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3. TEK DÜZEN MUHASEB E SİSTEMİ DEĞERLEME İLE ULUSLARARAS

3.3. Tek Düzen Hesap Planına Göre Değerleme Uygulamaları

3.3.1. Maddi Duran Varlıkların Değerlemesi

3.3.1.1 MDV Amortisman Uygulamaları

A sociedade brasileira se fundamenta em grande parte pelas matrizes culturais que se misturaram nos três séculos de colonização, bem como pela conseqüente miscigenação étnica que ocorreu neste período, dada entre os três grupos que constituíram o brasileiro, o português, o negro africano e o índio sul- americano. Apesar desta mistura de raças e culturas, HOLANDA (1995 [1936]) destaca que a matriz portuguesa foi preponderante no delineamento da mentalidade das elites e, por isso, na configuração política e econômica no Brasil. O autor salienta que um traço marcante do português colonizador foi sua falta de orgulho de raça, o que contribuiu para a plasticidade social deste povo e permitiu a miscigenação com a cultura indígena e negra, fazendo com que as elites incorporassem hábitos, técnicas e comportamentos característicos dos povos subjugados.

Paradoxalmente, miscigenação de raças possível pela plasticidade do português e de seus descendentes brasileiros foi condicionada por um grande distanciamento da elite em relação ao restante da população, algo que foi importante para a formação de uma sociedade patrimonialista bem delimitada, cujo grupo dominante era capaz de facilmente impor sua vontade ao restante da população, auxiliada por uma relativa docilidade dos grupos sociais hierarquicamente inferiores (HOLANDA, 1995 [1936]). Este aspecto tem sido associado à idéia de mandonismo, um importante elemento ordenador das relações sociais no Brasil e que esteve presente em todos os momentos decisivos da trajetória política do país. O mandonismo caracteriza-se pelo poder pessoal de um líder local, baseado em estruturas oligárquicas bem definidas. De acordo com CARVALHO (1998, p. 133), o detentor do poder nas relações do mandonismo brasileiro “é aquele que, em função do controle de algum recurso estratégico, em geral a posse da terra, exerce sobre a população um domínio pessoal e arbitrário que a impede de ter livre acesso ao

mercado e à sociedade política”. Neste sentido, o mandonismo brasileiro teve sua origem na lógica patriarcal da principal organização sócio-econômica do período colonial, a grande lavoura.

O fato da economia do período colonial centrar-se no modelo da grande lavoura foi um fator decisivo na formação da elite brasileira. Devido à necessidade de garantir o povoamento, o governo português optou por um modelo de colonização de base agrícola, centrado na produção em grande escala de artigos de significativo valor comercial no mercado europeu. Neste contexto, a economia de monocultura para exportação amplia-se de forma significativa a partir da produção de cana-de- açúcar no nordeste brasileiro (BAER, 1996; FURTADO, 1999; CANABRAVA, 1985). É por este motivo que o engenho de açúcar é o mais representativo modelo social do período, devido ao grande impacto deste empreendimento na tessitura econômica, social e política do Brasil colonial (CANABRAVA, 1985).

Um dos fatores que permitiram à manufatura do açúcar se tornar uma atividade de destaque na economia colonial foi o fato de que a operacionalização do engenho exigia uma tecnologia simples, sendo que os únicos recursos realmente necessários eram a terra e a mão-de-obra (CANABRAVA, 1985). Considerando que a política portuguesa de povoamento tornava a terra um recurso de fácil acesso, o único fator de produção realmente significativo era a mão-de-obra (CANABRAVA, 1985). Neste sentido, tendo em conta a dificuldade do indígena em adequar-se as mínimas condições de disciplina exigidas em um trabalho sistemático e metódico da produção agrícola de economia em escala, a opção de mão-de-obra foi o negro, capturado das colônias africanas portuguesas e tornado escravo no Brasil (HOLANDA, 1995 [1936]). Assim, o mercantilismo se intensifica através do tráfico negreiro, estimulando o mercado interno (PAULA, 2002) e erigindo a posse de escravos como um fundamento básico do sistema econômico do século dezenove (GRAHAM, 1981; HOLANDA, 1995 [1936]).

De acordo com FREYRE (2003 [1933]), a dimensão social e política de natureza semi-feudal do engenho se manifesta no caráter personalístico das

relações dentro da comunidade que se constituía em torno desta empresa60. É neste

sentido que o engenho é denominado pelo autor como uma economia patriarcal, ou seja, um modelo produtivo que tem por traço fundamental as fortes relações de consangüinidade e de afetividade, baseadas na concepção de família estendida. Por família estendida entende-se a estrutura parental composta pelos numerosos membros da família oficial (definida a partir do casamento religioso), mas também pelas amantes e os filhos nascidos do concubinato que se mantinham próximos e sob proteção especial (FREYRE, 2003 [1933]). Na concepção sociológica da família estendida também é possível considerar os laços entre o patriarca com seus agregados sem vínculo consangüíneo, geralmente membros da comunidade do entorno à propriedade rural que, através do compadrismo61, se integravam ao círculo mais íntimo do senhor do engenho.

Assim, a poderosa família estendida que se forma a partir dos casamentos arranjados e dos convites para apadrinhamento nos batizados refletia bem a importância dada para o vínculo parental e afetivo nas relações sociais da propriedade rural colonial, como afirma FREYRE (2003 [1933], p. 81):

A família, não o indivíduo, nem tampouco o Estado, nem nenhuma companhia de comércio, é desde o século dezesseis o grande fator colonizador no Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindo-se na aristocracia colonial mais poderosa da América. Sobre ela o rei de Portugal quase reina sem governar.

60 O engenho é considerado na literatura historiográfica brasileira como todo o complexo

econômico e social que se estabelecia em torno da produção do açúcar. Assim, fazia parte do engenho a lavoura da cana-de-açúcar, a unidade de fabricação do produto propriamente dito e os pequenos empreendimentos voltados a economia de subsistência da comunidade associada a cadeia produtiva do açúcar. CANABRAVA (1985) lembra ainda que nem sempre a plantação da cana e a manufatura do açúcar eram atividades executadas pelo mesmo senhor; devido a maior exigência de capital para o maquinário do engenho e para a aquisição de mão- de-obra escrava, era comum que o empreendedor se preocupasse apenas com o processo de manufatura e arrendasse suas terras para colonos livres, configurando uma relação muito similar à economia feudal.

61 O termo ‘compadrismo’ se refere à prática de vincular-se afetivamente com alguém por meio

do apadrinhamento dos filhos na cerimônia religiosa do batismo. Neste sentido, CANABRAVA (1985) e HOLANDA (1995 [1936]) informam que era comum no Brasil colonial que membros menos abastados da comunidade circundante à propriedade rural solicitassem ao senhor que este fosse padrinho de batismo de seus filhos. Este fato demonstra que o compadrismo era uma prática exercida também entre indivíduos de diferentes níveis sociais, e reforça que o caráter personalístico das relações sociais tinha um amplo espectro.

Simbolicamente, a casa-grande – a construção-sede da propriedade rural colonial e moradia da família oficial do senhor – também ilustra a preponderância do poder patriarcal presente na sociedade do Brasil colonial. Localizada no alto da propriedade rural, esta construção era o centro político da comunidade, o local onde todos eram chamados ou iam de espontânea vontade se submeter à vontade do senhor. A casa-grande era uma espécie de fortaleza brasileira, onde as decisões de ordem econômica, política e mesmo religiosa eram tomadas e transmitidas para serem cumpridas. A casa-grande revela a soberania do poder do patriarca no Brasil colonial, poder que se sobrepõe mesmo a Igreja Católica, a mais poderosa organização da época, como é possível observar no seguinte comentário de FREYRE (2003 [1933], p. 271):

No Brasil, a catedral ou a igreja mais poderosa que o próprio rei seria substituída pela casa-grande e engenho. Nossa formação social, tanto quanto portuguesa, fez-se pela solidariedade de ideal ou de fé religiosa, que nos supriu de lassidão de nexo político ou de mística ou consciência de raça. Mas a igreja que age na formação brasileira, articulando-a, não é a catedral com seu bispo a que se vão queixar os desenganados da justiça secular, nem a igreja isolada e só, ou de mosteiro ou de abadia, onde se vão açoitar criminosos e prover-se de pão e restos de comidas mendigos e desamparados. É a capela de engenho. Não chega a haver clericalismo no Brasil. Esboçou-se a dos padres da Companhia [de Jesus] para esvair-se logo, vencido pelo oligarquismo e pelo nepotismo dos grandes senhores de terras e escravos.

Outra importante interpretação sociológica sobre a sociedade no período colonial é o chamado ‘espírito aventureiro’. De acordo com HOLANDA (1995 [1936]), o ‘espírito aventureiro’ é um traço da etnia portuguesa que representa a propensão do colonizador ao ganho fácil e rápido, resultado quase sempre de uma empreitada ousada e muitas vezes inóspita. Para este autor, o aventureiro é marcado pela prodigalidade e pela imprevidência, é o sujeito interessado no sucesso imediato e grandioso, é alguém que está disposto a arriscar para obter ganhos volumosos e com pouco esforço. Neste sentido, para o aventureiro o trabalho é considerado algo indigno. Um importante indicativo deste traço na personalidade do colonizador do Brasil é o fato de que

o português que emigrava para a colônia não o fazia com o interesse de se tornar simples trabalhador a jornal62; ambicionava a riqueza e a importância que podiam advir do fato de ser dono e explorador de vastas extensões de terra. (CANABRAVA, 1985, p. 201)

Em parte, este temperamento explica a opção pelo trabalho escravo, bem como a dificuldade que se teve com a abolição deste regime. Também a relação com a propriedade (que, no Brasil colonial, tinha uma orientação perdulária) ilustra a natureza deste ‘espírito’. A terra era um recurso de fácil aquisição, seja porque não havia rigor na concessão das sesmarias63 (FREYRE, 2003 [1933]; CANABRAVA, 1985), ou porque, quando se necessitava expandir, optava-se pela ocupação clandestina, tendo em conta o grande volume de terras e a precária fiscalização (HOLANDA, 1995 [1936])64. Diante desta facilidade é que se verificava a falta de zelo no cuidar da terra, tendo em conta que era mais fácil explorar o solo até a exaustão e partir para outra área65. Por esse comportamento, HOLANDA (1995 [1936]) considera ser a grande lavoura no Brasil colonial mais próxima do extrativismo do que condicionada pelo espírito agrícola propriamente dito, espírito onde o agricultor tem forte relação com a terra e com o ofício de lavrador. Como conseqüência, a preocupação com o aprimoramento das atividades agrícolas naquele período foi mitigada, configurando-se uma verdadeira tendência à precarização tecnológica, orientação esta que permaneceu até a fase republicana (RIDINGS, 1977).

O desmazelo na empresa rural do Brasil colonial também se manifesta em relação ao outro bem de produção essencial a este empreendimento: o escravo. Os povos africanos foram uma opção interessante para a escravidão justamente por que estes indivíduos eram facilmente adquiridos pelo tráfico, e, em determinado

62 A autora se refere a questão da jornada de trabalho.

63 As sesmarias eram as concessões no uso da terra dada pelo donatário do reino português.

FAORO (2001) informa que a origem das sesmarias remonta o Portugal do século catorze.

64 Na verdade, o problema das terras brasileiras somente foi tratado no âmbito legislativo em

meados do século dezenove com a ‘lei de terras’, decretada para regulamentar a propriedade de terras e as chamadas terras devolutas, ou seja, as terras pertencentes ao Estado que foram irregularmente empossadas por particulares (BENEDETTO, 2002).

65 É por esse motivo que se considera ter sido a monocultura de exportação na empresa colonial

brasileira eminentemente predatória, o que exigia a posse de grandes faixas de terra (HOLANDA, 1995 [1936]).

momento, tornou-se evidente no caso brasileiro que o produtor rural considerava muito mais cômodo voltar-se para esta forma de aquisição da mão-de-obra do que investir nas mínimas condições de vida dentro das senzalas e garantir a boa saúde do escravo para o trabalho e para a procriação. Neste sentido, SKIDMORE (1998) comenta que para o senhor da empresa colonial era preferível dar alforria ao escravo cansado e doente e adquirir outro pelo tráfico do que melhorar as condições de vida deste. Esta propensão explica a dificuldade do governo brasileiro em encerrar o tráfico negreiro, atendendo a solicitação dos ingleses66.

Aliado a já mencionada política colonializadora do arrendamento de terra, este fator estimulou a propriedade latifundiária, gerando uma enorme concentração de bens nas mãos de poucos proprietários, o que aumentou ainda mais o poder da oligarquia rural (SKIDMORE, 1998; FAORO, 2001; HOLANDA, 1995 [1936]; CANABRAVA, 1985). Em comparação com a economia de plantation do sul dos Estados Unidos, o modelo institucional erigido com a propriedade latifundiária brasileira foi um fator crucial para explicar as marcantes diferenças nas condições políticas que caracterizaram o atraso do Brasil em relação aquele país da América do Norte, um país de trajetória histórica e condições geográficas muito semelhantes ao Brasil, mas que em meados do século dezenove assume um novo rumo em seu desenvolvimento social e econômico (FURTADO, 1999; LEFF, 1972b; 1982).

Em suma, o engenho não só representa o mais importante empreendimento econômico do período colonial, mas também se configura como o primeiro empreendimento manufatureiro do país, o primeiro sistema em que se desenvolveu uma gestão manufatureira. Assim, não é errado considerá-lo como o tipo organizacional onde se desenvolveu o primeiro modelo de gestão a ser institucionalizado no país, já que este modelo é uma importante referência para outros empreendimentos econômicos dos períodos históricos posteriores a época colonial – tais como as primeiras fábricas brasileiras, que começam a aparecer já na

66 Segundo GRAHAM (1966; 1973), logo após a declaração da independência do Brasil a coroa

inglesa força o recém criado governo imperial a assinar um acordo de término do tráfico negreiro em 1831. Todavia, o cumprimento deste acordo foi negligenciado pelas autoridades brasileiras até 1850, quando, após o ataque da marinha inglesa a um navio negreiro brasileiro, foi definitivamente homologado pelo governo brasileiro.

fase imperial (STEIN, 1979; LUZ, 1975) – e mesmo para a estrutura estatal que se forma com a independência política, tendo em conta especificamente as estreitas relações entre o Estado e as oligarquias rurais. É esta influência que se pretende demonstrar pela seguinte análise do Brasil durante o século dezenove.

4.2 A PERMANÊNCIA DO PATRIMONIALISMO BRASILEIRO DURANTE O