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As crianças em idade escolar logo foram matriculadas nas creches. Juliana seguiu os passos da irmã mais velha. Aos seis anos frequentou a EMEI Octávio de Moura. Aos sete, foi cursar a primeira série do ensino fundamental na Escola Estadual Péricles Soares. Ela se recorda de que nesse período foi alfabetizada, também tem boas lembranças de brincar com suas irmãs, entre as atividades lúdicas havia aprendizagens educacionais, como ―brincar de escolinha‖, com a qual aprendeu alguns conteúdos escolares, como letras e números, com a irmã mais velha.

A Escola Estadual Péricles Soares oferece o ciclo I do ensino fundamental, sendo assim o percurso previsto para seus alunos é a transferência para a Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes, para que possam cursar o ciclo II. Contudo, Juliana, com seis anos, já estava convencida de que preferia estudar na Escola Estadual Jesuíno de Arruda128. Afinal, a escola ―Aracy‖ não tinha uma boa imagem e lhe foi atribuído o conceito de ser uma escola marginal, uma escola para ―bandido‖ ou ―para pobre‖. Em contrapartida, a escola ―Jesuino‖ era valorizada, tida como uma boa escola e era muito mais valorizada, quando comparada com a escola ―Aracy‖.

Embora sejam escolas públicas, próximas, receberam distinções a partir da sua localização e, sobretudo, a partir dos alunos as quais recebiam. Os alunos que acessavam a escola mais prestigiada eram de bairros mais próximos do centro, pertencentes a camadas médias e populares. Já os alunos da escola menos valorizada moravam nos bairros mais periféricos e pertenciam a camadas populares que apresentavam condições socioeconômicas precárias.

Juliana relata que muitos moradores dos bairros periféricos forjavam o endereço de sua residência para conseguir uma vaga na Escola Estadual Jesuíno de Arruda, já que a regra é aceitar alunos apenas de bairros próximos ao da escola. A

128 Escola pública tradicional, instituída em 1957, no bairro da Vila Prado da cidade de São Carlos.

Atualmente oferece o segundo ciclo do ensino fundamental e o ensino médio para cerca de 1800 alunos (Jesuíno de Arruda, 2011).

176 escola de referência dos bairros Jardim Pacaembu, Jardim Cruzeiro do Sul, Jardim Gonzaga, Vila Santa Madre Cabrini e Vila Monte Carlo era a Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes. Dito isso, Juliana, ou melhor, sua família teria que conseguir um comprovante de endereço de outra moradia, de forma ilegítima, para tentar sua vaga. Ela conta que a espera por uma vaga na escola mais valorizada era muito grande, por vezes cerca de um semestre. De qualquer maneira, o pai de Juliana definiu que ela iria estudar na escola mais próxima, independentemente da vontade e anseios da filha, tal como sua irmã mais velha.

Na escola ―Aracy‖, Juliana recebia as comparações com Gabriela, que era dedicada e boa aluna, em pouco tempo Juliana se destacava, pois também dispunha dessas qualidades e logo começou a ser elogiada pelo seu desempenho e bom comportamento. Não demorou muito para que ela mudasse seu conceito sobre a escola e nos primeiros anos de estudo já não queria mais ser transferida. Conquistou amigos e avalia que teve ótimos professores.

Ainda assim, Juliana acredita que a sua irmã mais nova teve mais sorte, uma vez que, tal como suas irmãs, queria estudar em outra escola e conseguiu. Verônica e seu primo têm idades muito próximas, eles brincavam juntos e fizeram amizade com uma vizinha também de mesma idade, sempre os três juntos, ora numa casa, ora na outra. Quando encerraram o ciclo I do ensino fundamental, todos se viram na mesma situação, moravam na Vila Monte Carlo e, portanto, teriam que se matricular na escola ―Aracy‖.

A vizinha era filha de uma ex-funcionária da secretaria da escola ‗Aracy‘. Na época a funcionária também não queria que sua filha estudasse nessa escola, então, como conhecia os funcionários da outra escola e os mecanismos para burlar as regras, ela conseguiu as vagas, consequentemente, sua filha e seus amigos foram matriculados na Escola Estadual Jesuíno de Arruda. O pai também ficou satisfeito com

177 a situação, afinal Verônica estaria acompanhada de seu primo. A família também aproveitou a oportunidade, já que, por meios legais, não conseguiriam essas vagas. Assim, Verônica foi a única das irmãs que nunca estudou na ―Aracy‖, e Juliana percebe a diferença desse fato para a trajetória escolar de sua irmã.

Em 2002, com quase dez anos, Juliana cursou a quinta série, ela se recorda com carinho de uma professora de português, que se destacou como ‗boa professora‘ devido a sua criatividade e ao seu envolvimento. Essa professora realizou projetos, tais como: contação e construção de fábulas, oficinas textuais, criação de gibis, cadernos de redação e intercâmbio de cartas (com outros alunos de outras cidades). Atividades que despertavam o interesse dos alunos e das quais Juliana recorda-se com orgulho de suas produções. Inclusive de sua participação no teatro como a personagem da bruxa, na encenação da peça ‗João e Maria‘. No início, a apresentação foi para sua sala, porém, como o resultado foi muito positivo, a professora os incentivou para uma apresentação para toda a escola. Juliana se interessou muito pelo teatro.

Infelizmente, Juliana não se recorda com tanto entusiasmo de todos os professores, afirma que:

Professores ruins, ah... sempre tem aqueles que estavam lá apenas para constar, aqueles sem envolvimento, que dão aula apenas para cumprir, por exemplo, me deixe ver, ah... Tinha a professora de ciências na sexta série, a aula era sempre igual, o ano inteiro a gente fazia a cópia do livro e respondia um questionário. Sabe daqueles em que você encontra a pergunta no texto e copia o restante na resposta? Não exige nada de você.

Juliana chegou à oitava série, período importante de finalização do ciclo II do ensino fundamental, com ótimas notas, os professores sempre a elogiando e a exaltando como boa aluna. Nesse mesmo ano, em 2006, a escola implantou a Escola de Tempo Integral – ETI129.

129

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, por meio da Resolução 89, de 09/12/2005, dispõe sobre o Projeto Escola de Tempo Integral. Como norteador para a implementação dessa política

178 A Diretoria de Ensino consultou as escolas estaduais da cidade, sobretudo aquelas localizadas em bairros periféricos, como o caso da Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes, para a implantação da ETI. Nessa escola, foram realizados debates dos quais se definiu pela não adesão ao projeto ETI. Todavia, o projeto da ETI foi instituído como regra e, ainda que a opinião da escola fosse contrária à sua implantação, deveriam realizá-la.

A ETI foi uma política pública de educação de âmbito estadual em São Paulo, que conferiu a ampliação da jornada de permanência dos alunos de cinco para nove horas diárias. Na Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes, de acordo com a organização curricular da ETI, foi previsto o currículo básico do ensino fundamental (ciclo II), bem como a inserção de oficinas curriculares, possibilitando a ampliação da aprendizagem, a exploração de temas transversais e a vivência de situações que favorecessem o desenvolvimento pessoal, social e cultural.

Para Juliana, foi significativo o esvaziamento da escola ao longo dos anos. A cada avançar das séries, perdia-se um considerável número de alunos. No período da manhã, existiam apenas duas classes de oitavas séries, que foram incluídas na programação da ETI. Juliana acredita ter vivenciado o momento de maior desorganização da escola, para ela não havia propostas, atividades nem oficinas para que os alunos participassem. Como resultado, havia um grande desinteresse dos alunos, que, por sua vez, não tinham a ‗disciplina‘ para permanecerem durante as nove horas na escola.

Eu passava o dia na escola, quando chegava em casa queria só comer, tomar banho e dormir, porque no dia seguinte estaria novamente às sete horas na escola. Era muito cansativo.

educacional, foram distribuídas as Diretrizes Curriculares para a Escola de Tempo Integral para o planejamento e a organização de sua proposta de trabalho, a partir da adequação de seu espaço físico e dos recursos humanos e materiais disponibilizados de cada escola (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2006).

179 Os estudantes do período matutino, que cursavam o ensino médio, eram liberados após a jornada de cinco horas, tal como Gabriela. Porém, nesse horário de saída, outros estudantes do ensino fundamental evadiam, sem controle da direção escolar. O resultado era um grande esvaziamento nas atividades da ETI oferecidas no período da tarde.

À tarde a escola ficava vazia, na sexta-feira então era o pior, às vezes, sobravam apenas cinco alunos das oitavas séries.

No primeiro ano da ETI, existiram algumas poucas atividades estruturadas, faltavam educadores, condições materiais e planejamento, o que resultou em grandes períodos de tempo livre aos alunos e atividades que apenas reproduziam o conteúdo do período da manhã, entretanto, de forma pouco significativa para os alunos, como as tarefas baseadas em cópias. Apesar disso, houve uma atividade que Juliana frequentou e apreciou: o curso de espanhol.

Nesse mesmo ano, em maio de 2006, ocorreu um evento que Juliana recorda bem como o vivenciou na escola. Foram os atentados à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, do Primeiro Comando da Capital – PCC em São Paulo130 e em algumas cidades do interior paulista, como São Carlos. Houve um alerta da própria polícia de que as escolas e outras instituições de ensino poderiam ser alvo dos membros do PCC, além disso, os falsos boatos se propagavam, afirmando que várias escolas da cidade já tinham sido ameaçadas, incendiadas ou atingidas. A precaução levou à suspensão das aulas.

Na Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes, apesar de o clima ser tenso e de medo, houve muitas brincadeiras e piadas com o fato. Foi comum escutar que aquela escola não seria ―atacada‖, porque pais, irmãos ou outros parentes não fariam

130 Incluindo as cidades da Grande São Paulo e do litoral paulista. Foram atingidas 84 instituições

penitenciárias, 299 órgãos públicos, 82 ônibus foram incendiados, 17 agências bancárias foram alvejadas à bomba, 42 policiais e agentes de segurança foram mortos e 38 feridos (Biondi, 2009). Além disso, várias empresas e terminais de ônibus não funcionaram, parte do comércio fechou, e o sensacionalismo midiático propagava ainda mais o medo nas pessoas.

180 nada contra seus próprios filhos, irmãos ou sobrinhos. Essas falas foram ecoadas por todos – alunos, funcionários, inclusive professores –, evidenciando a marca da suposta adesão à criminalidade senão naquelas crianças e adolescentes, claramente em suas famílias.

Juliana conta que estava na sala de aula e os alunos estavam todos inseguros e preocupados, não sabiam o que deveriam fazer no caso de um ‗ataque‘. O tumulto na sala de aula em torno dessa discussão foi apaziguado por risos, quando a própria professora, de forma satírica, disse para todos se acalmarem, pois estavam seguros, afinal, ―o PCC‖ não atacaria a escola dos seus filhos.

Juliana se lembra dessa situação como algo engraçado que ocorreu na escola, ao mesmo tempo em que evidenciou o conceito estigmatizado da escola, que em anos anteriores a fez desejar estudar em outra escola. Ela revela que alguns alunos torceram pela facção criminosa e reproduziam a expressão utilizada para se iniciar os ataques na capital paulista: ―Salve geral‖.

No ano seguinte, Juliana vivenciou a entrada no ensino médio, seu sentimento se relacionava com ―agora estou livre da ETI‖. Dedicava-se aos estudos e, nos fins

de semana, começou a trabalhar num estabelecimento comercial no bairro Monte Carlo, a três quarteirões de sua casa, como vendedora de roupas.

Como já era de se esperar, Juliana continuou se destacando, seu desempenho escolar e seu comportamento se mantiveram dignos de elogios. No primeiro ano do ensino médio, ela se recorda de uma ótima professora de química que era criativa e conseguia despertar o interesse dos alunos pela forma como ministrava o conteúdo da matéria, utilizando diferentes recursos, incluindo visitas às exposições e vivências práticas. Essa professora despertou o interesse de Juliana para participar da III

181 Olimpíadas de Química, Física e Matemática, organizada pelo Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmico – CMDMC131.

O aluno com melhor desempenho nas Olimpíadas iria receber o prêmio no Teatro Florestan Fernandes na UFSCar, com a presença de autoridades da cidade, num evento de porte. Foi a primeira vez que a escola participou e Juliana foi a vencedora da III Olimpíadas de Matemática, Química e Física e em 2007, mesmo concorrendo com demais alunos de outras escolas públicas, inclusive da Escola Estadual Jesuíno de Arruda, e entre os estudantes mais avançados nas séries, uma vez que Juliana cursava ainda seu primeiro ano e a prova era única para todas as séries do ensino médio. Ela recebeu o prêmio envergonhada e o guarda até hoje numa prateleira da estante de sua casa com satisfação, embora fale francamente que as disciplinas da área de exatas não são suas preferidas.

Infelizmente, no ano seguinte, a professora saiu da escola. Juliana tem o sentimento de que, mesmo que tenha tido bons professores, eles não permanecem muito tempo na escola.

Ela não aguentou ficar, pediu para sair, foi uma pena, mas não deve ser fácil mesmo para o professor trabalhar com alunos que não querem nada com nada. Acho que ela foi desenvolver seu trabalho em outra escola, assim ela podia ver melhor os resultados do seu trabalho.

Juliana questionou algumas vezes se deveria continuar estudando na escola ‗Aracy‘, entretanto, depois de toda sua trajetória escolar, já não duvidava que encerraria o ensino médio nela. Porém, no seu último ano, não lhe restaram muitas alternativas. Como o número de alunos se reduzia a cada ano, a última série da educação básica foi aquela que mais sofreu as consequências. Esse esvaziamento culminou em um número insuficiente de alunos para manter o ensino médio no

131 Projeto do Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (LIEC) da UFSCar e Universidade

Estadual Paulista (UNESP), com apoio do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão – CEPID da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP. As olimpíadas foram iniciadas em 2005 em São Carlos, e eram premiados os melhores alunos por escola que se inscrevesse para participar (OMQF, 2010).

182 período da manhã. Restou para Juliana optar pela matrícula no período noturno ou pela transferência de escola. Ela sabia que seu pai não aprovaria o estudo no período noturno e também queria manter sua rotina de estudo e trabalho, no período contrário. Sendo assim, o seu terceiro ano do ensino médio foi realizado na Escola Estadual Jesuíno de Arruda.

Foi uma reviravolta para Juliana, afinal concebia essa nova escola como algo inacessível para ela. E, chegando ao final de sua jornada, viu-se obrigada a se inserir nessa escola. Juliana e outros cinco alunos vivenciaram esse percurso. Eles enfrentaram muitos estigmas e preconceitos, muitas brincadeiras eram feitas, com finalidade de menosprezar o ensino que tiveram e afirmar a condição social dos alunos. Juliana conta que os alunos da escola Aracy acabaram formando um subgrupo na nova escola. Eram chamados de ―favelados‖, o que significava ter menos condições econômicas e defasagens educacionais.

Juliana percebeu as diferenças de uma escola para a outra, sobretudo em relação à estrutura física, ao prédio escolar, à quantidade de alunos e ao número de salas e séries132. Porém, sentiu pouca diferença em relação ao ensino, ela manteve bom desempenho, mesmo quando comparado aos alunos que estudaram naquela escola desde a quinta série. Então, ela foi se dando conta de que as discrepâncias não eram tão evidentes como se propagava.

Juliana percebia que seu comportamento obediente e sempre dedicado destoava dos demais; era comum as adolescentes serem mais ousadas, estarem maquiadas, usarem roupas, acessórios e consumirem produtos muito distintos do universo da Juliana. Inclusive, foi a partir dessa vivência que ela compreendeu determinados comportamentos da irmã mais nova, que sempre diferiu muito dela e de

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Ao contrário da Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes, havia mais de dez salas de terceiro ano do ensino médio no período da manhã.

183 sua irmã mais velha. A interferência da educação moral e mais rígida do pai influenciou essas relações.

Todavia, não é verdade que ela se identificava também com as meninas da escola anterior. Os comportamentos entre a humildade e a agressividade estavam presentes nos alunos da Escola Estadual Dona Aracy Leite Pereira Lopes. A linguagem, verbal e corporal, continha expressões e gírias do universo da periferia, as roupas e os acessórios não poderiam esbanjar ou identificar custos altos, pois destoavam daquele cotidiano e por isso não eram bem aceitos, assim como os produtos culturais consumidos – música, literatura, passeios, filmes, entre outros. O desejo pelo consumo era reverenciado, porém, a depender do estilo de vida ou condição socioeconômica identificados nos objetos e produtos, poderiam ser rechaçados. Esse sinal de distinção aparece como limite entre mundos socioeconômicos que não devem ser transpostos, caso contrário, você se torna um estranho em meio aos seus iguais. Por razões distintas, Juliana teve que construir relações para se preservar nesses universos, o que certamente influenciou seu modo de ser e estar no mundo, assim como constituiu mundos paralelos para vivenciar o que aprendeu a ser.

Em seu percurso de vida, Juliana encontrou no teatro uma forma de poder ser o que é e poder inventar o que quer ser. Desde 2008, faz aulas de teatro em dois grupos diferentes na cidade, um direcionado ao público juvenil e outro profissionalizante para pessoas acima dos 18 anos. Ela relata com emoção sua participação nesta arte; ainda submetida ao crivo do pai, nem sempre consegue participar de todas as atividades propostas nos grupos, mas tenta ao máximo, mesmo sendo privada de outras atividades em detrimento do teatro. Juliana já se apresentou em duas peças: Nós em nossas vozes, em 2009, e Bata à porta, em 2010.

Juliana descobriu, há anos, que, para se realizar de forma mais plena, precisa se tornar independente do pai. A relação entre vigilância e dependência já a fez sofrer

184 muito. Sua perseverança para alcançar sua liberdade fez com que se dedicasse integralmente aos estudos, todo seu empenho é um movimento de luta pela conquista de poder galgar sua autonomia claramente atrelada à sua independência econômica. Apesar da visível melhora das condições socioeconômicas conquistada por essa família, afinal, contam com o rendimento de todos, a renda familiar está entre três e quatro salários mínimos.

Juliana sabe, há muito tempo, que sua conquista econômica só será possível pelas melhores condições e patamares educacionais que ela conquistar. Ser exemplar na escola era como uma rota de fuga da opressão que sentia na relação com seu pai.

Toda a raiva e o sofrimento que eu passava eu descontava nos estudos, eu estudava, estudava, para poder ser alguém e poder fazer o que eu quisesse.

No final de 2010, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, como processo seletivo para tentar uma vaga no curso de psicologia no ensino superior da Universidade Federal de São Carlos. Gostou muito de sua redação e esperou ansiosamente pelo resultado. Ela poderia ser beneficiada pelas cotas no ensino superior das ações afirmativas, afinal, sempre estudou no ensino público e tem descendência negra, contudo, não queria ser vinculada às ações afirmativas, queria provar que teria condições suficientes para entrar no ensino superior sem benefícios por causa de sua condição socioeconômica ou raça. Porém, sequer utilizando dessas medidas Juliana conseguiu, ela aguardou todas as listas de espera, na esperança que ainda poderia ser chamada. Em abril de 2011, foi sua última chance e infelizmente, Juliana não foi aprovada.

Depois disso, Juliana ficou em dúvida se valia a pena se preparar para a prova do próximo ano, ela considera que talvez seja mais possível sua entrada no ensino superior privado, assim, poderia trabalhar durante o dia para custear seu curso

185 noturno. Contudo, se essa for sua opção, deverá interromper o curso de teatro que a cada dia a apaixona mais. Além disso, deve convencer o pai e aguardar sua aprovação.

Benzer Belgeler