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1.2. Fikirleri

1.2.3. Milliyetçiliği

São Carlos recebeu prêmios e condecorações devido às ações públicas voltadas para a infância e juventude. Em 2001, o ex-prefeito Newton Lima se candidatou ao prêmio no Programa Prefeito Amigo da Criança promovido pela Fundação Abrinq117.

Como desafio, o gestor deveria implementar o Orçamento da Criança e do Adolescente – OCA, ou seja, incluir na peça orçamentária municipal uma forma de destacar todo investimento que é feito embenefício da criança e do adolescente. Nos anos de 2004 e 2008, nas duas gestões, o ex-prefeito foi premiado com o ―Selo de Prefeito Amigo da Criança‖. Em 2007, conquistou o primeiro lugar no ―IV Prêmio Innovare‖, realizado pela Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas em parceria com vários órgãos do judiciário118, com o trabalho desenvolvido no Núcleo de Atendimento Integrado – NAI.

Entretanto, sem dúvida, o mais importante destaque conquistado, em relação à adolescência e à juventude, diz respeito a cidade com o mais baixo índice de vulnerabilidade à violência para jovens do país, em 2009, com o índice de 0,238, seguido de São Caetano do Sul (0,239) e Franca (0,248). Outras cidades da região também apresentaram bons resultados, como Araraquara (0,273) em 12.º lugar e Ribeirão Preto (0,276) em 15.º lugar (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2009).

O Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência IJV-V é parte integrante do Projeto "Juventude e Prevenção da Violência", desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de

117 A Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos – Abrinq é uma organização sem fins lucrativos

que promove o Programa Prefeito Amigo da Criança desde 1996, com o objetivo de mobilizar e apoiar tecnicamente os municípios brasileiros na implementação de ações e políticas que resultem em avanços na garantia dos direitos das crianças e adolescentes, fortalecendo os mecanismos preconizados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA e pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança. Nesta avaliação, São Carlos ficou entre os 20 melhores municípios dos 5.562 participantes (Abrinq, 2010).

118 O objetivo do Prêmio Innovare é identificar, premiar e disseminar práticas inovadoras realizadas por

magistrados, membros do Ministério Público estadual e federal, defensores públicos e advogados públicos e privados, que estejam aumentando a qualidade da prestação jurisdicional e contribuindo com a modernização da Justiça Brasileira. Para cada edição anual do Prêmio Innovare, o Conselho Superior do Instituto Innovare, órgão responsável pelas diretrizes do projeto, escolhe um tema para inscrições, em 2007 o tema foi Pacificação Social e Segurança Pública e foram avaliadas 182 inscrições (Innovare, 2010).

160 Segurança Pública em parceria com Ministério da Justiça e Fundação Seade. O IVJ-V reúne uma série de variáveis que são mobilizadas na explicação da associação e do envolvimento de jovens com a violência e organizadas de modo a oferecer um retrato da situação encontrada em 266 municípios com mais de 100 mil habitantes. O IVJ-V é uma média ponderada de outros cinco indicadores, os quais possuem pesos diferentes, a saber: mortalidade por homicídios (0,225), mortalidade por acidentes de trânsito

(0,225), frequência à escola e ao emprego (0,175), indicadores de pobreza (0,175) e indicador de desigualdade no município (0,200)119 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2009).

Para uma compreensão mais aprofundada do IVJ-V, realizo uma análise do município de São Carlos em relação aos demais 265 municípios, comparando cada um dos indicadores isoladamente (tabela abaixo).

Tabela 2 – Posição de São Carlos em relação aos indicadores do IVJ-V

em análise isolada Município IVJ-V Indicador de mortalidade por homicídio Indicador de mortalidade por acidente de trânsito Indicador de frequência à escola e ao emprego Indicador de pobreza Indicador de desigualdade São Carlos 30º 24º 162º

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2009.

É possível verificar que São Carlos não lidera nenhum outro ranking, apenas no IVJ-V. Possui melhor posição nos indicadores Mortalidade por homicídio e Frequência à

119 A seguir as dimensões analisadas por cada indicador. Indicador de Mortalidade por Homicídios – são

utilizados os indicadores de mortalidade por homicídios de adolescentes (12 a 18 anos) e entre os jovens (19 a 24 anos e 25 a 29 anos). Indicador de Mortalidade por Acidente de Trânsito - são utilizados os indicadores de mortalidade por acidente de trânsito entre adolescentes (12 a 18 anos) e entre os jovens (19 a 24 anos e 25 a 29 anos). Indicador de Frequência à Escola e Situação de Emprego – porcentual de adolescentes de 12 a 18 anos que não frequentam escola, porcentual de jovens de 18 a 24 anos que não estudam e não trabalham e o porcentual de jovens de 15 a 29 anos com inserção precária no mercado de trabalho (ou seja, jovens empregados sem carteira de trabalho assinada; trabalhadores domésticos sem carteira, trabalhadores na produção para o próprio consumo; trabalhadores na construção para o próprio uso; trabalhadores não remunerados e empregadores com até 5 empregados). Indicador de Pobreza – porcentual de pessoas com menos de ½ salário mínimo de renda familiar per capita, porcentual de pessoas de 25 anos e mais com menos de 8 anos de estudo e o porcentual de pessoas de 12 a 29 anos residentes no município. Indicador de Desigualdade – porcentual de pessoas de 25 anos e mais com mais de 11 anos de estudo e o porcentual de domicílios localizados em assentamentos precários de acordo com o Censo de 2000.

161 escola e ao trabalho, tem posição média alta em relação aos indicadores de mortalidade por acidente de trânsito e de pobreza, e certamente possui altas taxas de desigualdade, como reflete sua 162.ª posição. Esta análise revela, portanto, que a cidade alcançou o melhor índice, na conjunção entre indicadores, que possuem pesos diferentes para o cálculo final e também quando comparado com os 265 municípios do país com mais de 100 mil habitantes. É surpreendentemente que com tal desigualdade a cidade ainda seja considerada a de mais baixo índice de vulnerabilidade juvenil do Brasil.

A retrospectiva histórica de São Carlos deixa claro o potencial de desenvolvimento econômico e tecnológico da cidade, que não acompanha a distribuição de renda e oportunidades para todos – como exemplo do sistema capitalista de produção e da doutrina neoliberal contemporânea. As ações e as políticas públicas, empregadas no território, refletem resultados contraditórios permeados pelo jogo político de manobra eleitoral ao mesmo tempo em que se efetivaram, ainda que parcialmente, melhores condições de vida. Nesta lógica, entre visibilidades interessadas e estigmatizadas, constituem-se as trajetórias juvenis que se construíram a partir dessa história.

162

OS PERCURSOS DE VIDA JUVENIS E

163 Dentre as estratégias metodológicas utilizadas na pesquisa, ressaltarei os acompanhamentos individuais e territoriais, por meio de maior detalhamento acerca das atividades e dos procedimentos que os compuseram, assim como a concepção de que foram gestados.

Os acompanhamentos individuais e territoriais têm como pressuposto a lógica da assistência de forma que transcenda o aspecto clínico incorporado aos acompanhamentos individualizados120. Eles são compreendidos como um conjunto de

métodos e procedimentos práticos, que a terapia ocupacional no campo social tem utilizado como ferramenta na conformação da assistência junto à sua população-alvo (Lopes, Borba e Cappellaro, 2011).

Nesta proposição é necessário um arcabouço técnico para que sejam gestados tempos e espaços suficientes para a construção de uma relação de confiança, responsabilização para com outro, ao mesmo tempo em que se possam reconhecer os limites dessa intervenção e ainda articulação e acolhimento de questões sociais inerentes ao processo.

Os acompanhamentos individuais e territoriais apresentam riquezas potenciais na relação que estabelece entre os sujeitos que desvelam possibilidades, que, por sua vez, podem ser transformadoras das realidades, ainda que as mudanças sejam graduais ou difíceis de ocorrer pelas precariedades existentes na vida dos sujeitos, na articulação com seu encontro e, sobretudo, nas realidades sociais existentes.

A potencialidade dos acompanhamentos individuais e territoriais depende da capacidade de leitura conjunta das necessidades dos sujeitos, sua responsabilidade ética e técnica, capaz de articular redes sociais, comunitárias, familiares, serviços e

120 Tais como defendidos por Barros, Ghirardi e Lopes (2002, p. 100), nesta prática há necessidade de

descentramento: 1. do saber do técnico para a ideia de saberes plurais diante de problemas e de questões sociais; 2. das ações da pessoa (considerada corpo/mente doente ou desviante) para o coletivo, para a cultura da qual a pessoa não pode ser separada; 3. da ação: do setting para os espaços de vida cotidiana e 4. do conceito de atividade como processo unicamente individual para inseri-lo na história e na cultura.

164 órgãos públicos e o reconhecimento das próprias limitações, principalmente quando o outro nos demonstra o esgotamento da intervenção (Lopes, Borba e Cappellaro, 2011).

Com base neste pressuposto, foram realizados os acompanhamentos individuais e territoriais com quatro jovens, a saber: Carlinhos, Juliana, Fernando e Mari121, que compuseram os percursos de vida e as trajetórias escolares apresentadas neste trabalho.

Esses jovens possuem percursos distintos de vida, ainda que possuam traços em comum, como a migração, crescer no mesmo território e estudar, pelo menos a maior parte de sua escolarização, na mesma Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes.

Todas as estratégias metodológicas, já descritas, foram acionadas para que fosse possível o levantamento de fontes, informações, experiências e percepções que foram articuladas para a sistematização dos percursos de vida e das trajetórias escolares de Carlinhos, Juliana, Fernando e Mari.

Neste sentido, destaco a importância do meu envolvimento com o campo de pesquisa, desde a observação, a convivência, o estudo sobre ele e a própria intervenção técnica. A relação com os moradores, as famílias e os técnicos dos equipamentos, serviços e ações também contribuiu na constituição das fontes de pesquisa, assim como a relação estabelecida com cada jovem, firmada numa vinculação de confiança construída durante cinco anos de acompanhamento.

Cada acompanhamento foi realizado e desenvolvido de acordo com a relação estabelecida com cada jovem, suas individualidades foram respeitadas, e o trabalho se voltou para a utilização de estratégias que melhor qualificassem a comunicação e as trocas que ocorreram de formas distintas para cada jovem. Da mesma maneira, foram despertadas e incentivadas atividades que pudessem propiciar a reflexão para que

121 Os nomes que apresentam os jovens são fictícios, assim como todos os outros utilizados para retratar

165 fosse possível (re)constituir os percursos de vida e as trajetórias escolares dos jovens, a partir de seu entendimento e sua interpretação sobre suas experiências e vivências, numa perspectiva, tal como apontada por Lopes, Borba e Cappellaro:

Deve-se levar em conta [...] a criação do vínculo, pois é por meio dele que se torna possível a composição de estratégias para a constituição das ações do acompanhamento individual e territorial, um processo inserido em intersubjetividades, com códigos e significados próprios (2011, p.236).

A produção textual, dos percursos e das trajetórias apresentadas de cada jovem neste trabalho, foi construída conjuntamente com eles, também de forma particular. O manejo prático desta composição dependeu da relação que cada um estabeleceu com esta atividade. O produto final, aqui descrito, foi avaliado por eles, que incluíram e mudaram informações. Esse processo enriqueceu e ampliou a coleta de

dados, uma vez que estimulou os jovens a reconhecerem e refletirem sobre seus percursos de vida, em diferentes momentos, tendo a possibilidade de rever e reavaliar suas interpretações e permitindo maior apreensão consciente sobre ela. Esta avaliação também teve o propósito de manter a descrição fidedigna à realidade, ainda que fosse um recorte e uma interpretação dela.

Houve momentos mais focalizados dos acompanhamentos individuais nos quais foram estimuladas e registradas as falas dos jovens, bem como os diálogos com seus familiares, amigos e alguns profissionais. Os jovens também realizaram produções textuais, como escritas temáticas, redações livres ou comentários sobre temas presentes em seu cotidiano. Para facilitar a comunicação, para além dos encontros, foram utilizados outros recursos, como telefone, correio eletrônico122 e redes sociais virtuais para as trocas de mensagens, combinados e outras informações.

Todos os textos ou falas registradas dos próprios jovens estão identificados como citação textual neste trabalho. Esses trechos foram corrigidos, no sentido

122

Utilizado apenas com Fernando e Juliana, pois Mari e Carlinhos não eram usuários de correios eletrônicos.

166 gramatical, pois a intenção não foi a da transcrição pura, o intuito foi trazer uma interpretação mais próxima daqueles que viveram as situações relatadas.

Para elucidar os acompanhamentos individuais e territoriais, serão apresentados os processos vivenciados com cada jovem.

Benzer Belgeler