Será sob o signo das tensões expostas na seção anterior: espaço ou movimento; como participam governos e partidos; como se dá sua mundialização; que o FSM atravessará com vigor a primeira década do século XXI. O FSM, ao longo de sua história, representou o esforço de um conjunto de forças contra-hegemônicas de dar resposta às questões de seu tempo. A pergunta que fica é se ele não existisse, o que existiria no seu lugar? Seria possível imaginar o princípio do século XXI sem a presença inquietante do slogan: “Um outro mundo é possível”? A sociedade civil global hoje não possui outro instrumento de abrangência e reconhecimento internacional como o FSM para projetar os valores e as concepções de outro mundo. O propósito de disputar o imaginário popular tem sido um dos maiores desafios do processo FSM, pois a hegemonia cultural é hoje um dos grandes trunfos da globalização hegemônica neoliberal.
81 FOCUS: Focus on the Global South; FAL: Fórum de Autoridades Locais; MMM: Marcha Mundial de
Mulheres; FD: Feminist Dialogue; COSATU: Congress of South African Trade Union; ICAE: Conselho Internacional de Educação de Adultos. Conteúdo completo das entrevistas em anexo.
O contexto mundial em que o FSM está inserido é de crise sistêmica do modelo hegemônico e da potência mundial hegemônica, no caso os Estados Unidos da América. A crise global, iniciada em 2008 no interior do Estado hegemônico, revelou para o mundo que várias das análises desenvolvidas por agentes do FSM tinham razão de ser. As precárias condições de existência a que os povos do mundo foram submetidos no auge do neoliberalismo pareciam ter adentrado as portas da “América” ao desenvolver uma crise que gerou uma perda de empregos sem precedentes e aumento desenfreado dos preços dos alimentos. A reação imediata da governança global foi de preparação de planos de resgate das economias européias e norte-americana e a ampliação do G8, com o ingresso de países emergentes do sul global resultando na organização do G20.
Por sua vez, o campo contra-hegemônico também se articulou com Estados do Sul Global. O próprio FSM propiciou novas condições de diálogo e uma reorganização das relações entre movimentos sociais e governos. O FSM de Belém, em 2009, ocorrido no despontar da crise mundial reuniu movimentos e chefes de Estado latino-americanos: Lula, Rafael Correa, Evo Morales, Lugo e Tabaré, pautados por uma agenda contraditória com a agenda do Fórum Econômico Mundial. A agenda contra-hegemônica, sintetizada no FSM quase uma década após seu início, traz a tona a formulação de uma nova visão sistêmica da organização da vida humana na terra, com críticas ao desenvolvimentismo e valorização da auto-sustentabilidade, e o respeito à diversidade e aos condicionantes ambientais, que surgem com o crescimento econômico ilimitado.
Em entrevista concedida em Porto Alegre (2010), o geógrafo David Harvey82 ressaltou sete aspectos disputados no embate que se dá atualmente pela hegemonia mundial. São eles as formas tecnológicas e organizacionais de produção, troca e consumo; as relações com a natureza; as relações sociais entre as pessoas; as concepções mentais de mundo, abrangendo conhecimentos, entendimentos culturais e crenças; os processos de trabalho e produção de bens específicos; os arranjos institucionais, legais e governamentais e a condução da vida diária que está subjacente à reprodução social. A crise instalada em cada um destes elementos ressalta a impossibilidade de se manter a reprodução do capitalismo baseado em taxas de crescimento composto nos níveis estipulados pela potência hegemônica até então.
O FSM possibilita a confluência de opiniões e experimentações sobre vários aspectos da reprodução da vida humana na terra disputados pelos campos que pretendem hegemonizar
82 David Harvey é um geógrafo marxista britânico formado em Cambridge e atualmente trabalha na City
University of New York com temas ligados especialmente à geografia urbana. Em 2010 durante o “Seminário Porto Alegre 10 anos depois” concedeu a mim e ao colega Fábio Palácio uma entrevista, posteriormente publicada na Revista Princípios (www.anitagaribaldi.com.br).
os valores e as diretrizes de um novo mundo. O mais curioso, segundo Harvey, em entrevista, é que o enorme leque de experimentações, alternativas sociais, alternativas econômicas, ambientais e etc, ainda não conseguem conformar uma resposta de conjunto. Vários movimentos propõem novas matrizes energéticas, por exemplo, ou novos sistemas de abastecimento, de segurança alimentar, de economia popular e solidária. Agora, somente quando demonstrar ser possível implementar a economia solidária e torná-la universal e implementar um rearranjo das instituições capaz de permitir que 6,8 bilhões de pessoas deixem de viver no patamar que estão vivendo, a nova hegemonia poderá responder à questão de como o mundo anticapitalista se parece.
O FSM constitui uma permanente busca pela capacidade de sistematizar as temáticas relacionadas à democratização da globalização. Desdobrando-se em questões como o desenvolvimento sustentável, a criação de mecanismos democráticos de gestão global e a constituição de bases para um comércio internacional mais justo. O Fórum também pretende, desde o princípio, contrapor e influênciar o encontro de referência do processo de globalização hegemônica: o Fórum Econômico Mundial. Demonstra ainda, ao longo dos anos, uma capacidade mobilizadora e de definição de agenda impressionante, na medida em que tem conseguido reunir em um mesmo local83 um conjunto diverso e plural de atores com o objetivo de protestar contra uma agenda neoliberal mundial organizada pelas forças hegemônicas da globalização e de elaborar uma agenda paralela de globalização contra- hegemônica.
O FSM possui ainda a capacidade de fazer aflorar agendas locais reprimidas. De forma concomitante, muitas variáveis afetam a formação da agenda de cada evento. A situação política do país sede (seria impossível discutir o Socialismo do Século XXI no Fórum do Quênia, como se discutiu na Venezuela, ou a questão dos Dalits no Fórum de Belém, como se discutiu na Índia); o balanço interno de forças do Conselho Internacional e a relação deste com o Comitê Organizador local; a agenda política internacional (o FSM de 2003 não teria como escapar da agenda “guerra no Iraque”, ou o FSM de 2009 da pauta “crise econômica”).
Deste modo, o FSM se transformou talvez na mais importante arena global dos movimentos sociais, ONGs e suas redes que busca uma transformação democrática do sistema mundial capitalista (TEIVAINEN, 2007, p. 70). O FSM constitui ele mesmo um profícuo objeto de estudo para todos que querem entender como se dará o processo de democratização global no século XXI. Pois, se por um lado ele busca facilitar as transformações democráticas
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O Fórum de Porto Alegre em 2005 reuniu 155 mil pessoas de 151 países. Fonte: www.forumsocialmundial.org.br
locais, nacionais e globais e promover uma arena para colocar estas experiências em diálogo, por outro lado o FSM vive em seu interior, como vimos neste capítulo, discussões em torno da democratização de sua própria estrutura interna, que vem se expandindo de uma base essencialmente brasileira no início para um arranjo de forças políticas e sociais mundiais (TEIVAINEN, 2007).
Talvez no calor dos grandes acontecimentos que acompanharam o nascedouro do FSM, seus promotores se entusiasmaram com a novidade política do que estavam criando e muitos deram como certo que o FSM inventava uma nova forma de fazer política. Nesta novidade, não cabiam as teorias centradas no papel do Estado e as questões envolvidas nos debates sobre representação. No entanto, a questão da representatividade insistiu em surgir por várias vezes ao longo dos últimos 10 anos de FSM nas discussões sobre a formação dos organismos, como o Conselho Internacional ou o Secretariado Internacional, de condução do FSM. E também na evidente ausência de representantes da África e da Ásia nos primeiros encontros, o que motivou o processo de internacionalização do FSM, indo para Mumbai, 2004 e Nairóbi, 2007, conforme se discute na seção a seguir.
Portador de fenômenos políticos novos e antigos, o FSM vive um grande dilema entre se constituir como um agente da contra-hegemonia de fato e a profunda dificuldade na formulação de um projeto contra-hegemônico. A contradição enfrentada pelo conjunto dos promotores do FSM é que à medida que este ganha estatura global cresce a demanda de participantes e expectadores de que ele tome algumas decisões que representem as aspirações do diverso campo contra-hegemônico global. No princípio, com o simples slogan “um outro mundo é possível”, o FSM foi capaz de mobilizar milhares de pessoas e inspirar os movimentos envolvidos na batalha por uma outra globalização. No entanto, com o passar do tempo, começaram a surgir questionamentos de como seria este outro mundo e qual o caminho para se chegar nele. Talvez isto explique porque a participação de chefes de Estado, como o venezuelano Chavez, tenha enfrentado tanta resistência por parte das principais ONGs organizadoras do FSM nos primeiros anos do encontro, e posteriomente estas mesmas organizações tenham promovido o encontro entre presidentes latino-americanos e movimentos sociais no último FSM de Belém, 2009. Santos, que desde o princípio do FSM se posicionou no campo dos “horizontalistas” apontou nos dias em que ainda transcorriam os eventos de Belém (2009), que:
Os acontecimentos que marcam o início de 2009 são de tal modo importantes que se o mundo não puder conhecer a posição do Fórum Social
Mundial sobre eles é possível prever que o FSM corre o risco de se tornar irrelevante (SANTOS, 2009).
Os acontecimentos a que Santos se referia na época eram os desdobramentos de uma grande crise econômica global deflagrada em outubro de 2008 e o massacre em Gaza, empreendido pelos israelenses em janeiro de 2009. Defensor da concepção do FSM como um espaço aberto, por entender que certas decisões políticas nunca podem ser obtidas por consenso, Santos defendeu na época que o FSM deveria ao menos identificar, em cada movimento histórico, um conjunto de temas sobre os quais fosse possível gerar um grande consenso. Sobre os quais, portanto, o FSM tomaria uma posição a ser assumida por todos os movimentos e organizações participantes do FSM, dando origem a agendas parciais, mas consistentes, de políticas locais e globais. Obviamente esta posição nunca foi acatada pelos organizadores do FSM, e este dilema segue sendo uma de suas características centrais e que impacta na realização de cada encontro ao longo da última década.
A disputa por hegemonia está intimamente ligada à disputa pelos valores e concepções que balizam a reprodução da vida humana na terra. Esta visão da hegemonia pode ser apreendida tanto de Gramsci, como de Arrighi ou Santos. Talvez quando Arrighi apontou que para a potência hegemônica a definição de um interesse geral no plano internacional é muito mais difícil do que no nacional, pela dificuldade de combinar o interesse geral dos outros Estados e os de seus cidadãos nacionais, ele nem imaginava as proporções da crise interna nos Estados Unidos causada pela crise do “subprime” de 2008. Paradoxalmente, uma resposta interna mais ortodoxa levou os EUA à radicalização de suas posturas no exterior fazendo recuar, e não avançar como almejava, a sua retomada do controle hegemônico mundial. Aliás, pode se pensar que a crise de hegemonia norte-americana tem intensa relação com o descompasso entre as respostas exigidas internamente e a necessidade de composição internacional. Atualmente, os EUA recorrem cada vez mais ao uso da força e de mecanismos unilaterais de interferência na economia, dando mais sinais de sua decadência hegemônica. Hoje, a potência hegemônica não é capaz de liderar e ser seguida como um exemplo pelas outras nações como o foi anteriormente e muito menos convencer que a expansão de seu poder é do interesse geral de seus cidadãos e do restante do mundo.
O avanço da atual crise de caráter civilizatório que se aproxima do momento de catarse, apontado por Gramsci, ou de caos sistêmico, apontado por Arrighi, pode ser acompanhada sob a lente do processo FSM de modo muito interessante. Desde a formação da agenda contra-hegemônica nos anos iniciais de resistência à agenda neoliberal em Porto Alegre 2001, 2002 e 2003, à afirmação da capacidade de mobilização, diversidade e
delineamento de alternativas em 2004 (Mumbai), 2005 (Porto Alegre), 2006 (Bamako, Karachi, Caracas), à formulação de alternativas civilizatórias de conteúdo universalista em 2007 (Nairóbi) e 2009 (Belém).
O grande dilema é que a crise sistêmica do campo hegemônico também colocou em crise o campo contra-hegemônico. Ao adotar um caráter de espaço aberto, e abrir mão de definir agendas e planos de ação tanto em nível local como global, o campo hegemônico expresso no FSM construiu sua própria armadilha. Sua capacidade de dar respostas globais ficou anestesiada, ao mesmo tempo em que estimulou as iniciativas locais e as dinâmicas nacionais de movimentos e organizações em relação com os respectivos Estados. Esta é parte da resposta de porque a despeito de o FSM ser um projeto global é na sua materialização local que a contra-hegemonia se arquiteta. Curiosamente, o aprofundamento da crise hegemônica mundial instalou uma crise no campo contra-hegemônico mundial, que a princípio festejou sua capacidade de dar as pistas da crise mundial que estava por irromper e, posteriormente, percebeu sua incapacidade de dar respostas mais concretas à mesma.
A crise de perspectiva frente às dificuldades sistêmicas do campo hegemônico por parte das organizações e movimentos sociais da sociedade civil global se refletem no FSM. A fragmentação temática à que a SCG se submeteu ao longo dos anos colocou para o campo contra-hegemônico a necessidade de articular de forma transversal o trabalho dedicado à temática das mulheres, meio ambiente, trabalho e etc. Percebe-se que a desarticulação das iniciativas apresenta dificuldades para reconectar as diferentes lutas em ações unitárias. As questões ambientais são hoje as que parecem ter maior capacidade de reunificar a SCG em torno de agendas comuns.
Em uma das reuniões do CI do FSM, um membro colocou a questão às claras:
...houve um tempo em que o fórum era relevante quando as pessoas podiam se reunir e conversar sobre suas estratégias comuns, isso não ocorre mais. Nós não temos uma visão comum, de fato nós não temos nenuma visão de todo. Se nós não temos uma visão estamos destinados a irrelevância84.
Apesar do pessimismo de alguns participantes do CI, o FSM projetou nos últimos anos uma espécie de consenso em torno às críticas à modernidade ocidental e sua expressão dominante atual, o neoliberalismo. A construção do que alguns chamam de “novo universalismo” ou “novo projeto civilizatório” é parte da disputa hegemônica hoje em termos mundiais. A construção de uma agenda emancipatória universalista está assentada em um
cosmopolitismo de oposição que busca rejeitar os preceitos de uma modernidade ocidental fundada no colonialismo, na escravidão, no capitalismo, no imperialismo e na sua última versão neoliberal.
A ocorrência de uma diversidade de encontros no âmbito do FSM aponta para a reorganização de uma série de valores contra-hegemônicos traduzidos em uma nova cultura civilizatória. Conscientes da própria incapacidade de realizar uma revolução global, os agentes da SCG reunidos nos espaços do FSM se esforçam nos últimos anos para conformar uma nova cultura global, um novo formato de ativismo e novos valores capazes de influênciar a política nos diferentes contextos locais em que se trava a batalha contra-hegemônica global. De processos inovadores de uma nova integração sul-sul e do refinamento da intervenção em torno de temas como migrações, mulheres, meio-ambiente, democracia participativa, economia solidária, espaço urbano humanizado, e tantos outros que dão novo significado ao modo de sociabilidade dos seres humanos e a forma como organizam a vida na Terra, está surgindo um referencial transformador que aponta para uma revolução civilizatória. O FSM expressa de diferentes maneiras este potencial como se vê nos capítulos que seguem.
4 BRASIL, ÍNDIA E QUÊNIA: O SUL GLOBAL FAZ O FÓRUM SOCIAL MUNDIAL Para ser universal, basta cantar o seu quintal Leon Tolstoi
O novo formato de articulação e laboratório de alternativas à globalização neoliberal, erigido como Fórum Social Mundial, já foi testado em três continentes do Sul Global. Países chave da América Latina, Ásia e África, como são o Brasil, a Índia e o Quênia deram um caráter internacional ao encontro, e acrescentaram elementos característicos de cada uma destas nações e respectivas sociedades na formação dos valores da contra-hegemonia global do século XXI. As diferenças na formação social e política de cada um destes países ficaram evidentes com a ocorrência do FSM em suas terras. Pode-se dizer que o mundo pôde conhecer o Brasil, a Índia e o Quênia por outro prisma, distinto da abordagem hegemônica, embora os eventos tenham sido divulgados de forma marginal pela grande mídia. A capacidade do FSM de se renovar e ocorrer em ambientes tão distintos, como os expostos no texto que segue, colocaram à prova a universalidade de sua fórmula: promover o diálogo na diversidade e construir valores contra-hegemônicos.