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Kelâmullah Tartışması

2. İKİNCİ BÖLÜM

2.4. Kelâmullah Tartışması

Refiro-me aqui a uma prática que até então me era desconhecida. A minha primeira referência era a de um diretor pedagogo, alguém que tendo um ponto de vista, uma ideia sobre o espetáculo orientaria seus atores dentro da perspectiva desejada por ele, utilizando-se mais ou menos do material e do ponto de vista do ator. Assim, se o ator traz propostas que convergem com a perspectiva do diretor, estas propostas podem ser acolhidas ou remanejadas, mas não alteram a visão geral do diretor sobre o espetáculo.

Este processo de criação tem muito a ver com a Maiêutica socrática, método pelo qual Sócrates, por meio de perguntas, levava seus discípulos a duvidarem do conhecimento que possuíam sobre determinado assunto e a reconstruírem uma nova reflexão. Porém, ao lançar as perguntas, Sócrates podia conduzir o pensamento do discípulo e, ainda que isso não acontecesse, ao se colocar na posição de sábio que inquire e não como um igual que

creare mondi che arrischiano quello quotidiano”. Entrevista concedida a mim, em Pontedera, Itália, abril de 2009. Tradução minha.

102 conhece porque pratica o exercício filosófico, Sócrates, de início, estabelecia uma relação de desigualdade. Jacotot criticou este método:

O método socrático da interrogação que pretende conduzir o aluno a seu próprio saber, é, de fato, aquele de um amestrador de cavalos: Ele comanda as evoluções, as marchas, as contramarchas. De sua parte, conserva o repouso e a dignidade do comando durante o manejo do espírito que está dirigindo. De desvios em desvios, o espírito chega a um fim que não havia sequer entrevisto quando da partida. Ele se espanta, se volta, percebe seu guia, o espanto se transforma em admiração e essa admiração o embrutece. O aluno sente que, sozinho e abandonado a si mesmo, ele não teria seguido essa rota.109

Creio, como afirma Jacotot, que a igualdade não se concede, mas se estabelece a priori. Foi bastante utilizado pelos colonizadores do globo o discurso de que primeiro é preciso aprender para depois fazer. Nesta perspectiva, entende-se que, primeiro, é preciso pensar da maneira do colonizador, para depois fazer como eles fazem, para isto existe a instrução.

“[...] o meio para construir a igualdade com a desigualdade, é a instrução do povo, isto é, a interminável compensação de seu atraso”.110

Jacotot conclui:

Como todo mestre sábio, Sócrates interroga para instruir. Ora, quem quer emancipar um homem deve interrogá-lo a maneira dos homens e não à maneira dos sábios, para instruir-se a si próprio e não para instruir um outro.111

Na fala de Jacotot, percebe-se um modo de proceder por meio da igualdade. Aí está o conceito fundamental que nomeou, ainda no século XIX, de Ensino universal112. O Ensino universal propõe que é possível ensinar aquilo que se ignora. Isso porque qualquer conhecimento pode ser posto em prática e verificado. O ser humano age antes por associação, intuição. Seu aprendizado

109 JACOTOT, Joseph. Enseignement universel. Droit et philosophie panécastique. Paris: Nouvelle

Édition,1838, apud RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual.. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. p.89-90. Tradução de Lilian do Valle.

110 RANCIÈRE, Jacques. Op. cit., p.180. 111 Idem, p.52.

112 Ao perceber que a expressão “ensino universal” estava sendo desvirtuada para finalidades que não

diziam respeito aos conceitos que havia proposto, Joseph Jacotot o renomeou como Filosofia

103 primeiro, o da criança, advém da necessidade e não requer a explicação de um

método. Assim, Rancière analisa as palavras de Jacotot: “Quando necessário,

todos praticam esse método, mas ninguém está pronto a reconhecê-lo,

ninguém quer enfrentar a revolução intelectual que ele implica.”113

Assumir este método nas artes cênicas significa que o próprio experimento artístico é a prática pedagógica. A autoformação inclui o processo artístico em si. Não existe um lugar inalcançável do futuro onde o ator irá aplicar os conhecimentos adquiridos.

Esta aprendizagem acontece aparentemente de forma desordenada, fluída e, na maior parte das vezes, o resultado, ou seja, o espetáculo, demora a ficar pronto. Os atores envolvidos neste propósito, assim como o diretor, os cenógrafos, os figurinistas terão sempre em mente o desejo de realizar um belo espetáculo, mas lhes é mais importante como vão alcançar este resultado. E, como em qualquer outra forma de criação, muitas vezes não se chega a uma bela obra.

O processo criativo nestes casos, como já discorri anteriormente, pode ser comparado, como fizeram Gilles Deleuze e Félix Guattari, a um rizoma. O rizoma traz a imagem de uma planta sem raiz única que pode se ramificar em qualquer ponto, uma composição de linhas que se espalham sem se fixar. Deleuze e Guattari esclarecem:

Não se deve confundir tais linhas ou lineamentos com linhagens de tipo arborescente, que são somente ligações localizáveis entre pontos e posições. [...] O rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga. São os decalques que é preciso referir aos mapas e não o inverso.114

Ou seja, não existe no modelo rizomático proposições ou fundamentos principais. O rizoma cresce desordenadamente num movimento de desterritorialização e reterritorialização. Esta imagem do rizoma está em oposição à estrutura de árvore, ou modelo arbóreo. Este, por sua vez, cresce

113 RANCIÈRE, Jacques. Op. cit., p.36.

114 DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Introdução: Rizoma. In: Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. São

104 para cima representando um sistema hierárquico que parte de raízes estáveis e fixas. Paola Berenstein, por meio da obra do artista brasileiro Hélio Oiticica, também descreve uma arquitetura em formato de rizoma, a imagem labiríntica das favelas e o modo como se dá esta construção é uma imagem bastante

representativa do processo de criação ao qual me refiro.115

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Figura 18:

Um Rizoma.

Benzer Belgeler