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A modernidade, notadamente no Ocidente, é regida por uma razão totalizante, a

chamada “razão indolente” que, afirmando-se exaustiva e completa, desconsidera a existência

de qualquer inteligibilidade fora dos seus domínios (SOUZA SANTOS, 2002). Com a afirmação autoritária (e consequente aceitação) desta racionalidade enquanto única fonte de inteligibilidade possível e legítima, Boaventura Santos identifica que diversas matrizes

cognoscentes foram suprimidas, silenciadas, marginalizadas e “activamente produzidas como não existentes” (Ibidem, p. 253).

29 O universo rural periférico pode ser tomado como um desses espaços influenciados e silenciados pela unilateralidade desta razão ocidental, já que historicamente tem sido tomado numa relação de desigualdade, sendo por vezes desqualificado e menosprezado19. Argumentaremos o quanto tal universo teve sua racionalidade de algum modo produzida como não-existente e como, com isso, frequentemente seu fim inexorável passou a ser

identificado com a necessidade de “modernização”, “desenvolvimento” e “racionalização”,

como se nesse espaço não houvesse “nada que seja ou mereça ser inteligível” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 242).

O que pretendemos com este capítulo é demonstrar que, a despeito do que institui esta razão ocidental indolente, estes sujeitos, espaços e experiências rurais são, sim, dotados de racionalidade, e que a sua não consideração pela razão hegemônica não é despropositada,

mas, pelo contrário, diz respeito “a um brutal sistema de dominação” (SOUZA SANTOS,

2002, p. 242), por meio do qual a sociedade passa a ser hierarquizada em função deste modelo de razão. Ocupando a racionalidade instrumental um lugar central e ideal, os sujeitos que se distanciam deste modelo são tomados a partir de uma relação de desigualdade, sendo identificados como ocupantes de uma posição inferior e um status periférico, o que lhes tolhe a dimensão do reconhecimento.

Assim, a superação da univocidade da razão indolente e a consideração destes sujeitos rurais periféricos como dotados de saberes e racionalidades legítimas (ainda que distintas da hegemônica) se torna uma forma de reconhecimento que, ainda que por si só seja insuficiente para a superação imediata da situação de desigualdade, pode ser capaz de alterar a orientação destes sujeitos no espaço moral. Desta forma, o enfrentamento desta questão se torna crucial e central para os nossos desígnios, já que se encontra diretamente relacionada com a posição do sujeito rural no espaço social.

1.1) O olhar sobre o rural

Enfeitiçados pela promessa e pelo ideal moderno de igualdade (“Os homens nascem e são livres e iguais em direitos.”20

), para percebermos o sistema de dominação e hierarquização

19Warren Dean (1997), em sua fascinante obra “A ferro e fogo”, nos mostra como, desde os primórdios da

colonização, com medidas segregativas das residências de “índios” e “brancos”, a Coroa já se empenhava em “definir a cidade como sinônimo de civilização, dotando-a dos instrumentos de comando, e relegando o que era nativo e bárbaro, e devidamente reprimido, às aldeias” (Ibidem, p. 87). Segundo o autor, este alheamento iria

operar de modo drástico e eficaz, instituindo uma suposta ignorância dos nativos em relação à casta dominante urbana.

30 social que se erige em função da unilateralidade da razão moderna ocidental é preciso ir além das aparências. Cientes disto, somos levados a crer que a obviedade de um dos questionamentos que anima este capítulo (são os sujeitos rurais dotados de racionalidade?) encobre, na verdade, uma realidade opaca que, longe de ser óbvia, esconde um sofisticado mecanismo social de desconsideração, silenciamento e subordinação. Assim, o não enfrentamento do problema, por acreditarmos no ideal igualitário moderno, só faz ocultar este processo de desacreditação de outras racionalidades, o que tem como consequência um sistema de dominação e subordinação social quase invisível e imperceptível.

Uma demonstração que torna clara a existência deste processo obscuro a que nos referimos é o fato de, apesar de acreditarmos irrefletidamente que os sujeitos rurais são iguais e dotados de racionalidade, diversos – e conceituados – autores (CARNEIRO, 1998;

NAVARRO, 2001; VEIGA, 2001) tendem a crer que eles são “pré-modernos” e que,

portanto, precisam se adequar, se desenvolver e se modernizar. Ou seja, na verdade, acreditamos que falta a este rural um item essencial neste processo etapista: a racionalidade – entendendo-a aqui enquanto razão que produz e instrumentaliza o mundo.

Queremos, com este trabalho, lançar um novo olhar sobre o rural, que seja capaz de considerar, acima de tudo, os sujeitos que ali residem e que, enquanto tais, não são isentos das contradições, das complexidades e das heterogeneidades que a modernidade preside. Isto implica em ir além da tradição da sociologia rural em explicar o local e a existência do rural sempre a partir do processo histórico que subjugou um lugar residual ao rural em relação à cidade21. Ou seja, implica em superar (e não renegar ou abrir mão) a explicação do campo sempre em termos relacionais com a cidade: aquele estando numa relação desigual e que, para superá-la, precisa ser modernizado ou ressignificado, o que se dá principalmente a partir da adoção do modelo de racionalidade dominante.

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Todas as principais análises e autores da sociologia rural brasileira partem do contexto histórico, que teria relegado ao rural um espaço residual em relação à cidade, para definir e explicar o rural. Analisando sempre relacionalmente a questão rural-urbano/campo-cidade, estas correntes diferem entre si – e aí sim, substancialmente – apenas quanto às conclusões e soluções apontadas. Podemos agrupar as explicações sobre o rural na tradição sociológica brasileira, apenas para fins didáticos, em duas grandes correntes de pensamento: a) enquanto há aqueles que veem o rural como um mundo em declínio, em decorrência da expansão do urbano, que ocasiona a transformação e a supressão da identidade rural (GRAZIANO DA SILVA, 1999a; IANNI, 1997), há também, em contrapartida, b) aqueles que veem o rural como um espaço de vida e trabalho com dinâmica própria e que, mesmo se articuladas com o mundo urbano, se mostra como complementar e não sobreposta a este (CARNEIRO, 1997; WANDERLEY, 2000). A saída da primeira posição teórica (rurbano) seria a inevitável modernização, ao passo que a da segunda (novo rural) seria a ressignificação e valorização deste espaço.

31 Boaventura de Souza Santos (2002), lançando mão da sua crítica à razão indolente, vai dizer que, obcecada pela ideia de totalidade, ela só analisa a realidade em termos dicotômicos e, a partir da transformação de uma das partes em termo de referência para as demais, acaba procedendo a uma hierarquização entre as partes. Como alternativa a este modo dicotômico de análise da realidade, que segundo o autor acaba reiterando as desigualdades e renegando a

diversidade ao considerar modelos únicos como legítimos, o autor propõe “pensar os termos das dicotomias fora das articulações e relações de poder que os unem” (Ibidem, p. 246).

Imbuídos dessa motivação, da superação de uma análise dicotômica da realidade, pretendemos, neste trabalho, analisar o rural e o lugar dos sujeitos que ali residem para além de sua relação com o urbano, pois este tipo de explicação parece ter se esgotado enquanto categoria social capaz de explicar os conflitos e as peculiaridades dos fenômenos sociais que acontecem no espaço rural. Isto porque ela nos leva a conclusões maniqueístas, já que analisa sempre em busca de uma suposta co-dependência desigual e inevitável. Assim, seja entendendo o rural sempre enquanto lugar periférico apenas por ser rural, ou seja tomando o urbano sempre enquanto lugar central exclusivamente por ser urbano, ou, pelo contrário, entendendo o campo sempre como o lugar da tranquilidade e da valorização em oposição à cidade como o lugar da violência, a análise dicotômica é insuficiente para descortinar o lugar social que os sujeitos, sejam rurais ou urbanos, ocupam no mundo. Deste modo, a compreensão da desigualdade precisa romper com a aceitabilidade desta dicotomia para, a partir de então, desvendar o complexo e não tão óbvio mecanismo de exclusão que atribui ao rural um lugar periférico (lugar este que não pode ser abandonado simplesmente pela lógica modernizante e pela promessa de desenvolvimento).

Como já anunciado, esta superação não implica em abrir mão do processo histórico, já que não podemos desconsiderar que, historicamente, a cidade se colocou enquanto o lugar por excelência da realização do sujeito moderno, em oposição ao campo, que foi renegado a um lugar residual. Entretanto, considerar isto não faz com que sejamos capazes de explicar os sujeitos (e seus papéis e posições no mundo) apenas enquanto produtos desse processo histórico. Assim, o rural não é periférico e residual exclusivamente porque, em razão de um desenrolar histórico, ele passou a ocupar esse lugar e, ao contrário, a cidade ocupou um lugar de centralidade e valorização. Pensar assim seria desconsiderar que na cidade existe também periferia e contradição (a exemplo das favelas), assim como no campo existe centralidade e prosperidade econômica (a exemplo do agronegócio).

32 Deste modo, sem esquecer a influência do processo histórico, é necessário reconhecer, no entanto, que esses sujeitos que moram no campo são sujeitos modernos, que assumiram um lugar no desenrolar histórico e que, principalmente, estão adstritos a um mecanismo sofisticado e complexo de construção das subjetividades na modernidade. Nosso argumento principal é o de que tal mecanismo, ao mesmo tempo em que invisibiliza a racionalidade desse sujeito rural diante do mundo, também o torna um agente que irá invisibilizar sua própria racionalidade, situando-o sempre numa posição inferior e periférica. Para esta análise as teorias de Charles Taylor (2011) e Jessé Souza (2012) sobre hierarquização e reconhecimento sociais serão fundamentais.

Abandonar esta dicotomia e abrir mão da centralidade da explicação do processo histórico do rural e urbano para o nosso olhar de pesquisa implica, portanto, em admitir a existência, mesmo no campo, de sujeitos contraditórios, múltiplos e plurais, imersos na modernidade, em contextos centrais ou periféricos. Desta forma, este capítulo visa identificar as posições sociais ocupadas pelos sujeitos rurais periféricos e a intrínseca ligação com o papel hierarquizante desempenhado pela racionalidade instrumental na modernidade.

Para tanto, este capítulo se divide em uma parte de discussões teóricas e outra de análise da empiria, além desta introdução e de uma conclusão. Inicialmente, a partir dos aportes teóricos, buscaremos localizar a racionalidade enquanto concepção filosófica que surge com a modernidade; depois identificaremos os problemas causados pela racionalidade, sem, no entanto, deixar de reconhecer a sua centralidade na construção do sujeito moderno (inclusive do sujeito rural), sobretudo a partir da teoria de Charles Taylor sobre fontes de moralidade. Em seguida, analisando empiricamente, apresentaremos marcas e indícios que sejam capazes de nos dizer sobre a posição social destes sujeitos que moram na zona rural de Maravilhas e Porto Firme, a fim de demonstrar que, em que pese serem sujeitos dotados de racionalidade, que têm porquês para suas ações, ainda assim reconhecem-se enquanto diferentes (e inferiores) do sujeito pontual moderno, sendo sua orientação no espaço moral regida por uma tônica de inferioridade.