O efeito de historicidade recebe um grande aporte com a inscrição do nome próprio do historiador autor do texto biográfico. Sendo este autor conhecido midiaticamente, como é o caso de Felipe Pigna, fato já mencionado na introdução deste trabalho, o reconhecimento não apenas do seu estilo, mas do gênero de obra que escreve já se manifesta. É o historiador reconhecido pelo leitor que sabe que tem em mãos uma obra de história, portanto não ficcional, e sim acadêmica ou científica, que incorpora em seu discurso os documentos nos quais se fundamenta, para atestar sua veracidade.
Sobre as características de uma obra e sua autoria, Michel Foucault indaga:
O que é uma obra? O que é pois essa curiosa unidade que se designa com o nome obra? De quais elementos ela se compõe? Uma obra não é aquilo que é escrito por aquele que é um autor? Vemos as dificuldades surgirem. Se um indivíduo não fosse um autor, será que se poderia dizer que o que ele escreveu, ou disse, o que ele deixou em seus papéis, o que se pode relatar de suas exposições poderia ser
chamado de “obra”? (FOUCAULT, 2001, p. 269)
Não são questões de fácil resolução, no entanto quero refletir um pouco sobre essas indagações: ser reconhecido como autor implicaria em já ter escrito antes. Ora, sendo assim,
214 Tradução nossa: “Vários dados que figuram na certidão não eram certos: Juan Perón era viúvo, e não
‘solteiro’; Eva alterou sua idade, lugar de nascimento e, formalmente, seus dados de filiação [...], e tanto ela
como seu irmão e testemunha, Juan Duarte, declararam um endereço de conveniência e não o real. Nenhuma dessas falsidades invalidava o consentimento, a identificação ou a capacidade para celebrar o casamento”.
não haveria um discurso inaugural. Penso que a qualidade da obra escrita, apesar de ser a primeira, cria o imaginário a respeito do autor e suas outras obras a partir desta enfrentarão uma expectativa que pode ser confirmada ou não.
A assinatura do autor reveste-se de grande importância. Afirma Foucault (2010, p. 272) que “o nome do autor é um nome próprio, apresenta os mesmos problemas que ele”. Entretanto não é um nome próprio como outro qualquer. É um nome que carrega as marcas de um estilo de escrita, além dos gêneros nos quais essa escrita transita. Continua Foucault (2001, p. 273):
um nome de autor não é simplesmente um elemento em um discurso (que pode ser sujeito ou complemento, que pode ser substituído por um pronome, etc.); ele exerce um certo papel em relação ao discurso: assegura uma função classificatória, tal nome permite reagrupar um certo número de textos, delimitá-los, deles excluir alguns, opô-los a outros. Por outro lado, ele relaciona os textos entre si.
O nome do autor, portanto, caracteriza um modo de ser do discurso. Afirma Foucault que o fato de haver um nome de autor indica que o texto é distinto do cotidiano, é “uma palavra que deve ser recebida de uma certa maneira e que deve, em uma dada cultura, receber um certo status” (FOUCAULT, 2001, p. 273).
O status que a biografia assinada por Felipe Pigna, historiador, recebe é o de texto historiográfico. Cabe ressaltar que qualquer texto assinado pelo autor mencionado receberia esse status numa primeira impressão, porém o que confirma o status é a leitura. É possível que este autor queira, hipoteticamente falando, escrever um romance. Seus leitores, se não forem avisados de que a obra se trata de um romance, precisarão reconhecer as marcas do gênero romance para não serem iludidos pensando tratar-se de um texto historiográfico, gênero mais comum e frequente ao autor até o momento.
De modo arguto, Foucault conclui que a função-autor é “característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade” (FOUCAULT, 2001, p. 274). Dito de outra forma: depende do reconhecimento dos tipos relativamente estáveis de um conjunto de enunciados, ou seja, do gênero do discurso, segundo Bakhtin (2003). No caso de um autor acadêmico, mas também conhecido popularmente nas mídias, como é o caso de Pigna, o reconhecimento das marcas do discurso historiográfico torna-se mais evidente.
Assim como na autobiografia há o pacto autobiográfico, na biografia também se estabelece um pacto de leitura. Em EJSV, o autor, através da introdução que funciona como um prefácio, estabelece as bases sobre as quais se assenta o pacto de leitura acordado com o leitor: explicita seu objetivo; identifica em que ponto estão os debates sobre o tema e
esclarece sua posição. Seu objetivo é contar aos leitores “lo más detallada y analíticamente posible la vida de una mujer que se convirtió en una de las figuras célebres de la humanidad” (EJSV, p. 9).215 Com esta declaração inicial, o autor qualifica sua abordagem de pesquisador capaz de apresentar detalhes e análises críticas. Cabe lembrar que os detalhes conferem ao texto efeito de realidade, como afirmou Barthes (1972, p. 43). Cada capítulo contém dezenas de notas de rodapé destinadas a detalhar afirmações, informações e fornecer referências bibliográficas.
O historiador identifica que, comumente, Evita é tratada de modo folclórico, como o são as tradições e os mitos populares, mas sua abordagem difere desta ao tratar do que Evita realmente foi: um sujeito político que “compartió con Perón el liderazgo carismático del peronismo, demostró una gran capacidad de conducción y construcción política, llegando a manejar dos de las tres ramas del movimento: la feminina y la sindical” (EJSV, p. 9). Além disso, destaca Pigna, o trabalho social de Evita forneceu-lhe um lugar no imaginário popular.
Como já mencionado no subcapítulo sobre o debate das fontes, nesta introdução, Pigna faz críticas à história social por estudar o peronismo como um “fenômeno”, sem buscar entendê-lo historicamente nem compreender sua complexidade como um movimento que mudou a história e tem implicações na contemporaneidade: “Se parte en esos textos de una ajenidad aparentemente dada por la pertinencia al campo intelectual y a partir de allí se procede a juzgar aquel processo como una anormalidad institucional y social” (EJSV, p. 9).216
É, portanto, uma história indulgente com as etapas anteriores ao peronismo e sua economia excludente e crítica feroz ao peronismo e à Evita. Segundo Pigna, nos últimos anos surge uma nova abordagem sobre Evita que busca apresentar sua atuação política e seu protagonismo, e é nessa corrente que insere a biografia que escreveu (EJSV, p. 10).
Com isso o historiador evidencia sua posição, e o leitor pode decidir se aceita ou não o pacto como proposto. O leitor que reconheceu o nome do autor e, a partir disso, criou expectativas relacionadas à leitura que faria quanto ao seu gênero (biografia histórica) e ao estilo (a marca pessoal do autor). Resumindo, a autoria do historiador, um elemento paratextual, soma-se aos procedimentos intratextuais – cronologização, contextualização, conceitualização, discussão das fontes e versões – para criar o efeito de historicidade.
215Tradução nossa: “o mais detalhada e analiticamente possível a vida de uma mulher que se converteu em uma
das figuras célebres da humanidade”.
216Tradução nossa: “Parte-se nesses textos de uma alheiabilidade aparentemente dada pela pertença ao campo