1.2. Fikirleri
1.2.1. Batı-Doğu
144 No município de São Carlos, o percentual da população (de 15 anos ou mais) analfabeta ou analfabeta funcional, em 2000, foi de 5,64% (IBGE, 2000 e Seade, 2000). Já no Jardim Gonzaga, esse percentual chegou a 38,1%, em 2002 (São Carlos, 2002), o que demonstra a alta concentração de analfabetos nesse bairro, em relação à média da cidade.
Sobre a população de 10 a 17 anos, 17,5% não trabalhava e não estudava. Outra característica importante diz respeito aos responsáveis das famílias, já que 27,7% eram jovens, ou seja, estavam na faixa etária compreendida entre 15 e 29 anos (São Carlos, 2002).
O processo de constituição desse território apresenta uma história entrelaçada por intervenções públicas pouco efetivas, falta de infraestrutura, precárias condições socioeconômicas dos moradores, ganhos políticos da pobreza, manipulação da organização popular, busca de melhores condições de vida dos migrantes e a própria realidade das periferias das cidades – marcada por uma imagem estigmatizada e negativa.
Em 2006, o Relatório anual do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF, sobre a Situação Mundial da Infância, trouxe em seu título ―Excluídas e Invisíveis‖ – como pressuposto que a exclusão gera invisibilidade. Considerando que a exclusão é multidimensional, inclui as privações de direitos econômicos, sociais, de gênero, culturais e políticos e ainda ocorre quando há ausência de acesso aos serviços e bens essenciais, por isso a exclusão converte-se em invisibilidade.
A exclusão socioeconômica deriva de diversos fenômenos, dentre eles: o descaso, o abandono, as privações e a negação de direitos. A princípio, essas situações parecem decorrer da invisibilidade social por qual grupos vulneráveis passam cotidianamente.
145 Contudo, o inverso não parece verdadeiro, quando esses grupos são vistos, são julgados socialmente, numa escala de valores que determinam suas condições de existência. Nesta relação, a visibilidade os mantém numa condição social estigmatizada e negativa. Para Sales (2007), a visibilidade é ambivalente, pois como produto de relações de poder, atingi-la não significa maior reconhecimento e, ainda, pode se transformar numa condição de ‗visibilidade perversa‘, ou seja, uma visibilidade que mantenha processos de invisibilização.
A luta pelos espaços sociais perpassa pela contradição entre o ver e o ser visto e, de fato, enxergar, ou seja, notar e admitir o outro como parte consciente de sua realidade. Para Soares (2000, p. 159), quando cada criança, adolescente ou jovem vivencia a invisibilidade ―é como se ele não tivesse corpo, presença, opacidade social, é como se não tivesse valor e não ocupasse lugar no espaço‖.
O histórico do território, apresentado neste estudo, expôs processos de exclusão pelos quais estiveram submetidos seus moradores. Logo, ao se analisar como ocorreu sua visibilidade, percebe-se que as ações, aparentemente em prol da comunidade, estavam ao mesmo tempo carregadas de exploração, estigmas, preconceitos e marcadas pela falta. Essa precariedade produziu uma série de relações que não se traduzem na garantia de direitos, mas em contribuições parciais que fortaleciam a chancela da necessidade e da insuficiência.
Esse processo político, e também social, de como lidar com a pobreza, tem como alicerce a discriminação. Segundo Castel, ―a discriminação é escandalosa porque se constitui numa negação do direito, os direitos inscritos na Constituição e em princípios substanciais ao exercício da cidadania‖ (2008b, p. 12, grifo do autor).
O autor debate os conceitos de discriminação positiva como aquela em que as ações implicadas pela diferenciação do outro produzem melhores condições no sentido
146 da paridade dos direitos: ―existem formas de discriminação positivas que consistem em fazer mais por aqueles que têm menos‖ (Castel, 2008b, p. 13).
Mas a discriminação negativa não consiste somente em dar mais àqueles que têm menos; ela, ao contrário, marca seu portador com um defeito quase indelével. Ser discriminado negativamente significa ser associado a um destino embasado numa característica que não se escolhe, mas que os outros no-la devolvem como uma espécie de estigma. A discriminação negativa é a instrumentalização da alteridade, constituída em favor da exclusão (Castel, 2008b, p. 14).
Reforça-se que as ações políticas e sociais empregadas estiveram permeadas pelo jogo político que, por sua vez, dita que fazer o mínimo é suficiente para quem tem muito pouco poder de barganha. Pouco parece o suficiente quando o contrato social tem base na busca individual do sustento e de suas condições de sobrevivência. A comunidade também se conforma, com sentimentos de gratidão, pelos possíveis feitos. Esse ciclo vicioso alimenta a discriminação negativa numa articulação entre discursos populistas e assistencialistas.
Carvalho (2008) aponta o processo cultural do Poder Executivo na história do país, usa o termo ‗estadania‘ para evidenciar essa referência ao Poder Executivo em contraposição aos demais poderes, à representação e, sobretudo, à cidadania. Essa relação alimenta a força no ‗messias político‘ que é sempre visto como todo-poderoso seja pela repressão ou pela relação paternalista e coronelista que estabelece com a população que, por sua vez, realimenta esse lugar. Essa relação se reflete na organização e mobilização da comunidade. No histórico apresentado, quando houve esse movimento popular, ele foi incitado pelo poder público que também fez uso de forma eleitoreira e assistencialista.
AU
RBANIZAÇÃOA problemática se manteve e novos rearranjos se configuraram como demandas sociais desse território. No segundo governo João Octávio Dagnone de
147 Mello, em junho de 2000, foi sancionada a Lei Municipal N.º 12.563 que autorizou a Prefeitura Municipal de São Carlos a firmar convênio com o Ministério do Planejamento e Orçamento e/ou Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano, destinado à obtenção de recursos a fundo perdido do Programa Habitar – Brasil/BID, Programa de Desenvolvimento Institucional dos Municípios e Urbanização de Assentamentos Subnormais.
O Programa Habitar Brasil foi concebido pelo governo federal em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID. Este projeto financiou obras e ações em 119 municípios, durante o período de 1999 a 2005 no Brasil, entre eles São Carlos. O Programa partia do princípio de que o problema das periferias das grandes cidades brasileiras tem origem não só na pobreza extrema das populações que a elas se agregam, mas também no despreparo institucional das administrações municipais para a gestão de políticas públicas voltadas para a habitação de interesse social e para o planejamento urbano. Objetivou-se a superação das condições de subnormalidade em áreas periféricas, por meio da implantação de projetos integrados (Brasil, 2010).
Ressalta-se que todas as intervenções realizadas e reafirmadas como insuficientes demonstraram sua pontualidade quando, da mesma forma, a área se mantém com ocupações caracterizadas como ―assentamento subnormal‖ e ainda apresenta características que a torna ‗beneficiária‘ do Programa Habitar Brasil – BID, tais como ser considerada pelo município há mais de cinco anos, um assentamento subnormal prioritário para intervenção; conter no mínimo 60% das famílias com renda até três salários mínimos; ser área em situação de risco, insalubridade ou legalmente protegida103.
103 Essas características foram os critérios adotados pelo Programa HBB para contemplar os municípios
solicitantes.
148 Na gestão seguinte, em 2001, com o prefeito Newton Lima Neto104, iniciou-se o
desenvolvimento do Projeto Habitar Brasil – BID, que se estendeu durante seus dois mandatos.
O projeto previa ações físico-urbanísticas: remoção das moradias em áreas de risco, ou de nascente, com precárias condições de saneamento básico e implantação de rede de esgoto, água potável, energia e iluminação pública, pavimentação, áreas verdes e de lazer e um equipamento social que compusesse um Programa de Saúde da Família105, um Centro Comunitário e uma quadra esportiva; ações de natureza ambiental: recuperação ambiental da área da nascente, das margens do córrego e de encosta; ações de natureza habitacional: fornecimento de kits de melhoria habitacional – módulos sanitários, coberturas, revestimento interno e externo, ligações de água e de energia elétrica, construção de unidades habitacionais sobrepostas para abrigar as famílias que precisam ser remanejadas; ações de natureza fundiária: manutenção das habitações regularizadas, regularização fundiária dos domicílios irregulares e regularização da titularidade; ações de natureza social: mobilização e organização comunitária; apoio social às obras e remanejamentos; educação sanitária e ambiental; geração de trabalho e renda; ações integradas de inclusão social e avaliação das ações integradas e acompanhamento pós-obras (São Carlos, 2002).
Segundo a Prefeitura de São Carlos (2005), com o Programa Habitar Brasil – BID foram investidos mais de 9,2 milhões de reais com recursos do Orçamento Geral da União e do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, com contrapartida do município. Estima-se que os resultados atingiram cerca de 6,7 mil pessoas direta e
104 Prefeito da cidade, pelo Partido dos Trabalhadores – PT, no período de 2001 a 2004, quando reeleito
por mais quatro anos, 2004-2008.
105 O Programa Saúde da Família foi implantado em 1994 pelo governo federal como uma estratégia de
reorientação do modelo assistencial do Sistema Único de Saúde – SUS, o programa é operacionalizado mediante a implantação de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde, responsáveis pelo acompanhamento de um número definido de famílias localizadas em uma área geográfica delimitada. As equipes devem atuar com ações de promoção da saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes, e na manutenção da saúde desta comunidade (Brasil, MS, 2011).
149 indiretamente. Através dessa intervenção, foi possível reurbanizar de fato a ‗favela‘, inúmeras ações previstas foram realizadas, como a construção da Estação Comunitária – ECO, que compõe uma Unidade de Saúde da Família, um centro comunitário e uma quadra esportiva, inaugurada em 17 de dezembro de 2005. Como ações de natureza ambiental, foram remanejadas famílias nas áreas de encostas e nascente, ressaltando que ainda há famílias que estão em processo de mutirão em outros bairros mais afastados do centro da cidade. As ações de natureza habitacional parecem ter sido completadas, já as de natureza fundiária, que previam o registro e regularização dos lotes e da titularidade, ainda não foram realizadas por completo, de acordo, com falas de moradores nos dias atuais.
Esta é uma questão fundamental para o debate – a legalidade – que nunca se constituiu de fato, afinal, muitos moradores mantêm a mesma condição como ocupantes ilegais de terra, sem registros que os certifiquem como proprietários. Há terrenos registrados como um lote, mas divididos entre quatro ou mais famílias, cujos proprietários os moradores desconhecem.
Todavia, as ações que necessitam de investimento processual sem dúvida dizem respeito às de natureza social. O Programa criou subprogramas: Subprojeto 1 – Mobilização e Organização Comunitária; Subprojeto 2 – Suporte Social às Obras e Remanejamentos; Subprojeto 3 – Educação Sanitária e Ambiental; Subprojeto 4 – Geração de Trabalho e Renda; Subprojeto 5 – Ações Integradas de Inclusão Social e Subprojeto 6 – Avaliação das Ações Integradas e Acompanhamento Pós-Obras, com o intuito de:
assegurar a participação da comunidade no desenvolvimento do projeto e proporcionar ações socioeducativas através de políticas sociais integradas que favoreçam a construção de processos de convivência e organização coletiva e de melhoria da qualidade de vida (São Carlos, 2002, p. 2).
150 Em relação à mobilização e organização comunitária, foi criada uma terceira ―Associação dos Bairros Monte Carlos e Jardim Gonzaga‖ em 28 de janeiro de 2006 (Prefeitura de São Carlos, 2006). O território está inserido no Orçamento Participativo – OP delimitado pela região 13106.
Subprojeto 2 – Suporte Social às Obras e Remanejamentos esteve voltado para atividades de cadastramento das famílias beneficiárias, fiscalização para coibir novas ocupações, acompanhamento do calendário das obras, oferecer informações pertinentes à temática à populaçãoe realizar a formalização da regularização fundiária após as obras em andamento.
Subprojeto 3 – Educação Sanitária e Ambiental previu no projeto trilhas ecológicas, cursos para população sobre os ecossistemas da região, educação sanitária e ambiental107 e a coleta de lixo seletiva realizada, em parte, pela cooperativa de
Coletores de Materiais Recicláveis – ‗Cooletiva‘ do Jardim Gonzaga, fomentada pelas atividades do subprojeto 4 – Geração de Trabalho e Renda que organizaram a capacitação em cooperativismo, em parceria com a Incubadora Regional de Cooperativas Populares – INCOOP da Universidade Federal de São Carlos108 que ‗incuba‘ a cooperativa de limpeza e manutenção voltadas para empresas – Cooperativa
106O OP foi implantado em São Carlos no ano de 2001 e foi uma iniciativa da administração municipal que
permite à população, por meio de seu colegiado: participar do processo de definição e implementação das políticas, planos, programas e projetos de obras e serviços públicos; controlar e fiscalizar as obras e serviços públicos e os seus mecanismos de financiamento, gerenciamento e execução, bem como a participação da iniciativa privada nos empreendimentos públicos; constituir associações representativas para promoção de direitos difusos e/ou coletivos, contribuindo no planejamento e execução de obras e serviços públicos. O colegiado é formado por três delegados, dois conselheiros titulares e dois conselheiros suplentes, com gestões anuais, cada região tem seu colegiado, e a região 13 contempla os bairros: Jardim Cruzeiro do Sul, Vila Monte Carlo, Jardim das Rosas, Vila Conceição, Jardim Gonzaga, Jardim Pacaembu, Jardim Santa Tereza, Vila Morumbi, Vila Santa Madre Cabrine, Vila Sônia, Jardim Martinelli e Jardim Industrial João Leopoldino (São Carlos, 2011).
107 Durante o processo do Programa Habitar Brasil – BID foram realizadas parcerias com ONGs, como a
Ramudá-Ramos que Brotam em Tempos de Mudança é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP, que desenvolveu o subprojeto de Educação Ambiental e Sanitária, envolvendo cursos e oficinas (Ramuda, 2010).
108 A INCOOP está constituída como um Programa de Extensão, vinculada à Pró-Reitoria de Extensão –
ProEx-UFSCar e tem como fim a incubação de empreendimentos econômicos coletivos e autogestionários, com a perspectiva de promoção da economia solidária (Incubadora Regional de Cooperativas Populares, 2010).
151 de Limpeza Jardim Gonzaga Organização – ‗Cooperlimp‘, desde 1999, que conta com 175 cooperados, dos quais 150 estão desenvolvendo atividades fixas. E ainda a ‗Coopercook‘ que presta serviços em cozinha industrial (cozinheiros e auxiliares de cozinha) incubada desde 2001. Além de ofertar cursos profissionalizantes (em sua maioria para funções ligadas aos serviços gerais e domésticos, e também de informática e outros).
Os subprojeto 5 – Ações Integradas de Inclusão Social implantou salas do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos – MOVA e Educação de Jovens e Adultos – EJA. Ressalta-se a importância para a ―sensibilização da rede de ensino para o acolhimento e inclusão da população‖ (São Carlos, 2001, p. 38). Além disso, previu
proporcionar ações educativas integradas para a formação de hábitos saudáveis de higiene e saúde; discussão de temas relacionados com a realidade dos adolescentes e dos jovens; transformação do trabalho já existente com crianças e adolescentes do Centro Comunitário (―Carlinhos‖), na proposta do "Projeto Centro Integrado da Criança e do Adolescente" – CICA e do "Projeto Campeões do Futuro109"; atendimento à famílias em situação de pobreza; organização de festivais esportivos tendo em vista as equipes já existentes e fomento às atividades culturais do bairro, através de ações culturais educativas110 (São Carlos, 2001).
E, por último, o subprojeto 6 – Avaliação das Ações Integradas e Acompanhamento Pós-Obras, que contemplaram ações de integração entre as
109 O projeto ―Campeões do Futuro‖ tem como objetivo principal proporcionar o esporte como movimento,
promovendo a inclusão e socialização através de atividades esportivas, culturais e eventos conjuntos com pais e familiares. É realizado pelo Serviço Social da Indústria – SESI, voltado para crianças e adolescentes entre 7 e 15 anos e oferece modalidades esportivas entre as quais os participantes devem escolher duas: voleibol, basquete, futebol de campo, futsal, natação e atletismo. Oferece também o transporte para levar os participantes ao Centro esportivo do SESI, localizado na Vila Isabel, duas vezes por semana (SESI, 2011).
110 O projeto ‗Campeões na Rua‘ é desenvolvido pela Prefeitura, como ação da Secretaria Municipal da
Cidadania e Assistência Social – SMCAS, o objetivo é resgatar a cultura popular infantil e estreitar laços na comunidade através da escola e da família, o projeto é desenvolvido na ECO, atende crianças de 8 a 12 anos, em situação de risco pessoal e social, moradoras do Jardim Gonzaga por meio de atividades lúdicas, folclóricas, passeios, festas, teatro e oficinas culturais (São Carlos, 2011).
152 secretarias municipais para sensibilização dos moradores com o programa desenvolvido por meio de estratégias educativas (São Carlos, 2001).
No Plano Municipal da Assistência Social – 2003-2004, a região ainda é descrita como um dos bolsões de pobreza da cidade111, evidenciando o Jardim Gonzaga como um dos bairros mais antigos da cidade, no qual se perpetuou uma história de pobreza, portanto, permanece o desafio de enfrentamento de suas problemáticas pelas políticas sociais (São Carlos, 2003).