Seguindo o levantamento dos elementos que conferem efeito de historicidade ao texto biográfico, remeto ao ato de elaborar conceitos e explicitá-los na narrativa biográfica. Este procedimento integrante do conjunto de práticas que compõem o ofício do historiador é empregado com vistas a organizar a realidade histórica, tornando-a compreensível aos leitores.
Em EJSV, este recurso é pouco utilizado. O historiador, por vezes, incorpora em sua narrativa conceitos elaborados por outros como, por exemplo, “década infame”. Segundo Pigna, o período recebeu essa qualificação pelo jornalista José Luis Torres, de quem cita as palavras a seguir:
[...] infamaron esa década, con la más total y absoluta falta de escrúpulos políticos y morales. […] No importaban los preceptos constitucionales. Se tomaron las medidas necessárias para burlarlos, estableciendo la norma de investir con la representación popular precisamente a los ciudadanos a quienes el pueblo negaba su sufragio. Éstos con frecuencia eran elegidos entre los más venales servidores de las satrapías dominantes, y los sátrapas mismos se sentaban en las bancas parlamentares para defender sus propios negocios, vigilando al mismo tiempo la lealtad de sus adictos. (EJSV, p. 37)195
Pigna, ao narrar a concentração de multidões de trabalhadores, na Praça de Maio, em 17 de outubro de 1945, para reivindicar a libertação de Perón, aclamando-o, quando solto, por fim, naquele que seria o primeiro 17 de outubro da história peronista, recorre à expressão “aluvião zoológico”, indicando que foi forjada anos depois do acontecimento pelo dirigente radical Ernesto Sanmartino (EJSV, p. 109). O historiador define o poder do qual fez uso Evita como “innovador y disruptivo”,196 que não lhe foi dado, pura e simplesmente, por Perón, mas
que por ela foi construído (EJSV, p. 9). Em relação ao peronismo, Eva Perón é designada como “uno de los símbolos más claros del movimento” (EJSV, p. 11).197
Pigna tece críticas à história social, herdeira da história liberal clássica, pois se revela indulgente com o modelo agroexportador excludente vigente na Argentina antes do peronismo, no entanto crítica em relação ao peronismo de modo geral e, em particular, de Eva
195Tradução nossa: “[…] infamaram essa década com a mais total e absoluta falta de escrúpulos políticos e morais. [...] Não importavam os preceitos constitucionais. Tomaram as medidas necessárias para burlá-los, estabelecendo a norma de investir com a representação popular precisamente os cidadãos a quem o povo negava seu voto. Estes com frequência eram eleitos entre os mais venais servidores das satrapias dominantes, e os sátrapas mesmos se sentavam nas bancas parlamentares para defender seus próprios negócios, vigiando ao
mesmo tempo a lealdade de seus agregados”
196Tradução nossa: “inovador e disruptivo”.
Perón. O historiador posiciona-se na corrente historiográfica mais recente que busca tratar Evita como um sujeito político. Inscreve sua produção junto a obras que reconhecem, elogiosamente ou não, o protagonismo político de Evita, de modo complementar a Perón ou até mesmo em concorrência com ele (EJSV, p. 10).
Integra a conceitualização operada por Pigna a definição de Evita como um mito, apresenta as razões para tal:198
Evita, sin dudas, reúne todas las condiciones para ser un mito: llegó a lo más alto partiendo desde muy abajo, murió joven y en el esplendor de una vida donde la historia se tiñe con el rosa y el negro de las respectivas leyendas. Despertó hacia ella todos los sentimientos menos uno: la indiferencia. Para unos era el “hada rubia”, la
“abanderada de los humildes”, la “compañera Evita”; para otros, “esa mujer”, “la Eva”. (EJSV, p. 10)199
Um conceito de Pigna define “uma nova forma de fazer política”: a fusão do personalismo do chefe com a mobilização social (EJSV, p. 122). Define ainda o Estado peronista como “Estado benfeitor”:
El estado peronista puede incluirse dentro de la corriente política mundial de
posguerra denominada del “Estado benefactor”, que integró a los sectores populares
al consumo y a ciertos niveles de bienestar, bajando de esta forma la conflictividad social. (EJSV, p. 185)200
A Revolução Libertadora é definida pelo historiador como golpe de Estado e o governo que se estabelece na ocasião como antiperonista: “Luego del golpe de Estado de 1955, cuando el gobierno antiperonista incautó los bienes de la Fundación [...]” (EJSV, p. 211).201 O recurso da formulação de novos conceitos é pouco utilizado, porque Pigna, em sua metodologia, parece preferir o recurso da citação de outros historiadores e biógrafos, apresentando e discutindo várias versões sobre os eventos que narra, como discutiremos a seguir.
198 O aspecto relacionado ao mito é abordado no capítulo “Margens confluentes: o imaginário evitista” (p. 147) 199Tradução nossa: “Evita, sem dúvida, reúne todas as condições para ser um mito: chegou ao mais alto partindo de muito baixo, morreu jovem e no esplendor de uma vida onde a história se tinge com o rosa e o negro das
respectivas lendas. Despertou para si todos os sentimentos menos um: a indiferença. Para uns, era a ‘fada loura’, a ‘portavoz dos humildes’, a ‘companheira Evita’; para outros, ‘essa mulher’, ‘a Eva’”.
200Tradução nossa: “O estado peronista pode ser incluído dentro da corrente política mundial do pós-guerra
denominada de “Estado benfeitor”, que integrou os setores populares ao consumo e a certos níveis de bem-estar,
diminuindo desta forma a conflitividade social”.
201Tradução nossa: “Logo depois do golpe de Estado de 1955, quando o governo antiperonista confiscou os bens