Na disputa entre globalização hegemônica e globalização contra-hegemônica, são identificados dois polos de condução, um para cada processo. Por um lado, um sistema difuso, ou nebuloso nos termos de Cox, de Governança Global tenta manter a hegemonia da globalização neoliberal que no último período viveu uma de suas maiores crises (2001-2008), detonada pelo excarcebado processo de financeirização da economia global. A crise econômica apareceu como mais uma faceta de uma crise plural que incluiu as crises de produção, alimentar, ambiental, migratória, energética, militar. Por outro lado, existe uma emergente sociedade civil global que tenta dirigir uma força contra-hegemônica em aliança com Estados contra-hegemônicos no terreno valorativo, da construção cultural de novos pilares civilizatórios e de um novo apelo consensual hegemônico, mas também de integração sul-sul e do multilateralismo emancipacionista.
Governança global é um conceito amplamente utilizado para identificar as formas de regulação em escala global que tem se desenhado para além da engenharia institucional convencional do Estado nacional e das relações internacionais. De forma bastante ilustrativa, Robert Cox (2005, p. 14) chama de “nebulosa” a aparência dessa “governança global”. Esta “nebulosa” seria constituída de uma elite agregada através de uma rede frouxa, com influentes agências e ideias comuns, cumprindo coletivamente a função de um governo. Em outras palavras, não existiria um processo formal de tomadas de decisões. Existiria, isto sim, o estabelecimento de um sistema complexo de redes inter-relacionadas com uma ideologia econômica comum, que injetaria seus resultados consensuais dentro de processos nacionais de tomada de decisões. Esta “nebulosa” seria, ao mesmo tempo, externa e interna aos Estados, capaz de moldar políticas estatais e estar largamente desobstruída de controle democrático e sistema de prestação de contas. O Fórum Econômico Mundial de Davos é um dos pontos de encontro desta “nebulosa”, que precisa de espaços como este para consolidar sua agenda.
Para decifrar as características da governança global estabelecida, é preciso compreender que a lógica da segmentação estatal apontada pelo modelo vestifaliano está em crise (FRASER, 2005; PUREZA, 2001). Esta lógica está ameaçada por um processo de internacionalização dos mercados que colocou para o capitalismo a necessidade de dar respostas regulatórias para assegurar o seu funcionamento e continuidade, mesmo que esta regulação tenha vindo em forma de desregulamentação e flexibilização neoliberal. O século XX já dava algumas pistas desta mudança por ter sido marcado por uma forte alteração no sistema Estado-Estado e ter presenciado o surgimento de várias organizações internacionais, tais como a Organização das Nações Unidas – ONU, o Banco Mundial - BM, o Fundo Monetário Internacional - FMI, a Organização Mundial do Comércio e outras. Foi o século que iniciou a governança partilhada através de estruturas que não são apenas somatórios de Estados. Em última instância, no entanto, têm sido os Estados mais fortes os definidores do rumo das organizações internacionais.
Alguns autores (COX, 1997; SEGRERA, 2003) consideram que a estrutura de poder que dirige o mundo através da globalização está concentrada no G7, no Conselho de Segurança da ONU e no Fórum Econômico Mundial de Davos44. Esta estrutura configura uma governança global que surge em um contexto no qual o governo dos Estados nacionais é cada vez limitado, seja pela crise dos sistemas representativos, pressão das redes internacionais ou
44 Se desintegrada esta estrutura apareceria assim: 1. megacorporações; 2. governos dos países centrais; 3.
instituições surgidas em 1944 (FMI, Banco Mundial) e OMC; 4. empresas de comunicação de massa: imprensa, televisão e rádio; 5. economistas neoliberais (SEGRERA, 2003, p. 124).
crescente desvalorização do seu papel reforçada pelo ideário neoliberal. Além do que, novas tecnologias de informação invadem e retiram o sentido de um governo pleno e fechado dentro de um espaço territorial delimitado, com maior vulnerabilidade frente ao ambiente internacional. Percebe-se ainda a perda da capacidade de resposta de organizações internacionais de meados do século passado, tais como a ONU. Assim como, os efeitos da polarização social produzida pela globalização neoliberal gerando uma espécie de “apartheid global” (PUREZA, 2001).
A governança, em termos multilaterais, é algo almejado pela globalização contra- hegemônica, pois seria certamente um avanço frente ao unilateralismo que marcou a Era Bush do governo norte-americano. A expansão das possibilidades de deliberação democrática entre as nações certamente é algo essencial para resgatar o papel político dos países do sul global. Estes países também precisam do suporte de bens coletivos mundiais, como uma agenda de paz e o controle do meio ambiente, o que requer a democratização e não o enfraquecimento de uma governança global.
Para Cox, esta democratização requer o estabelecimento de um mundo multi- civilizacional, no qual uma organização mundial deveria buscar os princípios baseados no senso comum e na subjetividade de cada uma das civilizações existentes. Tal experiência só seria possível através do aprendizado na reconciliação de conflitos. Para tal duas condições seriam indispensáveis: a emergência de corpo de pessoas que poderiam atuar como embaixadores da paz e da conciliação entre as civilizações e o desenvolvimento de sociedades civis capazes de expressar os sentimentos e objetivos do povo que a compõe (COX, 2000, 231). Para o autor, a sociedade civil é a força que desenvolve o conteúdo subjetivo das civilizações, e o grupo de “embaixadores da paz”, que assume a tarefa da reconciliação entre os diferentes, deve estar por dentro destas dinâmicas civilizacionais. Esta concepção de estrutura para a ordem mundial está longe de uma proposta institucionalizada de governança global, segundo Cox (Idem).
A estrutura proposta por Cox prevê um corpo central frágil baseado em princípios comuns em um mundo fragmentado entre povos guiados por diferentes práticas sociais e objetivos. Tal estrutura pluralista com um centro frágil em um mundo fragmentado tem precedentes na história mundial, segundo o autor, como na Europa medieval e em alguns períodos da China. Tal estrutura não substituiria o sistema de Estado-nação ou a economia internacional, mas forneceria os princípios sob os quais o sistema de Estado e as relações econômicas poderiam ser regulados. Estes princípios são produtos das lutas sociais que ocorrem no interior da sociedade civil. Está aí o motivo, segundo Cox, porque observamos
com atenção o desenvolvimento da sociedade civil como a chave para o entendimento das mudanças civilizacionais. Alguns princípios que são elencados pelo autor: reconhecimento mútuo das diferenças; assegurar a existência da biosfera da qual todas as formas de vida dependem; evitar a violência no tratamento dos conflitos e especialmente o uso das armas de destruição em massa; suporte mútuo na promoção da equidade social; supressão das atividades das organizações criminosas que se transformam em poderes políticos e econômicos ocultos; entendimento consensual dos direitos humanos básicos (COX, 2000).
O interessante é que estes temas são os basilares do florescimento de uma sociedade civil global no final do século passado e princípio do atual nas atividades paralelas às reuniões temáticas da ONU, nas manifestações durante os encontros da OMC ou do Fórum Econômico Mundial e no desenvolvimento do Fórum Social Mundial. Esta sociedade civil exerce a mesma função em nível mundial da sociedade civil gramsciana que reflete na superestrutura mundial os embates pelos valores hegemônicos entre distintos campos, e é o berço de um novo arcabouço valorativo e cultural no processo de contra-hegemonia. Um estudo realizado por Mario Pianta, por exemplo, que tomou 61 eventos paralelos às conferências oficiais, revelou alguns dados importantes neste sentido. Eles apontam para o aumento em 40% de eventos paralelos às conferências oficiais da ONU desde a década de 80 até o ano de 2001, sendo que destes, 30% surgem depois dos eventos de Seattle. Destes encontros, 76% acontecem na Europa (53%) e América do Norte (23%). A distribuição por tipos de encontros se dá com 27% de atividades em Conferências da ONU, 20% em Cúpulas do G7/G8, 16% em encontros do FMI/BM/OMC, 11% em encontros regionais como os da UE e os da OEA e 26% em outras atividades. As organizações promotoras dos eventos são, em sua maioria, nacionais (grande parte do país-sede do evento), seguidas de organizações internacionais e locais, sindicatos de trabalhadores e autoridades locais. Os principais campos de atividades e concentração destas organizações estão, de forma decrescente, relacionados com: desenvolvimento, economia, meio ambiente, direitos humanos, trabalho e emprego, democracia, paz e resolução de conflitos, gênero, assistência humanitária, estudantes e juventude, imigrantes e refugiados, religião, homossexualismo e outros (PIANTA, 2001).
Fazendo também um apanhado crítico do processo de governança que dirige a globalização hegemônica, Santos e Avritzer (2002) apontam que para construir uma reflexão teórica crítica, que faça emergir modelos alternativos, é preciso enfrentar pelo menos três contradições características do período histórico em que vivemos. A primeira é entre globalização e localização, entendendo localização como a busca por novas identidades regionais, nacionais e locais, representando uma volta às raízes ou à reinvenção de novas
formas de vida e sociabilidade assentes nas relações face-a-face, na proximidade e na interatividade. Uma segunda contradição é entre o Estado-nação e o não-Estado transnacional. Para alguns o Estado é uma entidade ultrapassada na globalização, para outros continua a ser a entidade política central.
A terceira contradição é aquela que opõe a concepção de globalização como a energia finalmente incontestável e imbatível do capitalismo à uma ideia de globalização como oportunidade para ampliar a escala e o âmbito da solidariedade internacional e das lutas anticapitalistas. Pensar a governança global a partir de parâmetros democráticos, colocando em evidência a falta de legitimidade e de transparência dos organismos internacionais, é um dos grandes objetivos dos movimentos que se reúnem no Fórum Social Mundial.
Tais contradições corroboram a ideia de que não existe uma globalização, e sim distintos processos e discursos globais que expressam diferentes, e muitas vezes antagônicas, globalizações. O global e o local são socialmente produzidos no interior destes processos de globalização. Esta produção consiste “no conjunto de trocas desiguais pelo qual um determinado artefato, condição, entidade ou identidade local estende a sua influência para além das fronteiras nacionais e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outro artefato, condição ou identidade rival” (SANTOS, 2002). A análise da globalização sob essa ótica sugere um campo de pesquisa, que aborda a constituição de mecanismos de pressão próprios do espaço público no nível internacional que se opõem a uma institucionalidade reguladora do cenário internacional flagrantemente assimétrico e fundado em processos globalizantes antagônicos.
Outros autores, como David Held (1991) e Habermas (2001), trazem contribuições para este debate. Segundo Held, as interconexões regionais e globais contestam a maneira tradicional de resolver, no plano nacional, questões centrais da teoria e da prática da democracia:
As implicações desse fenômeno são profundas, não só para as categorias do consenso e legitimidade, mas para todas as ideias chave do pensamento democrático: a natureza da base político territorial do processo político; o significado da responsabilidade das decisões políticas; a forma e alcance da participação política; e enfim, a relevância do Estado-nação como guardião dos direitos e deveres dos cidadãos no momento em que ele se vê às voltas com relações e processos nacionais desestabilizadores (HELD, 1991).
A questão é que se aprofunda cada vez mais o distanciamento entre os cidadãos nacionais e as decisões tomadas pelos representantes dos Estados nas instituições transnacionais. A ordem internacional está estruturada por agências e instituições sobre as
quais estes cidadãos têm controle mínimo, não tendo como sinalizar acordo ou desacordo, em um momento em que a revolução da informação está em expansão, em que é possível assistir ao vivo a tentativa de golpe de Estado no Equador pela TeleSur, ou o uso da força militar contra civis no Iraque pela Al Jazeera. Para o autor, não estamos nos defrontando com um conjunto inteiramente novo de circunstâncias. Porém, há mudanças que caracterizam a atual fase: a) emergência de um sistema econômico global que escapa ao controle de qualquer Estado individual, mesmo os dominantes; b) Expansão de redes de relações transnacionais e de comunicações sobre as quais Estados individuais tem influência limitada; c) Enorme crescimento de organizações e regimes internacionais; d) Intensificação da diplomacia multilateral e interação transgovernamental; e) Desenvolvimento de uma ordem militar global e edificação de meios de guerra “total”.
Held (1991) atribui à União Européia a designação de “quase-supranacional”, pois os Estados membros da Comunidade Européia já não são os únicos centros de poder no interior de suas fronteiras. Houve, segundo ele, uma “rendição voluntária” de aspectos da soberania, o que aparentemente ajudou na resistência face à dominação estadunidense. Um exemplo gritante do deslocamento dos cidadãos nacionais de seu posto de legitimador de políticas de interesse nacional foi a aprovação da Lei Européia Única que substituiu a unanimidade pelo “voto de maioria qualificada” dentro do Conselho de Ministros, ou seja, o lugar da soberania nacional já não está mais assegurado. Pois, mesmo que os cidadãos de um dado país europeu se expressem contrários ou favoráveis a determinado tema em debate, sua opinião poderá ser descartada ou “vencida” em uma votação entre representantes estatais.
Também Habermas (2001) se atém à realidade Européia para analisar as mudanças ocorridas. Para o autor, podemos pensar em uma Europa pós-nacional democrática somente se o fortalecimento da capacidade de governo das instituições européias se der em conjunto com a ampliação formal dos fundamentos de legitimação democrática. Isto quer dizer que, se a Europa pretende desenvolver uma ação através de uma política integrada em vários níveis, seus cidadãos devem aprender a se reconhecer, além das fronteiras nacionais, como membros de uma mesma comunidade política. Neste sentido, o avanço de acordos intergovernamentais até uma comunidade politicamente constituída não depende somente de procedimentos padrão de legitimação democrática, como o voto nacional ou expressão das opiniões públicas dos diferentes países, mas da formação de uma opinião e vontade comum que se alimenta das raízes de uma cidadania européia e se desenvolveria em um fórum de dimensão européia.
Seria possível construir uma cidadania não só européia, como aponta Habermas, mas mundial? Baseada em valores universais de respeito às diferenças, preservação do meio
ambiente, cultura de não violência e democratização das relações políticas, econômicas e sociais? Este é um dos propósitos do Fórum Social Mundial, e que recorrentemente são evidenciados nos seus eventos. A formação de uma cidadania cosmopolita nestes moldes preencheria o déficit democrático estabelecido entre instâncias decisórias e cidadãos de base territorial? Que novos desenhos democráticos são necessários para começar a se pensar na democratização da arena transnacional?