continuam trabalhando em suas pequenas propriedades, desenvolvendo atividades ligadas à produção animal e vegetal, visando tanto ao consumo, quanto à comercialização de pequenos excedentes em feiras locais e regionais. Essa dinâmica de trânsitos permanentes e permanências transitórias é entendida como uma estratégia para a permanência na terra e a reprodução enquanto grupo social, ou seja, se assalariam temporariamente para manterem a condição de agricultor (RIBEIRO, 1996; MAIA,2004).

A escolha do membro da família para assumir esse tipo de mobilidade do trabalho, todavia, segue algumas regras, e depende da posição do indivíduo na estrutura familiar, cabendo esse papel em especial ao pai/principal provedor e aos filhos maiores (homens), seguidos dos demais. Os membros que permanecem, as mulheres/esposas (conhecidas

nacionalmente como as ―viúvas da seca‖), filhas e filhos pequenos seguem trabalhando na

roça e garantindo a ligação do grupo com seu patrimônio. A mobilidade espacial, portanto, resulta de uma negociação intrafamiliar. Se por um lado, a migração dos trabalhadores é motivada pelo assalariamento que garante os recursos para a reprodução social das famílias, por outro, essa saída é possível devido à permanência das mulheres e dos filhos na propriedade e na localidade de origem, condição para a continuidade da família na agricultura.

As migrações temporárias e a mobilidade dos trabalhadores do Vale do Jequitinhonha tiveram maior impulso a partir da década de 1970, época em que teve início também a

implantação de projetos de reflorestamento nas áreas planas das chapadas mineiras. A apropriação das chapadas pelo pínus e o eucalipto é considerada um dos principais impulsionadores da migração. A permanência tornou-se impossibilitada e até mesmo um ato de resistência.

Historicamente, o Vale do Jequitinhonha foi ocupado por famílias descendentes de escravos ou famílias pobres em busca de áreas para mineração. As chapadas, terras de uso livre e menos férteis, eram apropriadas por essas famílias de lavradores e mineradores que residiam nas grotas, áreas mais próximas aos rios e mais férteis, criando uma simbiose entre ambas. A produção agrícola para o autoconsumo da família nas grotas (áreas mais úmidas próximas aos rios e riachos – perenes e intermitentes) tinha como complementaridade os frutos retirados da chapada, junto com a madeira e a lenha. A grilagem e o mercado das terras nas chapadas limitaram ou até mesmo destruíram a dinâmica grota e chapada. Esse processo é denominado por Moraes Silva (1999) como a chegada do estranho nos grandes sertões e veredas. Os projetos de reflorestamento eram parte dos grandes planos de modernização elaborados no Brasil ao longo das décadas de 1960 e 1970, no período dos governos miliares. A apropriação de áreas do Vale do Jequitinhonha para as grandes plantações de pínus e eucaliptais39, notadamente nas chapadas, representou, por um lado, a limitação de seu uso pelos agricultores do Jequitinhonha e, de forma mais dramática, sua expropriação, mediante a

tomada da terra que ―(...) não ocorreu, em sua quase totalidade, por intermédio da violência

aberta, mas, ao contrário, da violência escondida e legal, ou seja, da violência monopolizada pelo Estado, com a promulgação de leis que implantaram os projetos de modernização nesta

região‖ (MORAES SILVA, 1999, p.27). Nesse sentido, a migração da população ocorreu a partir da chegada dos grandes ―projetos de modernização‖, em um contexto, em que a

permanência das pessoas que estavam historicamente instaladas nas chapadas e grotas, não era uma opção.

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Há um conjunto de autores que tratam dessa relação entre reflorestamento, empobrecimento e migração/proletarização. Para entender melhor os projetos de modernização no Vale do Jequitinhonha, a apropriação de grandes empresas de reflorestamento e a expropriação dos lavradores dessa região, indica-se a leitura dos trabalhos de Moura (1988), Moraes Silva (1988 e1999) e Ribeiro (1999, 2002 e 2008), entre outros.

Fotografia 1: Parte de uma chapada (terras altas e vegetação rasteira) nos tempos da chuva

Fotógrafo: Elicardo Heber, 2013.

Com a expulsão dos lavradores de suas terras, a limitação do uso dos recursos naturais das chapadas, restringindo a relação sociedade e natureza, e/ou com a ampliação da vulnerabilidade social com a migração para as sedes urbanas dos municípios ou pequenas aglomerações populacionais (sobretudo povoados e distritos) na região, restou, às pessoas antes residentes nas grotas ou chapadas, a migração temporária para São Paulo (SP) como uma alternativa para sobreviver. Os migrantes temporários que eram pequenos agricultores, mas permaneciam em seus lugares de vida de forma precária, deslocavam-se em busca de trabalho.

Eram as ―as andorinhas do Jequitinhonha‖, ou seja, migrantes do trabalho precário, que transitavam em distintos lugares como seres híbridos: parte do ano, lavrador, noutra parte, proletário em trabalhos precários, sobretudo, na construção civil e no corte da cana-de-açúcar. As andorinhas eram forçadas a migrar. Foi principalmente a partir de 1960 que as migrações, em especial as do tipo sazonal e para o interior de São Paulo, se intensificaram, condicionadas às desigualdades regionais, à estagnação econômica no Vale e à alteração nos usos da chapada.

A migração é um aspecto constitutivo da dinâmica populacional do Vale do Jequitinhonha, mas não é um movimento único, geral e obrigatório (RIBEIRO, 1993). Em grande medida, ela é resultado de elementos muito particulares da região, entre outros, a

presença de áreas de reflorestamento e de cultivo do café ou de pecuária, bem como de terras concentradas ou distribuídas em pequenas propriedades, de ocupações mais antigas ou mais recentes. As especificidades de cada área e suas formas de ocupação interferem nas estratégias de sobrevivência dos lavradores empobrecidos, entre elas, a migração.

A chegada dos eucaliptais é considerada uma espécie de inauguração da migração no Vale do Jequitinhonha, com as viagens dos lavradores para ―o sul‖, tendo como destinos preferenciais as capitais do Rio de Janeiro e São Paulo. Mas, se há uma forte relação entre o reflorestamento e a migração, esse fenômeno social não teve seu início na segunda parte do século XX. Desde os últimos anos do século XIX, eram comuns as migrações temporárias de lavradores do Vale do Jequitinhonha, que se empregavam nas colheitas do café na Zona da Mata Mineira (LANNA, 1989), em substituição à mão de obra escrava, o que viabilizou a permanência desse cultivo na área.

Eram os cacaieiros40, ou seja, trabalhadores temporários que permaneciam parte do ano em suas lavouras no Vale do Jequitinhonha e, noutra parte, trabalhando nas colheitas do café na Zona da Mata, ou na derrubada das matas no Vale do Mucuri. Os destinos dos trabalhadores temporários eram mais diversos que a clássica migração para o Rio de Janeiro ou São Paulo. Entretanto, esses agricultores estiveram entre os trabalhadores temporários que se dirigiram praticamente a todas as frentes agrícolas de trabalho do Centro-Sul ao longo do século XX: Vale do Mucuri (1930-1960), Paraná (1950-1960), Sul de Goiás (1960-1970) e Mato Grosso (1950-1970); assim como na construção civil e no corte da cana-de-açúcar (1980-1990), depois de esgotadas as outras frentes citadas anteriormente.

É certo que os grandes projetos de reflorestamento tiveram forte impacto nas movimentações populacionais no Vale do Jequitinhonha, mas não se pode atribuir-lhe a responsabilidade pelo início do fenômeno migratório, seja ele temporário ou definitivo, por escolha ou compulsória. As dinâmicas populacionais apresentadas anteriormente apontam a necessidade de compreender a história do fenômeno sem cair em generalizações como a que o relaciona univocamente à chegada dos eucaliptais.

Em grande medida, os estudos sobre a migração nessa região analisam o fenômeno relacionando-o à expansão do capitalismo, às empresas de reflorestamento e à partida para São Paulo como resposta a esses problemas. Os migrantes surgem como seres passivos frente

aos elementos ―vindos de fora‖. Se a migração é um fenômeno muitas vezes compulsório, é

preciso considerar que esse movimento é também resultado das escolhas dos agentes do