Em 1975, os psicólogos Blatt e Kohlberg propuseram um Método de Discussão de Dilemas que pudesse ser aplicado nas escolas por educadores. Com fundamento em Turiel (1966), Rest (1968) e a teoria do desenvolvimento moral em estágios de Kohlberg (1970), Blatt defendeu a hipótese de que se fosse apresentado a crianças de maneira sistemática um raciocínio moral correspondente a uma etapa imediatamente superior a
que se encontravam em termos de desenvolvimento moral, estas seriam atraídas por este raciocínio e tenderiam a se apropriar deste, estimulando o desenvolvimento de uma etapa superior de desenvolvimento do juízo moral. Para provar esta hipótese, Blatt elaborou um projeto piloto para estudantes do sexto ano de uma escola dominical judia. Ele pensou que a maneira mais eficaz e menos artificial de expor as crianças ao juízo moral de uma etapa superior a que se encontravam seria realizar uma discussão em grupo sobre dilemas morais, uma vez que os membros do grupo apresentavam diferentes níveis de desenvolvimento moral entre si. Assim, discutindo juntos, eles deveriam escutar as soluções encontradas pelos colegas e tentar convencê-los de seu próprio ponto de vista, o que permitiria a alguns terem acesso a níveis de raciocínio superiores já encontrados em outros membros. Ele começou a estudar os alunos para conhecer as etapas de juízo moral em que se encontravam e passou a se reunir com eles semanalmente, durante três meses. Ele apresentava um dilema moral sem solução ao final (como uma aporia socrática), e pedia ao grupo que propusesse soluções e explicasses aos colegas porquê suas soluções eram melhores, no sentido de mais justas. Ele garantia que as próprias crianças guiassem o debate, intervindo apenas para resumir as discussões, clarificar, enriquecer o debate e, ocasionalmente, apresentar seu próprio ponto de vista (KOHLBERG; POWER; HIGGINGS, 1997).
Ao final dos três meses, Blatt voltou a examinar os estudantes e descobriu que 64% deles haviam avançado uma etapa completa em seu raciocínio moral. Animado com estes resultados, ele repetiu este experimento em quatro cursos de uma escola pública. Estes estudantes foram divididos em três grupos: um que se reuniu com Blatt para as discussões morais dirigidas por um professor durante dezoito sessões, um grupo que se reuniu em discussões morais dirigidas por pares durante o mesmo período e um grupo controle que não participou de nenhuma discussão. Ao final da pesquisa, o grupo dirigido por um professor demonstrou uma vantagem média de um terço de etapa, e os outros grupos quase não mostraram mudanças. Em um estudo de seguimento deste grupo realizado um ano mais tarde, o grupo dirigido pelo professor manteve sua vantagem sobre os outros, entre uma quarta parte e a metade dos estudantes destes grupos de discussão passaram parcial ou totalmente à etapa superior de desenvolvimento moral, o que não aconteceu com o grupo controle. Este efeito cumulativo da experiência pedagógica de
Blatt significou um avanço nos estudos em educação moral cognitivo-evolutiva e ficou conhecido como "efeito Blatt" (KOHLBERG; POWER; HIGGINGS, 1997).
O que Blatt (BLATT; KOHLBERG, 1975) criou foi um processo através do qual a teoria de desenvolvimento moral de Kohlberg poderia ser aplicada à prática educacional em sala de aula. Com seu estudo, demonstrou três pontos fundamentais:
1. o desenvolvimento do juízo moral responde à intervenção educacional baseada na discussão de dilemas. O avanço de uma etapa para a seguinte no desenvolvimento do raciocínio moral, que naturalmente poderia levar anos para se desenvolver, poderia se efetuar em um período mais concentrado;
2. o desenvolvimento estimulado não é um efeito temporal de "aprender respostas corretas", mas, como se pode observar com o estudo de seguimento um ano mais tarde, é tão duradouro quanto o desenvolvimento natural e se estende a novos dilemas tratados em sala de aula;
3. o desenvolvimento estimulado se produz quando a intervenção estabelece as condições que promovem a passagem para outra etapa, entre elas, proporcionar oportunidades de conflito cognitivo, de consciência moral, de assunção de responsabilidades e o acesso a uma forma de raciocínio moral que está acima de sua própria etapa (KOHLBERG; POWER; HIGGINGS, 1997).
O objetivo principal da intervenção pedagógica de Blatt era estimular o nível de juízo moral dos estudantes de uma etapa para a seguinte, visando promover a educação moral sem usar de doutrinação nem de relativismo. Blatt e Kohlberg (1978) acreditavam que este método de discutir dilemas evitava a doutrinação na educação, uma vez que visa promover o desenvolvimento natural de estruturas universais de tomada de decisão, e não na adesão a um conjunto determinado de crenças e valores religiosos ou morais. Acreditavam ainda que evitasse o relativismo porque postula que os estágios de desenvolvimento moral expresso nos argumentos utilizados nas discussões de dilemas são ordenados de maneira hierárquica, de forma que um estágio superior é melhor ou mais justo do que o seu precedente.
O papel do líder da discussão segue o modelo de Sócrates, que engajava seus discípulos em um diálogo moral no qual pontos de vista conflitantes eram examinados em uma solução proposta. O líder nunca apresenta soluções prontas para serem aceitas na base da autoridade, mas estimula a busca dos alunos pela solução. Este método
socrático respeita os estudantes, enquanto intrinsecamente orientados para o questionamento moral, e procura as melhores condições de sala de aula para essa investigação.
A regra fundamental no método Blatt e Kohlberg (1975) - assim como no Método Konstanz de Discussão de Dilemas (KMDD) que veremos a seguir - diz que todas as pessoas devem ser respeitadas e podem dizer livremente o que quiserem, uma vez que têm direito à livre expressão e nada do que for dito dentro ou fora da sala de discussão de dilemas ou nenhuma pessoas participante será qualificada positiva ou negativamente. Caso isto ocorra, o professor estaria autorizado a intervir, lembrando os alunos da regra básica de respeito mútuo (LIND, 2007).