3. ÜÇÜNCÜ BÖLÜM
3.2. Mucize
Francisco Medeiros124 relatou no ciclo de encontros Dramaturgia - as
tessituras da cena125 que, em conversa com Roberto Bacci, perguntou-lhe qual
123“Il rapporto con il regista è
ambiguo. Roberto Bacci è un regista anomalo, lascia molto spazio all’attore.
A volte si ha l’impressione che in lui alberghi una specie di passività, da carenza di idee, per cui rimette
all’attore il compito di trovarne in suo luogo. È un processo talvolta faticoso, perché si sente su di sé tutto il
peso e la responsabilità di quello che si sta facendo, senza una reale contrapposta da parte del regista. A volte non se capisce cosa voglia dagli attori o dallo spettacolo; si vorrebbe che infondesse lui più vita agli
attori anziché essere sempre lui a chiedere a loro. Non nego che a volte ci si senta come “vampirizzati” in
uno spreco di energie di cui è muto spettatore anziché conduttore e arbitro. Molti si sono chiesti se sappia lavorare con gli attori, aiutarli a tirare fuori il meglio di sé. Forse non è capace, se pensiamo nei termini tradizionale di regista. Credo che lui non sappia dialogare con le forze di un attore, come vincolare
esplicitamente, quasi avesse timore della sua istintività.È abile nel creare l’ambiente, il guscio entro il
quale il lavoro degli attori si svolge e in qualche modo lo contestualizza e giustifica. Offre il pretesto, lo spunto di lavoro.” Entrevista concedida a mim em Pontedera, Itália em abril de 2009. Tradução minha.
108 seria sua atitude acerca do processo de criação do ator, ao que o diretor
respondeu: “cuidar da manutenção do espaço de risco do ator”.
Por espaço de risco, ou zonas de risco entendi um complexo múltiplo de procedimentos, signos e símbolos concretos e abstratos ou, para usar uma terminologia mais próxima de Grotowski, “visíveis” e “invisíveis” que se ligam de maneira rizomática entre atores, símbolos, mitos, temas, jogo, etc. Observando o conjunto destas linhas (e não linhagens), vemos a imagem deste processo de criação semelhante a um rizoma. A zona de risco, tal qual a estrutura rizomática é ainda móvel, com inúmeras ligações que se conectam em diversos pontos, estabelecendo relações entre elementos sígnicos e elementos concretos.
Dada a multiplicidade e a complexidade do processo criativo na forma de rizoma, selecionei dois aspectos para serem observados de forma mais aprofundada. Ambos são, de alguma maneira, amostra do rizoma, embora não mais nem menos importante do que as demais partes constituintes. Todavia, não seria possível descrever o rizoma em sua totalidade, pois além da diversidade de formas que o compõem, possui a capacidade de metamorfosear-se e gerar novas linhas até então inexistentes.
Perguntas fundamentais e os elementos simbólicos foram as duas
linhas que selecionei. O termo “perguntas fundamentais” foi cunhado por Roberto Bacci em uma entrevista dada ao SESC, em 2 de abril de 2004, ao se referir ao vínculo entre o ator e o texto ou entre o ator e o tema. Por meio delas o ator se implica e se envolve com a proposta. Devem, contudo, estar presentes também para o diretor, o cenógrafo, os iluminadores, enfim todos os 124
Francisco Alberto Azevedo Medeiros nasceu em São Paulo (SP), em 1948. Diretor, encenador com marcantes trabalhos realizados nas áreas de teatro e dança. Distingue-se pelo acabamento e precisão que imprime à cena. Entre seus principais trabalhos destacam-se Artaud, O Espírito do Teatro, pelo qual recebeu um prêmio Molière pela criação. Em 1986, criou Criança Enterrada, de Sam Shepard. Em 1987, uma nova realização volta a projetá-lo: Depois do Expediente, texto sem palavras de Franz Xaver Kroetz, levando a atriz Ileana Kwasinski a ser premiada com o Molière do ano. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_bio grafia&cd_verbete=150. Acesso em 07 de abril de 2011.
125O encontro de estudos teatrais “Dramaturgia: astessituras da cena” foi realizado no Instituto de Artes,
em São Paulo, campus da Barra Funda, de 11 a 13 de novembro. Com apoio da Pró-Reitoria de Extensão Universitária (Proex), o evento foi organizado pelos professores Alexandre Mate e José Manuel L. de Ortecho Ramírez.
109 envolvidos no processo de criação porque estão associadas a aspectos subjetivos da história e das motivações de cada um dos envolvidos no processo criativo. Embora não possam ser descritas, podem ser organizados
por meio dos “elementos simbólicos concretos” presentes no cenário, no
figurino, nas ações dos atores ou ainda em “elementos simbólicos abstratos:
mitos, arquétipos e símbolos”.
Acredito que estes conceitos levam à instauração de uma zona de risco no trabalho do ator, pois em primeiro lugar as perguntas fundamentais conectam os sujeitos àquilo que os move, envolvendo-os com os aspectos profundos de si mesmo gerando uma fricção instável, uma região de incertezas que pode ser fonte criadora para o ator. Depois, de acordo com Gilbert Durand, o símbolo possui uma face oculta: “o símbolo é, pois, uma representação que
faz aparecer um sentido secreto; ele é a epifania de um mistério”.126
Trabalhar sobre elementos simbólicos é trazer à tona aspectos do ator que estão além da sua racionalização. Ao trazer para a cena estes
elementos por meio do símbolo, o organismo do ator em ação flui. Este “fluir”, de maneira genérica, Grotowski nomeou de “organicidade”. Os elementos
simbólicos dos quais tratei estão atrelados à ideia de organicidade em Grotowski porque muitos deles emergem das ações dos atores. Ao longo de sua trajetória e com a melhor compreensão da organicidade, Grotowski passou a utilizar o termo símbolo como sinônimo de impulso.