3. DENEYSEL ÇALIŞMALAR 39
3.6 Metal/CdTe, CdS Eklemlerin ve Heteroeklemlerin Hazırlanması 50
O seminário lacaniano “Livro XX - Mais, ainda”, ministrado nos anos de 1972 e 1973, é o seminário das não-relações, orienta-nos Miller (2000), e nele diversas viradas acontecem na obra de Lacan. O próprio conceito de linguagem sofre alteração com a invenção de lalíngua, a fala antes do ordenamento gramatical, o que coloca a linguagem não mais como originária, mas secundária. Há uma aliança originária entre o gozo e lalíngua, sob a forma do gozo do blábláblá, ou seja, a palavra é um meio de gozo. As noções de grande Outro, símbolo fálico e Nome-do-Pai passam a ser tomados como semblantes, com a função de conectores de elementos disjuntos. É nesse seminário, ainda, que Lacan (1972-73/2008) traz dois aforismos polêmicos – “A mulher não existe”, e seu corolário, “a relação sexual não existe”.
Miller (2000) aponta que, nesse seminário, o gozo é tomado como fato, e se a relação sexual não existe, há o gozo. “Há gozo enquanto propriedade de um corpo vivo, ou seja, trata- se de uma definição que relaciona o gozo unicamente ao corpo vivo” (p. 102). Nesse sentido, é o corpo que goza, e o gozo, portanto, não tem relação com o Outro, tudo que é gozo, é gozo Uno (sem o Outro). O autor nos chama a atenção para o título de seminário, em francês Encore (Ainda), homófono a En-corps: é o corpo que está em questão. O gozo fálico está situado em relação ao gozo Uno, podendo ser acessível por meio da masturbação, sem passar pelo Outro, é o gozo do idiota, do solitário. Há, ainda, o gozo da palavra.
O gozo da palavra quer dizer que a palavra é gozo [...] É isso que quer dizer o blábláblá, tal como ele se exprime, enquanto o último grau da qualificação pejorativa da palavra. Blábláblá quer dizer, exatamente, que, considerada na perspectiva do gozo, a palavra não visa o recobrimento, a compreensão, ela não passa de uma modalidade do gozo Uno. (Miller, 2000, p.103-104)
Com isso, não há garantia de que, quando se fala, esteja-se ligado ao Outro. Além do gozo fálico e do gozo da palavra Miller (2000) aponta que existem mais duas modalidades de gozo Uno no Seminário “Mais, ainda”: o gozo do próprio corpo, pois sempre é o corpo próprio que goza, independente do meio, e o gozo sublimatório. Miller assinala que Lacan dá uma versão da sublimação que não implica o Outro e, quando deixado só, o corpo falante
sublima o tempo todo. Com isso, “Lacan, indica-nos, verdadeiramente, que é no lugar do gozo Uno que a sublimação encontra seu verdadeiro fundamento” (p. 104).
Do mesmo modo que o gozo é privilegiado nesse Seminário, o estatuto de feminino também se dará nessa vertente. Lacan (1972-73/2008) separa as posições masculina e feminina a partir de dois modos de gozo: o gozo fálico e o gozo não-todo fálico. Vamos iniciar essa proposição lacaniana a partir da tábua da sexuação. Essa ferramenta de leitura foi construída a partir do recurso da matemática com a lógica proposicional Aristotélica18.
Figura 3 -Tábua da sexuação (Lacan, 1972-73/2008, p.84)
Na parte de cima da tábua, temos os quantificadores. Do lado masculino (esquerdo), temos a universal afirmativa de que todos os homens estão inscritos na função fálica justamente por existir o um da exceção que fundou a regra: o pai primevo, de “Totem e Tabu”. Com Freud, temos a evidência disso, quando o pai tirano da horda primeva possuía todas as mulheres, mas negava aos filhos o acesso a elas. É a partir do seu lugar de exceção à lei que se funda a regra no grupo dos homens. Na parte de baixo, temos como o homem se encontra na parceria amorosa. Ele está na posição de sujeito desejante e terá acesso à sua parceira sob a forma do objeto a, mediado, aí, pela fantasia. Miller (2003) indica que, com isso, a forma de amar fetichista permanece do lado homem, em quem o desejo passa pelo gozo, requerendo um mais-de-gozar. A mulher, dessa forma, constitui-se como um sintoma para o homem.
O gozo que aparece do lado do homem é o gozo fálico, que vale relembrarmos, é Uno e não necessita do Outro. O homem, em relação a seu gozo, portanto, não necessita do amor, ao contrário da mulher. Lacan (1972-73/2008) ressalta que “o gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da mulher, precisamente porque o de que ele goza é do gozo do órgão” (p.14). O que ele goza é de si, do seu corpo e do objeto da
18 Na lição ‘De uma função para não escrever’ do “O seminário – livro 18, De um discurso que não fosse
semblante”, Lacan adianta as formulações presentes na tábua da sexuação, bem como nos apresenta a lógica das
categorias universais aristotélicas (a universal afirmativa, a universal negativa, a particular afirmativa e a particular negativa, que são traduzidas por Frege com os quantificadores: ‘para todo’ e ‘existe’).
fantasia. Daí tiramos uma das possíveis indicações de que a relação sexual não pode existir. Ela não existe enquanto complementaridade.
Já do lado da mulher, há uma radicalidade. Não há a universal afirmativa, o que existem são duas negações: Não existe uma mulher que escape à função fálica - , e não-toda mulher está submetida à função fálica - . Portanto, não existe uma mulher que faça exceção à regra e, com isso, não se funda um grupo da mulher, de forma que A mulher não existe. Na parte inferior da tábua, temos a duplicidade a partir da qual a mulher vai se relacionar na parceria amorosa: se, por um lado, ela se direciona ao falo (La →Φ), por outro ela se direciona ao S(Ⱥ)19. O que isso significa? Significa que a mulher vai, em seu gozo, em direção ao falo e também em direção ao S(Ⱥ), buscando no Outro barrado um significante que lhe diga o que é uma mulher. No entanto, não há o Outro do Outro, não há um significante dessa falta do Ⱥ e, dessa forma, a demanda da mulher se infinitiza, não sendo regulada pelo registro fálico.
Solano-Suaréz (2006) indica que isso quer dizer que o gozo feminino não pode ser todo articulado à função fálica, sendo, portanto, o gozo feminino da ordem do infinito. Lacan (1972-73/2008) chama esse gozo de gozo Outro, tendo como paradigma o gozo místico. Dessa forma, pode-se pensar o não-todo como sendo não da ordem de uma ausência, de um a menos, mas como da ordem do a mais, do suplementar, do infinito. E aí a mulher tem mais liberdade que o homem, podendo se inventar.
Lacan (1972-73/2008) não exime as mulheres da submissão ao registro fálico, mas indica que o registro fálico não diz tudo sobre o gozo feminino e sobre a mulher. “Não é porque ela é não toda na função fálica que ela deixe de estar nela de todo. Ela está lá toda. Mas há algo mais.” (p. 101). Portanto, não há A mulher, mas uma mulher, que vai, à sua maneira, lidar com a ausência de significante que lhe diga o que é uma mulher. O ‘não-toda’ indica que há uma modalidade de gozo propriamente feminino. No entanto, esse gozo feminino continua a não identificar a mulher, e neste ponto o amor faz sua aparição na face de sem limite: “o amor demanda o amor. Ele não deixa de demandá-lo. Ele o demanda... mais... ainda. Mais ainda é o nome próprio dessa falha de onde, no Outro, parte a demanda de amor.” (p.12).
Ao não poder se identificar com A mulher, que não existe, então
19 Para esclarecer, o La é o artigo A, em francês. O Ⱥ do S(Ⱥ) é o grande Outro barrado. Em português, isso se
resta, às mulheres, ao menos serem ‘uma mulher’. Mas como uma mulher não pode se especificar ‘uma’ por seu gozo, resta-lhe ‘ao menos ser a mulher de um homem’. [...] Para assegurar-se de não ser um sujeito qualquer - o que ela é no momento em que é um ser falante – porém, um a mais de ser ‘uma mulher’, isto é um sujeito especificado sexualmente, ela passa pelo ‘um’ do homem do qual espera um amor que gostaria exclusivo. (Soler, 1998, p.249)
O que há é um apelo a uma identificação sexuada pela via do amor. Isso é central na compreensão da posição feminina nas parcerias amorosas. Lacan (1972/2003), em “O aturdito”, afirma: “É também por isso que é como única que ela quer ser reconhecida pela outra parte: isso é mais que sabido.” (p.467). Assim, ela pode ser marcada como a mulher, pelo menos de um homem.
O amor, que estruturalmente tem um lugar privilegiado para as mulheres, tem como princípio o Ⱥ, o não-todo, o sem limites, e a devastação é seu outro nome. Enquanto no lado masculino, temos como rubrica do modo de gozar o sintoma, do lado feminino, temos a devastação. O sintoma, por sua estrutura própria, é um sofrimento localizável, limitado, por isso podemos fazer uma clínica do sintoma. Já na devastação, trata-se de outra coisa: “Não podemos classificar as devastações. Ser devastado!... Não vou me devastar por causa disso. O que é a devastação? É ser devastado” (Miller, 2003, p.20). Tomando como metáfora devastar uma região, a devastação é uma depredação sem limites.
Se o homem responde à inexistência da relação sexual fazendo de sua parceira seu sintoma, ao tomá-la como objeto causa de desejo, do lado da mulher “é de outra coisa que não do objeto a que se trata no que vem em suplência a essa relação sexual que não há.” (Lacan, 1972-73/2008, p.69). Do lado da mulher, vem o amor, que tem como uma de suas faces a devastação. A devastação é mesmo simétrica ao sintoma e o amor possui o mesmo princípio dela, que é o Ⱥ, o não-todo, orienta Miller (2003).
O amor, então, é suplementar para o homem. O gozo masculino é silencioso, não passa necessariamente pelo amor, o que está em jogo é o objeto fetiche, mas isso, no entanto, não nega a possibilidade do amor do lado masculino. Para a mulher, o valor do amor é outro, ele é essencial e, nesse sentido, diríamos que a posição erotomaníaca da mulher na parceria amorosa é elevada ao máximo. O gozo feminino não-todo exige que seu objeto fale, ele é tecido no amor. “O ser sexuado dessas mulheres não-todas não passa pelo corpo, mas pelo que resulta de uma exigência lógica da fala.” (Lacan 1972-73/2008, p. 16-17). Assim, o que está do lado da mulher é a exigência da fala de amor.
Vale lembrar que Lacan não nega a posição feminina da mascarada no final de seu ensino. Na seguinte passagem de “Televisão”, em 1975, ele afirma:
Ela se presta, antes, à perversão que considero ser d´O homem. O que leva à mascarada que conhecemos, e que não é a mentira que lhe imputam os ingratos, por aderir a O homem. É mais o haja- o-que-houver do preparar-se para que a fantasia d´O homem que há nela encontre sua hora da verdade. Isso não é exagero, visto que a verdade já é mulher, por ser não toda – não toda a se dizer, em todo caso. (Lacan, 1975/2003, p.538)
Entendemos que, na tentativa de se mascarar para se prestar à perversão d´O homem, para que assim possa obter sua palavra de amor, a mulher pode se devastar pelo fato de a palavra que o homem lhe dá não ser suficiente. Assim, para tentar satisfazer a perversão do macho, não há limites para as concessões que uma mulher pode fazer a um homem, indica Lacan (1975/20013).
Lacan (1972/2003) propõe, em “O Aturdito”, um ponto bem interessante sobre o amor e a divisão da mulher em relação a seu modo de gozo. Ele indica que, “mesmo que satisfaça a exigência do amor, o gozo que se tem da mulher a divide, fazendo-a parceira de sua solidão, enquanto a união permanece na soleira” (p. 467). Dessa forma, por mais que o amor tenha a função de fazer suplência à relação sexual, bem como localizar a mulher no campo do Outro, o gozo Outro, propriamente feminino, ultrapassa a mulher, coloca-a no campo do infinito. Se o amor resolvesse a problemática do gozo feminino, não haveria aí a infinitização do mesmo e poderíamos, finalmente, fazer um conjunto das mulheres, o que vimos não ser possível.
A devastação aparece nesse momento da obra de Lacan (1972/2003), primeiramente, relacionada à relação entre mãe e filha.
A elucubração freudiana do complexo de Édipo, que faz da mulher peixe na água, pela castração ser nela ponto de partida (Freud dixit), contrasta dolorosamente com a realidade da devastação que constitui na mulher sua relação com a mãe, de quem, como mulher, ela realmente parece esperar mais substancia que do pai – o que não combina com ele ser segundo, nessa devastação. (p.465)
O que Lacan (1972/2003) parece nos indicar é que a demanda de amor frustrada e direcionada à mãe, que conforme vimos com Freud, é o primeiro objeto de amor da menina, ainda no período pré-edipiano, é devastadora. Considerando que a mãe é antes mulher, não seria pelo fato da menina se encontrar com esse gozo Outro que a devastação apareceria na relação mãe e filha?
A devastação parte da relação mãe e filha, mas faz sua aparição na vida amorosa das mulheres, sendo este último viés o que nos interessa aqui, como vimos. A devastação está ligada ao gozo feminino, que conforme já indicamos, “está direcionado ao Outro, ao amor do Outro, sob a forma do S(Ⱥ). É nessa vertente que a demanda de amor surge com toda a sua insistência” (Lacan, 1972-73/2008, p.87) e pode devastar. Soler (1995) propõe que a devastação indica um sujeito à mercê da vontade, do desejo e da demanda do Outro. Enquanto
a máscara é utilizada para se inscrever na parceria, “há devastação quando saímos da mascarada, quando a mascarada que ficou sobre uma cena transborda e realiza-se como sujeição real, sujeição realizada” (Soler, 1995, p.127).
Parece-nos, então, que a devastação é uma tendência estrutural no caso das mulheres, em consequência da própria forma de amar erotomaníaca. Alvarenga (2003) acrescenta a essa tendência o arrebatamento20, sem, no entanto, fazer uma equivalência entre eles:
A devastação é uma depredação que se estende a tudo, que não conhece limites, e é em função dessa estrutura que o Outro pode ser o parceiro-devastação, mas pode também, ser o modo como acontece o arrebatamento para a mulher, pois a palavra francesa ravage (devastação) tem a mesma raiz de ravir de
ravissement (arrebatamento)... Arrebatar é levar a um estado de felicidade suprema e tem, por isso, um valor erotômano. Temos, portanto, no horizonte da erotomania, no melhor dos casos, o arrebatamento e, no pior, a devastação. (p.46)
Miller (1998), a partir das duas modalidades de gozo propostas por Lacan, forja a noção de parceiro-sintoma na tentativa de formalizar as duas formas em que a parceria amorosa se estabelece para cada sexo: a parceira-sintoma do homem e o parceiro-devastação da mulher.
Para discutir o termo parceiro-sintoma, Miller (1998) implica na discussão a modificação do termo sujeito, que foi substituído por falasser. Este é oposto à noção de sujeito como falta-a-ser, pois “é o sujeito mais o corpo, o sujeito mais a substância gozante” (p.102). Miller também indica que a centralidade do corpo foi introduzida progressivamente na obra de Lacan, pois não se pode falar de gozo sem uma referência ao corpo, já que é somente um corpo que goza. Ele nos apresenta a seguinte formulação para elucidar sua proposição:
S <> Outro
____________________________ falasser <> parceiro - Ʃ
Na perspectiva da relação do sujeito com o Outro, a questão da relação sexual está apagada, já na relação do falasser com o parceiro-sintoma, ela está no centro da relação:
O Outro do qual se trata com o parceiro-sintoma não é mais um corpo mortificado, esvaziado de seu gozo, é um corpo vivo; o Outro é sempre representado por um corpo vivo. E isso nos obriga a que nos
20 O arrebatamento foi abordado por Lacan (1965/2003) em seu texto “Homenagem a Marguerite Duras pelo
arrebatamento de Lol V. Stein.”. Optamos aqui por não abordar esse termo, uma vez que ele não aparece como
apercebamos que este corpo é sexuado. O grande Outro é representado por um corpo sexuado; e é por isso que, necessariamente, se coloca a questão da relação sexual, esta questão que estava apagada na perspectiva da relação do sujeito com o Outro. É nessa direção que avançamos com a questão do parceiro-sintoma, é uma mudança de perspectiva na relação do sujeito com o Outro. (Miller, 1998. p.103)
O parceiro-sintoma é o parceiro ligado à relação sexuada, significando que “a relação do parceiro supõe que o Outro torna-se sintoma do falasser, isto é, torna-se um meio de gozo” (Miller, 1998, p. 104). O falasser não faz parceria no nível do significante puro, mas no nível do gozo, e essa ligação será sempre sintomática. Aqui, Miller retoma a fórmula de Lacan de que a relação sexual não existe.
Para esclarecer, Miller (2008) indica que o sintoma no último ensino de Lacan se apresenta como um quarto elemento no ternário real, simbólico e imaginário, como aquele que pode enodá-los, como uma suplência. Ele não é tratado como uma disfunção, mas como um aparato que estabelece um funcionamento, sendo um meio de gozo.
O gozo, apesar de não incluir o Outro por sua característica auto-erótica, o inclui ao mesmo tempo. Tomando o gozo masturbatório masculino, ele é claramente auto-erótico, no entanto, produz-se um sentimento fora-do-corpo e o corpo aí se revela Outro, no momento do gozo. No caso das mulheres, temos o atravessamento do gozo no corpo, sendo seu corpo outrificado.
Com isso, na modalidade de cada gozo, o parceiro-sintoma tomará uma forma diferente: o parceiro-sintoma do homem tem a forma de fetiche, enquanto o da mulher tem a forma erotomaníaca, como vimos com Lacan. O parceiro-sintoma do homem é aquele que temos desde o início da formalização lacaniana: seu modo de gozar exige apenas que a parceira responda a um modelo, está ligado à sua fantasia, ao objeto a.
Já do lado da mulher, em que o gozo é tecido no amor, é preciso que o parceiro seja Ⱥ, aquele a quem falta algo, que o faça falar. A demanda de amor feminina vai incidir sobre o ser do parceiro, sob a forma erotomaníaca do amor. Miller (1998) nos lembra que Lacan usou o termo no estudo do caso Schreber, no empuxo à posição feminina, por isso Lacan pode dizer que as mulheres são loucas:
Assim, o universal do que elas desejam é a loucura: todas as mulheres são loucas, como se diz. É por isso mesmo que não são todas, isso é não-loucas-de-todo, mas antes conciliadoras, a ponto de não haver limites para as concessões que cada uma faz a um homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens (Lacan, 1975/2003, p.538)
E é nessa posição de não haver barra à concessão que se pode fazer a um homem que o homem pode tornar-se um parceiro-devastação da mulher. Há, na devastação, um retorno da
demanda do homem sobre o falasser feminino, é em função da própria estrutura do não-todo que o parceiro-sintoma se desdobra no parceiro-devastação. A devastação, já a definimos, e Miller (1998), aqui, acrescenta que ela é uma “pilhagem que se estende a tudo, que não termina, que não conhece limites e é em função dessa estrutura que o homem pode ser o parceiro-devastação, para o melhor e o pior.” (p. 115).
Assim, ao longo da obra lacaniana, verificamos um encadeamento de ideias em relação à posição da mulher na parceria amorosa até a década de 70, com a formalização do não-todo. Podemos considerar que o amor, desde sempre, está colocado como um desencontro pelo fato de a forma fetichista de amar masculina e a forma erotomaníaca feminina não terem coincidência, bem como por não haver um encontro dos gozos. O que concluímos é que mesmo sendo o amor uma peça chave na vida da mulher, ele também não resolve todas as questões da feminilidade porque o gozo feminino continuará Outro e a ultrapassando.
Parece, com isso, que Lacan se mostra um tanto pessimista em relação ao amor, mas não podemos esquecer que é só o amor que pode fazer passar do gozo Uno para o gozo articulado ao desejo. Também é principalmente por ele que a relação pode se dar, pelo menos pelo lado da mulher que sempre buscará encontrar o amor. No entanto, se em excesso, o amor pode retornar como devastação.
Por outro lado, no Seminário XXIV, na aula de 15 de março de 1977, Lacan (1977/inédito) traz um sopro de brisa em relação ao amor. Ele apresenta a ideia de um amor mais temperado, que não se encontre tão cheio como encontramos o amor no Seminário VIII (onde o amante espera algo do amado), nem no Seminário XX, em que a mulher aparece buscando sua substância no amor.
Nesse seminário, Lacan (1977/inédito) diferencia sentido de significação, a partir da palavra plena versus palavra vazia. A palavra plena é a plena de sentido, e a vazia tem apenas a significação. A palavra plena significa que uma palavra (parole) pode ser plena de sentido. A poesia é algo que fracassa “por ser puro nó de uma palavra (mot) com outra palavra” (p.115). Ela não tem sentido, mas significação. A proeza do poeta é justamente fazer com que um sentido esteja ausente, e ele só faz isso, substituindo-o por uma significação.
A significação não é, de forma alguma, o que o povo crê, se posso dizer, a significação é uma palavra (mot) vazia. Dito de outra forma, é o que, a propósito de Dante, é expresso no qualitativo atribuído à sua