• Sonuç bulunamadı

Lembrando mais uma vez, como simples alerta, que esta não é uma tese sobre a velha trova no sentido musical —, caber-nos-á esclarecer porventura melhor algumas facetas ligadas ao que entendemos por fado, questão ainda potenciadora de polémicas a que a nossa tarefa, por alheia às mesmas, não deverá eximir-nos a emitir opinião e marcar posição. Como é largamente sabido, as origens do fado têm sido fonte das mais diversas controvérsias — desde se é de origem árabe ou radica nas cantigas de amigo ou nas de escárnio de maldizer, passando por todas as influências, afinal, desde as africanas às malabares, ou seja, todas as terras visitadas pelos nossos maiores durante o justamente considerado período áureo português. Não vamos nem historiar as navegações e o que vinha na bagagem individual e nos porões das naus que retornavam a Lisboa, nem muito menos recuar aos séculos XIV, XV e XVI, para admitirmos o óbvio: logo que D. João I conquistou Ceuta em 1415, estabeleceu-se uma influência norte-africana que veio certamente acordar os séculos de dominação árabe da península ibérica, que, então, fora das nossas fronteiras, ainda possuía importantes bastiões. Em termos artísticos, a arte mudéjar não deixará esquecer, aliás, essas presenças do passado muçulmano, nem os muitos e preciosos artesãos dessa confissão que por cá permaneceram. Posto isto, apresenta-se-nos indiscutível que, desde o idioma até aos hábitos alimentares e higiénicos, todas essas andanças, as aventuras guerreiras e comerciais, bem como o convívio com tantos outros povos, passaram a pertencer ao nosso acervo cultural.

70 Sobrou disso tudo alguma coisa para o fado lisboeta? Seria pusilânime não responder pela afirmativa, diremos convictamente. Passemos agora à questão seguinte, que nos parece muito mais interessante: a possibilidade de o berço do fado ter sido no Brasil — e isto porque a trova conheceu importante difusão no gigantesco país, tendo hoje também por cultores (ocasionais) alguns dos nomes mais marcantes da sua música. Essa possibilidade radica em opiniões demasiado abalizadas para que não as levemos em linha de conta. Tudo começa, parece-nos, com o único romance de um ilustre filho de portugueses, Manuel António de Almeida (1831-1861),148 o jornalista, professor, crítico literário e médico formado a duras penas, dada a sua precoce orfandade e carência de meios. Editada primeiro em folhetim, segundo o uso da época, Memórias de um

Sargento de Milícias, escrita entre 1852 e 1853, é considerada a primeira obra urbana da literatura brasileira, localizada entre o romantismo e o realismo. Nela se pode ler o seguinte, a propósito do tema em análise:

Todos sabem o que é fado, essa dança tão voluptuosa, tão variada, que parece filha do mais apurado estudo da arte. Uma simples viola serve melhor do que instrumento algum para o efeito. O fado tem diversas formas, cada qual mais original. Ora, uma só pessoa, homem ou mulher, dança no meio da casa por algum tempo, fazendo passos os mais dificultosos, tomando as mais airosas posições, acompanhando tudo isso com estalos que dá com os dedos, e vai depois pouco e pouco aproximando-se de qualquer que lhe agrada; faz-lhe diante algumas negaças e vira voltas, e finalmente bate palmas, o que quer dizer que a escolheu para substituir o seu lugar. Assim corre a roda toda até que todos tenham dançado. Outras vezes um homem e uma mulher dançam juntos; seguindo com a maior certeza o compasso da música, ora acompanham-se a passos lentos, ora apressados, depois repelem-se, depois juntam-se; o homem às vezes busca a mulher com passos ligeiros, enquanto ela, fazendo um pequeno movimento com o corpo e com os braços, recua vagarosamente, outras vezes é ela quem procura o homem, que recua por seu turno, até que enfim acompanham-se de novo. Há também a roda em que dançam muitas pessoas, interrompendo certos compassos com palmas e com um sapateado às vezes estrondoso e prolongado, às vezes mais brando e mais breve, porém sempre igual e a um só tempo. Além destas há ainda outras formas de que não falamos. A música é diferente para cada uma, porém sempre tocada em viola. Muitas vezes o

148 - Quando pensava dedicar-se à política, o escritor faleceria, prematuramente, no naufrágio do navio Hermes, na costa do Estado do Rio de Janeiro, em 1861.

71 tocador canta em certos compassos uma cantiga às vezes de pensamento verdadeiramente poético. 149

Poeta, romancista, musicólogo, Mário de Andrade (1893-1945), figura incontornável, fundador do modernismo brasileiro, fez diversas pesquisas no domínio folclórico, e, em 1955, falaria do fado português, dando-o como decorrência do fado dançado brasileiro, o lundum. Assim escreveu o autor do romance Macunaíma150:

Após o regresso de D. João VI do Brasil, este canto dançado (o lundum) foi invadindo as diversas camadas da sociedade portuguesa, fixando-se nas mais baixas e imorais, onde se transformou no canto dorido e na dança duvidosa a que se chama Fado e bater o Fado.151

Anteriormente, numa introdução ao livro de Manuel António de Almeida, datada de 1941, Andrade já havia expendido essa teoria da origem brasileira do fado, mas de forma ainda mais categórica e marcadamente nacionalista:

O lundum, divulgando-se nas camadas brancaranas da Colônia, deu origem a uma dança cantada, primeiramente brasileira, a que chamaram fado. Ido nas lembranças felizes dos “brasileiros” enriquecidos, dos marujos e outros portugueses pobres, banzou pelos bordéis e pelos botequins lisboetas de beira-rio, decoraram-no as Tágides, fixou- se na mala vita de Lisboa e, para o nosso bem, acabou se nacionalizando português.152

Outro nome importante da cultura brasileira, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), jornalista, historiador e antropólogo, nacionalista, antigo integralista de Plínio Salgado, registará no seu Dicionário do Folclore Brasileiro:

Canção popular portuguesa, especialmente cantada em Lisboa e Coimbra, de origem brasileira, vinda do lundu, já divulgada entre o povo, quando a corte portuguesa se estabeleceu no Brasil em 1808.153

Já o jornalista e crítico musical José Ramos Tinhorão (1928), autor de diversas obras sobre música popular brasileira e estudioso do fado, escreveria:

149 - Manuel A. de Almeida, Memórias de um sargento de milícias, São Paulo, Ática, 1997, p.28-29. 150 - Joaquim Pedro de Andrade realizaria uma comédia cinematográfica baseada nesta obra, em 1969. 151 - Mário de Andrade, ‘Origem do fado’, in Revista da Música Popular, n.º. 6, Rio de Janeiro, 1955, p. 4.

152 - Cf. Mário de Andrade, ‘Introdução’, in Manuel Antônio Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias, São Paulo, Livraria Martins, 1941.

72 (….) levadas para Portugal, como acontecera, em meados do século XVIII, com a fofa e o lundu, as danças do fado - acrescidas da contribuição melódica-sentimental das cantigas de “pensamento verdadeiramente poético” citadas por Manuel Antônio de Almeida - iam percorrer caminho próprio entre as camadas baixas de Lisboa, onde os brancos as tomariam dos pretos e mestiços para transformar-lhes a parte cantada em canção urbana a partir da segunda metade do século XIX.154

Mais moderna, embora para muitos controversa, é a aproximação ao fenómeno feita pelo antropólogo Roberto Da Matta (1936), que tem baseado os seus estudos nas manifestações populares brasileiras, entre as quais inclui o desporto. Da Matta aborda implicitamente o fado ao analisar um dos seus pilares: a saudade, assunto a que dedica um interessante ensaio (‘Antropologia da Saudade’) na sua obra intitulada Conta de

Mentiroso.155 Adiante falaremos na tendência para se identificar o significado pleno de memória e história, com vista à primeira ser socialmente tratada em termos científicos, e, para este autor, entre outras coisas, a tão incomum palavra da língua comum significaria uma construção cultural, na medida em que esse tipo particular de nostalgia nasce em Portugal e, logicamente, transmite-se ao Brasil. Em seu entender, além de constituir, apesar de tudo, uma de nossas mais fortes razões de viver, a recordação possibilita ler a perda, a velhice e nossa inexorável passagem pelo tempo — e sublinha que ela permite ligar este mundo com o outro, o passado com o presente, não hesitando em classificá-la como um tesouro.156

Nestes tempos em que se fala na «urgência» de uma história social da memória, valerá a pena (porventura) ir um pouco mais longe na breve análise do caso brasileiro, porque existem, apesar de tudo, traços comuns ainda hoje detectáveis. Não parecem pôr actualmente em dúvida os investigadores de além-Atlântico que o fado, tal como o conhecemos, se constituiu como manifestação musical em Lisboa, durante o primeiro quartel do século XIX. Apenas nele vêem influências sobretudo do lundum, que, com a modinha, foram cultuados em meio urbano no Brasil. Estes dois géneros, porém, possuem origens muito diversas — e já viriam do século XVIII. O primeiro começaria por ser uma dança, acompanhada de canto, levada para aquele território pelos escravos africanos, enquanto a modinha derivaria da moda ali introduzida pelos portugueses. Tinha esta última acompanhamento de viola, ao contrário do lundum, que só com o

154 - José Ramos Tinhorão, Os negros em Portugal: uma presença silenciosa., Caminho, 1988, p.67. 155 - Roberto Da Matta, Conta de mentiroso: sete ensaios de antropologia brasileira, Rio de Janeiro, Rocco, 1993.

73 correr do tempo se converteria em melopeia com direito a instrumentos. Há quem defenda, portanto, que o lundum ou o fado dançado brasileiro, porventura trazidos para Lisboa por marítimos, durante as primeiras duas décadas do século XIX, irão sofrer evoluções determinantes, como o predomínio do canto, a aparição da guitarra portuguesa para acompanhar, etc. Não deixa de constituir uma curiosidade que ainda hoje algo muito parecido com a dança do fado possa detectar-se no Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de um conjunto de coreografias ligadas e o acompanhamento é feito com viola e pandeiro, embora a tradição inicial fosse o adufe, cuja proveniência não é decididamente local.157

O mais declarado defensor da origem brasileira do fado, a partir do lundum ou dança do fado, comum naquele reino no começo do século XIX, foi José Ramos Tinhorão, que ao assunto dedicou um livro, tendo como um dos apoios testemunhais a descrição feita por Manuel António de Almeida, que atrás reproduzimos. Para grande indignação de algumas pessoas ligadas ao fado que, estranhamente, não queriam vê-lo de nenhuma maneira nascido no Brasil. O fadista João Braga, por exemplo, teceria sobre o tema considerações diversas, quando interrogado como e quando nascera a trova:

Não sei.(…) A última versão sobre essa matéria é de um senhor chamado Ramos Tinhorão, que veio do Brasil para nos dizer que o Fado nasceu lá em 1830, o que é, evidentemente, um disparate. Porque a canção dos portugueses deve ter sido sempre alguma coisa parecida com o Fado e como nós somos um país com oito séculos de história e de existência, graças a Deus, isso significaria uma de duas coisas: se é verdade que o Fado nasceu no Brasil, nós éramos todos muito duros de ouvido até os brasileiros nos fazerem o favor de descobrir o Fado, ou então éramos todos completamente surdos, não cantávamos, não dançávamos, não fazíamos nada dessas coisas. O sr. Ramos Tinhorão ter-se-á baseado em documentos que leu para dizer que o Fado nasceu no Brasil, mas nós estamos mesmo a ver que isso não faz sentido. O Fado terá ido e voltado nas naus com os marinheiros, mas acho que as cantigas dos portugueses nasceram quando nasceu Portugal. (…) no Brasil não havia brasileiros, nem sequer havia Brasil, havia uma terra a que os portugueses chamaram Brasil, e depois houve emigração portuguesa, não tanta como seria desejável, mas houve, nomeadamente no século passado (refere-se ao século XIX), quando D. Pedro IV deu o célebre grito do

157 - Diversos especialistas brasileiros apontam esta curiosidade, que, tendo a ver com a dança do fado, nada possui em termos de uma eventual ligação à trova lisboeta.

74 Ipiranga, muitos dos emigrantes foram para o Uruguai, ajudaram a fundar Montevideu, foram para o Rio da Prata, e terão estado na origem do tango. (…) Por isso os brasileiros têm é (de) ficar muito orgulhosos da bossa nova, sem precisarem de vir cá mexer no nosso Fado. Na minha opinião, esta música que nós cantamos e a que chamamos Fado tem mais a ver com os povos que vieram da Europa Central quando se deu a invasão dos bárbaros (…) há uma sinfonia do Beethoven, a sétima, que no segundo andamento tem a cadência do Fado e tem aquela melodia que caracteriza o Fado e toda a nossa música tem a ver com essa, não tem a ver com a árabe, porque quando Portugal nasceu , e nós expulsámos os árabes do território que é hoje o nosso, a única coisa que eles deixaram cá foram algumas palavras, mas da cultura deles ficou muito pouco (…) Há muita gente que insiste que o Fado tem de ser popular, mas acho que não. Os Ramos Tinhorão todos desta vida é que dizem essas coisas (…)158

Pensamos que esta transcrição dá uma ideia da sensibilidade levantada pela hipótese brasileira em certas pessoas ligadas à trova, e, por isso, escolhemos a opinião de um fadista normalmente associado à faceta mais culta dentro do meio, mentor, aliás, de alguns nomes hoje sobejamente conhecidos. Como as palavras possuem o dom de falarem por si próprias, elas aqui ficam para darem testemunho, embora sempre nos competirá lembrar que Ludwig van Beethoven (1770-1827), quando compôs a Sétima Sinfonia em Lá Maior Op. 92, entre 1811 e 1812, lutava já contra a progressão implacável da surdez e diversos outros problemas, não lhe passando pela cabeça, certamente, que alguma vez a sua música viesse a soar aos ouvidos da Severa da rua do Capelão… É que ele há surdos e surdos.

Se existem portugueses com problemas de influências externas, já uma historiadora do teatro brasileira como Neyde Veneziano (1944), particularmente atenta ao teatro de revista brasileiro,159 dá-nos conta que o primeiro desses espectáculos a ocorrer no seu país se verificou no Teatro Ginásio carioca, em 1859, intitulando-se As Surpresas do

Senhor José da Piedade, sendo seu autor Justiniano Figueiredo de Moraes. Vivia-se então o período de reinado do imperador D. Pedro II, caracterizado por uma influência portuguesa acentuada, cujas repercussões se estendiam às artes e à formação de um

gosto do público peculiar.160 Com o correr do tempo, ainda no século XIX, pela pena de

158 - Teresa Castro d’Aire, O Fado, Lisboa, Temas da Actualidade, 1996, pp. 65-73.

159 - Neyde Veneziano, professora universitária, autora e encenadora, estudou também, nomeadamente, a obra do Nobel da Literatura italiano Dario Fo.

75 autores como Arthur Azevedo, o imigrante lusitano vai marcando presença como elemento satirizável — e como sucederia daí em diante, por vezes de forma soez —, apresentando-se uma personagem de um cidadão rude, com bigode farto e inteligência nula. Fez carreira este boneco precursor apresentado na revista A Bilontra, em 1886, que, dizem alguns, se filiava numa forma de combater a concorrência feita aos actores locais pelas companhias portuguesas que tanto êxito costumavam obter nas cidades brasileiras. Segundo Neyde Veneziano, os elencos caracterizavam-se por ser sempre

uma mistura de portugueses e brasileiros. E as plateias também. A convivência era ótima.161 Sabe-se que há canções escritas para o teatro de revista com a designação de fados, mas, lá como cá, o assunto ainda merece estudo mais vasto e aprofundado, mas, sempre de acordo com a citada especialista, em A Fantasia (1896), de Arthur Azevedo, uma personagem designada D. Jaime cantava um fado (‘Quando eu for por Deus chamado/Desta vida sem ventura,/Peço que me cantem o Fado/Sobre a minha sepultura’), algo que os espectadores portugueses não levaram nada a bem. Era, está bem de ver, uma sátira ao famoso e patriótico poema D. Jaime ou a Dominação de

Castela (1862) do político e poeta ultra-romântico, além de fervoroso nacionalista, Tomás Ribeiro (1831-1901).162

Uma coisa é certa: se acaso foi concebida no Brasil, mal adquiriu as suas inconfundíveis características lisboetas, a trova rumou àquelas paragens, levada por imigrantes lusos, antes de meados do século XIX, difundindo-se entre as colónias portuguesas de São Paulo e do Rio — e, quer se goste ou não do apodo de canção nacional, tornou-se naquela que criava uma (quase) unanimidade em matéria de gosto entre os que estavam longe da terra natal. Muitos anos volvidos, daria disso testemunho Amália Rodrigues, ao verificar que, se optasse por um encore de natureza folclórica, perante uma plateia de portugueses no estrangeiro, havia sempre quem não gostasse, só criando unanimidade com a escolha de um fado.163 Existem actualmente, no Brasil, estudos de gravações fonográficas do período inicial da centúria passada, bem como estudos comparativos de temáticas e estruturas das letras, abrangendo essa manifestação artística que, pelos vistos, possui a tendência portuguesa de se espalhar pelo mundo.

161 - Idem, ibidem, p. 134.

162 - De notar que também em Portugal a tirada patriótica de Tomás Ribeiro seria motivo de ironias diversas, como prova uma peça de Manuel Roussado referida noutro ponto.

76 Quanto às eventuais origens brasileiras da trova, não devem tirar o sono a ninguém, julgamos, porque elas estão certamente repartidas pelas sete partidas do mundo, embora alguns brasileiros se preocupem em estudá-las, enquanto outros analisam elementos idênticos em formas de expressão musical brasileira — e outros, ainda, contribuem para a difusão do fado da melhor das maneiras: cantando-o.

Atento aos aspectos ligados à memória da canção lisboeta, esteve desde cedo um sincero amigo de Portugal e das nossas expressões culturais, que, muito justamente, olhava como também suas. Chamava-se Paulo Barreto e ficaria conhecido pelo pseudónimo de João do Rio (1881-1921). Jornalista, ficariam famosas as suas reportagens de 1904 sobre As religiões do Rio, trabalho inovador, fruto de investigação profunda e de quem já possuía conhecimentos de antropologia e sociologia. Tradutor de Oscar Wilde, grande apreciador de teatro e de música, é-lhe imputado um caso com a famosa Isadora Duncan, em 1916, quando ela actuou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, logo a ele que tinha fama de homossexual. Fundador do diário A Pátria, foi nessas colunas, em 1920, que defendeu os chamados poveiros (nem todos eram da Póvoa de Varzim), pescadores portugueses que abasteciam com a sua faina a então capital brasileira, impedidos de trabalhar por legislação que proibia o exercício da pesca a cidadãos estrangeiros — e muitos deles não queriam mudar de nacionalidade e entraram em greve. Insultado, vítima de cobardes agressões físicas pelos radicais nacionalistas seus compatriotas, Paulo Barreto não abandonou essa causa, mostrando ser um homem na mais nobre acepção da palavra. Grande viajante e sincero amigo de Portugal, fundador com Leitão de Barros da Atlântida, mensário cultural e social, publicado entre 1915 e 1920, destinado a aproximar as duas nações, o jornalista João do Rio, entre a sua vasta obra publicada, tem um interessante livro intitulado Fados,

Canções e Danças de Portugal, publicado em Paris, pela Garnier, em 1910.

O fado tem, portanto, uma memória — e, neste caso só aparentemente simples, deverá existir uma consonância desta com a história, para que a primeira persista não apenas individualmente mas a nível do colectivo, permitindo a escrita da segunda. A posse de uma desmesurada capacidade de retenção de factos ou armazenamento de dados, seja num ou mais cérebros ou num computador de última geração, pode constituir um precioso tesouro sem qualquer utilidade. A abordagem, ainda que muito breve deste tema, tão discutido desde há mais de um século, lembra-nos sempre o conto exemplar

77 do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), intitulado Funes ou a Memória.164 A figura central é alguém com uma memória prodigiosa, que se podia permitir dizer:

Mais recordações tenho eu sozinho do que devem ter tido todos os homens desde que o mundo é mundo.165

Com efeito, segundo o narrador, o fenómeno ímpar, conseguia proezas inimagináveis:

Nós, de um golpe de vista, apercebemo-nos de três copos numa mesa; Funes, de todas as vergônteas e cachos e frutos que engloba uma parreira. Sabia as formas das nuvens austrais da alvorada de trinta de Abril de mil oitocentos e oitenta e dois e conseguia compará-las na lembrança com os veios de um livro em pasta espanhola que só vira

Benzer Belgeler