3. KAFES SİSTEMLERİN DİNAMİK ANALİZİ
3.1. Kafes Sistemler
Já Alexandre Herculano (1810-1877) pensava que era necessário instituir uma nova
mitologia nacional, certamente não pensando no fado, mas sem dúvida com os olhos postos na sua Idade Média, como se sabe, e, também, em Camões. Que este viesse algum dia a ser incluído entre os letristas da trova (então) mal-afamada e primitiva, não podia o historiador certamente imaginar, nem nos seus mais ousados pensamentos. No século seguinte ao seu, a cantadeira Amália faria sucesso e causaria polémica com versos desse pilar da raça, palavra então (ainda) em voga — e pena foi que o acaso, motor de tudo o que lhe acontecia, segundo a artista dizia à saciedade,106 não a levasse a
104 - Idem, ibidem, pp. 53-137.
105 - Idem, ibidem, p. 64. Os versos de Afonso Lopes Vieira encontram-se na p. 302. 106 - Cf. Vítor Pavão dos Santos, Amália: uma Biografia, Lisboa, Contexto, 1987.
51 entoar poesias de Almeida Garrett (1799-1854), para assim também contemplar um dos
fabricantes, com a manipulação do autor dos Lusíadas, de um Portugal novo e em grande medida inventado. Não apenas pelo poeta das Folhas Caídas e até por Herculano, mas por toda essa plêiade romântica ciosa de curar, na medida do possível, os muitos males da pátria com ficções mágicas. Procuraram as sucessivas gerações românticas nacionais, cada uma à sua maneira, expor e apontar o decadentismo pátrio, de que a cada passo davam testemunho, quando não eram alguns dos seus integrantes disso pleno exemplo…
Fonte privilegiada de oralidade e sua transmissão, o fado que nos ocupa, ou seja, o que em forma e conteúdo foi «fixado» no século XIX nalguns bairros populares lisboetas, com relevo para Mouraria, Bairro Alto e Alfama, já encerra em muitas das suas letras simples e por vezes «coxas» essas preocupações com a decadência nacional. O próprio ambiente dito fadista e as suas cenas canalhas, como se dizia, não escapariam certamente à atenção de um crítico de arte positivista com olho cirúrgico como Hippolyte Taine (1828-1893), desejoso de aplicar à historiografia o bisturi e as leis fisiológicas capazes de lhe guiarem a mão na análise profunda e sem dúvida científica de tão complexo tema. Como ninguém dessa craveira por cá tivemos, capaz de levar a sério tudo o que rodeava e constituía o cerne de uma manifestação única, estudando-a com o apreço de quem sente que cada fadista e o seu fado, desde essa remota primeira metade do século XIX, eram determinados pelo meio, momento e outras circunstâncias, ficámos, geralmente, pelas apreciações triviais servindo o conteúdo de crónicas ou imagens — dramáticas umas, anedóticas outras —, não poucas vezes de mera ilustração e pouco fundamentadas. Só os primeiros anos do século XX alterariam parcialmente essa situação, no campo investigativo, como vimos no primeiro ponto, com Alberto Pimentel e João Pinto de Carvalho (Tinop) — e também no capítulo das artes plásticas, com artistas plásticos com obras de fôlego, como José Malhoa e as suas duas versões de
O Fado, sem esquecer os desenhos e aguarelas de Alfredo Roque Gameiro (1864-1935)
e Alberto Souza (1880-1961).
Mas o fado interessava os autores desses testemunhos gráficos ou escritos de ocasião, embora fosse assim como quem satisfaz com ligeireza um vício menor. Menor mas nem por isso confessável… Era a trova, por outro lado, manifestação popular e todos esses ilustradores, folhetinistas, romancistas e poetas visavam, como não podia deixar de
52 acontecer pelas leis económicas, um público comprador, ou seja, a burguesia capaz de os decifrar e apreciar, numa nação com número assustador de analfabetos — e condições de vida muito deficientes. Via-se assim que a canção do sul se tornara incontornável, e nem o lisboeta acidental Camilo Castelo Branco deixou de falar de fado nas suas páginas107, nem Eça de Queirós se inibiria de o apresentar como um dos seus poucos elementos identitários de português, numa carta de 1884 ao seu amigo Joaquim Pedro de Oliveira Martins:
(…) A nossa arte e a nossa literatura vêm-nos feitas de França, pelo paquete, e custam- nos caríssimo com os direitos de alfândega. Eu mesmo não mereço ser exceptuado da legião melancólica e servil dos imitadores. Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês – excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada. Em tudo o mais, francês, de província. Nem podia ser de outro modo: já no Pátio da Universidade, já no Largo do Rossio, eu fui educado, e eduquei-me a mim mesmo, com livros franceses, ideias francesas, modos de dizer franceses, sentimentos franceses, e ideais franceses. Da gente portuguesa, conheço apenas a alta burguesia de Lisboa – que é francesa – e que há-de pensar à francesa, se algum dia vier a pensar. 108
Há um caso ainda mais curioso, o de um homem de letras citado no ponto anterior, Júlio César Machado, que alguns consideram escritor com alguma influência no autor de Os
Maias. Dizia ele, como lembra o poeta Ribeiro de Carvalho no seu livro Terras de
Portugal, que era preciso ter amor à guitarra, porque nunca havíamos tido outro instrumento senão ele, nem outras músicas senão o lundum e o fado.109 Poderá tratar-se de chiste do gracioso folhetinista, como lhe chama um jornal, dado às ironias, que, convirá lembrar, não foi bem sucedido nos seus dois primeiros romances, obras de um quase adolescente (Cláudio e Estêvão. Páginas da última noite de vida). Machado poderia, mais tarde, justamente orgulhar-se com os dois volumes de A vida em Lisboa (1858), retrato da sociedade da capital que o autor adaptaria ao teatro com êxito.110 Há
107 - Em 1879, Camilo porá José Fístula, uma das personagens principais de Eusébio Macário, o seu romance «realista» continuado por A Corja, a «berrar» uma quadra que alude ao Vimioso e à Severa. In Eusébio Macário, Porto, Lello & Irmão, s/d, pp. 33-34.
108 - Eça de Queirós, Correspondência, Porto, Lello & Irmão, 1966, pp. 59-60. 109
- In Brasil-Portugal, revista quinzenal ilustrada, Lisboa, ano III, n.º 66, 16 de Outubro de 1901. 110 - Os dois volumes de A Vida em Lisboa, publicados em 1858, foram adaptados ao teatro por Júlio César Machado em colaboração com Alfredo Hogan, segundo Luiz Francisco Rebello in ‘Júlio César Machado morreu há cem anos’, in Colóquio/Letras, nº 119, Janeiro de 1991, p. 191.
53 quem veja nas personagens tipificadas, aliás, uma acção precursora de alguns romances queirosianos e, segundo afirmaria Óscar Lopes, os seus Contos ao Luar (1861) possuíam um requinte estético que só viria a ser ultrapassado com Eça de Queirós, e patenteavam certos diálogos que eram os melhores da literatura portuguesa depois dos
de Garrett.111 Também dramaturgo de mérito, o escritor torna-se, sem dúvida, numa testemunha maior da chamada Regeneração, que marcou a segunda metade do nosso século XIX. Iniciado com o golpe militar liderado pelo marechal duque de Saldanha, em 1851, e apeando Costa Cabral do poder, esse período desenvolvimentista seria personificado na pessoa do dinâmico general Fontes Pereira de Melo, que, desde as obras públicas à indústria, promoveu significativas realizações. A agricultura desenvolveu-se, o comércio cresceu, surgiram reformas na administração e no ensino, que estava completamente obsoleto, e, sobretudo, instalou-se uma paz social como não havia memória no País. Fora esta alcançada através da pacificação entre as diversas facções políticas, depois de alterada a Carta Constitucional no sentido liberalizador (alargamento do sufrágio e eleições directas para a Câmara dos Deputados, além da garantia de rotativismo no poder). Os impostos sofreram substanciais modificações tornando-se mais justos, os empregados públicos, como então se dizia, viram a respectiva situação salarial regularizar-se, ao mesmo tempo que a população escolar aumentava. O Governo promovia a modernização das vias de comunicação, construía vias férreas, portos, pontes, implementava o telégrafo, ao mesmo tempo que promovia a chamada política do livre-cambismo. O liberalismo económico teve particular importância na agricultura, que procurou produzir produtos para exportação e, simultaneamente, teve de modernizar-se. Num país marcado pelo atraso, a indústria deu alguns passos significativos, apesar de ressentir-se, nos mais diversos domínios, da ausência de matérias-primas nacionais. A nossa impreparação em termos de conhecimento far-se-ia sentir, entretanto, como um dos factores de impedimento no campo do crescimento económico e da melhoria do nível de vida da população. Enquanto o Governo procurava empréstimos no exterior para prosseguir com a política de obras públicas e industrialização, as camadas mais abonadas da população preferiam
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54 investir no domínio do imobiliário e entregavam-se a toda a sorte de actividades de carácter especulativo.112
Deste período desenvolvimentista em larga medida falhado (o País modernizou-se em diversos domínios, mas não se desenvolveu verdadeiramente) fica como herança uma pequena burguesia e um proletariado urbanos que, em Lisboa, além de cultivarem o gosto pelo fado tradicional, que se espalhará por outros bairros da cidade além dos já atrás citados, darão vida a uma trova com características de marcada crítica social e até de promoção da agitação revolucionária. Já não são apenas as desigualdades sociais a estarem muitas vezes presentes, como aconteceu quase desde os anos 20-30 do século XIX, embora como simples cenário ou leve denúncia de injustiças. Mais adiante falaremos desse fenómeno fadista específico, que quer ajudar a mudar o mundo de forma actuante, afirmando-se republicano e porventura laico, ao contrário do antecessor que persistirá em paralelo, com os seus temas melancólicos ou de paixões violentas.