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Merkez-Çevre Kuramında Modernleşme ve Muhafazakârlık

Como já mencionado, parte do ofício do historiador consiste em apresentar as fontes, os documentos nos quais se baseia ou dos quais discorda, bem como as versões sobre os acontecimentos narrados, realizando assim sua discussão. Isto é próprio do discurso histórico, que tem como pretensão ser um discurso verificável, portanto precisa apresentar os documentos que atestam a veracidade do narrado. O leitor pode aceitar tal informação, assumindo o pacto de leitura, ou pode, se quiser, inventariar e recorrer às fontes para comprovar o que foi lido. Sendo assim, a discussão de fontes e versões constitui um dos elementos criadores do efeito de historicidade em EJSV .

Pigna descarta a hipótese de Eva ter partido de Junín para Buenos Aires com o cantor Agustín Magaldi, chamando tal possibilidade de lenda:

La leyenda dice que Evita partió de Junín hacia Buenos Aires a principios de 1935 acompañada por Agustín Magaldi. Pero lo cierto es que el cantor, que había actuado en la ciudad en 1929 con su compañero de dúo, Pedro Noda, sólo volvió a hacerlo en diciembre de 1936, cuando Eva llevaba más de un año de radicación en Buenos Aires. (EJSV, p. 32)202

No entanto, ao apresentar uma carta de Eva dirigida à sua mãe, Joana Ibarguren, diz que ela partiu “aparentemente sola, como sugiere esta carta” (EJSV, p. 33).203 O advérbio

“aparentemente” e o verbo “sugere” indicam a modalização do discurso de forma a não se comprometer evitando-se a afirmação contundente que seria: “ela partiu só, como afirma esta carta”. Mais adiante na narrativa, Pigna retorna de modo mais assertivo à questão da ida de Eva para Buenos Aires com Magaldi, afirmando que a jovem atriz iniciante buscava espaço de divulgação nas revistas e que “tiempo después comenzó a construirse la versión falsa de que había venido a Buenos Aires con Agustín Magaldi” (EJSV, p. 37).204 Cita a declaração de Eduardo del Castillo, que foi redator na Subsecretaria de Informações da Presidência da Nação, constante na obra La vida de Eva Perón. Testimonios para su historia, de Otelo Borroni e Roberto Vacca, publicado em 1970. Segundo este relato, Magaldi limitou-se a

202Tradução nossa: “A lenda diz que Evita partiu de Junín para Buenos Aires no início de 1935 acompanhada por Agustín Magaldi. Mas o certo é que o cantor, que havia atuado na cidade em 1929 com seu companheiro de dueto, Pedro Noda, só voltou a fazê-lo em dezembro de 1936, quando Evita já estava há mais de um ano

radicada em Buenos Aires”.

203Tradução nossa: “aparentemente sozinha, como sugere esta carta”.

204Tradução nossa: “tempo depois começou a se construir a versão falsa de que havia vindo para Buenos Aires

conectar Eva com uma prima da atriz Maruja Gil Quesada, que a ajudou, alojando-a em seu apartamento (EJSV, p. 37).

Sobre o encontro de Eva com Perón, no evento beneficente no Luna Park, o historiador apresenta e discute várias versões:

Quién sirvió de nexo para que Eva ocupase uno de esos asientos es ya un tema mítico, con versiones para todos los gustos: desde el autor de tangos y guionista cinematográfico Homero Manzi – según les contó a Borroni y Vacca su compañero del grupo FORJA, Arturo Jauretche – hasta quien luego sería el popular animador de televisión, Roberto Galán, pasando por Imbert y el teniente coronel Domingo

Mercante, mano derecha y “corazón” de Perón. (EJSV, p. 75)205

Segundo Roberto Galán, ele teria apresentado Eva a Perón (EJSV, p. 75). Outra versão é a do filho de Domingo Mercante, segundo a qual seu pai foi quem os apresentou (EJSV, p. 76). Após apresentar as duas versões que extraiu da obra Eva Perón la biografia (1995), de Alicia Dujovne Ortiz, Pigna não se compromete em escolher uma delas e afirma que: “Lo certo es que esa noche, Evita y Rita Molina ocuparon esos asientos vacíos al lado de Perón e Imbert” (EJSV, p. 76).206

O autor apresenta ainda as versões de Perón e Evita. Comenta que a versão de Perón é diferente das anteriores embora as combine. A principal diferença é que Perón menciona que prestou atenção em Eva antes do evento beneficente, durante uma reunião com vários artistas para organização do show. Uma vez mais, Pigna não se compromete com a aceitação dessa versão; chega a lançar dúvidas, ao afirmar que: “Es imposible saber qué parte de ese relato es histórico y cuál integra el mito, pero por eso mismo vale la pena transcribirlo, tratándose de Evita” (EJSV, p. 76).207 A versão de Perón foi extraída por Pigna da obra

Vida íntima de Perón. La historia privada según su biógrafo personal (2011), de Enrique Pavón Pereyra.

Por fim, Pigna cita Eva Perón, em LRMV(1951) e no testemunho a uma amiga: “Eva

se limitaría a decir que fue su “día maravilloso”, el que cambia una vida, pero a una amiga le confió cómo fue aquella noche” (EJSV, p. 78).208 O depoimento dessa amiga, que Pigna não

205Tradução nossa: “Quem serviu de nexo para que Eva ocupasse um desses assentos já é um tema mítico, com versões para todos os gostos: desde o autor de tangos e roteirista cinematográfico Homero Manzi – segundo contou a Borroni e Vacca seu companheiro do grupo FORJA, Arturo Jauretche – até quem logo seria o popular animador de televisão, Roberto Galán, passando por Imbert e o tenente coronel Domingo Mercante, mão direita

e ‘coração’ de Perón.”

206Tradução nossa: “O certo é que essa noite, Evita e Rita Molina ocuparam esses assentos vazios ao lado de

Perón e Imbert.”

207Tradução nossa: “É impossível saber que parte dsse relato é histórico e qual inegra o mito, mas por isso mesmo vale a pena transcrevê-lo, tratando-se de Evita”.

208Tradução nossa: “Eva limitaría-se a dizer que foi seu ‘dia maravilhoso’, o que muda uma vida, mas a uma

identifica, consta em Evita íntima. Los sueños, las alegrías, el sufrimiento de la mujer más poderosa del mundo (1997), de Vera Pichel. Segundo tal depoimento, sentar-se ao lado de Perón foi iniciativa de Eva que aproveitou a oportunidade quando viu o assento vazio ao seu lado. Sentou-se, logo começaram a conversar, e acabado o evento, foram embora juntos (EJSV, p. 79).

A disposição dos vários testemunhos na biografia feita pelo autor, que deixou o de Evita para o final parece indicar que esta seria a versão que traz a realidade dos fatos. No entanto, o fato de não haver identificado quem fala, ou seja, quem foi a amiga à qual Eva confiou o segredo, indica incerteza quanto a essa versão. Entretanto, essa parece encaixar-se melhor na representação que Pigna faz de Eva Perón como ser autônomo e consciente de seu magnetismo e poder, que mais adiante irão se manifestar na política. Destaco o quanto o historiador é detalhista ao mencionar os relatos, os nomes dos produtores desses testemunhos e dos biógrafos que os registraram. Isto confere à narrativa efeito de historicidade.

Sobre a formação política de Eva, Pigna afirma que vários testemunhos mencionam sua presença nas reuniões que Perón fazia com dirigentes políticos, conservadores e radicais em sua residência. Segundo o historiador:

En esas reuniones, Eva pudo familiarizarse con conceptos y términos políticos.

Perón, que hacia el final de su vida insistirá en que Evita era “obra” suya, recordará que por aquellos días “me seguía como una sombra, me escuchaba atentamente,

asimilaba mis ideas, las elaboraba en su cerebro hirviente y agilísimo y seguía mis directivas con una precisión excepcional. (EJSV, p. 89)209

Outra versão mencionada por Pigna é a de que Evita já desenvolvia atividade sindical “como socia fundadora de la Asociación Radial Argentina, creada en agosto de 1943 y reconocida oficialmente el 6 de mayo de 1944 en un acto encabezado por el propio Perón.” (EJSV, p. 89).210

Um evento importante para o peronismo é a libertação de Perón no dia 17 de outubro de 1945. Embora tenha se criado a ideia de que Evita teve grande participação para que Perón fosse solto da prisão, Pigna afirma categoricamente:

Evita estuvo lejos de tener un rol protagónico en aquellas jornadas que culminarían el 17 de octubre: no era una figura conocida en el ámbito general y faltaban un par de años de intensa labor para que su palavra tuviera el valor de una orden entre los

“descamisados”. Pero nadie podrá negarle su tesón y que hizo lo que estuvo a su

209Tradução nossa: “Nessas reuniões, Eva pode familiarizar-se com conceitos e termos políticos. Perón, que até o final de sua vida insistirá que Evita era ‘obra’ sua, recordará que por aqueles dias ‘me seguia como uma sombra, me escutava atentamente, assimilava minhas ideias, elaborava-as em seu cérebro fervente e agilíssimo e seguia minhas diretrizes com uma precisão excepcional”.

210 Tradução nossa: “como sócia fundadora da Associação Radial Argentina, criada em agosto de 1943 e

alcance para lograr la libertad de su compañero. Andando el tiempo y sobre todo después de su muerte, se construirá la imagen de una Eva que iba de un lado a otro para arengar a los trabajadores. (EJSV, p. 111)211

Pigna menciona o relato de uma ativista trabalhadora na indústria têxtil, Mariana Tedesco, que afirma a participação de Eva; o testemunho de um dirigente metalúrgico trotskista, Ángel Perelman, segundo o qual Eva percorreu as ruas de carro difundindo a ideia da greve geral; e a biografia escrita por Vera Pichel que a vê como “propulsora da marcha”. Entretanto recorre ao relato da própria Eva Perón para fundamentar sua afirmação de que não houve tal protagonismo. A afirmação de Eva é que o povo e Perón protagonizaram o 17 de outubro:

no vamos a engañarnos, si no hubiera sido por las fuerzas leales y por el pueblo argentino, no habríamos podido hacer nada por el general Perón sino debatirnos en

la impotencia. […] ¡Nadie dio el toque de salida! ¡El pueblo salió sólo! No fue la

señora de Perón. Tampoco fue la Confederación General del Trabajo. ¡Fueron los obreros y los sindicatos todos los que por sí mismos salieron a la calle! La Confederación General del Trabajo, la señora de Perón, todos nosotros lo deseábamos. ¡Pero fue una eclosión popular! Fue el pueblo el que se dio cita sin que nadie se lo hubiera indicado. (EJSV, p. 113)212

Pigna esclarece, em nota de rodapé, que esse relato de Evita consta na obra Historia del peronismo, de Eva Perón, fruto das transcrições dos cursos que deu na Escola Superior Peronista, afirmando que “en su momento tenía cierto valor de ‘versión oficial’ de los hechos” (EJSV, p. 113).213 O historiador parece assim justificar sua escolha dessa versão sem

questionar sua produção.

Sobre o casamento de Perón e Eva, o autor menciona a cerimônia civil em Junín, em 22 de outubro de 1945, e a religiosa em La Plata, em 10 de dezembro do mesmo ano. O historiador transcreve a certidão de casamento registrada no cartório em Junín e destaca:

Varios datos que figuran en el acta no eran ciertos: Juan Perón era viudo, y no

‘soltero’; Eva alteró su edad, lugar de nacimiento y, formalmente, sus datos de filiación […], y tanto ella como su hermano y testigo, Juan Duarte, declaraban un

domicilio de conveniencia y no el real. Ninguna de esas falsedades invalidaba el

211Tradução nossa: “Evita esteve longe de ter um rol protagônico naquelas jornadas que culminariam no 17 de outubro: não era uma figura conhecida no âmbito geral e faltavam ainda um par de anos de intenso trabalho para

sua palavra tivesse o valor de uma ordem entre os ‘descamisados’. Mas ninguém poderá negar-lhe seu afinco e

que fez o que esteve ao seu alcance para conseguir a liberdade de seu companheiro. Avançando o tempo e sobretudo depois de sua morte, se construirá a imagem de uma Eva que ia de um lado a outro para atiçar os

trabalhadores”.

212 Tradução nossa: “não vamos nos engañar, si não fosse pelas forças leais e pelo povo argentino, não teríamos podido fazer nada pelo general Perón a não ser debater-nos na impotência. [...] Ninguém deu o toque de saída! O povo saiu sozinho! Não foi a senhora de Perón. Tampouco foi a Confederação Geral do Trabalho. Foram os trabalhadores e os sindicatos todos os que por si mesmos saíram às ruas! A Confederação Geral do Trabalho, a senhora de Perón, todos nós o desejávamos. Mas foi uma eclosão popular! Foi o povo que marcou o encontro

sem que ninguém o tivesse indicado”.

consentimiento, la identificación o la capacidad para celebrar el matrimonio. (EJSV, p. 115)214

Documentos de diversos tipos compõem o conjunto consultado por Pigna para escrever sua biografia de Eva Perón. Na relação da bibliografia, seção constante ao final (EJSV, p. 371-378), apresenta a relação das obras consultadas divididas em: bibliografia específica (autobiografias e biografias de Evita); bibliografia geral (sobre o peronismo, a política e a economia); publicações periódicas (artigos sobre Evita e a história argentina); publicações digitais (sobre Evita e alguns de seus discursos); documentários (sobre Evita); entrevistas realizadas pelo autor (a três pessoas) e coleções de jornais e revistas (cita apenas as nacionais, não registra aqui as internacionais Times e World Report, por ele citadas na biografia (EJSV, p. 155, 156)). A citação, ao longo da biografia, desse vasto conjunto de documentos confere autoridade ao discurso do historiador, configurando-se o efeito de historicidade. O leitor vê-se diante de um autor que maneja um amplo arsenal de informações e autores nos quais afirma basear seu relato biográfico.