Após as mudanças ocorridas no âmbito da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós- Graduação, um conjunto de projetos da Universidade Federal de Uberlândia tomou corpo, como a Central de Projetos e Apoio ao Pesquisador (CEPAP), que tem como função “a indução a pesquisa, desenvolvimento e inovação”, procurando identificar os melhores caminhos para linhas de financiamento e fontes de recursos “em agências de fomento e empresas privadas”.123 Neste contexto, a FAU (Fundação de Apoio Universitário), fundação da UFU, assume nova funcionalidade, dada pela celeridade das regras normativas das fundações comparadas com as da própria Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação. Segundo a página oficial da FAU, são dez os objetivos do projeto, a saber:
I - Identificar fontes e linhas de financiamentos para viabilizar os projetos demandados pela UFU;
II - identificar potencialidades nas diversas Unidades Acadêmicas da UFU;
III - auxiliar os professores em suas solicitações de apoio junto aos órgãos e empresas financiadoras;
IV - acompanhar os resultados de projetos demandados por pesquisadores da UFU;
V - contribuir para a criação de novos núcleos de pesquisas;
122 Segundo o Jornal da UFU, a universidade criou em 2010 o primeiro curso de mestrado
profissional: “A Universidade Federal de Uberlândia (UFU) por meio do Programa de Pós- Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina (FAMED) oferece, a partir do primeiro semestre de 2010, o curso de Mestrado Profissional Associado à Residência em Saúde. Para a primeira turma serão ofertadas 25 vagas. O edital deve ser publicado em outubro” (2010, p. 11).
123 Trecho retirado do site oficial da Universidade Federal de Uberlândia. Este projeto pertence à
Fundação de Apoio Universitário (FAU), que dispõe sobre licitação, compra e despesas na universidade. Porém, segundo os artigos 4º e 5º do seu estatuto, seus objetivos são latos, pois a fundação pode desempenhar desde função de escritório a execução de cursos e pesquisas. Retirado do site http://portal.fau.ufu.br/central-de-apoio-ao-pesquisador.html. Acesso em 02 de dezembro de 2010.
155 VI - consolidar os núcleos de pesquisas já existentes;
VII - criar um banco de dados de pesquisadores e linhas de pesquisa na UFU;
VIII - auxiliar os pesquisadores na adequação de projetos, no envio de propostas e na elaboração de orçamentos;
IX - acompanhar os indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação na UFU;
X - criar parcerias que beneficie a gestão de projetos na FAU. O objetivo V da FAU consiste na implantação e consolidação dos núcleos de pesquisas, bem como acompanhar “os indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação da UFU”, segundo o objetivo IX. Através do projeto, a FAU assume papel de instância auxiliar dos professores-pesquisadores, tal qual uma consultoria, que objetiva criar um banco de dados de pesquisadores e linhas de pesquisa na universidade e estabelecer parcerias entre a instituição e empresas privadas. No artigo 5º do estatuto da FAU, incorpora-se a necessidade de implantação de uma política de inovação, particularmente nos incisos II, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX e XXI.
II – desempenhar o papel de escritório de contratos, viabilizando o desenvolvimento de projetos sob encomenda, com a utilização do conhecimento e da pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia, ou de escritório de transferência de tecnologia, viabilizando a inserção, na comunidade externa, do resultado de pesquisas e desenvolvimentos tecnológicos realizados no âmbito da UFU; (...)
XVI – incentivar a realização de estudos, programas, projetos e outras atividades que tenham por objeto a criação, o aperfeiçoamento e a consolidação do processo de desenvolvimento científico e tecnológico, bem como de técnicas, processos, produtos, absorção, utilização e difusão tecnológica primária ou incremental;
XVII – incentivar a criação e o desenvolvimento de pólos e incubadoras de base tecnológica, bem como participar de sua administração;
XVIII – emitir laudos e certificados de processos e sistemas; XIX – gerenciar convênios, contratos, ajustes e acordos, visando atender aos objetivos de convenentes e contratantes;
156 XX – criar ou associar-se a outras entidades de objetivos afins; XXI – explorar os resultados de pesquisas e exercer os direitos relativos à propriedade intelectual e industrial (FAU,s.d., p. 3- 4).
A Agência Intelecto/UFU responsabiliza-se pela patente e pela transferência de tecnologia. Segundo o inciso II, a FAU responsabiliza-se pelo contrato de transferência de tecnologia e os eventuais serviços de escritório. Todavia, suas funções são mais amplas, compreendendo a realização de estudos, projetos, eventos e atividades que possuam a finalidade de fomentar o desenvolvimento tecnológico e ações de incentivo à criação de empresas incubadoras na Universidade Federal de Uberlândia. Também gerencia convênios, acordos etc. com empresas, além de “explorar os resultados de pesquisas e exercer os direitos relativos à propriedade intelectual e industrial”. Em outras palavras, a FAU gere os recursos provenientes de acordos, parcerias e qualquer contrato de transferência de tecnologia. A Agência Intelecto/UFU intermedeia a relação entre o pesquisador e a empresa, sendo de sua responsabilidade o cuidado com os trâmites do patenteamento e a análise da viabilidade de transferência de tecnologia.
A FAU torna-se uma das instâncias mediadoras da política de inovação da UFU. Transforma-se em instrumento que corporifica o imperativo da aproximação entre demandas do setor empresarial e pesquisas, capital produtivo e tempo de trabalho do professor-pesquisador. É a instituição que baliza a atuação da Agência Intelecto, intermediando sua relação com instituições e empresas.124
No ano de 2010, a FAU torna público o primeiro Manual do Coordenador, que “dispõe das informações necessárias para orientar os usuários da FAU quanto ao apoio e obtenção de recursos para pesquisa, formalização de parcerias e regras gerais para a execução de convênios e projetos” (2010, p. 2). Para a formulação do manual são manifestos os seguintes pontos dos objetivos estatuários da FAU, de acordo com a finalidade política do documento:
I. Executa ou gerencia a execução, total ou parcial, de projetos relacionados com as atividades de ensino, pesquisa, extensão, cultura, artes, desenvolvimento institucional, científico e
124 No site da FAU constam as logomarcas das seguintes instituições e empresas: UFU,
FAPEMIG, CNPq, FINEP, Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), Petrobrás, CIAEM, SEBRAE/MG.
157 tecnológico de interesse da Universidade Federal de Uberlândia;
II. Desempenha papel de escritório de contratos, viabilizando desenvolvimento de projetos sob encomenda, com utilização do conhecimento e da pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia, ou do escritório de transferência de tecnologia, viabilizando a inserção na comunidade externa, do resultado de pesquisas e desenvolvimentos tecnológicos realizados no âmbito da UFU;
III. Promove a realização de cursos, pesquisas, estudos, consultorias e prestação de serviços;
IV. Celebra convênios, acordos, ajustes, contratos e outros instrumentos jurídicos, com pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, nacionais ou estrangeiras. (2010, p. 3).
A FAU é uma fundação que assumiu as prerrogativas de estabelecer as normativas necessárias para a consecução da política de inovação na universidade. Desta forma, passam a existir duas instituições da universidade – FAU e Intelecto/UFU – que são complementares, com prerrogativas que as isentam de uma série de obrigações, como licitações para pesquisa aplicada, de acordo com a Lei nº 8.666/93, ajudando assim a refuncionalizar o trabalho dos professores-pesquisadores. No caso da FAU, essas funções são executadas por diferentes setores da fundação. Abaixo está a organização da fundação em organograma:
158 As atividades da fundação são divididas entre suas divisões e setores. A prestação de serviços e de projetos de pesquisa com o setor privado é de responsabilidade da Divisão de Contratos e Prestação de Serviços (DIPSE), que analisa o projeto de atividade após aprovação do Conselho da Unidade Acadêmica, o parecer da Procuradoria Geral da universidade (PROGER) e o contrato entre unidade e empresa.125
125 Os cursos e eventos realizados no âmbito da FAU também são administrados pela DIPSE.
Porém, no caso são avaliados quatro documentos: projeto de atividade/ Sistema de Acompanhamento de Projetos – SAP, aprovado pelo Conselho da Unidade Acadêmica; Parecer da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação; parecer da Procuradoria Geral da UFU (PROGER); e contrato entre a Universidade e a FAU.
159 Os convênios com órgãos federais e empresas públicas, por sua vez, são estabelecidos pela Divisão de Convênios e Projetos (DICOP), que recebe as propostas após aprovação das agências de fomento.126 A burocracia criada tem o escopo de estabelecer convênios com celeridade que captem recursos para a Universidade Federal de Uberlândia. Para isto, cria-se a figura do coordenador de projetos:
A FAU, ao cumprir sua principal missão na captação de recursos e gestão de convênios, cria a figura do coordenador de projetos, geralmente um docente ou pesquisador da UFU e instituição apoiada. Com tantas atribuições urge a necessidade do coordenador ter uma ferramenta de orientação precisa sobre a formalização e práticas de execução dos projetos, que permita a otimização do tempo, além de garantir segurança e sigilo nas informações. Para tanto, a FAU procura estimular o trabalho do pesquisador na medida em que busca continuamente formas para facilitar seu trabalho (2010, p. 8).
A fim de otimizar o trabalho do coordenador, a FAU criou um portal que disponibiliza todos os contratos e formulários necessários para execução de projetos, além de “possibilitar a realização de todas as suas solicitações de despesas, por meio do formulário eletrônico de Solicitação de Despesas – SDE” (2010, p. 9).127 O portal permite o acompanhamento dos pedidos e das execuções orçamentárias, tornando-se um importante instrumento de agilização.
Outro serviço importante da FAU é a importação de bens destinados à pesquisa, uma vez que é credenciada junto ao CNPq e, segundo a Lei nº 8.010/90, goza de isenções fiscais, além da contratação de serviços de terceiros, pagamento de passagens e de diárias, compra de materiais. Estes serviços são de responsabilidade da Divisão de Compras e Licitações (DICOL).
126 São analisados os seguintes documentos: proposta aprovada pelo órgão ou empresa
concedente, minuta do termo de convênio emitida pela concedente, projeto de atividade aprovado pelo Conselho da Unidade e parecer da Procuradoria Geral da UFU (PROGER).
127Como o próprio manual diz, “a SDE é um formulário utilizado para a realização de despesas
sem a necessidade de impressão e envio de protocolos. As assinaturas do diretor e do coordenador são realizadas eletronicamente, por meio de senhas pessoais e intransferíveis” (2010, p. 9).
160 A FAU pode realizar de forma imediata pagamentos de bolsas de convênios e projetos de pesquisa, algo que para a universidade ou qualquer Unidade Acadêmica torna-se de difícil execução em função da burocracia de uma autarquia ou de uma fundação que funciona nos moldes de uma autarquia.128
A FAU é uma instituição da Universidade Federal de Uberlândia que medeia a sua transformação em universidade estatal mercantil, pois potencialmente abre espaços na universidade para a mercantilização do conhecimento produzido. A estrutura universitária é utilizada como divisão de custos e de riscos para o capital produtivo, uma vez que o trabalhador é financiado com o fundo público, bem como o capital constante. O subitem c do item 23.2 do modelo de projeto de atividade da FAU demonstra tal processo ao permitir a utilização de servidores, seguindo a legislação nacional, para a execução de convênios, parcerias e projetos:
A participação dos servidores docentes e administrativos relacionados no Projeto se fará em nome e a serviço da Universidade Federal de Uberlândia; ditos servidores exercerão suas atividades, mesmo havendo percepção de bolsas, sem nenhum caráter de autonomia nem com vínculo empregatício perante a Fundação, mas sob o vínculo de sua condição de servidores públicos, sujeitos ao regime disciplinar e à
avaliação de suas condutas e desempenho nos termos da Lei nº.
8.112/90 (Regime Único dos Servidores Públicos da União) (UFU/FAU, 2010, p. 5-grifos nossos).
Segundo o texto, os servidores docentes e administrativos vinculados aos projetos exercerão suas atividades “sem nenhum caráter de autonomia nem com vínculo empregatício com a Fundação”, mas com vínculos de servidores, isto é, sujeitos a todos os procedimentos avaliativos e punitivos do serviço público. Dessa forma, os servidores não estabelecem qualquer vínculo trabalhista com a fundação, mas podem ser punidos em suas carreiras caso não cumpram as diretrizes emanadas pelo projeto. Em outras palavras, o servidor pode, em tese desviado de sua função original de concurso, já que está trabalhando sem vínculo, ser avaliado e punido em seu serviço de concurso. Este é um exemplo da divisão de custos e de riscos que o capital mundializado estabelece com
161 as universidades estatais mercantis: regula sob suas necessidades de valorização o tempo de trabalho dos servidores.
5. O Núcleo de Inovação Tecnológica Intelecto/UFU e sua mediação com o