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Com o País reduzido a uma situação miserável 180, devido à dureza das invasões francesas, acompanhadas de todas as crueldades, destruições e pilhagens, o século XIX português anunciou-se de forma muito pouco animadora. O príncipe regente, a rainha

176 - Paul Ricoeur, ‘La marque du passé’, in Revue de métaphysique et de morale, n°1, 1998, p. 31. 177 - Pierre Nora, Comment on écrit l’histoire de France, in Les Lieux de Mémoire, vol. 1, 1993, ,p. 27. 178 - Paul Ricoeur, ‘La marque du passé’, in Revue de Métaphysique et de Morale, n°1, 1998, pp. 30-31. 179 - Walter Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio d’Água, 1992, p. 158. 180 - A. H. de Oliveira Marques, História de Portugal, vol. II, Lisboa , Editorial Presença, p. 380.

81 D. Maria I e toda a família real, bem como centenas de pessoas, tinham seguido para o Brasil, em 1807, ali chegando em 1808, após meses de viagem marítima. Levaram o maior número de bens preciosos que os navios acomodaram, além de livros e arquivos de grande importância nacional. Enquanto a capital portuguesa passava a ser o Rio de Janeiro, Lisboa ficara apenas com uma junta de regência, presidida pelo marquês de Abrantes, rapidamente dissolvida pelo general Junot. A Guerra Peninsular, com toda a sua dureza e quatro longos anos de duração, vinha juntar-se à desgraça que constituíra o grande terramoto de 1755 — e do qual ainda restavam muitas mazelas no século seguinte. Governado praticamente até 1820 com mão de ferro e plenos poderes pelo general britânico William Carr Beresford (1768-1854), que havia de ser feito conde e marquês, além de marechal do nosso Exército, Portugal viveu a situação especialíssima, entre 1808 e 1821 — e como aponta A. H. de Oliveira Marques —, de passar a ser quer

um protectorado inglês, quer uma colónia brasileira.181 Elevado o Brasil a reino, unido com a antiga metrópole, ali permanecia o governo central, estando a regência de Lisboa totalmente controlada pelo antigo subordinado de Sir Arthur Wellesley (1769-1852), duque de Wellington, o vencedor de Napoleão, que, em 1808, deixaria Junot regressar a França com o produto de todas as pilhagens feitas no nosso território. Falecida D. Maria I em 1816, o rei D. João VI sentia-se muito bem no Brasil — e ali desenvolveu obra de mérito —, não parecendo tencionar regressar à pátria. A situação viria a alterar-se, porém, quando em Agosto de 1820 acontece a Revolução Liberal, que, entre os seus actos iniciais, se apressa a pedir o regresso do monarca. Tal sucederá em Agosto de 1821, com o eclodir da Revolução Liberal, que abriria caminho à nossa primeira Constituição e levaria directamente à independência do Brasil, em 1822. O primeiro censo com base científica, organizado em 1864, dá para a década de 1820 uma população de pouco mais de três milhões de habitantes, possuindo Lisboa cerca de 210 mil.182

Ressentindo-se das perdas de grandes réditos no comércio e na indústria, os novos governantes portugueses, predominantemente burgueses, queriam fazer regressar o novo reino da América do Sul à categoria de colónia, anulando os múltiplos privilégios concedidos pelo monarca enquanto ali tão prazeirosamente vivera. Privada de muitos rendimentos derivados do rico território sul-americano, Lisboa fora particularmente tocada por essa crise e a situação das finanças públicas continuaria a agravar-se até às

181 - Idem, ibidem, p. 380. 182 - Idem, vol. III, pp. 125-127.

82 vésperas da guerra civil, com o peso esmagador dos diversos empréstimos externos e internos, com juros elevados — e a situação iria conhecer novos agravamentos.183

Feito este mínimo enquadramento histórico, deixemos então nascer, num dos bairros mal-afamados da velha Lisboa preterida pelo rei em favor do Rio de Janeiro, aquela que será a incessantemente venerada matriarca do fado, a cantatriz Severa, ímpar na enorme capacidade de afirmação como mito romântico, sobretudo através da projecção de uma famosa ligação amorosa com o conde de Vimioso (1817-1865), crismado por Júlio Dantas como conde de Marialva, na peça teatral e no romance escritos sobre o tema, numa cedência ao poder, como mais adiante veremos.

Numa altura em que o fado adquiriu a respeitabilidade conhecida, trova cultuada e acarinhada, tornada património imaterial da UNESCO, parecem longínquas as peremptórias afirmações de Fernando Lopes-Graça (1906-1994), compositor e musicólogo de assinalável mérito, que a seguir recordamos: O fado, cancro da vida e da

cultura nacionais,184 asserção que, mais tarde, reforçaria chamando-lhe execrando (…)

produto da corrupção da sensibilidade artística e moral, quando não indústria organizada e altamente lucrativa.185 Porventura sem as motivações políticas que (também) pesariam na opinião do citado musicólogo, José Régio (1901-1969) escreveria:

Quanto ao artista e ao crítico de arte, não têm eles de saber senão do valor do fado como expressão musical e como expressão literária. Julgo que, como tal, ninguém de gosto um pouco exigente verá nele senão uma expressão pitoresca, interessante, mas primária e pobre. Sendo, porém, medíocre o seu valor como peça musical ou literária, (…) tem o fado, além do interesse psicológico de destapar profundos escaninhos da alma de um povo, o de sugerir caminhos de expressão.186

Anos antes, Miguel Torga (1907-1995) afirmara, da forma cortante que muito gostava de utilizar:

Fados, Fados em todos os estilos e sentimentos. Quer queiram, quer não, em arte, o melhor que Portugal deu na época presente foram fadistas. Nenhum criador se levantou à altura das nossas cantadeiras. A Maria [Teresa] de Noronha, a Amália e a Hermínia são agora o Antero, o Eça e o Oliveira Martins.187

183 - António Martins da Silva, in História de Portugal, direcção de José Mattoso, Lisboa, Editorial Estampa, vol. 5 (O Liberalismo), p. 99.

184 - In António Osório, A Mitologia Fadista, Lisboa, Livros Horizonte, 1974, p. inicial, s/n. 185 - Ibidem, p. 71.

186 - J. Régio, in António Botto e o amor, ensaio, Porto, Brasília Editora, 2.ª ed., 1978. 187 - Ibidem, pp. iniciais s/n.

83 Lembrando que não apenas Júlio Dantas teve versos seus cantados por Amália, dado que outro tanto sucedeu com Régio e Almada (Rondel do Alentejo, por exemplo) — e sem esquecer o Fernando Pessoa (1888-1935), com poemas interpretados por diversas vozes do fado, com relevo para Mariza —, centremo-nos neste fenómeno da cantatriz Maria Severa, tentando destrinçar a verdadeira personagem do mito, de todo um vasto rol de invenções, algumas bem bizarras, criadas porventura para melhor se tornar fonte inesgotável de versos e outras formas literárias maiores e menores, se assim é lícito dizer. Tentemos analisar a sua conversão, afinal, com o correr dos tempos, numa espécie de bem industrialmente explorável.

Antes de mais nada, feita no âmbito das ciências sociais e humanas, esta tese tem como preocupação dominante a História da Arte, embora não deva nem possa deixar de lado as outras formas artísticas, arriscando-se a colher menor esclarecimento de questões só compreensíveis através dos testemunhos de quem conheceu, realmente, a famosa Severa e o seu amante, o conde de Vimioso, pertencente à alta nobreza. Quer isto dizer que não nos ocuparemos, nem para tal teríamos competência, de aspectos de natureza musical.188 Não deixa de constituir facto curioso encontrar-se no fado como que um fenómeno de ligação quase religiosa dos cultivadores da trova a uma espécie de panteão sagrado com a Severa no cume, algo muito visível sobretudo até meados do século passado. Essa mística terá ficado a dever-se em grande medida, tudo leva a crer, aos ataques, por vezes bastante violentos, levados a efeito por diversas personalidades, algumas de relevo na nossa vida cultural, com base em critérios de natureza moral e argumentações de ordem musical. Que o fado hoje por nós conhecido nasceu, certamente ainda na primeira metade do século XIX, nas zonas lisboetas de má fama (Mouraria, Bairro Alto, Alfama…), não restam dúvidas e disso já atrás falámos longamente.189 Dedilhado à guitarra por faias pertencentes a uma certa marginalidade que ali convivia, geralmente, com prostitutas. Muitas dessas pobres mulheres — e também alguns homens — cantariam a melancólica canção, que ia fazendo o registo das suas vidas difíceis e das dores passadas, bem como de todo um imaginário necessariamente ligado ao inexistente futuro para quem tinha por destino quase certo a enxerga do hospital, para acabar os

188 - Existem diversas obras que abordam (sobretudo) os aspectos musicológicos da velha trova, com particular relevo para o livro de Rui Vieira Nery, intitulado Para Uma História do Fado, Lisboa, Público/Corda Seca, Edições de Arte, 2004.

189 - Esses aspectos são tratados de forma interessante (e diferente) em diversas obras, a primeira delas já citada: João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, prefácio de Joaquim Pais de Brito, Lisboa, Dom Quixote, 1982; Joaquim Pais de Brito (direcção), Fado: Vozes e Sombras, Lisboa, Lisboa94-Electa, 1994; Francisco Inácio dos Santos Cruz, Da Prostituição na Cidade de Lisboa, Lisboa, Dom Quixote, 1984.

84 breves anos de existência. É claro que esses bairros velhos da cidade não possuíam, apenas, fadistas 190 e moças da vida, como também se focou, nem os cultores do fado se resumiam a desordeiros e exploradores de rameiras. Muita daquela gente tinha profissão e também havia que contar com os visitantes vindos de outras partes da capital, movidos pela curiosidade uns, certamente procurando os serviços das michelas,191 como então se dizia, muitos outros. Entre esses contavam-se membros da aristocracia, que levavam vida ociosa e propensa aos prazeres do jogo e do alcouce. No universo das que supriam essa procura, como hoje tecnocraticamente se exporia, vendendo por preço módico os seus maiores ou menores encantos, figurava, precisamente, a Maria Severa, que certamente nunca lhe ocorreria ocupar o mais elevado lugar no panteão do fado, afirmando-se mesmo como seu ícone maior. Isto admitindo que tais termos alguma coisa lhe dissessem, coisa de todo improvável.

Benzer Belgeler