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Vimos que Woortmann (1990) identifica, a partir das categorias empíricas e antropológicas por ele elencadas, determinadas ações significativas que se referem a valores centrais, representativos de uma singularidade camponesa. Assim, analisando os discursos dos sujeitos, o autor vai perceber que a forma com que os sujeitos lidam com essas categorias empíricas conformam a expressão de seu ethos – ou, por outras palavras, tornam-se representativos de uma ordem moral própria e distinta da ordem moderna capitalista.

Seguindo os passos do autor, temos que, na pesquisa empírica, foi possível identificar a singularidade atribuída a este ethos camponês a partir de ações significativas que podemos aqui organizar em quatro subcategorias inter-relacionadas e capazes de tensionar as falas com a discussão teórica ora desenvolvida: a) caráter familiar do trabalho; b) terra de trabalho como lugar de morada e de realização da família; c) autonomia, liberdade e o medo do cativeiro; d) reciprocidade e sociabilidade.

a) Caráter familiar do trabalho

Em sua obra, Woortmann (1990) evidenciou que um valor fundamental na organização e no modo de pensar camponês diz respeito à centralidade da família enquanto unidade de produção e enquanto organismo estruturante e socializador dos indivíduos. Há, a este respeito, uma dupla interferência: ao mesmo tempo em que a família é quem realiza, primordialmente, o trabalho, sendo responsável pela produção econômica, o trabalho, por sua vez, se constitui como uma integração da força familiar.

86 Assim, quem controla os meios de produção, quem é responsável por fazer a terra – enquanto bem material – se transformar em patrimônio e fonte de sustento para os indivíduos é o próprio núcleo familiar. A família, neste sentido, enquanto força de trabalho, propicia uma melhor qualidade de vida, na medida em que permite não apenas o sustento dos indivíduos, mas também toda a conformação de uma economia com o pagamento de funcionários e a reversão destes valores em prol da família.

Por outro lado, a família, principalmente a partir da união e da integração que se dá pelo trabalho, se coloca também como um lócus de sociabilidade e de reciprocidade nestes espaços, em que os ideais de coletivismo sempre se colocam à frente do individualismo. Assim, é primeiramente a partir da família – que se orienta pelo objetivo de transformação da terra em patrimônio a partir do trabalho – que os indivíduos adquirem, fortalecem e reproduzem o ethos próprio do campesinato, tais como, por exemplo, a centralidade da terra e

da família ao invés do indivíduo, e a importância e relevância do “pai de família”, que a partir

da honra e da hierarquia busca garantir a manutenção e a existência do grupo doméstico. Das entrevistas realizadas, pudemos perceber que todos (100%) os domicílios dos aqui chamados sujeitos rurais periféricos eram conduzidos pelo próprio grupo familiar. Ou seja, era o próprio grupo familiar que fazia da propriedade um patrimônio e uma fonte de sobrevivência. A terra e o trabalho rural, manejados pela família, se transformam na fonte de renda e de sociabilidade de todos os indivíduos ali residentes. E assim, mesmo aqueles sujeitos entrevistados que não eram proprietários de terra, mas tão somente arrendatários – e em que a produção se destina mais à venda do que à subsistência – demonstraram que a condução do trabalho era realizada de forma familiar.

Aqui cumpre salientar que, em que pese o caráter predominantemente familiar do trabalho, nada impede (e é, na verdade, muito comum) o uso de trabalhadores temporários e assalariados pela família. Quanto a isto, Woortmann (1990) já nos adverte que, nestes casos, o uso de trabalhadores temporários não se opõe ao grupo familiar, mas, antes, viabilizam a sua existência, sendo uma condição mesma de realização da família. Isto fica evidente no depoimento de um dos sujeitos entrevistados na pesquisa:

E: Então nois na roça, boba, num tá fácil pra vivê em roça não. A gente tá viveno porque a gente trabalha muito né? A gente depende da gente. Eu num conto com ninguém de fora não, cê entendeu? A gente precisa, igual tá aí os trabalhadô... Mas se eles num pudé vim, a gente tem que se virá. (Entrevistado da Comunidade Duas Barras em Porto Firme)

87 Assim, o uso de trabalhadores temporários assalariados nos domicílios pesquisados e mesmo o exercício profissional de alguns membros da família para além da propriedade rural em nada afasta a centralidade do caráter familiar do trabalho – e da terra – entre os campesinos. Isto porque a terra – conduzida e trabalhada pela família – se constitui como

lócus de sociabilidade e principal fonte de manutenção, pois é de onde se extrai o alimento e a

vida. Deste modo, foi possível verificar, por meio da pesquisa, que o uso de trabalhadores temporários e o trabalho para além da propriedade, na maioria das vezes, se constituem como estratégias de meios de vida, a fim de possibilitar a própria manutenção da terra e da família.

O caráter familiar da terra e do trabalho entre os camponeses parece se relacionar com a própria origem das propriedades. Muitas das propriedades dos depoentes eram adquiridas por herança ou doação entre a família. Mas, ainda assim, nos casos em que a propriedade dos depoentes não foi adquirida por herança, ficam claros os esforços da família em deixar de

trabalhar e morar no que é “dos outros” para adquirir um lugar em que seja possível a

constituição e manutenção de sua própria família:

E: Passamo. Quando a gente mudô pra aqui a gente teve muito aperto na vida. A gente morô muito, toda vida que a gente casô, nós moramo no que era dos ôtro. Pra trabalhá pros ôtro. Depois que a gente morava em Maravias, a gente tinha uma casinha em Maravias, que o prefeito deu nós o... o lote, e a gente construiu a casinha. Então, a gente tinha ela lá e morava, trabaiava sempre na casa dos ôtro. Aí... Nós resolvemo, achamo esse pedacim aqui, o moço que morava aqui quis trocá com a gente a casinha da rua com o sítio aqui. Aí a gente trocô. Nós tivemo que trabalhá na fazenda, trocô, e foi trabaiano e construino aqui. A gente custô... (Entrevistado da Comunidade Boa Vista 2 em Maravilhas)

No que se refere à centralidade da família como conformadora de uma sociabilidade própria deste grupo social, podemos perceber que o próprio trabalho e a organização familiar é responsável por preservar a hierarquia que rege as relações entre estes indivíduos. Assim, o

“pai de família” é quem define os rumos do trabalho e da propriedade familiar. É ele quem

tem autonomia e poder de decisão sobre os rumos da propriedade e, apesar dos que residem sob seu teto constituírem um grupo familiar, é como se trabalhassem “para” o pai.

Por outro lado, o pai de família tem responsabilidade (de manutenção, acolhimento, etc.) para com os membros do grupo familiar. Assim, foi muito comum57, dentre os entrevistados, a existência de filhos já mais velhos que ainda ou residem na propriedade com

88 os pais58, trabalhando em conjunto, ou, apesar de morarem em propriedade distinta, trabalham para o pai (como meeiro). As filhas solteiras também se mantêm sob a tutela do pai e moram com o mesmo caso não se casem. Elas cumprem com as funções domésticas e o pai de família as mantém, paga-lhes o sindicato e cuida da manutenção material de suas vidas.

Esta hierarquia do pai de família parece se expressar também na relação com as esposas: quando da realização das entrevistas foi impossível não reparar o lugar de submissão ocupado pelas mulheres. Assim, das 19 entrevistas realizadas, as esposas participaram ativamente, respondendo as questões e sendo proativas apenas em 7 entrevistas59. E, ainda assim, nestas entrevistas foi perceptível que a participação das mulheres se deu, em sua maioria, nas respostas às questões de ordem religiosa ou de cunho particular, deixando as perguntas sobre a propriedade e o trabalho desenvolvido para serem respondidas pelos maridos60.

E esta hierarquia, que parece ser preservada pelo caráter familiar do trabalho, se relaciona em muito com a própria honra, tão central e presente enquanto valor nesta ordem moral campesina. Assim, o pai de família tem deveres com relação ao grupo familiar principalmente por uma questão de honra, em fazer cumprir seu papel social. Da mesma forma, a imposição da hierarquia entre os membros se dá a partir de uma elevação da honra do pai de família. Deste modo, mesmo que o pai esteja já com a idade avançada, ele não deixa de conduzir a propriedade familiar, e ele não é visto como um velho, mas sim como um sábio. Neste momento cumpre realizar uma comparação do que estamos aqui chamando de caráter familiar do trabalho com o que pudemos verificar nas entrevistas realizadas junto aos sujeitos rurais não periféricos. Em que pese entre estes sujeitos também ser comum adquirir a propriedade por meio de herança, parece haver uma diferença fundante no significado da terra, da família e do trabalho ali desenvolvido. A propriedade, entre estes sujeitos, parece ser

58 A própria forma de se referir aos filhos – mesmo já velhos – demonstra a hierarquia existente nas relações

familiares entre os rurais periféricos: quase sempre os pais se referem aos filhos como “o menino”.

59 As entrevistas em que houve alguma participação das mulheres foram: Barbosa, Braço Forte e Varginha em

Porto Firme e Boa Vista 1, Boa Vista 2, Extrema e Visa em Maravilhas. Nas demais entrevistas ou as esposas não estiveram presentes participando da conversa (mesmo tendo sido convidadas) ou não responderam a nenhuma das perguntas.

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Importante salientar que houve exceções. Houve duas entrevistas (Visa e Boa Vista 2 em Maravilhas) em que as esposas surpreenderam com sua participação, demonstrando que também tinham poder de decisão sobre a propriedade e que se colocavam numa posição de igualdade com seus maridos. Isso ficou claro até mesmo nas falas, em que estas esposas não hesitaram em contrariar ou contradizer os maridos mesmo na presença da pesquisadora, uma pessoa de fora da família. Ou seja, estão imersas na ordem moral camponesa, mas de alguma forma questionam (mesmo que irrefletidamente) o seu próprio lugar nela. Relevante evidenciar que a entrevistada da comunidade Visa tinha origem na cidade (nascera e fora criada na cidade) e a entrevistada da comunidade Boa Vista já havia morado na cidade por algum tempo.

89 tratada como uma empresa, uma fonte de renda e lucro, em que o papel do dono é tão somente administrar. Assim, o trabalho é desenvolvido por funcionários e os membros do grupo familiar podem se dedicar a outras atividades, se beneficiando do lucro e da renda gerada pela propriedade. A terra e o trabalho da família, nestes casos, não estão diretamente relacionados com a subsistência da família e com a sua reprodução enquanto grupo, como pudemos perceber que ocorre entre os campesinos. A terra, nestes casos, parece se colocar como um bem material, e não como um patrimônio ou como um lugar de morada, como o é para os camponeses.

b) Terra de trabalho como lugar de morada e de realização da família

Outra expressão desta ética camponesa e que está diretamente relacionada com o que acabamos de evidenciar diz respeito à expressão da terra enquanto lugar de morada e de realização da família. Ou seja, a terra, para os camponeses, para além de um bem material, é um espaço de vida que possibilita a morada e a reprodução da família. A terra não é tratada como uma simples mercadoria, pois é o que possibilita ao grupo familiar a retirada de seu sustento e, assim, permite à família a saída do cativeiro (que é a sujeição a outrem).

Daí o esforço das famílias em adquirirem sua própria terra, seu próprio lugar de morada, em que não precisem se sujeitar aos outros e em que sua família possa se reproduzir. Neste sentido, o exemplo que demos no tópico anterior (da família que trocou a casa que tinham na cidade por um sítio na zona rural, mesmo que isto tenha implicado em alguns anos de crise e de aperto financeiro) é bastante elucidativo, pois demonstra a importância da terra como bem imaterial para estes sujeitos.

Uma evidenciação da terra como lugar de morada da família, mais do que como um lugar de lucro e de renda, é o fato de boa parte dos sujeitos rurais periféricos entrevistados produzir para a própria subsistência, vendendo somente o excedente da produção. Assim, a terra não é uma mercadoria que os indivíduos manipulam para obter grandes lucros. É, na verdade, fonte de sustento e lugar de reprodução social do grupo familiar:

E: Não, não. Essas coisa não. É mais assim mesmo, pra mantê assim. Tem uma criaçãozinha mais num... Vendê, falá que tem boi assim pra vendê pra corte, essas coisa não.

E: É... Aí a gente tira o da depesa, ôtro a gente vende, né? Porque a gente compra esse milho de mala e ele caruncha muito. Que ele produz muito, mas caruncha muito tamém. Então a gente já... Na coeita mesmo já vende, é. Já tira o da gente guardá e o resto a gente já vende. (Entrevistada da Comunidade Barbosa de Porto Firme)

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E: Num sobra! Já a gente só mesmo assim, fô fazê a conta de tudo, o adrubo, de tudo o que gasta, a gente planta porque mora na roça, entendeu? Porque eu morá na roça e í lá mercado só comprano, comprano coisa que tá aqui. Eu posso tê, tê o poco as veiz até só pa minha despesa mai tê. [...] O dinhero que a gente gasta com isso tudo dá pra comprá o feijão pra despesa, mas eu num quero assim. Eu quero vê aqui e plantá, né? Que moro na roça, então é assim. (Entrevistada da Comunidade Barbosa de Porto Firme)

E: A gente é acostumado vivê com poco né? E a gente tamem planta mais é pra despesa memo né? A gente colhe um poquim a mais aí mas é só pra... A gente trabalha, hoje, quase que a gente tá tocano serviço hoje pra dá serviço pros ôto. (Entrevistado da Comunidade Braço Forte de Porto Firme)

E: Num faz nada naum, como diz o ôtro, num faizi... A gente faz pa cumê, e vivê daí. Mas negóço de pensá em dinhero, pensá furtuna, riqueza, esses negó num... Roça nunca deu não. (Entrevistado da Comunidade Itaçu em Porto Firme)

E: É... Aqui eu num compro lenha, num compro gás, quero dizê. Aqui, o doce se eu quisê eu tenho ele em casa, eu faço igual cê tá veno ali. É muita coisa que a roça ajuda a gente. É por isso que eu falo, a roça, além de sê gostoso a natureza, morá perto da natureza, e ocê memo fazê pro cê comê, uma verdura, cê come ela sem agrotóque, esse negó de remédio, um tumate... (Entrevistado da Comunidade Itaçu em Porto Firme)

Outra característica relacionada à terra como lugar de reprodução da família é a ideia

da transmissão indivisa da terra, prática tão corrente “em grupos sociais onde se privilegia a perpetuação do patrimônio e da família e não a reprodução social do indivíduo”

(WOORTMANN, 1990, p. 51-52). E isto ocorre porque se for realizar a divisão da terra entre os herdeiros, por exemplo, ela deixa de garantir a subsistência de todos os indivíduos da família:

E: Não, a terra num dá, igual por exemplo aqui. Se meus fio vim pra aqui, pra fazê o que? Num tem cumo ué. Num dá renda prá vivê ôtras famia não. Aí é apertado. P: Aí os filhos tem que sair?

E: Tem que sair por causa de serviço. Vai estudar e só que num vorta porque ranja serviço e fica, igual conteceu com os meu (Entrevistada da Comunidade de Extrema em Porto Firme).

Assim, passa a haver um impasse no próprio grupo familiar, na medida em que a terra

– geralmente de extensão não muito grande – não é capaz de ser o local de trabalho de todas

as famílias que se formarão, obrigando alguns filhos e suas famílias a buscarem alternativas.

c) Autonomia, liberdade e o medo do cativeiro

Outras questões centrais para a ética campesina dizem respeito ao controle do tempo e do processo de trabalho pelo pai de família, o que, sendo proporcionado principalmente pelo acesso à terra de família, se relaciona não somente com a hierarquia, mas também com a

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honra que os move. Segundo Woortmann (1990, p. 50) “trata-se, portanto, da liberdade da

hierarquia no contexto de uma ordem moral. É também a liberdade de realizar o trabalho para nós, em oposição ao não trabalho para o outro”. Assim, ter autonomia e liberdade é não ter que se sujeitar ao outro, ao ritmo ou às condições de trabalho de outrem. Deste modo, mesmo que a terra permita ao camponês apenas o bastante para a subsistência, ainda assim estes parecem preferir isto a ter que se sujeitar ao cativeiro, a exemplo dos depoentes que trocaram seu emprego e morada na propriedade de um fazendeiro para adquirirem e trabalharem em seu próprio sítio, mesmo que isto lhes fizesse, nos primeiros anos, passar por diversas dificuldades financeiras.

O cativeiro, para além da subjugação no âmbito do trabalho, pode ser identificado como tudo aquilo que tolhe a honra e a liberdade do pai de família. Woortmann (1990) demonstra que, como a ética camponesa é tradicionalista, coletivista e não baseada no lucro (apesar de não ser contrária a ele), as experiências numa direção racional, moderna e econômica, que trazem consigo a ambição, são por vezes encaradas pelos camponeses como cativeiro, gerando-lhes repulsa61.

Sobre isso, duas questões, em especial, chamaram a atenção nos dados empíricos coletados. Inicialmente, o medo evidente na fala de diversos entrevistados em se vincular a um empréstimo do banco ou mesmo do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Isto parece trazer, para eles, o medo do cativeiro, que neste caso é identificado com a vinculação ao capital financeiro, que pode tolher a honra e a liberdade do pai de família:

P: Vocês acessam alguma política de crédito rural?

E: Então, ocê tem que prevê. Eu tenho muito medo, inda falei com ele aqui ontem.

Nois tava com assunto da ordenhadera e coisa e tal. Eu falei com ele: “eu tenho

muito medo de metê o pé pela mão, porque a gente tem coisa pra pagá, né? Num pó

ficá comprano tudo a Deus dará não.” Então eu sô privinido. (Entrevistado da

Comunidade Duas Barras em Porto Firme)

E: Com certeza ele [o governo] tinha que ajudá a gente mais. Ajudá mais na... No adubo, tipo no adubo, numa semente... [...] Porque o guverno, que que acontece? Ele põe... Ele põe o pessoal no geral e tira a escada fora. Ele vai e levanta o preço lá

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Aqui cumpre fazer uma observação acerca da dificuldade de aceitação de certos aspectos da moral campesina pela racionalidade pontual. De algum modo, a ética do desempenho é contrária à ideia da honra e da hierarquia tão fundante no ethos camponês. Assim, os sujeitos pontuais não conseguem compreender porque os camponeses por vezes dizem não a oportunidades que aparentemente lhes seriam mais vantajosas e interessantes, mas que, para os camponeses implicaria em tolhimento de liberdade. Daí a ideia do sujeito pontual de que se os

recursos estão “disponíveis” e o espaço rural não se moderniza é por culpa dos sujeitos, que são atrasados. Aqui

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duma coisa lá. Aí libera um empréstimo. Um empréstimo pa pessoa fazê aquilo ali. É igual tipo eucalipto, ele liberô muito empréstimo pra muito plantio de eucalipto. Aí na hora que o eucalipto chega na hora de cortá ele põe o preço dele lá em baixo. É, uai. Tá todo mundo preso com ele. Deve o empréstimo, tem que cortá do preço que tivé pra pagá (Entrevistado da Comunidade Posses em Porto Firme)

P: Vocês acessam alguma política de crédito rural?

E: Olha, eu já peguei uma época... Na época depois que nós casamo... [...] Teve uma época que foi muito ruim, então a maioria do povo perdeu tudo. Os governante, não sei se foi na época de... Sarney. Ele hoje é... né? Mas então, quase todo mundo perdeu, as coisa, porque o juro chegou a ir a 80%, né? Então era gente perdendo propriedade e... Agora hoje... Eu, pelo menos, tenho uns negócio no banco, mas você pode observar que, no final das conta, procê num sobra nada! (Entrevistado da Comunidade Varginha em Porto Firme)

Outro fato interessante ocorreu no município de Maravilhas. Fui convidada pelo técnico da EMATER para acompanhar uma reunião para apresentação de um Programa do Governo do Estado de Minas Gerais chamado “Cultivar, nutrir e educar”62, que prevê que 30% dos alimentos da merenda escolar das escolas estaduais sejam comprados de agricultores familiares. A ideia do programa é, além de garantir uma alimentação de qualidade aos alunos das escolas, possibilitar uma forma de escoamento da produção dos agricultores, que, por