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Tek Ümmet Modeli Olarak Sahabeyi Almak

2.1. Necip Fazıl’a Göre İdeal Gencin Sahip Olması Gereken Vasıflar

2.1.10. Tek Ümmet Modeli Olarak Sahabeyi Almak

Fernando foi um jovem que se destacou nas Oficinas de Atividades, Dinâmicas e Projetos oferecidas pelo Núcleo UFSCar do Metuia, no Centro Comunitário do Pacaembu, em 2006. Nos encontros semanais, ele sempre se fazia presente, muito ativo, interessado e cheio de talentos. Contudo, apresentava certa desconfiança quando o elogiávamos, como se estivéssemos valorizando algo sem justificativa.

Fernando se interessou em apresentar sua história de vida para outras pessoas, interpretava essa atividade como potente para que outros pudessem se espelhar. Definimos temáticas que melhor retratassem seu percurso de vida, e Fernando redigia longos trechos sobre elas. Este processo permitiu-lhe fazer reflexões sobre sua história, o que não havia antes realizado.

Nossa comunicação se beneficiou muito dos correios eletrônicos e dos contatos telefônicos, uma vez que este processo foi realizado quando já havia se mudado para a cidade de Araraquara – SP. Ainda assim, combinávamos encontros, ora em São Carlos, ora em Araraquara para que pudesse estar mais próximo nesta construção. Nessas oportunidades, pude conhecer seus familiares, a pessoa com que se relaciona amorosamente hoje, assim como a família dela. Conheci locais de trabalho, casas onde morou, locais de convivência no território e instituições de ensino onde estudou.

Ao ler as versões finais do texto, Fernando ficou emocionado e, ao mesmo tempo, curioso, dizia que queria ver que desfecho eu daria para sua história, sem perceber que era ele mesmo que a construía, com a potência de sua própria vida.

A

COMPANHAMENTO DE

M

ARI

Durante as Oficinas de Atividades, Dinâmicas e Projetos realizadas na escola Dona Aracy Leite Pereira Lopes, conheci Mari, em 2006. Sempre interessada em novidades, animada e participativa, com boa relação no grupo, fez vínculos entre os

170 membros do Metuia e aparentava ser muito madura para sua idade. Mostrava-se afetiva e apegada nas relações, tinha interesse em conhecer minha vida particular, assim como eu, a dela.

Depois, Mari vivenciou uma nova fase na vida, estava sempre muito ocupada e cansada por conta do trabalho que realizava. Este foi um momento que passamos mais distantes, devido à escassez de tempo e às poucas oportunidades para os encontros.

Já em 2010, Mari mudara muito sua personalidade, quando a convidei para participar da pesquisa, estava descrente e não levou a sério o pedido; com minha insistência, pensou sobre o assunto e concordou, desde que não resultasse em trabalho ou tarefas para ela. Considerava sua vida cheia de episódios tristes, achava que, quando retratada, se assemelharia mais com um filme de terror; por isso, avaliava como desnecessária, não importante, sua reprodução para outras pessoas.

Nesse processo de endurecimento e resistência, foram precisos tempo e paciência para que Mari pudesse permitir a retomada da vinculação, sendo assim, as tentativas de aproximação em relação à sua realidade, a princípio, não tiveram sucesso.

Os encontros com Mari foram realizados na casa dela, quase sempre com membros da família presentes; eles contribuíam com informações, apresentavam-se solícitos. Mari atravessou diferentes fases durante sua trajetória que influenciaram de forma importante suas interpretações acerca de suas situações vividas.

A transformação percebida na relação com Mari, não apenas comigo, mas com seu núcleo familiar e de amigos, demonstrou aspectos reais refletidos de suas experiências de vida, sobretudo as mais dolorosas e suas estratégias para lidar com elas.

Cada jovem reflete experiências de vidas que nos manifesta uma gama de inquietações e reflexões. O caminho traçado neste trabalho ressalta categorias

171 pertinentes e importantes tanto nas vidas juvenis retratadas, quanto no debate ampliado da juventude na contemporaneidade.

Sendo assim, apresentaremos os percursos de vida e as trajetórias escolares de Juliana, Carlinhos, Fernando e Mari, seguidos das análises realizadas, fundamentadas nos referenciais metodológicos adotados, com o intuito de apreensão da realidade em prol de novas perspectivas e ações para com a juventude brasileira. Ressalta-se que os temas elencados para o debate em cada percurso de vida foram eleitos também pela composição entre as quatro análises produzidas.

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Juliana

Juliana

é uma jovem bonita, reservada, mulata, certa do que quer, tem amigos, não muitos, entretanto, com quem pode contar. É bem consciente de seu caminho e, devido à rigidez do pai, cresceu com claros limites do que podia e, principalmente, do que não podia fazer. Tem laços familiares fortes, ao mesmo tempo em que busca sua independência, temática ainda mais presente, agora que completou 18 anos. Tentou, em seu percurso de vida, criar possibilidades e estratégias para a construção de caminhos próprios.

Juliana não se lembra de quando chegou a São Carlos, afinal tinha apenas três anos de vida. Seus pais nasceram e cresceram em Brumado – BA126, eles moravam na zona rural da cidade, por isso o

trabalho girava em torno dos afazeres domésticos, do trato dos animais e da lida na terra e no campo, não contavam com energia elétrica, água encanada ou asfalto, e o lazer dos fins de semana se dava quando se deslocavam para o centro da cidade.

Seu pai, Osvaldo, ouvira dizer que, em algumas cidades no interior de São Paulo, havia melhores condições de trabalho e de vida. Alguns parentes127 estavam trabalhando em Limeira, seu Osvaldo

deixou a esposa e suas três filhas em busca do sonho da cidade grande. No início, conseguiu um trabalho rural na colheita, todavia logo foi contratado por uma empresa para trabalhar em São Carlos e

126 Cidade localizada no interior da Bahia, segundo o censo de 2010 sua população estimada foi de 64.990

habitantes, sendo que 30% pertencem à zona rural (IBGE cidades, 2010).

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Na família de Juliana existe a tradição de considerar membros da família os parentes, ainda que sejam de gerações ou cruzamentos muito distantes deste núcleo familiar.

173 região. Osvaldo foi funcionário de uma concessionária da região noroeste do Estado, empresa privada que, em meados da década de 1990, construiu parte do gasoduto – tubulação utilizada para transportar o gás natural – na conhecida rota ―Gasoduto Brasil-Bolívia‖. Foram anos construindo a tubulação, inclusive em outras regiões no interior de São Paulo.

Osvaldo, após dois anos nesse emprego, avaliou que sua condição de trabalho e renda era suficientemente boa para trazer sua esposa e suas filhas. Sua esposa Valéria estava com aproximadamente 24 anos quando chegou a São Carlos, com suas filhas – Gabriela com cinco anos, Juliana com três anos e Verônica com dois anos. Valéria conseguiu emprego como empregada doméstica, logo depois que a família se estabeleceu numa das ‗praças‘ loteadas entre os bairros Cruzeiro do Sul e o Jardim Gonzaga.

O irmão de Valéria também se deslocou para trabalhar com Osvaldo, e com ele sua família, afinal ele estava casado com a irmã do cunhado, ou seja, o irmão de Valéria se casou com a irmã de Osvaldo e tiveram dois filhos. Com a chegada dessa outra família, a única moradia abrigou as duas famílias, um barraco de madeira alugado que possuía banheiro, cozinha e dois cômodos, um para cada família.

Com o tempo a construção do gasoduto foi cumprida e com isso, o pai foi tentando se estabelecer em outras empresas já constituídas na cidade. Trabalhou na Electrolux e depois na Tecumseh, empresa a qual se mantém vinculado ainda nos dias atuais. Osvaldo sempre trabalhou no período noturno. Já Valéria, que trabalhava como empregada doméstica, com o tempo, se estabeleceu como cozinheira e hoje trabalha na cozinha de uma churrascaria da cidade. Valéria cursou até a quarta série do antigo primário.

Em 1997, o pai de Juliana conseguiu adquirir um terreno no bairro Monte Carlo, próximo à antiga moradia, almejando à casa própria. Houve a divisão do terreno, para

174 que cada família pudesse construir sua casa. A primeira construção foi destinada à família de Juliana, embora as duas famílias tivessem dedicado anos a esse projeto. A necessidade do trabalho, para homens e mulheres, estava pautada pela necessidade da casa.

Minha mãe e minha tia vieram para São Carlos, porque também tinham como motivo, aumentar a renda da família para conquistar a casa. Acho que às vezes foi até exagerado, sabe? Toda a preocupação e o dinheiro eram para a casa.

Esses dois núcleos familiares construíram relações tão próximas, devido à relação e tradição familiar, que resultou numa sobreposição de papéis entre pais e tios, todos se responsabilizam pela criação dos filhos. Assim, o tio de Juliana ocupa também o lugar do pai, às vezes de forma ainda mais rígida. O cuidado e, principalmente, a vigilância das filhas mulheres são redobrados nessa família. As funções paternas são exercidas com tradições machistas e autoritárias.

Atualmente, mesmo com as casas e os terrenos divididos para cada família, não parece existir nenhuma fronteira entre as moradias, o livre acesso das famílias para uma casa e outra é habitual. Apesar de todos terem sido criados juntos, as meninas devem obedecer a uma série de regras impostas pelos pais, que diferem da educação do menino (primo de Juliana). A distinta educação entre os gêneros associa-se com um grande medo de Osvaldo sobre a possibilidade de gravidez de suas filhas. Dessa forma, as regras eram claras, as meninas deveriam seguir as ordens com disciplina, não podiam sair, não podiam trazer amigos para casa, não podiam atrasar os compromissos diários (por exemplo, após o horário da escola), não podiam ficar fora de casa, entre outras.

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Benzer Belgeler