Segundo Barreto (1949, p. 2 e 3) o “Domus Municipalis” era a sede da administração e da justiça, sempre construído em um local nobre da cidade, na praça central ou do mercado. Em geral, os traços marcantes das casas municipais eram os pórticos destinados a feiras e mercados em algumas delas, em outras são as escadarias na entrada do edifício ou, então, as varandas para pregões. Ao centro do edifício, geralmente, colocava-se a torre de sinos. Sinos estes que controlam a vida da cidade, com o toque de recolher, o anúncio de mortes, de celebrações dentre outros acontecimentos. Barreto ainda salienta que o “Domus Municipalis” contém a cadeia, o arsenal de milícias, as salas de reuniões para os magistrados, algumas vezes com
outras salas também e uma capela. Alguns edifícios que seguem essas determinações para a construção são o Hotel-de-Ville na França; Pallazo publico ou
Pallazo della Regione ou, ainda Pallazo della Communitá na Itália; Casas Consistoriales, Casas de Ayuntamientos ou Cabildos na Espanha; Paços do Concelho em Portugal e Casas de Câmara e Cadeia no Brasil.
A organização no Brasil, sendo colônia de Portugal, seguiu a mesma linha do seu colonizador quanto as diretrizes religiosas, a legislação, a agricultura e as instituições municipais. (BARRETO, 1949, p. 13)
As eleições para ocupar os cargos da Câmara eram realizadas de forma indireta. Os chamados “homens bons”8,ou seja, os nobres, votavam em seis eleitos que, por sua vez votavam, em segundo turno, nos candidatos aos cargos. Sendo eleitos dois juízes de ordinários ou da terra; três ou quatro vereadores e o procurador, que nos conselhos menores acumulava também a função de tesoureiro. Os juízes ordinários exerciam alternadamente a presidência da câmara. O corpo da câmara era então formado pelos juízes, vereadores e o procurador, que se diziam oficiais da câmara. Esses oficiais exerciam suas funções gratuitamente. (BARRETO, 1949, p. 14). Havia ainda o Juiz-de-fora, nomeado pelo rei, quando o concelho era mais importante. A câmara tinha atribuições administrativas e judiciais tanto cíveis quanto criminais. Nas questões mais graves, reunia-se o povo para deliberar juntamente com os oficiais da Câmara. Para compor o corpo da câmara era obrigatório ter os auxiliares, dentre eles os meirinhos para arrecadação dos bens do concelho; almotacés que cuidavam dos mercados, vendas públicas, limpeza das ruas e da cidade; escrivães, tabeliães, inquiridores, aferidores, avaliadores, arruadores, porteiros, etc. (BARRETO, 1949, p. 15 e 16). Durante um longo período do século XVIII, cabia ainda aos camaristas o recolhimento do quinto, o tributo mais importante cobrado pela Coroa dos exploradores de ouro (BRANDÃO, 2009, p. 19)
Brandão sintetiza as funções da Câmara como sendo:
8 Os critérios de definição dos “homens bons” eram os seguintes: ser maior de 25 anos,
economicamente independente, ter boa reputação, ser chefe de família. Finte: Códice Costa Matoso
No tocante às Câmaras municipais, competia a elas atuarem como um tribunal de primeira instância em casos sumários; na esfera fiscal, incidir na arrecadação dos impostos municipais, obtendo daí sua receita, para além da obtenção de rendas provenientes das multas passadas a infratores pelos almotacés. Foram, ainda, responsáveis por supervisionar a distribuição e o arrendamento das terras municipais e comunais, lançar e cobrar taxas municipais, fixar preços de venda de produtos e provisões, verificar licença a vendedores ambulantes e de construção; assegurarem a manutenção de obras públicas, regulamentarem feriados e procissões, sendo também responsável pelo policiamento, pela saúde e sanidade pública (Boxer, 2002).Não obstante, cabia às Câmaras a regulamentação, organização e patrocínio de festas referent es à família real e ao calendário litúrgico, o que no caso da Câmara de Vila do Carmo, abocanhou uma significativa parcela da sua receita. (BRANDÃO, 2009, p. 20)
Segundo Barreto (1949, p.16 e 17) as câmaras eram subordinadas aos ouvidores, que homologavam as eleições e passavam as “cartas de usança” aos oficiais e faziam as “correições”. Junto às câmaras, existia também um corpo com atribuições semelhantes à atual Justiça do Trabalho, composto por escrivães de ofício. Segundo Barreto vários autores concordam em dizer que durante o período colonial há uma grande confusão entre os poderes administrativo e judicial. Esta forma de organização colonial vigorou até a lei de 1º. de outubro de 1828 quando foi abolida toda atribuição de caráter judicial da câmara e a transformou em instituição meramente administrativa, passando a depender, a partir de então, dos Concelhos Gerais, dos Presidentes de Província e do Governo Geral. Foram abolidas, nas câmaras, corporações de ofício, seus juízes, escrivães e mestres.
Para a melhor visualização da estrutura da Câmara na era colonial e respectiva função de cada cargo, vamos nos basear no estudo de Renato Pinto Venâncio (1998, p.139). Ressaltando que as atividades de natureza militar foram retiradas da estrutura, pois a documentação camarária apresenta consideráveis lacunas a este respeito.
Estrutura do Senado da Câmara da Vila do Carmo (1711 – 1745)
Figura 6 Estrutura do Senado da Câmara da Vila do Carmo (1711 – 1745) Fonte: VENÂNCIO, 1998, p.139
O Juizado de Órfãos tinha um encargo de natureza econômica e era responsável pela fiscalização da transmissão de heranças pela administração dos bens de herdeiros menores de idade. O Juiz de Fora tinha um encargo de natureza judiciária e, juntamente com seus subordinados, eram responsáveis pela abertura de inquéritos, prisões e devassas. O Presidente da Câmara e os vereadores tinham encargo de natureza política, devendo zelar pela manutenção da ordem, divulgar deliberações da Coroa e servir de intermediários entre a população local e o poder metropolitano. Aos funcionários da Almoçataria, de encargos de natureza fiscal, cabia a cobrança dos impostos, redação das atas e dos demais documentos camarários relativos à fiscalidade. As criadeiras, encargo de natureza assistencial, eram contratadas para cuidar de recém nascidos enjeitados, que recebiam um pecúlio trimestral até a criança completar sete anos de idade.
Presidente da Câmara
Juiz de Fora Juiz de Órfãos
Oficiais da Câmara (vereadores) Criadeira de Expostos Juiz Ordinário Partidor e Avaliador Curador Geral dos Órfãos Almotacel Escrivão de Almotaçaria Inquiridor Contador Distribuidor Tesoureiro dos Ausentes Escrivão dos Órfãos Juiz de Vintena Escrivão de Vintena Escrivão de Vara dos Alcaides Escrivão de Execuções Procurador Carce- reiro Alcaide M eirinho de Execuções
Na segunda fase, 1746 – 1808, a estrutura geral da Câmara sofreu algumas modificações, ampliando o número de cargos e a abrangência dos serviços. Em cada um dos três eixos principais demonstrados no organograma, Presidente da Câmara, Juiz de Fora e Juiz de Órfãos, surgem novos cargos.
No eixo do Presidente da Câmara, surge o cargo de Cirurgião do Partido, subordinado aos Oficiais da Câmara. Um cargo de natureza assistencial, que seu ocupante tinha por obrigação, no caso das câmaras portuguesas, decretar quarentena com o objetivo de evitar a propagação de doenças.
No eixo do Juiz de Fora e estando no mesmo nível deste, surge o cargo de Juiz das Demarcações de Sesmarias, um cargo de natureza territorial. O responsável por conceder sesmarias era o governador, porém, em Minas, as câmaras eram consultadas, devido aos freqüentes conflitos nas disputas dos limites das sesmarias, no período de expansão das atividades agrícolas. Subordinado diretamente ao Juiz Ordinário, surge o solicitador de Causas e o Jurador. Subordinado ao Alcaide surge o Porteiro de Juízo e, subordinado ao Escrivão de Meirinho das Execuções, surge o contínuo.
No eixo do Juiz de Órfãos e subordinado diretamente a este, surge o Aprovador de Testamentos. O Escrivão de Órfãos passa a ser subordinado ao Inquiridor Contador Distribuidor. Também, como subordinado, surge o Escrivão de Testamentos da Suplicação. E subordinado ao Tesoureiro dos Ausentes , surge o Meirinho dos Ausentes e, subordinado a este último, surge o Escrivão do Meirinho dos Ausentes. Ainda nesse estudo o autor, Renato Pinto Venâncio, destaca que a câmaras coloniais luso-brasileiras possuíam grande autonomia administrativa.
A partir da independência do Brasil, o Império institui o código criminal de 1830 e o código de processo de 1832. Em 1841 são criados os cargos de chefes e delegados de polícia. E, a partir da lei de 20 de setembro de 1871, as funções judiciais passam a pertencer exclusivamente às autoridades judiciárias (BARRETO, 1949, p. 17). Durante o Brasil Colônia, época em que não havia distinção entre poder executivo e legislativo, não existindo a figura do prefeito, segundo Leal
As Câmaras possuíam funções amplas – cabia-lhes cuidar do centro urbano, estradas, pontes, prisões, matadouros, abastecimento, iluminação, água, esgotos, saneamento, proteção contra loucos, ébrios e animais ferozes, defesa sanitária animal e vegetal, inspeção de escolas primárias, assistência a menores, hospitais, cemitérios, sossegos público, polícia de costumes etc., - sintetizadas, na promoção e manutenção da tranqüilidade, segurança, saúde e comodidade dos habitantes, asseio, segurança, elegância e regularidade externa dos edifícios e das ruas das povoações. (Leal apud CHAVES et. al., 2008, p. 17)
Andrade (1998, p.127) também faz um estudo sobre as funções das Câmaras Municipais, no período colonial, e destaca que a jurisdição dos juízes, vereadores e de um procurador, composição da Câmara naquela época, era bastante ampla sendo eles responsáveis por funções administrativas, políticas, jurídicas e fiscais. Ele diz que os camaristas cuidavam, auxiliados pelos contratadores e funcionários assalariados, das leis gerais e das posturas do município, do abastecimento de gêneros alimentícios, da higiene e da saúde local, das obras e construções de necessidade e uso da população, da assistência social, da fiscalização e taxação dos serviços e mercadorias, da ordem e da segurança da população local.
Max Fleiuss (apud BARRETO, 1949, p. 15) descreve as funções da Câmara como sendo: “jurisdição sobre caminhos, chafarizes, pontes, calçadas, fontes e etc. Taxava oficiais mecânicos, jornaleiros, mercadorias e provia posturas. Cabia à Câmara legislar, administrar, policiar e punir”.
Somente após a Revolução de 1930, as prefeituras são criadas para assumir a responsabilidade das funções executivas dos municípios. Conseqüentemente, as Câmaras Municipais passaram a assumir as funções legislativas.