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Uma vez demonstrada a singularidade que caracteriza a ética camponesa, cumpre-nos evidenciar como ela se posiciona num lugar de invisibilidade em relação a outros estratos de racionalidade, sendo sempre tomada como incompleta e imprópria. Conforme evidenciamos,

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Perguntados sobre a existência de festas ou encontros típicos nas comunidades todos os 19 entrevistados responderam que as únicas festas públicas que ocorrem no espaço rural são as organizadas pela igreja, em homenagem aos padroeiros, festeiros, etc.

98 isto se deve ao fato dessas outras fontes morais se basearem na concepção de um modelo ideal e, distanciando-se o ethos camponês de tais modelos – sendo, portanto, periférica – a singularidade camponesa acaba sendo silenciada ou tomada como inexistente por outros estratos de racionalidade que coexistem no espaço rural. E a invisibilidade, por sua vez, gera o lugar de inferioridade, retroalimentando o círculo vicioso que desconsidera estes sujeitos, como vimos no capítulo 1.

Desta forma, em que pese termos conseguido, a partir do material empírico, demonstrar a existência de um ethos camponês próprio, temos que esta singularidade tem sido desconsiderada – dada a invisibilidade à que é condenada – pelos outros estratos de racionalidade, fazendo com que as leis e as políticas públicas que incidem diretamente sobre a realidade destes sujeitos desconsiderem seus meios de vida e, por isso, sejam menos efetivas do que a vontade do legislador.

Assim, sobretudo as racionalidades ambiental e burocrática – e suas expressões na lei e nas políticas públicas – parecem incidir sobre a vida dos camponeses descolada de suas realidades, fazendo-lhes exigências a partir de seus modelos ideais, mas desconsiderando os meios de vida dos sujeitos reais. A partir dos depoimentos dos sujeitos entrevistados, pudemos perceber diversos exemplos de desconsideração dos meios de vida dos sujeitos rurais periféricos, fazendo-nos corroborar a nossa hipótese de que os demais estratos de racionalidade existentes no meio rural desconsideram a racionalidade camponesa e impõem seus modelos ideais sob estes sujeitos, invisibilizando sua singularidade e tomando-os sempre numa díade periférica, em que são sempre incompletos e impróprios.

Um exemplo, que demonstra como a racionalidade burocrática desconsidera que a racionalidade camponesa se orienta por valores distintos, é o caso do Programa Nacional de Habitação Rural, integrante do Programa Minha Casa Minha Vida69. Na saída de uma das entrevistas no município de Porto Firme (na comunidade de Vinte Alqueires), a nora do pai de família, que também morava na casa do sogro e que estava, juntamente com seu marido, construindo uma casa na mesma propriedade, perguntou ao técnico da EMATER como fazer para acessar ao programa e obter ajuda do governo para a construção de sua casa. O técnico a respondeu que para acessar o programa eles precisavam ter o título da propriedade, e que o sogro teria que fazer uma doação do terreno para o filho e a nora poderem construir.

69 Mais informações podem ser encontradas no site:

<http://www.cidades.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=858:programa-nacional-de- habitacao-rural-pnhr&catid=94&Itemid=126>

99 Percebi, neste momento, como algumas exigências impedem o próprio acesso dessas

pessoas a esses programas do governo, já que a lógica e até mesmo a forma de “fazer negócio” deles é diferente, algo que a linguagem moderna da “eficiência” do Poder Público

não consegue enxergar. Os imóveis rurais costumam tratar-se de propriedades antigas, cujas titularidades remontam à época dos pais, avôs e bisavôs e que, muitas vezes, nem mesmo foram transmitidas por meio de inventário e partilha. Assim, tem-se no Brasil uma realidade em que grande parte das propriedades rurais nem mesmo encontram-se regularizadas no que se refere à documentação de titularidade. E os seus proprietários efetivos – embora não regularizados – por vezes nem mesmo possuem recursos financeiros para proceder à regularização.

Diante disto, questionei ao técnico da EMATER acerca da implementação do programa Minha Casa Minha Vida Rural no Município de Porto Firme. Conforme informação prestada pelo técnico, a EMATER já recebeu a documentação de aproximadamente 100 pessoas, sendo que a enorme burocracia impede que mais pessoas tenham acesso ao programa. Segundo o técnico, exige-se muitos documentos e muitos registros que as pessoas da zona rural não têm, e que não podem arcar pra regularizar. Assim, muitos produtores nem sequer tentam acessar o programa. E, mesmo aqueles que tentam acessá-lo, provavelmente terão a documentação rejeitada, por faltar documentos e descumprirem requisitos. A expectativa do técnico da EMATER era que apenas 25% dos que submeteram o pedido efetivamente conseguissem acessar o programa. Este desajuste entre as exigências do programa e a realidade dos sujeitos foi evidenciada na fala dos entrevistados:

E: Igual hoje aí vem esse projeto Minha Casa Minha Vida Rural... Ótimo. Pudiria tá fazeno parte da agricultura, porque pra segurá o pessoal na roça, que diz que o governo qué... Mais eles tá pedino um montíssimo de documento lá que o produtô rural num tem. Porque eu moro aqui em terra do meu pai, meu pai morô em terra do meu avô, do bisavô dele... Nem tem documento. Mais toda vida cê sabe que ele morô ali. Qué dizê, então cê tá... (Entrevistado da Comunidade Braço Forte em Porto Firme)

E: Olha, a propriedade aqui fala por hectare, né? Essas área aqui era uma medida antiga, então... A propriedade aqui é... Uns 40 hectares mais ou menos. Mai que ta no... Tem assim uma parte que nem pude registrar. Cê sabe por que? Eu fui pra podê fazer esse registro, num sei nem se mudou alguma coisa. Quando eu panhei essa outra área, eu tinha registrado aí 26 hectares, me parece, 26 e pouco. Quando eu cheguei no cartório de registro me pediram tanta coisa... Que tinha que medir o terreno, eu tinha que pagar agrimensor pra medir, tinha que ir no... como é que cê falou aí? No IE...?

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E: No IEF. Né? Pra ter autorização, uma porção de coisa. Eu falei assim, ah, deixa esse trem pra lá. Esse trem num vai... Trem demais. Num dá conta. (Entrevistado da Comunidade Varginha em Porto Firme)

Em outros momentos das entrevistas, este desajuste entre a realidade dos sujeitos e a estipulação das leis e políticas públicas ficou explícito, demonstrando o desconhecimento (ou desinteresse) da singularidade própria do rural periférico:

E: Eu tô falano, nois num pode pô em mercado, supermercado nenhum num pode pô porque o fiscal toma. Num pode, num tem selo eles recolhe tudo. Aí que eu falei com cê, que nois tinha que chegá... O guverno tinha que vê esse lado aí, nois tinha que arrumá um jeito de vendê nosso produto pra quem nois quisesse vendê ué, né? Nois é obrigado a vendê pa atravesador lá, e ele que vai ganhá dinhero, nois não. Infilizmente é assim. (Entrevistado da Comunidade Duas Barras em Porto Firme) E: Ocê começa, qué dizê, fazê um troço aí eles já vem com uma burocracia desgraçada pra cima docê. Ocê num tem condição de fazê aquilo, cê entendeu? Eu crio uns frango, aí eu vendo eles lá. Clandestinamente eu vendo. Eu vendo frango tem 30 ano que eu vendo frango em Viçosa, cê entendeu? Mas é clandestino. Alguém já tentô me barrá lá coisa e tal, e eu falei com ele: não, eu trago se ocês tomá ele aí na minha mão aqui, cê num tem nada com isso. Agora depois que pô aí na sua vitrine aí o pobrema é seus. Agora se ocês falá que num compra eu paro de criá, né? "Ah não, pó trazê que nois... Nois dá um jeito". Entendeu? Mais então... Igual queijo, antigamente fazia queijo. Depois fiscal montô em cima lá que tinha pô selo no queijo.

E: Eu sô doido pra fazê um muinho direitim pra mim vendê um fubá de moinho d'água. Mais quero fazê de acordo que num entra rato nele, não tem pobrema de barata nem nada. Por isso que eu num fiz ainda, entendeu? Eu tenho vontade de fazê, mai agora eu já vi lá em Viçosa, multaro o cara lá que tava vendeno fubá dos nobre, que mexe cum fubá lá. Tem uns 5 ano que ele tá correno atrás do selo pra pô no fubá, agora ele conseguiu. Agora se eu vô fazê isso, eu tenho que fazê o memo que ele. Eu vô passá por essa burocracia de novo, cê entendeu? E precisava ser menos difícil pra gente podê animá uai, porque... Como é que cê faz?! (Entrevistado da Comunidade Duas Barras em Porto Firme)

Pelo exemplo acima fica claro como a desconsideração da singularidade camponesa

pelo Estado inclusive abre espaço para sujeitos oportunistas que atuam “traduzindo” a vida social entre os “mundos” moderno pontual e campesino.

Este desajuste e desconsideração também se evidenciam no que se refere a temas sensíveis, como o trabalho infantil, que, não obstante tenha mesmo uma necessidade de regulamentação70, a proibição em qualquer hipótese por vezes contraria a própria organização do trabalho rural, que é de base familiar:

E: Agora, eu... Essa lei, eu acho que essa lei prejudica. Prejudica... P: Qual lei que o senhor tá falando?

70 Não se advoga, neste trabalho, pelo uso do trabalho infantil. Apenas, a título de exemplo, expõe-se a crítica do

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E: A lei do trabalho.

E: Infantil. Quer dizer que se a criança não aprende desde pequeno, quando ele tornar-se jovem, ele não sabe fazer nada.

E: Mas, então, eu acho... A veiz até... Eu posso até ofender alguém, mas eu costumo

até dizer na comunidade “hoje, você não vê filho obedecendo pai e mãe”... E por

que? Se o pai manda trabalhar, eu vejo até falar isso na comunidade, o povo pode puxar oreia. Porque eu acho que essa lei tá prejudicando a própria família. (Entrevistado da Comunidade Varginha em Porto Firme)

Estes sujeitos percebem a proibição do trabalho infantil como um desarranjador da lógica e do lugar da racionalidade que os organiza, pois para eles a criança é responsável por reproduzir as condições de trabalho da família. Trata-se de uma lógica distinta da pontual, legal e burocrática, que pode ser questionada enquanto legítima, mas que não pode ser desconsiderada enquanto existente, sob pena de ser autoritária e efetivamente desestruturada pela própria racionalidade legal e burocrática.

No que se refere à legislação ambiental, objeto específico deste trabalho, pudemos perceber, a partir das falas dos depoentes, que ela também realiza diversas exigências que, por vezes, são distantes e impalpáveis aos sujeitos rurais periféricos, obrigando-lhes a viver na clandestinidade e relegando estes indivíduos a um lugar de inferioridade e ilegalidade. Assim, também a legislação ambiental – que é permeada tanto por uma espécie de racionalidade ambiental (a ser problematizada no próximo capítulo) quanto pela burocrática – parece desconsiderar os meios de vida destes sujeitos, ignorando, por sua vez, que o espaço rural é, também e principalmente, um lugar de constituição de vida social, e implementando exigências desconectadas da realidade dos sujeitos e com pouca possibilidade de eficácia social. Tal constatação pode ser confirmada pelos depoimentos que se seguem:

E: Igual uma coisa que eu acho errado demais também é sobre, nós que moramo na roça. A gente sempre tem o fogão de lenha. A gente num pode cortá um pau de lenha seco que tá aí morto. Que ês vê... Ôtro dia teve um senhor aqui em Maravilhas, que é pobre, tadim. Arrumô uma charretinha, foi no mato e cortô uma lenhinha e levô pra rua. Chegô lá ês multaro ele, nér? Lenha seca! Lenha seca! Tem que comprar? Que que é isso... Isso é duro né? O pau já tá seco... Mas diz que tem que deixá lá pra fazê esterco da terra. Uai... (Entrevistado da Comunidade Boa Vista 2)

E: Hoje em dia sobre a...O meio ambiente tá difícil. Procê lutá com ele. Porque se ocê chegá numa área dessa aqui, até ocê arrumá os papel pra prantá ocê morre de fome. Se ocê falá assim: não, eu quero andá na lei! Até que esses papel meu aqui saiu aqui... Ocê morre de fome né? Ocê tem que começá uns 3 ano atrás...

E: É, se ocê não tivé uma renda... Por fora, ocê num dá conta não. Por isso que eu falo, que o governo tamém nesse mei tempo aí ele é muito rigoroso. (Entrevistado da Comunidade Visa em Maravilhas)

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E: É otra coisa que eu falo pra você tamem. O governo tinha que dá um suporte melhó. Hoje tem cidadão aí hoje que ele tem 60% do mato nativo, e num pode cortá nada. Se os florestal chegá aí e achá ele cortando um cabo de vassora pode dá pobrema pra ele. Qué dizê, e já anté que vei uma lei aí de... de tá... (Entrevistado da Comunidade Braço Forte em Porto Firme)

E: E otra coisa, a parte do EF tá pegano demais. E pegano errado porque eles tinha que tá pegano é 20, 30 anos atrás, 100 anos atrás. Hoje ocê prantô cê inda tem como cortá, e eles num dexa. Ocê chega no IEF hoje eles fala com cê "Oh, precisa disso e disso e disso". Mas ocê pergunta assim "Ondé que eu pego? Num sei". Cê tá me entendeno? Situação difícil demai da conta. Qué dizê, a pessoa tá lá. Eu acho que ele tinha que falá assim "ó aqui, cê tem que... Hoje vai um senhor de idade lá, ele chega lá e eles pediro isso, isso, isso. Esse pessoal mai véi hoje num sabe de nada, num sabe nem perguntá. Aí daí a pouco volta o senhor de novo: "Ah, o senhor num trouxe o comprovante de residência", o senhor num trouxe isso e aquilo ôtro. Qué dizê, então o incentivo tá poço, num sei sabe? (Entrevistado da Comunidade Braço Forte em Porto Firme)

Ou seja, parece-nos possível afirmar que a nossa hipótese preliminar – de invisibilização dos sujeitos rurais periféricos pela moral pontual – deva ser alargada, a partir da percepção de que há outros estratos de racionalidade atuantes no meio rural que também invizibilizam este ethos, tal como a racionalidade ambiental, que, pelo material empírico coletado, se colocou também como um silenciador e invisibilizador desta moral camponesa.

A problematização mais aprofundada desta chamada racionalidade ambiental, bem como os descompassos entre a lei florestal – e suas diversas exigências e dificuldades de aplicação – e a realidade dos sujeitos rurais pesquisados será objeto do próximo capítulo. Trouxemos os trechos acima a título de exemplo, a fim de demonstrar como que as distintas racionalidades existentes no espaço rural – e expressas nas leis e políticas públicas – desconsideram, abafam e invisibilizam a singularidade própria do ethos camponês.

4) CONCLUSÃO

A partir da revisão bibliográfica e da análise empírica pudemos perceber a existência de uma singularidade própria do rural periférico, que temos aqui denominado de racionalidade ou ethos camponês. No entanto, foi evidenciado também o status periférico ocupado por esta singularidade, que acaba sendo obscurecida por outros estratos de racionalidade coexistentes no espaço rural.

Pelo material empírico coletado pudemos perceber que não é a moral pontual a única responsável por esta citada invizibilização da autenticidade campesina, já que mesmo os ideais ambientalistas, frutos da modernidade em crise e que se propõem como um novo paradigma moral, acabam por reproduzir a ideia de modelo ideal, a partir da tentativa de

103 restituição de um paraíso perdido, que figura como uma espécie de referência e objetivo a ser alcançado. Assim, a princípio, somos levados a crer que a própria racionalidade ambiental, ainda que se coloque como contraponto, parece não resolver a angústia (e o desperdício) que a racionalidade instrumental moderna erige como modelo identitário para a vida coletiva71. E isto ocorre porque, como Boaventura (2002) denunciou, há também aqui a instituição de um modelo ideal72 que, desconsiderando a pluralidade social – na qual se inclui a campesinidade

– institui uma univocidade de padrão e ação.

Somos levados a acreditar que, em que pese a diferença dos valores que as guiam, tanto a racionalidade capitalista instrumental quanto a ambiental se traduzem, na prática, por um molde de relação muito comum. Ou seja, apesar dos teores e conteúdos serem distintos, a forma de interação – com a estipulação de um modelo ideal inexistente – é semelhante: trata- se de dois lados de um mesmo molde de relação.

E estes estratos de racionalidade centrados na univocidade de seus modelos ideais, acabam obscurecendo a pluralidade social, a partir da desconsideração e silenciamento daqueles sujeitos e racionalidades que se distanciem do seu modelo. No que diz respeito ao espaço rural, objeto de tantas disputas e interesses73, em que tantos olhares e valores repousam, buscando, cada um ao seu modo, hegemonia, parece que a singularidade camponesa acaba sendo abafada, a partir da tomada (e da disputa) do espaço rural como um espaço de produção e um local de preservação, mas não como um espaço de constituição de vida, com dinâmica e ética próprias.

Assim, o apontamento da necessidade de superação da univocidade da razão – grande fio condutor deste trabalho – se coloca ainda mais proeminente, haja vista a desconsideração e o desperdício social que ocasiona. Por esta razão as conclusões deste trabalho parecem apontar para a necessidade da consideração de uma pluralidade – social e jurídica – como reflexo e consequência de uma modernidade que institui reflexividade, contradições e hibridismo nos sujeitos que a vivenciam.

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Problematizaremos esta hipótese no próximo capítulo, em que acabaremos por perceber que não parece ser a racionalidade ambiental a efetiva silenciadora da pluralidade existente no rural, mas sim um movimento de deslocamento deste saber ambiental ocorrido na contemporaneidade.

72 Inexistente, porque os próprios ambientalistas vivem sob as contradições da modernidade. 73

A própria aprovação do Novo Código Florestal (Lei 12.651/12) cujo processo legiferante e de debate público

se polarizarou em torno de dois grupos específicos, qual sejam, “ruralistas” e “ambientalistas”, ambos tendo

interesses e objetivos muito próprios em torno da referida lei, foi capaz de demonstrar que o espaço rural é um espaço de disputa (econômica e ideológica).

104 No próximo capítulo aprofundaremos no que os autores denominam racionalidade,

ethos ou saber ambiental, visando problematizar o conceito e questionar, em que medida, ele

se coloca efetivamente como silenciador desta campesinidade. Em seguida, tomaremos a legislação como o lugar por excelência da disputa e do embate entre estes diversos estratos de racionalidade e buscaremos, a partir do material empírico, analisar os desajustes existentes entre as disposições da legislação florestal brasileira e a realidade vivenciada pelos sujeitos rurais periféricos. Desta forma, alcançaremos o ponto alto deste trabalho, que se refere à problematização da legislação florestal brasileira a partir da realidade e dos meios de vida dos camponeses pesquisados, e não a partir da lei e do dever-ser que a mesma institui.

Importante ressaltar que o trajeto até aqui percorrido, de evidenciação da singularidade dos sujeitos pesquisados e do lugar social por eles ocupado foi fundamental para que, a partir dele, possamos problematizar a lei. Entendemos que somente assim teríamos capacidade de analisar e criticar com maior acurácia o impacto da legislação florestal no cotidiano dos sujeitos pesquisados, o que é imprescindível para os nossos objetivos, já que entendemos como fundamental a consideração dos meios de vida dos sujeitos nas imposições e atuações do Estado e da lei, caso se deseje que as mesmas sejam dotadas de eficácia social.

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