• Sonuç bulunamadı

Muhataba Görelik İlkesi (Eğitimde Ferdiyet)

III. Araştırmanın Hipotezleri

1. TEMEL KAVRAMLAR

2.2. Kalem Suresinde Öne Çıkan Eğitsel İlkeler

2.2.1. Muhataba Görelik İlkesi (Eğitimde Ferdiyet)

Discutindo a sociologia dos tribunais e a democratização da Justiça, Boaventura de Souza Santos, em seu livro “Pela mão de Alice” (1996, p.167) nos mostra que o acesso à Justiça é o tema que “mais directamente equaciona as relações entre o processo civil e a Justiça social, entre igualdade jurídico-formal e a desigualdade sócio-económica”.

Capelletti; Garth (1988, p.12-13) nos mostram que “o acesso à Justiça pode, portanto, ser encarado como um requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos – de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos.”

O acesso à solução de demandas pela via judicial é caro, moroso e causa, às partes um desgaste imenso de forças. Não raro, nos deparamos com histórias de cidadãos que levaram anos para obter a sentença final sobre uma demanda relativa a questões como inventários familiares, posse de terras ou até mesmo ao direito à paternidade e pensão alimentícia.

Citando estudos feitos na Itália, Santos (1996, p.168) mostra que a Justiça civil é, proporcionalmente, mais cara para os mais pobres, o que “configura um fenômeno da dupla vitimização das classes populares face à administração da Justiça”.

De acordo com Andrighi11 (1997); no Brasil, a situação não é diferente e, o Poder Judiciário, na tentativa de reverter o quadro de desgaste diante da sociedade, criou, em 1995, os Juizados Especiais que têm ainda a missão de diminuir a morosidade processual à qual são submetidos os cidadãos brasileiros.

Segundo a Desembargadora, a criação dos Juizados tem duas funções

A primeira é relativa ao acesso ao Poder Judiciário que se faz comprometido. O quadro social existente antes da Lei n. 9.099/95 era de evidente falta de assistência jurídica, gerando a descrença na Justiça e conduzindo os cidadãos, diante da violação a um direito seu, a tomar uma das seguintes atitudes: 1) fazer Justiça com as próprias mãos; 2) contratar alguém para fazê-la em seu nome; ou 3) conformar- se e não tomar, naquele momento, qualquer atitude, limitando-se a reter no coração a mágoa e a sensação de desamparo.A segunda função a ser desempenhada por essa Lei é, conseqüentemente, a de reverter o descrédito na Justiça ocasionado pela reconhecida morosidade no andamento dos processos. Muito se tem trabalhado para afastar essa pecha. Cite-se, por exemplo, a modernização da legislação processual civil com a implementação da Reforma do Código de Processo Civil que introduziu as tutelas diferidas como instrumentos eficientes de aceleração da tramitação do procedimento ordinário, tornando mais célere a entrega da prestação jurisdicional. Outro exemplo que podemos citar, para demonstrar o avanço da legislação processual, é a adoção, no bojo do Código de Processo Civil, de uma forma alternativa de solução de conflito, como a consignação em pagamento extrajudicial.

Iniciativas como estas são ainda insuficientes para resolver todos os problemas da igualdade de acesso à Justiça, mas representam um esforço importante, por parte do Judiciário, na democratização do sistema. A desembargadora cita outros exemplos como a reforma do

11

Desembargadora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios e Secretária-Geral da Escola

Código Civil e a criação do Código de Defesa do consumidor, ações que aproximam o Direito do cidadão.

A dificuldade de acesso à Justiça está inexoravelmente ligada não só aos aspectos econômicos, como nos mostra Santos (1996), mas a aspectos sociais e educacionais como o desconhecimento, por parte do cidadão, de seus direitos: cidadãos pertencentes às camadas sociais mais baixas têm maior dificuldade para reconhecer suas demandas como “dignas” de uma decisão judicial e acabam por encontrar soluções alternativas para as mesmas. Outro fator de dificuldade é o fato de que indivíduos mais pobres, em geral, não conhecem Advogados, não sabem como entrar em contato com um desses profissionais (inclusive por força da distância geográfica, não têm meios para ter acesso aos serviços gratuitos oferecidos pelo Estado - quando estes existem) e, com relação a estes, existe ainda a certeza de que são de baixa qualidade e que não representam uma garantia de que seus interesses serão defendidos. O defensor público, pago pelo Estado, geralmente acumula centenas de processos o que o impede de dispensar a devida atenção a cada um deles; além disto, as precárias condições de trabalho oferecidas a estes profissionais por parte de Estado dificultam ainda mais sua dedicação às causas dos cidadãos que, por força da “pobreza” são obrigados a recorrer aos seus serviços. A demora de uma demanda judicial pode representar outro fator de afastamento do cidadão das demandas judiciais (aqui, novamente, temos o fator econômico presente, pois os gastos são maiores com a delonga da causa).

Discutir a democratização da Justiça, a partir da leitura de Santos (1996) nos leva a pensar também a questão da administração desta como uma instituição política e profissional; tal discussão nos reporta ao pensamento de Bourdieu (2003) quando fala da relação entre o sistema do Direito e a sociedade na qual ele encontra-se inserido. Para os dois autores, existe uma relação direta entre a prática dos Magistrados e os momentos sociais e políticos onde esta acontece. As decisões jurídicas não são tomadas de maneira isolada e sim em consoante com a orientação política, social e ideológica daqueles que detêm o poder de decisão. Mesmo que, como nos mostra Bourdieu (2003), exista sempre, dentro do sistema jurídico, um limite, uma base na qual os juristas baseiam-se (o que o autor denomina “cânone jurídico”), o Juiz sempre interpretará uma causa de acordo com valores que são seus, relacionados ao seu posicionamento político, sociocultural, etc.

Santos (1996 p. 173) nos mostra que diversos estudos da sociologia do Direito colocaram o trabalho dos juristas no centro de uma discussão que terminou por “desmentir por completo a idéia convencional da administração da Justiça como uma função neutra protagonizada por um juiz apostado apenas em fazer Justiça acima e eqüidistante dos interesses das classes”. Pensar as ações dos juristas implica pensar também a cultura, o contexto social, as conjunturas nas quais tais ações acontecem contextualizá-las para então termos uma visão mais clara de como se constitui o campo jurídico – aspecto que será abordado posteriormente, neste trabalho.

José Renato Nalini12 discute as novas possibilidades de acesso à Justiça no Brasil e, dentre outros aspectos, destaca o papel dos órgãos públicos ligados ao Direito na democratização do acesso à Justiça, mostra que é papel destas instituições e dos Magistrados promover a extensiva divulgação do Direito junto à sociedade, ou seja

atuar no sentido de divulgar o Direito e as formas de usufruí-lo e de defendê-lo quando vulnerado. Todas as informações jurídicas são pertinentes e mesmo a edição de uma Cartilha da Cidadania se faz recomendável, para uso do brasileiro despertado para essa vertente constitucional a partir de 1988.Todo juiz, pessoalmente, pode contribuir para disseminar o Direito, pois ao decidir está exercendo função docente. As decisões devem revestir clareza, assim entendida a cortesia do intelectual para com os destinatários de sua produção. Se os leigos compreenderem o Direito, afeiçoar-se-ão a ele e ao valor que exprime.

A OAB/SP, no Jornal do Advogado, publicou reportagem onde se via, na chamada de capa o título “Babel jurídica”. No artigo, denominado “Palavras que não dizem nada” fica claro como a linguagem extremamente rebuscada, com excesso de citações em línguas estrangeiras, pode dificultar a comunicação entre o mundo jurídico e a sociedade. A matéria deixa claro que é hora de começar a utilizar-se uma linguagem menos rebuscada, de modo a promover uma aproximação entre a Justiça e o homem comum. O que se pode concluir é que, na comunicação, o profissional do Direito deve preocupar-se menos com a forma e mais com o conteúdo.

Aqui, novamente podemos destacar o pensamento de Bourdieu (2003) quando nos fala sobre a linguagem jurídica que, sob a égide da neutralidade, da imparcialidade é, na maior parte das vezes, ininteligível para a grande maioria da população, ou seja, daqueles para os quais, a Justiça deve trabalhar. Nalini (1997) chama a atenção para a necessidade de esta linguagem

12

aproximar-se da população e que tal ação, simples de ser executada, pode facilitar o acesso ao direito, posto que o tornará inteligível. O Juiz pode e deve, na visão do autor, trabalhar para que sua sentença cumpra o seu verdadeiro objetivo que é o de ser “um ato de caráter utilitário, de aplicação concreta” e não uma dissertação acadêmica repleta “de termos técnicos com o apego ao arcaísmo, à excessiva repetição das mesmas expressões, ao caráter rebarbativo que ainda se encontra em grande número de peças processuais.”

Como podemos perceber e como nos coloca Santos (1996, p.170) o acesso à Justiça é um

fenômeno muito mais complexo do que à primeira vista pode parecer, já que, para além das condicionantes econômicas, sempre mais óbvias, envolve condicionantes sociais e colaterais resultantes de processos de socialização e de interiorização de valores dominantes muitos difíceis de transformar.

Diante de tal quadro, qual é o papel do Advogado na administração de uma Justiça mais igualitária?

O IV Capítulo do Título IV da Constituição da República de 1988 que cuida da Organização dos Poderes do Estado brasileiro foi exclusivamente dedicado às funções essenciais à Justiça e mostra que o “Advogado é indispensável à administração da Justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei”, colocando o Advogado como presença que favorece e auxilia o encontro do eqüitativo, em determinada situação de interesses conflitantes, levada à análise do Judiciário.

O Advogado é, por força do sistema legal brasileiro, o operador primeiro do Direito, pois é, essencialmente através de sua atuação que o cidadão, do mais humilde trabalhador até o Presidente da República, pode pleitear a assistência da Justiça na resolução de suas demandas13. A ele cabe tratar a todos os seus clientes com a mesma medida de Justiça, presteza e lealdade, no cumprimento de seu dever como intermediador entre o Estado e o cidadão.

13

São duas as possibilidade de dispensa da atuação do advogado em ações judiciais: 1) O artigo 791 da CLT,

que prevê a possibilidade de empregados e os empregadores reclamarem pessoalmente perante a Justiça do Trabalho e acompanhar as suas reclamações até o final. 2) O artigo 9º da Lei 9.099/95 que diz: "Nas causas de valor até 20 salários mínimos, as partes comparecerão pessoalmente, podendo ser assistidas por advogados; nas de valor superior, a assistência é obrigatória". Em ambos os casos, a presença do Advogado torna-se obrigatória na fase recursal.

O Código de Ética da advocacia, em seu artigo 2º diz

Art. 2º - O Advogado, indispensável à administração da Justiça, é defensor do estado democrático de direito, da cidadania, da moralidade pública, da Justiça e da paz social, subordinando a atividade do seu Ministério Privado à elevada função pública que exerce.

Ou seja, por força da Lei, o Advogado é peça fundamental para que se faça a Justiça, para que o cidadão comum possa pleitear o auxílio do Poder Judiciário na resolução de suas demandas. Pelo seu Código de Ética, o Advogado tem o dever de defender a cidadania, a paz e a ordem; tem um papel social fundamental: o de garantir a eqüidade, a democratização dos instrumentos jurídicos aos cidadãos com o objetivo de zelar pela garantia de preservação dos direitos garantidos pela sociedade democrática.

Ao operador primeiro do Direito é conferido o papel de parte fundamental na divulgação do Direito, de popularização dos conceitos e práticas jurídicos a fim de aproximar, de tornar cotidiana a relação entre o campo e o cidadão.