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DA MAIOR ÊNFASE AO SEU PAPEL ARTICULADOR (ANOS 1980-2000)
Estado, neoliberalismo e a financeirização à escala planetária
O neoliberalismo efetivamente atingiu o mundo com uma poderosa vaga de reforma institucional e ajustamento discursivo, e, embora seja grande a evidência de seu desenvolvimento geograficamente desigual, nenhum lugar pode proclamar-se plenamente imune a ele (salvo alguns países como a Coréia do Norte). Além disso, as regras instituídas pela OMC (regulando o comércio mundial) e pelo FMI (regulando as finanças internacionais) estabeleceram o neoliberalismo como padrão de regulação global. Todos os países que aderem à OMC ou ao FMI (e quem pode se dar ao luxo de ficar de fora?) concordam em se submeter a essas regras (embora com um ‘período de graça’, para permitir um ajustamento suave) ou a serem severamente castigados. A criação desse sistema neoliberal implicou obviamente muita destruição, não somente para as estruturas e poderes institucionais (como a suposta existência prévia de uma soberania estatal sobre os assuntos político-econômicos), mas também sobre as relações estruturais da força de trabalho, relações sociais, políticas de bem-estar social, arranjos tecnológicos, modos de vida, pertencimento à terra, hábitos afetivos, modos de pensar e outros mais. Torna-se necessária uma avaliação dos aspectos positivos e negativos dessa revolução neoliberal. (HARVEY, 2007b, pág. 03, grifo nosso)
Como vimos no capítulo anterior os anos subsequentes à crise do capitalismo iniciada na década de 1970 nos países centrais foram de profundas transformações na maneira dos Estados conduzirem suas políticas econômicas e sociais. Houve naqueles países uma forte ruptura no capitalismo competitivo, assim denominado por Poulantzas, ou também chamado, padrão fordista keynesiano de acumulação, baseado no Estado de bem estar social, em que o Estado era o responsável direto e ativo pela reprodução das condições gerais de produção e mantenedor da coesão social. A ruptura se deu com a emergência de uma nova fase do desenvolvimento capitalista, que Poulantzas nomeia Capitalismo Monopolista (ou imperialismo) em que os Estados devem se adaptar às
exigências cambiantes da acumulação, com as condições políticas voltadas à valorização e a reprodução ampliada do capital. (JESSOP, 1997)
Nesse contexto o Estado, entendido por Poulantzas como uma formação social, cujo poder está diretamente associado a uma correlação mutável das forças de classe, passa por um processo de intensificação da internacionalização do capital nacional, o que dificulta seu papel de mantenedor da coesão social, pois há incompatibilidade crescente entre os interesses ligados aos imperativos econômicos flutuantes e as demandas mais gerais da dominação política de classe.
Na visão de Poulantzas, a idéia de globalização frequentemente utilizada para explicar esse período, marcado como dissemos por uma internacionalização acentuada, e, pelo forte desenvolvimento associado às tecnologias de informação, comunicação e transportes, na verdade tende a mascarar a existência da cadeia imperialista, e a caracterizar as formações sociais, ou Estados Nacionais, como uma mera concretização espacial de um desenvolvimento desigual de caráter temporário. Entretanto, Poulantzas adverte que o desenvolvimento desigual é a forma constitutiva, da reprodução do Modo de Produção Capitalista (MPC) conformado às condições da internacionalização dos blocos de poder no interior do Estado. (JESSOP, 1997)
Bob Jessop (1997) acrescenta à elaboração de Poulantzas a idéia de que o papel do Estado, no por ele denominado regime de acumulação shumpteriano pós-nacional pró-trabalho, passa a relacionar-se mais a um papel de rearticulador entre o econômico e o extra-econômico. Como rearticulador o Estado assume novas atribuições, em um contexto onde as relações econômicas e financeiras são determinadas pelo reforço da competitividade nos espaços econômicos considerados relevantes, e, pelo avanço tecnológico. Essa competitividade é dependente da flexibilidade e da permanente inovação, por isso, o Estado busca criar novos formatos institucionais que valorizam a mobilização de fatores não só econômicos mas extra-econômicos, principalmente "sociais de flexibilidade e de difusão de um espírito empresarial".
Para tanto, o Estado promove um forte ajustamento discursivo que tende a subordinar as políticas sociais, às "necessidades" da competitividade estrutural e da flexibilidade do mercado de trabalho. No novo modo de regulação tendencialmente shumpteriano, também caracterizado pela forte crise de representatividade nos diversos
aparelhos do Estado, as despesas sociais são vistas não como uma demanda doméstica, mas como um custo elevado que recai sobre a administração pública. (JESSOP, 1997)
Na mesma direção Harvey (2007b) explica que no regime de acumulação flexível, o papel do Estado passa a ser marcado pela idéia de atuação mínima, seu poder interventor perdeu força, e a regulação pelo mercado foi estabelecida como a principal política a ser perseguida, naquilo que se convencionou chamar de “receituário neoliberal”, estabelecido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros organismos internacionais.
Nos países centrais, onde a liberdade de mercado assentou-se acima de tudo, o principal protótipo do neoliberalismo foi estabelecido durante o governo (1979 a1990) da primeira ministra Margaret Thatcher (1925-2013),na Grã-Bretanha. Thatcher recebeu dos russos graças à sua postura como chefe de governo o apelido de “dama-de-ferro”. A nova palavra incluída no dicionário inglês, thatcherismo, passou a designar o conjunto de reformas econômicas e sociais introduzidas no Estado que marcaram o seu governo. A primeira ministra foi responsável, segundo seus defensores, pelo resgate da economia e da força britânica no mundo ao reduzir substancialmente através da privatização de estatais o papel do Estado considerado inflado pela classe dirigente inglesa. Além disso, o governo de Thatcher realizou a desregulamentação do setor financeiro, flexibilizou o mercado de trabalho, e promoveu cortes em gastos sociais.
Por outro lado, a política neoliberal do governo Thatcher é lembrada por seus críticos, pela “Doutrina do Choque” (Klein, 2008), implementada como modus operandi clássico dos seguidores do economista americano Milton Friedman, considerado o “pai” do neoliberalismo. O governo de Thatcher ficou conhecido por ter sido demasiadamente severo com os pobres, uma vez que enfraqueceu o poder e a influência dos sindicatos trabalhistas. As medidas impostas acarretaram em elevados índices de desemprego que gerou desequilíbrios sociais. Porém, o neoliberalismo não ficou circunscrito à Inglaterra, como anteriormente demonstrou Harvey (2007b), quase nenhum país pôde “se dar ao luxo” de ficar "imune" a ele, e, como corrobora Naomi Klein,
Por fin, tras décadas exiliado en la jungla intelectual, llegaron los años ochenta y los gobiernos de Margaret Thatcher (que llamó a Friedman un «luchador por la libertad intelectual») y de Ronald Reagan (que fue visto con un ejemplar de Capitalismo y libertad, el manifiesto de Friedman, durante su campaña presidencial). Aquellos líderes políticos sí tuvieron el valor de
implementar una absoluta liberalización del mercado en el mundo real. Según la historia oficial, después de que Reagan y Thatcher liberaran democrática y pacíficamente sus respectivos mercados, la libertad y la prosperidad subsiguientes fueron tan obviamente deseables que cuando las dictaduras cayeron una tras otra, desde Manila a Berlín, las masas voceaban para que las reaganomics se instalaran en sus puertas, junto con sus Big Macs. (KLEIN, 2008, pág. 25)
Margareth Thatcher e Ronald Reagan, presidente que governou os Estado Unidos entre 1981 e 1989, firmaram uma coalizão de poder que recolocou o capital financeiro na hierarquia de interesses dos seus Estados e no comando das políticas econômicas internacionais. Assim, os interesses globais do capital financeiro internacional, tornaram-se a estratégia político-ideológica dos governos e finanças dos Estados Unidos e Inglaterra bem como forneceram o suporte necessário e indispensável ao sucesso da implementação conjunta da desregulamentação econômica que permite o livre movimento dos capitais, dos investimentos estrangeiros diretos, das políticas monetárias deflacionistas e das reformas liberais introduzidas na década de 1980. A nova “financeirização capitalista” mudou a face econômica e política do capitalismo contemporâneo. (FIORI e TAVARES, 2000; CHESNAI, 1998)
De maneira semelhante Beluzzo (2013) 121 acrescenta: “o que houve nos anos
1980, com Ronald Reagan e Margaret Thatcher foi à resposta à perda de dinamismo daquela economia. [...] O que foi o neoliberalismo? Foi abrir espaço para as empresas ganharem competitividade em outros lugares, com custos salariais mais baixos. É a lógica da acumulação e da competição capitalistas.”
É necessário destacar que apesar das funções e atuação do Estado terem sofrido mudanças significativas sob a influência neoliberal os Estados, em escala planetária, continuaram atuando de maneira decisiva para assegurar a internacionalização do capital após o esgotamento do capital industrial decorrente dos “anos gloriosos” após a Segunda Guerra. O que possibilitou um crescimento em escala jamais ocorrida do capital financeiro e afirmou a importância dos investimentos produtivos externos na economia, garantidos pela rearticulação entre o político e o econômico.
121 Luiz Gonzaga Belluzo. Entrevista concedida ao jornal Valor Econômico em 25/06/2013, intitulada “O
capital faz seus novos caminhos, agora com um Estado protagonista”.
Disponível em: http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201307301326120.Belluzzo%20- %20valor%20-%20O%20capital%20faz%20seus%20novos%20caminhos.pdf Acesso em: 10/11/2013.
Neste período denominado por François Chesnais (1998) Regime de Acumulação Mundializado sob Dominância Financeira, os Estados nacionais continuaram a desempenhar um papel decisivo no desenvolvimento geográfico desigual do capitalismo. No referido regime os governos nacionais são responsáveis pela regulação do capital financeiro e ao mesmo tempo devem criar condições de atratividade para os investimentos desta fração do capital. (CHESNAIS, 1996)
Como argumenta Neil Smith,
Un neoliberalismo sin Estado fue su propio mito. En realidad, claro, el Estado en diversas escalas nacionales, locales y globales contribuyó asiduamente por medio de la desregulación empresarial, los gastos militares, la política de la vivienda, la política de impuestos a las empresas, el desarrollo urbano, la represión social, las políticas de desarrollo global y la expansión de su propia iniciativa empresarial, al avance del proyecto neoliberal. Muchas de las instituciones y normas de esa época se mantienen firmes en su puesto con muy pocas alternativas coherentes a la vista. Así puede que tenga más sentido tomar prestada la afortunada frase que Jürgen Habermas aplicó en los años ochenta a la situación del modernismo, y concluir que el neoliberalismo “ha muerto pero sigue vigente". (SMITH, 2007)
A América Latina e o Brasil no contexto neoliberal
No contexto neoliberal a forte prevalência da financeirização à escala planetária traz como principal problema, de acordo com Arroyo (2006), "o caráter rentista do processo", desenvolvido por meio de operações baseadas em lucros especulativos, que se estabelecem fora da esfera da produção de bens e serviços. De acordo com o referido autor dentro desse processo, os países da América Latina e de outras áreas periféricas passaram a ser designados por “mercados emergentes”, houve certa ruptura do ideário histórico de alcançar a autonomia econômica que associava grande parte dos países latino americanos como um conjunto de "países em desenvolvimento". Assim, configurou-se na década de 1990, através das políticas neoliberais “a inserção dos territórios latino-americanos nos fluxos internacionais de capital. Trata-se de uma situação de crescente dependência com o correspondente aumento de vulnerabilidade externa de suas economias". (Arroyo, 2006)
Nesse sentido, na América Latina, o Consenso de Washington configurou-se um importante instrumento do neoliberalismo, suas determinações de ajuste econômico incluem, de acordo com Negrão (2008, pág. 41):
1. Disciplina fiscal, através da qual o Estado deve limitar seus gastos à arrecadação, eliminando o déficit público;
2. Estabelecimento de prioridades nas despesas públicas através do direcionamento dos gastos públicos em educação, saúde e infraestrutura;
3. Reforma tributária que amplie a base sobre a qual incide a carga tributária, com maior peso nos impostos indiretos e menor progressividade nos impostos diretos;
4. Liberalização financeira, com o fim de restrições que impeçam instituições financeiras internacionais de atuar em igualdade com as nacionais e o afastamento do Estado do setor;
5. Taxa de cambio competitiva;
6. Liberalização do comércio exterior, com redução de alíquotas de importação e estímulos à exportação, visando a impulsionar a globalização da economia, dito de outro modo se tratou de uma política comercial de integração aos fluxos mundiais; 7. Abertura ao investimento direto estrangeiro por meio da eliminação de restrições ao
capital externo;
8. Privatização, com a venda de empresas estatais ineficientes;
9. Desregulação de setores controlados, com redução da legislação de controle do processo econômico e das relações trabalhistas;
10. Direitos de propriedade intelectual.
Não pretendemos discutiras regras do Consenso aqui apresentadas, mas tão somente as enunciamos por considerar que seus desdobramentos foram extremamente importantes para as transformações ocorridas nas funções e atuação do Estado no Brasil, e sem dúvida repercutiram e continuam a influenciar a condução das políticas de implementação da infraestrutura no Brasil e particularmente no setor aéreo. Para o diplomata Paulo Roberto de Almeida (2008) seria um erro acadêmico creditar ao Consenso o receituário neoliberal, imposto de cima para baixo, aos países latinos americanos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD).
Segundo o referido autor, longe de ser um “receituário” o Consenso consubstanciou-se em um seminário acadêmico, ocorrido no final da década de 1980, que culminou em um conjunto de “instrumentos de política econômica”, ou propostas de reformas econômicas, que visavam ao reequilíbrio macroeconômico dos países latino-americanos que atravessavam graves problemas estruturais, como por exemplo, a
elevada dívida externa e a inflação, decorrentes da crise capitalista. Assim, após o alcance da estabilidade econômica, essas políticas facilitariam e estimulariam os países para que se tornassem aptos a planejar seu próprio desenvolvimento regional. No entanto, como veremos adiante a experiência brasileira foi bem distinta da “boa fé” do Consenso e não se traduziu em seu fortalecimento.
Por outro lado, para Francisco de Oliveira (2000) apenas na Inglaterra e França as políticas neoliberais – traduzidas pela privatização de grandes empresas estatais -
tiveram um caráter ideológico revestido pela luta de classes. No Brasi122l assim como na
grande maioria dos países o neoliberalismo significou “a privatização da esfera pública, sua dissolução, a apropriação privada dos conteúdos do público e sua redução, de novo, a interesses privados”. (OLIVEIRA, 2000, pág. 58)
Como bem aponta o referido autor:
A privatização do público é uma falsa consciência de desnecessidade do público. Ela se objetiva pela chamada falência do Estado, pelo mecanismo da dívida pública interna,
onde as formas aparentes são as de que o privado, as
burguesias emprestam ao Estado: logo, o Estado, nessa
aparência, somente se sustenta como uma extensão do privado.
O processo real é o inverso: a riqueza pública, em forma de
fundo, sustenta a reprodutibilidade do valor da riqueza do capital privado. Essa é a forma moderna de sustentação da crise do capital. (OLIVEIRA, 2000, pág. 58, grifo nosso)
O neoliberalismo e o planejamento regional e urbano
O neoliberalismo trouxe grandes mudanças no campo das políticas de desenvolvimento regional, tanto nos países do centro quanto da periferia capitalista. A teoria dos pólos perdeu sua força, principalmente devido à crise da siderurgia e da indústria pesada presentes na política de pólos industriais dos países centrais. As políticas de desenvolvimento territorial fragilizaram-se com o enfraquecimento da ação estatal (Tavares, 2002, pág. 240). No caso brasileiro, as políticas neoliberais trouxeram
122
CF. Doria (2013).
mudanças bastante profundas no planejamento territorial, em recente entrevista Diniz123 (2012) contribui com a seguinte afirmação:
O Brasil aprendeu a fazer planejamento, a partir da Segunda Guerra Mundial, criando uma burocracia pública no sentido positivo, weberiana, muito qualificada e especializada. Depois houve um diagnóstico crítico de que o planejamento era muito autoritário, por ser do regime ditatorial. Em seguida veio a onda neoliberal, segundo a qual o Estado era maléfico. O governo
Collor afastou a boa burocracia124, que no momento está sendo recriada. A máquina pública está sendo modernizada após décadas, pré-condição para o planejamento regional. Além disso, houve as privatizações, que em determinado momento foram exageradas. Diniz (2012)
No Brasil a abertura política ocorrida na segunda metade da década de 1980, trouxe consigo diversos desafios ao Estado, diferentemente do período de “bonança” vivido até o início da década, a hiperinflação e o pagamento dos serviços da dívida, impostos pelos credores internacionais do FMI, sacrificaram enormemente a sociedade. Assim rompeu-se o ciclo desenvolvimentista estabelecido nas décadas anteriores, que como resgatamos no capítulo anterior, o Estado centralizava e conduzia o planejamento para o fornecimento da infraestrutura necessária ao desenvolvimento urbano industrial.
A escassez de financiamento externo atrelado à recessão econômica enfraqueceu o poder do Estado em continuar a prover a infraestrutura necessária para dar suporte à expansão capitalista, por outro lado, as grandes corporações passaram a negociar diretamente com frações locais e regionais, muito embora os interesses pudessem ser divergentes dos objetivos nacionais, o desejo de integração do espaço de lugares ao espaço de fluxos ensejou o discurso do desenvolvimento regional e estruturas regionais diretamente articuladas à economia mundo esse processo associado a modernização industrial e agrícola transformou a morfologia social e econômica do território nacional. (Cf. BECKER e EGLER, 1992, pág. 225; BECKER, 1991)
No Estado supostamente “falido” os diversos planos governamentais assumiram um caráter puramente de ajuste econômico, tratava-se grosso modo, de pacotes que objetivam em primeiro lugar conter a inflação “galopante”, este era o maior desafio
123 Entrevista concedida a Luiz Antônio Cintra, Carta Capital, publicada em 12/07/2012. Disponível em:
http://cadernoensaios.wordpress.com/tag/clelio-campolina-diniz/. Acesso: setembro de 2013.
124Para Francisco de Oliveira além de afastar a boa burocracia o ex-presidente Collor é considerado
“vingador de marajás” e destruidor das organizações populares.
estrutural a ser superado. Chegou-se a atingir em meados da década de 1980125mais de 300% de inflação anual. Neste cenário os pacotes anti-inflação eram imediatistas e visavam responder a convulsões econômicas políticas externas e o controle político interno.
Desde o Plano Cruzado (1986), implementado no governo José Sarney, ocorreu uma sucessão de planos malogrados: Plano Bresser (1987), Plano Verão (1989), os planos combinavam congelamento cambial, congelamento de preços e salários além de correção monetária. Cabe destacar, que nesse período as obras de infraestrutura consideradas importantes foram canceladas, por se avaliar que elas seriam prejudiciais ao combate à inflação. A luta contra o “monstro da inflação” entrou na década de 1990, o governo Collor instituiu o “traumático” Plano Collor I que como principal medida confiscou a caderneta de poupança, que já havia sido bastante penalizada nos planos
anteriores126 corrigidas por índices abaixo da inflação.
Como resgatamos no capítulo anterior desta tese, o Estado brasileiro de inspiração Keynesiana, intervencionista, instituído no início do período do governo de Vargas até o fim do governo militar, trouxe avanços associados: a legislação dos direitos trabalhistas assegurados pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), principalmente previdenciários e sociais; a organização do sistema bancário; a criação de toda a infraestrutura de energia, transporte e telecomunicações; ao fortalecimento das indústrias de base. A conjugação desses fatores, viabilizado pelos investimentos públicos e privados na produção do espaço urbano e regional (Monte-Mor, 2006, pág. 73), deu-se como expressão de um movimento indispensável ao desenvolvimento urbano industrial, e, para assegurar a reprodução das condições gerais de produção.
Quando nos referimos ao Estado brasileiro de inspiração keynesiana retomamos as idéias expressas por Poulantzas, que caracterizou o Estado Keynesiano de bem-estar nacional como aquele que em economias fechadas (como no caso brasileiro) procurava assegurar o pleno emprego através da criação da infraestrutura, da política monetária, e que socialmente buscava fortalecer o consumo coletivo como forma de assegurar o crescimento do circuito de produção fordista, através da generalização do consumo de
125
Sobre o caráter da crise econômica e seus desdobramentos políticos (cf. Becker e Egler, 1992, pág. 235-246)
126 Estima-se que as perdas dos poupadores devido ao Plano Verão tenha alcançado cerca de setenta
bilhões de reais. Esta informação está disponível em:
http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/18042/39048.shtml.shtml
massa, que possibilitaria a socialização do crescimento econômico entre os cidadãos e consequentemente aumentaria a demanda doméstica na produção econômica nacional. (JESSOP, 1997, pág. 29)
Além disso, o Estado brasileiro privilegiou, entre as décadas de 1960 e 1980, o desenvolvimento regional, por meio do planejamento econômico, através da criação de importantes superintendências instituídas com vistas à correção das graves disparidades regionais, apoiadas no protagonismo estatal, através do aperfeiçoamento da gestão e racionalização do setor público dirigido pela tecnocracia (Ianni, 1996; Mantega, 1984 pág. 43). O Estado protagonizava o planejamento regional, amparado nas proposições
cepalinas (Mantega, 1984) de descentralização regional que cresceram
exponencialmente durante a década de 1970 até o final da década de 1980 quando teve sua experiência declinada (Ruiz, 2006, pág. 162).
De igual forma, o Estado brasileiro, como forma de amenizar a explosão