2.8. Yönlendirilmiş Kemik Rejenerasyonu
2.9.2. Mezenkimal Kök Hücreler
Integração local é uma das soluções duradouras propostas pelo ACNUR. Neste item evidenciamos a complexidade deste tema. Vale alertar ao leitor a polissemia da palavra “integração local”, em muitos estudos sobre a temática das migrações e do refúgio, não é difícil encontrar, por exemplo, várias alternativas ou até mesmo a supressão da palavra “local”, generalizando e ampliando a definição aplicada pelo ACNUR59. Neste trabalho nossa preocupação com a definição será notadamente sobre as condições de inserção social dos refugiados.
O Brasil pode ser visto como um país, uma sociedade nacional, uma nação ou um Estado-Nação, em busca de conceito. A despeito de quem tem nome e história, território e fronteiras, bandeira e hino, população e governo, heróis e santos, memórias e esquecimentos, glórias e sofrimentos, ruínas e monumentos, debate-se contínua e periodicamente no sentido de conhecer- se, definir-se, estabelecer o seu lugar no mapa do mundo: Europa, África ou Novo Mundo; branco, mestiço, indígena ou negro; arcaico ou moderno; autêntico ou errático; pretérito ou futuro; do terceiro mundo ou a caminho do primeiro mundo; cujo nome pode ser o de um país, vegetal ou mercadoria (IANNI,2002).
Para o ACNUR a integração local dos refugiados é um processo complexo e gradual que compreende dimensões jurídicas, econômicas, sociais e culturais distintas, mas relacionadas entre si, e que impõe demandas consideráveis tanto do indivíduo quanto da sociedade que o recebe. Em muitos casos, este processo termina com a naturalização60 do refugiado no país de asilo (ACNUR, 2014).
A Conferência Internacional para a Recepção e Integração de Refugiados Reassentados, sediada na Suécia em Abril de 2001, em seu manual, descreve
59 Por exemplo: Integração social local (TANNURI,2010 p.29) e estudos mais abrangentes na área de migratória cuja
expressão comum é “integração de migrantes”.
60O ACNUR estima que, durante a década passada, 1,1 milhão de refugiados em todo o mundo se naturalizou nos países
integração como: Integração é mútua, dinâmica, multifacetada e um processo contínuo (ICRIRR, 2001). Da perspectiva de um refugiado, a integração demanda um preparo para adaptar-se ao estilo de vida da sociedade anfitriã sem deixar perder a sua própria identidade. Do ponto de vista da sociedade anfitriã, isso demanda boa vontade das comunidades em dar boas-vindas e ser receptiva para com os refugiados e as instituições públicas para encontrar as necessidades de uma população heterogênea.
Para o governo Brasileiro, a integração local é prevista na Lei 9.474/97:
Capítulo II – Da integração local:
Artigo 43: No exercício de seus direitos e deveres, a condição atípica dos refugiados deverá ser considerada quando da necessidade da apresentação de documentos emitidos por seus países de origem ou por suas representações diplomáticas e consulares.
Artigo 44: O reconhecimento de certificados e diplomas, os requisitos para a obtenção da condição de residente e o ingresso em instituições acadêmicas de todos os níveis deverão ser facilitados, levando-se em consideração a situação desfavorável vivenciada pelos refugiados (BRASIL, 2014a).
Embora tenha sido prevista pelo legislador, houve pouca preocupação com a sua efetividade. Por exemplo, no Artigo 44 exposto acima, a lei menciona sobre o reconhecimento de diplomas, mas não diz necessariamente como isso vai ser feito e na prática o processo é moroso e complicado, além de caro.
Na busca de uma definição mais ampla sobre o significado de uma integração local, busco a experiência europeia na posição do Conselho Europeu para os Exilados e Refugiados (ECRE,1999) onde a integração dos refugiados é tida como um processo:
Dinâmico e recíproco: implicando deveres da sociedade de acolhimento, mas também dos próprios refugiados. Para o refugiado, implica que esteja preparado para se adaptar ao estilo de vida da sociedade de acolhimento sem perder a sua
identidade cultural. Para a sociedade de acolhimento, demonstrar a vontade de adaptar as instituições públicas às mudanças na composição da população, de aceitar os refugiados como parte da comunidade nacional e tomar iniciativas que facilitem o acesso aos recursos e aos processos de tomada de decisão (ECRE, 1999).
A longo prazo: frequentemente, inicia-se, em termos psicológicos, no momento de chegada ao destino final e termina quando o refugiado se torna membro ativo desta sociedade do ponto de vista jurídico , social, econômico, educacional e cultural(ECRE,1999).
Multidimensional: relacionado quer com as condições existentes, quer com a participação efetiva em todos os processos da vida econômica, social, cultural, cívica e política do país de acolhimento duradouro. Implica também que os refugiados sintam que são aceitos e pertençam a sociedade de acolhimento (ECRE,1999).
Corrobora neste sentido a estratégia multidimensional pensada por (KORAC, 2003), apresentada em 3 pontos: 1) a integração no mercado de trabalho, num nível que permita conciliar as qualificações e experiência dos migrantes; 2) a inclusão social através das instituições e da realização de atividades que vão ao encontro das necessidades individuais e coletivas da sociedade – educação, saúde e habitação; 3) a inclusão na vida cívica – participação ativa na vida pública, “capital social61” - o que implica confiança e o desenvolvimento de laços
com os vizinho e a comunidade.
Ainda, segundo Crisp (2004) a integração local pode ser considerada como um processo que leva a uma solução duradoura para os refugiados. É um processo com três dimensões inter-relacionadas:
Primeira, é um processo legal, segundo o qual é concedida aos refugiados uma série de direitos e garantias de acolhimento pelo Estado[...]. Em uma segunda dimensão, a integração local pode ser considerada como um processo econômico. Para a aquisição dos direitos acima referidos, os refugiados também podem melhorar o seu potencial de criar meios de vida sustentáveis para atingir um grau crescente de autonomia, tornando-se progressivamente menos dependentes da ajuda do Estado ou de assistência humanitária. [...] Por fim, em uma terceira dimensão, integração local é um processo social, que permite aos refugiados viver junto à população de acolhimento, sem medo de discriminação sistemática, intimidação ou exploração pelas autoridades ou pessoas de país de asilo. (CRISP, 2004, p.1).
Para Crisp (2004) esse processo é desafiador e complexo, à medida que envolve diversos aspectos, não apenas jurídicos, sociais e econômicos, mas também políticos e culturais. Políticos, à medida que, ao se garantirem direitos, é preciso pensar em participação no processo político. Culturais, tendo em vista que os refugiados passam a interagir num novo ambiente que pode apresentar traços culturais distintos de sua comunidade de origem. Quanto maior a proximidade cultural, social, linguística e étnica entre o país de origem e o de destino, em tese, esse processo se revela mais fácil e os resultados, mais promissores.
A integração local também pode ser pensada como um processo dialético entre refugiados e sociedade receptora, que envolve não apenas agências burocráticas estatais como também atores não estatais que atuam no âmbito doméstico, a exemplo de ONGs e outras instituições públicas ou privadas (AGER; STRANG, 2008; SIGONA, 2005; VAN TURBENGEN, 2006; REITZ, 2003). Outro ponto fundamental se refere à construção de relações sociais com membros da comunidade local (AGER; STRANG, 2008).
A integração ocorre, para Kuhlman (1991), quando os refugiados passam a interagir com a sociedade receptora, convivendo com ela de modo aceitável, sem perder, contudo, seus laços culturais e identitários. Fletcher (1996) complementa que a integração se dá quando há não apenas aceitação, mas também plena participação dos refugiados na nova comunidade local. Ainda, a integração é um processo em dois sentidos: é preciso ultrapassar as barreiras que os imigrantes enfrentam e simultaneamente, torna-se necessário que os migrantes se adaptem à sociedade de acolhimento (SPENCER, 2006).
Como o próprio nome diz, integração local, acontece sobretudo ao nível local (nas cidades). As políticas em relação aos refugiados devem ser prioritárias neste micro espaço geográfico onde tudo acontece:
A cidade recebe pessoas de todas as diferentes origens que trazem diferentes culturas, religião e estilo de vida. A sua integração à fábrica social da cidade não é um processo natural: segregação social, exclusão social e marginalização de (alguns deles) grupos de imigrantes pode ameaçar a coesão social nas cidades. A cidade e suas vizinhanças/núcleo de moradores é o lugar onde importante eventos acontecem que afetam a vida cotidiana de todos o residentes, incluindo os imigrantes. É também onde a lealdade dos recém-chegados e de antigos residentes pode ser ganha, ou quem importa, perdida (SPENCER, 2006, p.44. tradução nossa).
A integração local no Brasil, na práxis, inicia-se com a solicitação de refúgio e, nos casos de reassentamento, em 3 dimensões:
- A primeira dimensão é a proteção jurídica. (Figura 2);
- A segunda dimensão é a assistência social e abrangem as áreas do ensino do português, de alimentação62, saúde63 e moradia e
62 Além da saúde e educação, a alimentação e a moradia foram incorporadas como direitos sociais no artigo 6º da
fornecimento de auxílio financeiro pago pelo ACNUR, mas, nunca diretamente, sempre através da ONG de acolhimento (Figura 3); e
- A terceira dimensão é a integração através da educação64, da cultura e do trabalho, para a busca da autossuficiência (Figura 4).
É só a partir do programa de reassentamento brasileiro que o debate sobre a Integração Local ganhou destaque (MOREIRA, 2012). Isso se deve por várias razões, em primeiro lugar, o grupo de refugiados selecionado culturalmente era muito distinto; em segundo lugar, o CONARE não orientou a execução do programa de reassentamento, atuando apenas na fase inicial e posteriormente em casos pontuais e isolados; em último a falta de experiência da Sociedade Civil no trato com os reassentados, com certos privilégios65. Para o ACNUR, havia a
intenção de que o programa de reassentamento brasileiro fosse bem sucedido, mas ainda havia pouca experiência nesse sentido no país. Assim, em 2004 o ACNUR reabre o Escritório no Brasil com o objetivo de auxiliar o programa de reassentamento no país, já que o país ainda não tinha tradição, tampouco conhecimento técnico, para lidar com reassentamento de refugiados (MOREIRA, 2012).
63 “Artigo 5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...]”; “Artigo 196: A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas, que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (BRASIL, 1988).
64 “Artigo 205: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a
colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988).
65 O privilégio descrito aqui é o fato do programa de reassentamento prever orçamento para a manutenção dos
Figura 2: Proteção jurídica
Fonte : Elaboração própria (2012)
Figura 3: Assistência Social
Fonte : Elaboração própria (2012)
Figura 4: Integração Local
Em realidade, é o conjunto de características de todas essas dimensões que determinará o maior ou menor grau de integração local. É nesse entendimento, que a integração local é um processo multidimensional pelo qual os refugiados se tornam progressivamente parte da sociedade que os recebe. Entretanto, para o ACNUR esse assunto está limitado ao número de naturalizações, estágio que o ACNUR entende que houve uma integração local ampla. Entretanto, é muito difícil distinguir os refugiados das outras pessoas que foram naturalizadas, trazendo uma limitação a esse campo de estudo.
Ressalta-se ainda que não há uma política para integração local. Nesse sentido, o desafio além da própria política, será coordenar essa tarefa com a participação dos próprios refugiados de modo a garantir que eles tenham uma perspectiva mais próxima da realidade conjunta a ser enfrentada. A associação das expectativas e experiências dos refugiados, com a realidade brasileira pode favorecer sua integração e autossuficiência.
Na segunda parte desta tese o foco da integração local se dará para os refugiados palestinos e sua respectiva integração local, ou seja, o modo como esses refugiados enfrentam as dificuldades econômicas, sociais, políticas e culturais. O relato das experiências dos refugiados também foram misturados à observação da pesquisadora (que buscou manter fidelidade ao que ouviu e vivenciou) mas o resultado não é uma mera descrição disso, vai além na direção da formação de um novo discurso – identificando o hiato entre a integração local imaginada por eles e a integração local que realmente vivem.
CAPÍTULO 2
CONTEXTO HISTÓRICO-POLÍTICO DA PALESTINA
Este capítulo trata da fundação e características do Estado Moderno e enfoca a complexa e crescente diáspora, vivida pelos palestinos hoje, assim como antigos e recentes impasses e problemas históricos e políticos que vieram à tona e que tornaram-se mais acirrados com a criação do Estado de Israel, em 1948.