53 ġekil 2.41 Vurgu (www.aygıtyöneticisi com 2008).
2.4. ARAġTIRMA KONUSU ĠLE ĠLGĠLĠ YAPILAN ÖNCEKĠ ÇALIġMALAR
Woortmann (1990) critica uma analise do campesinato baseada apenas numa visão economicista de construção do campo e propõe analisar o campesinato a partir de uma ética camponesa, constitutiva de uma ordem moral42. Para tanto, esclarece o autor que isto implica na observação da subjetividade do ser social, entendendo os significados das ações dos indivíduos forjadas por uma moral constituinte da ética compartilhada pelo campesinato. Disto não decorre uma exclusão do fator econômico, mas, antes, a consideração de que homo
economicus e o homo moralis constituem um mesmo sujeito, que não pode ser pensado
apenas por uma perspectiva teórica. A partir desta concepção, o esforço então se transmuda da tentativa de criação de um tipo ideal camponês para a tentativa de evidenciação dos caracteres que constituem esta qualidade campesina, o que se dá por meio da percepção dos valores e da moralidade que os motiva, como faz Taylor (2011) ao descortinar a identidade moderna.
Neste sentido, “subverte-se, no caso, a ordem econômica para reinstalar a ordem moral” (WOORTMANN, 1990, p. 15). O autor adverte que por esta interpretação passa a
haver uma distinção da vivência da modernidade no plano econômico para a sua vivência no plano dos valores. Assim, acentua o autor que a produção para o mercado, por exemplo, não significa, necessariamente, uma modernidade no plano dos valores e nem uma baixa campesinidade. Desta forma, podemos entender que há a existência, mesmo na modernidade (e se relacionando com as instituições e razões modernas), de outras fontes morais que coexistem, formando indivíduos híbridos, ambíguos e em constante transformação.
Assim, para analisar esta chamada campesinidade dos sujeitos (o ethos camponês) o autor parte da análise do discurso dos mesmos, e identifica que esta moral camponesa é
42 Para tanto, interessa ao autor, mais do que características objetivas, as subjetividades e os valores dos sujeitos.
Em suas palavras: “o que se deseja é subjetivar o objeto de nosso entendimento, ao invés de objetivar o sujeito
73 formada por um conjunto de valores centrais que se expressam principalmente através dos elementos terra, família e trabalho43: “(...) mostrar que terra, trabalho e família, etc., constituem uma constelação de categorias interdependentes que remetem a um ordenamento
moral do mundo” (WOORTMANN, 1990, p. 57). Ou seja, o autor tão somente elenca
categorias que, segundo ele, articulam-se entre si e referem-se a valores centrais, capazes de representar a ética camponesa. Tratam-se de categorias culturais “nucleantes de significados”,
“concreções particulares de uma ética geral (...) definidoras de uma ordem moral” (Ibidem, p.
56).
Neste sentido, a terra é percebida enquanto um patrimônio de onde se retira o fruto do trabalho, que garante o sustento da família e das próximas gerações. É o espaço social da família. Não é mero bem ou mercadoria, mas, antes, é parte da ordem moral que consubstancia a família, pois ter a terra é mais do que morar em um espaço e construir uma infraestrutura do ponto de vista material. Ter a terra é um valor (um bem moral) que dá possibilidade para a própria existência da família, do trabalho e da liberdade. O trabalho por sua vez, se constitui na integração da força familiar, é aquilo que transforma a terra em patrimônio, a partir da qualificação da propriedade44, e é o elemento que garante a alimentação de todos os integrantes da família, que é entendida, além de uma unidade de produção, também como núcleo que dá base para uma organicidade social camponesa, elemento estruturante e socializador de seus integrantes. E todas estas categorias relacionam- se entre si:
o significado da terra é o significado do trabalho e o trabalho é o significado da família, como o é, igualmente, a terra enquanto patrimônio. Mais que objeto de trabalho, a terra é o espaço da família (WOORTMANN, 1990, p. 43)
Segundo Woortmann (1990) os valores morais que se expressam nos elementos por ele elencados (terra, família e trabalho) e que conduzem a ação e orientam a manutenção da vida campesina são compartilhados pelos camponeses em maior ou menor grau dependendo do tempo e do espaço, constituindo assim um ethos camponês: “Não encontramos, então,
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A estipulação de valores centrais constitutivos da campesinidade pode parecer, ao leitor, a reprodução da tentativa de construção de um modelo ideal. No entanto, Woortmann (1990) nos adverte que ele tem consciência de que está realizando um recorte a partir de pessoas concretas que, por serem históricas, são mais ambíguas e
complexas do que os modelos produzidos pelos recortes. Por isso é que ele se propõe a fazer um recorte “não
para dizer que o sitiante é camponês, mas para dizer o que é a campesinidade, a partir de sua fala” (Ibidem, p. 20).
44 “Portanto, é-se dono pelo trabalho, independentemente de haver ou não propriedade jurídica da terra”
74 camponeses puros, mas uma campesinidade em graus distintos de articulação ambígua com a modernidade45” (Ibidem, p. 14).
Com este raciocínio, o autor localiza a caracterização do campesinato (a campesinidade) no plano dos valores, na ordem moral, e não em meros caracteres externos, como fizeram os demais autores. Assim, trata-se de uma lógica que orienta este estilo de vida, e que se mostra engendrada numa série de códigos sociais que implicam na elaboração de uma trama social baseada em interações com vínculos solidários, de confiança, de tradição. E tal cenário implica no desenvolvimento de hábitos e formas diferenciadas de trabalho se comparadas ao modo de produção capitalista. Ou seja, forma-se um habitus46 próprio (BOURDIEU, 2007), regido por valores morais constitutivos de uma racionalidade, lógica ou
ethos camponês, que se distancia daquele identificado como capitalista e pontual, regido pela
ordem econômica e pela racionalidade instrumental. Nas palavras do autor, trata-se da “(...) campesinidade como ordem moral, como um modo de ser, não local, mas específico, distinto
quando contrastado à ordem da modernidade” (WOORTMANN, 1990, p. 58).
Importante salientar que em que pese os discursos dos sujeitos se organizarem a partir das categorias empíricas evidenciadas pelo autor (terra, família e trabalho), são as categorias valorativas/antropológicas (honra, reciprocidade, hierarquia e liberdade) que permitem a extrapolação da etnografia em direção a um geral teórico que se refira a um modo de ser humano mais geral – no caso, a um modo camponês de se viver e de organizar a vida (WOORTMANN, 1990). Desta forma, a campesinidade, enquanto operador de leitura de uma determinada ordem moral instituída por um grupo, se manifesta por uma espécie de cruzamento entre as categorias empíricas e as categorias valorativas supracitadas, o que resulta no modo de ser e viver camponês. Dito por outras palavras, este cruzamento entre categorias empíricas e valorativas, ao construir uma referência analítica às situações concretas dos sujeitos rurais, permite a construção do que seja campesinidade.
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Acerca da inserção do campesinato na modernidade, cumpre salientar que autores clássicos como Mendras (1978) e Redfield (1964) identificam o surgimento do campesinato com o próprio surgimento da modernidade. Assim, não há que se falar que os camponeses sejam pré-modernos, como muito se sugere, pois seriam, na verdade, segundo estes autores, fruto da modernidade. Neste sentido, Mendras (1978, p. 13) identifica a transição das sociedades feudais para as sociedades burguesas como o nascedouro de uma sociedade camponesa, ao passo que Redfield (1964) localiza o nascimento das sociedades camponesas ao surgimento e desenvolvimento das cidades.
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Para Bourdieu (2007), habitus relaciona-se à possibilidade de uma determinada estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições práticas. Assim, superando a antinomia indivíduo/sociedade característica da sociologia estruturalista, o autor vai buscar demonstrar que as práticas sociais são traduzidas e incorporadas pelos sujeitos, pré-moldando suas preferências e experiências ulteriores.
75 Quanto a isto, torna-se gesto necessário à compreensão da campesinidade, um tratamento mais detalhado sobre o que Woortmann (1990) considera enquanto categorias valorativas (que indicam um modo de se viver junto). Para o autor, é a ideia de reciprocidade que distingue a racionalidade camponesa da racionalidade moderna instrumental:
É, todavia, a noção de reciprocidade (...) que permite entender a campesinidade em sua dimensão mais geral. (...) O que ressaltei neste trabalho foi o que se poderia chamar de espírito de reciprocidade, em oposição ao que a modernidade individualizante construiu como o espírito da mercadoria, ou o fetiche da mercadoria (Ibidem, p. 57).
O espírito da reciprocidade, para Woortmann (1990, p. 58), “não implica, necessariamente, em coisas trocadas. Ele se afirma, também, enquanto um princípio moral,
pela negação do espírito do lucro”. Assim, quanto maior o valor de uso, maior o valor de troca
que a coisa possui. E “a reciprocidade, como conceito antropológico, articula-se com outros conceitos – a honra e a hierarquia – constituindo o campo teórico da ordem moral” (Ibidem, p. 59). Já o valor liberdade é atribuído ao fato de a campesinidade insinuar uma não sujeição ao outro, ao ritmo ou às condições de trabalho de outrem. Nesse aspecto, a posse de um pedaço de terra e a autonomia do trabalho familiar retira o camponês da condição de assalariado, da sujeição, da humilhação, do cativeiro.
Deste modo, estas 4 categorias irão organizar e dar sentido geral às categorias empíricas (terra, família e trabalho), transformando-as, efetivamente, num ethos campesino que move estes estratos sociais. Neste sentido, segundo o autor, apenas quando as categorias empíricas nucleantes transformam-se em mercadoria (o que comumente ocorre com a terra e com o trabalho na moral moderna), deslocando-se do grupo para o indivíduo, é que elas deixam de pertencer à ordem da moralidade e passam a pertencer à ordem da racionalidade.
No entanto, nesta ética geral campesina, estas categorias referem-se à moralidade e se interpenetram e se auto-relacionam, não podendo ser concebidas separadamente. Num esforço de síntese, o autor assim evidencia:
Família, trabalho e terra, nessa ordem social, constituem um ordenamento moral do mundo onde a terra, mais do que coisa, é patrimônio, isto é, pessoa moral. De um lado, a relação do homem com a terra é uma relação de troca recíproca, onde o trabalho fecunda a terra (Garcia Jr., 1983a) que se torna morada da vida. A relação com a terra é uma relação moral com a natureza. De outro lado, a relação com o patrimônio é uma relação de honra e de hierarquia. Sendo a terra aquilo que passa do pai para o filho (sentido original do termo patrimônio), e não pertencendo nem ao pai nem ao filho mas ao todo expresso pela família, é o patrimônio que materializa a
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honra da família, mais notadamente da Casa, que constitui ponto de honra para o pai (WOORTMANN, 1990, p. 62).
Deste modo, é possível perceber que a noção de campesinidade enquanto ordem moral inaugurada por Woortmann (1990) possui íntima relação com a noção de fonte moral explicitada por Charles Taylor (2011). Fonte ou ordem moral referem-se, ambas, à ética e aos valores que guiarão a ação dos sujeitos no mundo. Ao passo que Taylor identificou que na modernidade se erigiu uma fonte moral baseada na ideia do sujeito pontual individualista, formal e instrumental, Woortmann evidenciou que, mesmo na modernidade, engendra-se uma ordem moral (a campesinidade) que se distancia da noção de bem pontual e instrumental, na medida em que se baseia principalmente na articulação dos elementos terra, trabalho, família, honra, reciprocidade, hierarquia e liberdade.
A modernidade trouxe consigo uma nova cosmologia, “atomizada no plano da
natureza e individualizada no plano da sociedade, em tudo oposta ao mundo relacional anterior e no qual se inscreve o modo de ver que caracteriza a campesinidade” (WOORTMANN, 1990, p. 64). A ordem camponesa passa então a se chocar com esta nova ordem, que sobrepõe o direito das coisas aos direitos das pessoas, pois se distancia do ideal de bem presidido pela modernidade, passando a ocupar uma posição periférica (SOUZA, 2012) em relação a este modelo moderno, que invadiu e passou a controlar todos os âmbitos da vida cotidiana47.
A ocupação desta posição periférica pelos sujeitos regidos por esta ordem moral campesina – porque distante da noção de sujeito pontual – faz com que esta singularidade camponesa seja obscurecida e tratada como pré-moderna e necessária de adaptação, desenvolvimento e modernização, o que se dá sempre a partir do modelo pontual, voz hegemônica na contemporaneidade48. Assim, este capítulo se mostra relevante no sentido de, seguindo os passos dos autores abordados, demonstrar a existência de uma singularidade própria do rural periférico que, no entanto, é desconsiderada pela univocidade da razão indolente.
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Importante salientar que não se advoga, neste trabalho, por uma ou outra ordem moral específica. O que se pretende é denunciar a univocidade hegemonizante da racionalidade moderna que invisibiliza e desconsidera outras fontes morais, tal como o faz com a camponesa.
48 Aqui cumpre ressaltar que o choque entre as duas éticas – pontual e campesina – é grande e tem
consequências, sobretudo em decorrência da noção de dignidade que posiciona os sujeitos no espaço moral (conferindo-lhes ou tolhindo-lhes reconhecimento). Isto faz com que não seja possível se falar em igualdade de oportunidades, uma vez que para a fonte moral moderna, que é hegemônica, a moral campesina se coloca como irreconciliável, já que o sujeito pontual é indolente.
77 Woortmann (1990) esclarece que mesmo com as grandes transformações ocasionadas pela modernidade a singularidade camponesa permanece. No entanto, esta permanência não se dá à margem da história, que instaura ambiguidades no agir e no pensar das pessoas
concretas. “Disso resulta que a campesinidade não é uma prisão cultural. Enquanto pessoa
concreta, o sitiante não é radicalmente distinto de pessoas ‘modernas’” (Ibidem, p. 69). Assim, imersos na modernidade, há não apenas a coexistência de diversas racionalidades no espaço rural periférico como os próprios sujeitos – complexos e ambíguos – as articulam ao seu modo para organizar e estruturar suas vidas.
Desta forma, o avanço no sentido de um estudo empírico se mostra extremamente relevante e complementar aos esforços empreendidos no capítulo 1. Isto porque é fundamental, para os nossos desígnios, verificar se é possível evidenciar, nos sujeitos pesquisados, estes traços de campesinidade abordados pelos autores. Ainda, é necessário perceber como, nestes contextos rurais periféricos, onde coexistem outros estratos de racionalidade, os sujeitos irão operar esta singularidade, e de quais estratégias e recursos irão se utilizar para construir suas vidas. Apenas cientes deste contexto e desta realidade em que a norma florestal será aplicada é que poderemos questionar e problematizar sua efetividade.