Baseado no Método de Blatt e Kohlberg (1975), Lind (2007) efetuou algumas mudanças na forma como estes dilemas eram discutidos, dando novas regras às discussões, criando, assim, um novo método de discussão de dilemas morais que chamou de Método Konstanz de Discussão de Dilemas (KMDD- Konstanz Method of
Dillema Discussion). Este método difere do de Kohlberg em muitos aspectos, em especial
à forma dos dilemas - que passam a ter soluções tomadas pelos personagens e que devem ser avaliadas pelos participantes das discussões (não são aporéticos) - e ao rigorismo quanto às regras que o educador/aplicador de dilemas deve seguir, incluindo uma formação prévia do aplicador, segundo moldes sistematizados pelo autor. Lind (2007) defende que, para a eficácia das discussões de dilemas em termos de desenvolvimento moral e como proposta de intervenção efetiva para a educação, a inexperiência do aplicador ou observações feitas por pessoas sem experiência ou a escolha inadequada de instrumentos e dilemas poderiam intervir negativamente na eficácia do método.
No método de Lind (2007), a discussão começa com um dilema moral escolhido pelo aplicador, chamado de moderador. A orientação é que o dilema não engendre mais de dois ou três princípios em conflito e, preferencialmente, não mais que dois personagens principais. O dilema a ser discutido é selecionado previamente pelo moderador. Ele deve discuti-lo com outros de mesma competência que atuariam como
juízes para selecionar um bom dilema para a discussão. O método não prevê a possibilidade de mudar de dilema na aplicação. A discussão começa com o moderador contando o dilema que possui uma solução já tomada pelo personagem. Ele pergunta qual é o núcleo do dilema, qual é o seu problema moral e que princípios entram em conflito na história. Isto possibilita que eles entendam o dilema e entrem em contato com o núcleo da história. Em seguida ele pergunta se o comportamento do personagem foi correto ou não. Dois grupos, pró e contra se constroem. Lind (2007) recomenda que o ideal seja 50% para cada lado e que, além de 70% a 30% de opositores, a discussão não é recomendada. Nestes casos, ele sugere que uma nova discussão seja feita em outro dia.
Formados os grupos pró e contra, novos pequenos grupos são formados para discussão. Estes grupos devem ser de, no máximo, quatro pessoas que trocam suas argumentações a favor e contra a decisão. Os grupos devem se formar por proximidade ou por critérios próprios. Os objetivos desta fase são facilitar que uns vejam aos outros como fontes de apoios para suas decisões e também que diferentes qualidades de argumentos morais podem ser encontradas quando se discute em grupo. Após a discussão em grupo, uma plenária de discussão é formada. O moderador explica as duas regras da discussão: todos podem dar seus argumentos, falar o que quiserem, mas deve- se respeitar o outro, não sendo permitidos juízos de valor e ofensas pessoais. A segunda regra é a "regra pingue-pongue": um grupo fala e escolhe um outro para contra- argumentar. Um membro do grupo começa falando o posicionamento de seu grupo e seus principais argumentos a favor dele. Em seguida, este último que falou atua como moderador, escolhendo um participante de outro grupo para contra-argumentar. Para o autor, isto exercita o autocontrole, uma vez que se tem que controlar o nervosismo que quase todos experimentam na discussão, e escutar seu oponente. Isto também possibilitaria que o grupo se autorregulasse. O moderador-educador deve se afastar da discussão e apenas intervir no caso de desrespeito a uma das duas regras. Os argumentos falados devem ser escritos na lousa.
Após a discussão, cada grupo coloca os argumentos do outro grupo em ordem de prioridade, escolhendo as melhores argumentações ou as que mais os fizeram refletir. Em seguida, ocorre uma votação final sobre o comportamento do personagem, se foi correto ou não. Ao moderador-educador, cabe elogiar a qualidade dos dilemas e
relativizar o resultado da votação. Em seguida, ele questiona aos participantes o que acharam da discussão, o que aprenderam, o que foi desagradável, se já tiveram uma discussão sobre um tema semelhante antes e qual era o objetivo da discussão de dilemas. O objetivo desta fase é tomar consciência do desenvolvimento propiciado pela discussão, valorizar este tipo de situação de aprendizagem e refletir sobre seu uso em outras situações. Assim, a discussão chega ao final. O tempo ideal de aprendizagem por meio da discussão é, segundo Lind (2007), entre 80 e 100 minutos.
O autor acredita que, para uma avaliação correta da eficácia do KMDD, alguns pré-requisitos deveriam ser respeitados. Em primeiro lugar, ele defende que apenas uma oportunidade de discussão de dilemas já traria resultados possíveis de serem comprovados através do teste psicológico por ele desenvolvido para medir as competências morais, o MJT, mas que o ideal seria ocorrer várias discussões de dilemas, em geral, três ou quatro para que a eficácia da intervenção fosse avaliada. Duas outras premissas se impõem: a existência de um pré e pós teste com algum instrumento de mensuração capaz de avaliar possíveis mudanças e a existência de um grupo de controle - um grupo de estudantes com as mesmas características da população que passará pela intervenção com os dilemas, mas que não tome parte nas discussões, apenas passando pelo pré e pós teste (LIND, 2007).
Como instrumentos de avaliação do pré e pós teste do Método Konstanz de Discussão de Dilemas, Lind (2007) prioriza a escolha do teste MJT (Moral Judgment
Test), que possui versão brasileira conhecida como MJT_xt (Moral Judgement Test - extended version, BATAGLIA, 2010), dado que o mesmo possui sua eficácia comprovada
pelo autor através de seus estudos ao redor do mundo com esta metodologia 15. O teste
exige conhecimentos em psicologia moral e um treinamento para sua aplicação e correção que devem ser providenciados pelos educadores e pesquisadores junto ao autor ou a pesquisadores por ele autorizados.
Lind (2007) apresenta outros instrumentos que também poderiam ser utilizados pelos professores avaliadores do KMDD, como o Questionário de Atmosfera Moral (CAM), desenvolvido por Lind como um instrumento de investigação adequado para a
15 Em 2015 o autor modificou o nome do teste para MCT (Moral Competence Test), justamente porque mede as competências e não juízos morais. O nome MJT ainda pode ser usado, segundo o autor, desde que esta ressalva seja feita. Vide Lind, 2015.
autoavaliação dos professores, composto de cinco partes: perguntas sobre a percepção de 19 aspectos da atmosfera moral da escola (classificados em colegas, professores e escola em geral) e sobre a avaliação individual destes aspectos (por exemplo, "por que é tão importante que os professores sejam justos?"), participação dos alunos, conduta de comunicação, atitudes e reflexões sobre a violação de regras e sobre a percepção do comportamento dos professores16.
Outro instrumento proposto é o Sistema Flanders (FLANDERS, 1970), desenvolvido por Ned Flandres (1970) e utilizado em numerosos estudos em que se busca investigar os efeitos de novos métodos de ensino. Este sistema é composto de sete aspectos do comportamento linguístico do professor (aceitar sentimentos; elogiar e animar; aceitar ou aplicar ideias dos alunos; fazer perguntas; transmitir o saber ideias e opiniões dos outros; dar instruções aos alunos; esclarecer assuntos sobre autoridade na sala de aula), dos aspectos da conduta linguística dos alunos (respostas às perguntas do professor, introdução de temas ou dúvidas próprias) e períodos de calma ou confusão. A aplicação deste método requer prática e treinamento específico, uma vez que se tem que registrar simultaneamente dez aspectos da classe em intervalos curtos de três minutos cada, formando um quadro geral de investigação (LIND, 2007).
3.2.2 A experiência das discussões de dilemas na filosofia contemporânea de