As Tabelas 4 e 5 a seguir mostram estatísticas sobre os níveis de classificação das redações dos dois simulados no que se referem à Competência III da Matriz do ENEM.
Tabela 4 - Competência III no Simulado 1
TOTAL DE ALUNOS NÍVEIS Nº DE ALUNOS PORCENTAGEM
0 0 0% 1 1 2,2% 45 2 21 46,6% 3 12 26,6% 4 9 20% 5 2 4,4%
Fonte: Dados de pesquisa.
Tabela 5 - Competência III no Simulado 2
TOTAL DE ALUNOS NÍVEIS Nº DE ALUNOS PORCENTAGEM
0 0 0% 1 0 0% 42 2 5 11,9% 3 22 52,3% 4 8 19% 5 7 16,6%
Fonte: Dados de pesquisa.
A Matriz de Referência traz as seguintes características para os níveis 3 e 4 da Competência III:
Nível 3: Apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema,
limitados aos argumentos dos textos motivadores e pouco organizados,
Nível 4: Apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema, de forma organizada, com indícios de autoria, em defesa de um ponto de vista. (BRASIL, 2014, Anexo IV do Edital, p. 2, grifos meus - Anexo I nesta tese, p. 141).
Nesse caso, o nível 3 é também o nível mediano.
No Simulado 1, os níveis igual a ou acima da média esperada foram alcançados por 51% dos alunos pesquisados; ao passo que o índice no Simulado 2 foi de 87,9%. Portanto, houve uma melhoria bastante expressiva na Competência III.
Como estratégia de análise, a Competência III foi dividida em 2 partes a saber: III-1 - Defender um ponto de vista e
III-2 - Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos para defender esse ponto de vista.
III-1 - Defender um ponto de vista
Neste quesito, foi verificado se as redações continham um ponto de vista. Pela matriz do ENEM, uma redação que não apresenta ponto de vista é classificada nos níveis 0 ou 1. Todas as redações do corpus de pesquisa (87 - no total dos dois simulados, Anexos VII e VIII, p. 151-196 e p. 197-238, respectivamente) contêm um ponto de vista, ou seja, atendem a essa exigência, e foram, portanto, classificadas em nível igual ou superior a 2 conforme a Matriz de Referência.
III-2 - Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos para defender esse ponto de vista
As maiores dificuldades neste item se concentraram na seleção de informações, fatos, opiniões e argumentos, principalmente porque deveriam estar relacionados às "várias áreas de conhecimento", como já discutido na Competência II. A deficiência aqui é a argumentação propriamente dita.
No fragmento a seguir, A43 faz uma generalização inaceitável, além de apresentar uma incoerência histórica:
Ao afirmar que: "Nos dias de hoje a população não está tendo respeito com o próximo" (l. 7-8) e que "hoje a população está vivendo só de preconceito" (l. 11-12), o autor ignora um representativo número de cidadãos (nas ONGs, por exemplo) que trabalham para, justamente, combater o racismo, em prol da igualdade de direitos para todos.
Estabelece-se também uma incoerência ao se afirmar que: "Antigamente o povo tinha mais respeito com os outros, não tinham preconceitos e nem eram racistas" (l. 8-11).
Essa colocação, inclusive, vai de encontro ao próprio tema da redação, que foi: "Racismo: como virar de vez essa triste página da história?”. O aluno se esquece até mesmo do problema da escravidão, abordado por outros participantes.
No fragmento a seguir, primeiro parágrafo da redação, A5 estabelece uma relação equivocada de causa e consequência:
O autor cria uma incoerência ao argumentar que o crescimento da população homossexual é a causa para o aumento das denúncias por homofobia. É claro que, com uma discussão mais aprofundada, tal argumento poderia ser aceito, mas posto de modo apressado, torna-se questionável, visto que, numa sociedade mais democrática e tolerante, pode haver um maior número de homossexuais sem que eles sejam desrespeitados por isso.
"A organização dos dados com vistas à argumentação consiste não só na interpretação deles, no significado que se lhes concede, mas também na apresentação de
certos aspectos desses dados, graças aos acordos subjacentes na linguagem que é utilizada." (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 143).
Como os resultados do primeiro simulado mostraram que os alunos tiveram dificuldade na argumentação, antes da realização do segundo simulado, houve uma aula expositiva baseada em princípios da Pedagogia Retórica que contemplam a teoria da stasis e a teoria dos tópicos, já expostas em 2.2 (p. 37). Foram apresentadas estas dez estratégias argumentativas (vide Anexo XII, p. 242):
1. Exemplificação 6. Causa e efeito
2. Classificação 7. Definição
3. Comparação e contraste 8. Descrição
4. Analogia 9. Narração
5. Análise de processo 10. Indução e dedução
O objetivo dessa exposição foi tentar auxiliar os alunos na busca de mais, e mais eficientes, argumentos para seus textos.
Por causa desse trabalho que antecedeu o segundo simulado, na análise das redações que os alunos fizeram nessa segunda oportunidade, foi investigado também o uso ou não que fizeram das estratégias argumentativas que tinham sido apresentadas. Inclusive, a proposta da segunda redação foi elaborada solicitando, explicitamente, que o aluno usasse uma ou mais das referidas estratégias (Anexo XIII, p. 245).
Em sua redação, A26 construiu sua argumentação por meio de três estratégias: comparação, definição e exemplificação:
No primeiro parágrafo, o participante faz uma comparação da situação de negros e índios com a situação dos homossexuais, pois ambos precisam lutar para terem seus direitos garantidos no Brasil.
O parágrafo seguinte se inicia com uma definição do que o autor entende serem os homofóbicos e a relação desse conceito com a questão dos direitos humanos.
Por fim, no terceiro parágrafo, entre as linhas 16 e 20, temos uma exemplificação. Trata-se do caso de um adolescente de 18 anos que, segundo a Revista Fórum (2014, online), foi encontrado morto em um terreno baldio na cidade de Inhumas, região metropolitana de
Goiânia (GO), no dia 10 de setembro de 2014. Esse episódio teve grande repercussão nacional e, na data de realização do Simulado 2 (no dia 16 seguinte), ainda era notícia e motivo de debate na mídia.
A redação de A26 acima foi uma das que receberam maiores notas no Simulado 2 e também se caracterizou como ocorrência única na qual a argumentação foi construída com base na variação de estratégias.
Apesar da visibilidade desse dado, a tabela a seguir mostra que a metodologia trabalhada teve um impacto pouco expressivo nas redações dos participantes. Isso porque foram usadas apenas três estratégias argumentativas dentre as dez que foram trabalhadas em aula, ambas com baixos percentuais de ocorrência:
Tabela 6 - Estratégias argumentativas usadas no Simulado 2
TOTAL DE ALUNOS TIPO Nº DE ALUNOS PORCENTAGEM
exemplificação 12 28,5%
42 definição 6 14,2%
comparação 2 4,7%
Fonte: Dados de pesquisa.
A exemplificação foi a estratégia que predominou no Simulado 2 e só outras duas foram usadas: definição e comparação. Esse resultado, entretanto, se mostra pouco expressivo, visto que a exemplificação foi usada também no Simulado 1, por 8 alunos, antes de ser trabalhada em sala de aula. Soma-se a isso o fato de que a maioria dos participantes não fez uso em seus textos de nenhuma estratégia argumentativa esperada.
É inegável que ensinar os aprendizes a usarem tais estratégias é super relevante para o aperfeiçoamento da argumentação, mas isso demanda um processo mais demorado e sistematizado de ensino-aprendizagem. Apenas uma aula demonstrou ser deveras insuficiente para se chegar a resultados expressivos.
Destaco, inclusive, que esse conteúdo está contemplado, mesmo que muito brevemente, no LD adotado pela escola para o 3º ano EM (CEREJA; MAGALHÃES, 2010, p. 337), mas nenhuma das professoras regentes trabalhou essa parte em suas aulas.
Os dados indicam que o professor precisa ensinar argumentação através de um trabalho a longo prazo. Para ajudá-lo nessa tarefa, a escola pode, por exemplo, organizar uma agenda de conteúdos sequenciados que venham a contemplar os três anos do Ensino Médio. Voltarei a essa questão no Capítulo 5, ao tratar de sugestões para o ensino.