3. TEK DÜZEN MUHASEB E SİSTEMİ DEĞERLEME İLE ULUSLARARAS
3.5. Değerleme Açısından Tek Düzen Hesap Planı ve Uluslararası Muhasebe
3.5.1. Finansal Araçlar
A industrialização no Brasil apresenta-se a partir de diversos momentos críticos, sendo que os mais significativos remontam um período mais recente, ou seja, aquele associado aos eventos políticos e econômicos de crise e guerras do início do século vinte (BAER e VILLELA, 1973). Todavia, como já foi mencionado, os primeiros esforços para viabilizar o processo de industrialização ocorrem já no momento em que a família real portuguesa se estabelece no Rio de Janeiro, no início do século dezenove (LUZ, 1975). Estes esforços, apesar de refletirem nitidamente o pensamento iluminista – que considerava ser a industrialização benéfica para o desenvolvimento econômico e social de um país – se contrapunham aos interesses dos membros da elite latifundiária nacional, especialmente a partir do impulso agrário-exportador na segunda metade daquele século.
Por esse motivo, este primeiro esforço de incentivo à indústria nacional foi justificado como uma opção para problemas específicos do sistema econômico agrário-exportador, como, por exemplo, a questão dos grupos excluídos do sistema escravocrata. Assim, no início do século dezenove, a industrialização era vista apenas como uma alternativa para um grave problema social, ou seja, a acomodação de uma classe ‘desocupada’: os indivíduos livres não proprietários de terra, um grupo excluído do sistema econômico agrário-escravista (SKIDMORE, 1998; STEIN, 1979; LUZ, 1975). Como sugere o seguinte trecho:
Pelo alvará do 1º de abril de 1808, revogava o Príncipe Regente D. João as peias do sistema colonial e pretendia, sob o signo do liberalismo, inaugurar, no Brasil, a era industrial com o objetivo de multiplicar a riqueza nacional, promover o desenvolvimento demográfico e dar trabalho a um certo elemento da população que não se acomodava à estrutura sócio-econômica vigente, estrutura
que se definia, essencialmente, pelo regime escravocrata. (LUZ, 1975, p. 20)
O ato do monarca português mencionado por LUZ (1975) configurou a anulação da proibição da atividade industrial em território brasileiro implementada pelo Marquês de Pombal no século anterior, um estadista português conhecido pela sua rígida política imperialista e seus transparentes interesses colonizadores (SKIDMORE, 1998; STEIN, 1979). Após o primeiro alvará em favor da indústria no Brasil surgiram várias outras medidas que visaram estimular o interesse dos investidores neste setor econômico específico. Entretanto, a natureza destes incentivos era sobremaneira contraditória com as idéias da filosofia liberal, por serem demasiadamente protecionistas e por privilegiarem setores específicos, geralmente aqueles cujo desenvolvimento estava diretamente relacionado aos interesses de pessoas influentes no governo.
Neste ponto, a frustração dos esforços a favor da industrialização ocorre devido às contradições da própria política de incentivo à indústria. Isto porque, apesar de interessado em fomentar a atividade industrial no país, o governo imperial dependia das tarifas alfandegárias dos produtos industrializados importados (LUZ, 1975)71. É assim que os interesses de determinadas facções eram atendidos no momento que se estabelecia uma nova tarifa para certos produtos estrangeiros concorrentes, mas em seguida esses esforços eram anulados por uma nova tarifa sobre importantes insumos ou bens de produção, ou pelo retrocesso do governo em relação a primeira alíquota. Um importante exemplo deste cenário é citado por LEOPOLDI (2000, p. 95):
[Na época do Império] qualquer redução tarifária podia aniquilar uma indústria. Ilustrativa desta insegurança foi a falência da empresa Ponta D’Areia, em Niterói, um complexo de oficinas de construção naval, fundição de ferro e oficinas de máquinas. Ponta D’Areia foi adquirida em 1846 por Mauá que, confiante nas intenções protecionistas da Tarifa de 1844, expandiu o empreendimento. Entretanto, as tarifas de 1857 e 1860 expuseram o estaleiro a
71 LUZ (1975) indica que as tarifas alfandegárias representavam a principal receita do governo
imperial e da Primeira República. Ratificando este entendimento, dados apresentados por LEOPOLDI (2000) indicam que até a Primeira Guerra Mundial as receitas aduaneiras representavam cerca de dois terços das receitas totais do Estado.
concorrência dos navios importados, levando toda a empresa à falência.
Este jogo de idas e vindas perdurou durante todo o período do Império e da Primeira República, com avanços e retrocessos à medida que se revezavam no alto escalão do Estado os simpatizantes da causa industrial e os defensores das oligarquias rurais. Este paradoxo é explicado principalmente pela tendência ao clientelismo na condução das políticas públicas (FAORO, 2001), uma herança do período colonial que persistiu até o regime republicano, e que condicionava o país a vivenciar uma espécie de ‘pseudo-capitalismo’, ou seja, um regime de exportação- importação inserido no processo de divisão internacional da produção capitalista, mas que, internamente, vivenciava um regime patrimonialista, regido por valores tradicionais e mecanismos semi-feudais (FAORO, 2001; PRADO JR., 1971 [1942]).
Além das questões alfandegárias, a postura do governo em relação à indústria nacional foi marcada pela crescente pressão das oligarquias rurais e de outros grupos de interesses convergentes, ou seja, os comerciantes e os industriais ingleses (RIDINGS, 1977). Neste sentido, a defesa pela industrialização feita pelo governo de Dom João VI foi empreendida na medida do possível sem comprometimento dos interesses da economia agrícola de exportação. É por isso que se atribuiu ao processo de industrialização no início do século os adjetivos ‘moderado’ e ‘cauteloso’ (LUZ, 1975). A intenção era desenvolver a indústria de produtos específicos, mais precisamente os produtos de primeira necessidade para consumo interno e de pouco valor agregado, tais como alimentos, bebidas e tecidos de baixa qualidade (para a vestimenta de escravos e sacas de bens agrícolas), tendo em conta especificamente o alto custo do transporte deste produtos no caso da importação (STEIN, 1979). A este respeito, José da Silva Lisboa, conselheiro do Príncipe Regente português e principal articulador da liberdade de indústria no país afirmou que “as fábricas que por ora mais convêm no Brasil (...) são as que proximamente se associam à agricultura, comércio, navegação e artes da geral acomodação do povo” (apud LUZ, 1975, p. 22).
Este importante membro do governo brasileiro oitocentista se inspira no caso dos Estados Unidos que, a época, promovia uma industrialização subordinada aos interesses da economia agrícola (LUZ, 1975). Além desta perspectiva cautelosa em
relação à indústria, a dependência econômica da coroa portuguesa (e depois, do recém criado Império brasileiro independente) em relação a credores da nação inglesa comprometeu já de início os esforços do governo para o estabelecimento da atividade industrial no país. Dois anos após o decreto de liberdade de indústria no território brasileiro, foram concedidas aos produtos ingleses taxas alfandegárias preferenciais, mais privilegiadas que as taxas concedidas aos próprios portugueses (LUZ, 1975).
Após este primeiro esforço frustrado de criação da indústria nacional, foi na década de 1840 que se articulou uma nova tentativa de fomento à industrialização. Com o nome de seu idealizador (ministro da fazenda à época), a tarifa Alves Branco foi criada em 1844 como uma tributação protecionista à indústria nacional, em uma clara política de cunho mercantilista em tempos de capitalismo industrial (LUZ, 1975). Esta tarifa foi estabelecida a partir dos trabalhos de uma comissão formada para articular uma nova política alfandegária no país, tendo em conta o término de diversos tratados comerciais estabelecidos nas décadas anteriores. Inicialmente, estes esforços reformadores pretendiam estabelecer taxas na ordem de 50 a 60% para produtos importados similares aos industrializados no Brasil. Todavia, chegou- se ao valor médio de 30%, um resultado não muito expressivo para garantir a efetiva política protecionista que se almejava, um resultado certamente influenciado pela crescente pressão britânica e da classe latifundiária no estado brasileiro em meados do século.
A subserviência do governo imperial aos interesses da elite agrária transparece explicitamente nos trabalhos de uma nova comissão revisora da tarifa aduaneira brasileira, criada na década de 1850, como sugere o seguinte trecho extraído de seu relatório final, a respeito da avaliação das conseqüências da tarifa Alves Branco:
Uma tarifa que encareceu com o peso de fortes direitos os instrumentos agrários, e dificultou a sua aquisição, uma tarifa que encareceu os gêneros necessários à subsistência da classe dos trabalhadores, a conservação de impostos, que dificultam a saída de seus produtos, e a sua concorrência com seus similares nos mercados exteriores, e que colocam os nossos lavradores na triste colisão, ou de abandonarem a lavra da terra, ou de suportarem rudes golpes por amor da indústria fabril (apud LUZ, 1975, p. 28)
Aliado a estes interesses da economia agrícola de exportação, surge a crescente necessidade de se gerar dividendos para o tesouro nacional, cada vez mais comprometido com os vultosos gastos da máquina estatal – característica do Brasil desde o período colonial que se tornou crítica a partir da transferência da família real portuguesa em 1808 (SKIDMORE, 1998). Além disso, as novas empreitadas militares após a independência e os contínuos investimentos em obras públicas (especialmente aqueles relativos à urbanização do Rio de Janeiro e ao desenvolvimento dos transportes e das comunicações no vasto território nacional) tornaram mais aguda a dependência dos cofres públicos às divisas aduaneiras (LUZ, 1975; STEIN, 1979; BAER, 1996; SKIDMORE, 1998).
Finalmente, outros dois fatores foram decisivos para frustrar de vez o ímpeto inicial da indústria nacional no século dezenove: i) a ausência de crédito para a indústria, tendo em conta a desconfiança e incerteza de investidores e instituições bancárias quanto à possibilidade de sucesso destes novos empreendimentos, mas também, pelo fato de existirem à época atividades concorrentes mais lucrativas (LUZ, 1975; STEIN, 1979); e ii) a falta de mão-de-obra própria à lógica industrial, seja pela falta de qualificação, seja porque a força de trabalho era fundamentada na relação escravocrata (STEIN, 1979), um sistema intrinsecamente inviável para o estabelecimento da rotina fabril capitalista (HARDMAN e LEONARDI, 1982).
Assim, somente no fim do século dezenove é que dois importantes eventos forçaram um novo rumo para o fortalecimento da indústria nacional: com o fim da escravidão e o surgimento do regime republicano no fim da década de 1880, a economia industrial sentiu um novo ímpeto de crescimento, favorecida especialmente pela sobra de capital no mercado financeiro (antes dedicado a aquisição de escravos) e a crescente imigração do europeu (povo mais familiarizado com o sistema fabril), ocasionada primeiramente com o objetivo de suprir a mão-de- obra escrava na lavoura (LUZ, 1975; STEIN, 1979; SKIDMORE, 1998).
Apesar desta significativa mudança institucional, o incentivo à industrialização durante a Primeira República ainda se subordinou ao interesse agrícola (devido especialmente ao poder político dos produtores de café), mantendo o entendimento de industrialização branda. O argumento para esta posição ainda era o de que não
se deveria abalar a atividade econômica já consolidada no país, mas também que era impossível para o Brasil competir com as economias industriais já consolidadas, idéia esta naturalmente aplaudida pelo governo inglês (GRAHAM, 1973).
Por outro lado, os industriais se fortaleciam economicamente e começavam a se articular em torno de uma pauta protecionista mais expressiva. Esta era reivindicada principalmente pela política tarifária contra a ameaça de específicos produtos importados. Todavia, este tipo de medida protecionista não era uma questão simples, pois envolvia um complexo conjunto de interesses, como sugere o seguinte trecho:
A quem interessa uma política tarifária num país que inicia seu processo de industrialização? São vários os setores nela envolvidos: os industriais que têm seus produtos protegidos contra a concorrência dos manufaturados importados, o Estado que aufere rendas do imposto aduaneiro sobre as importações, e os comerciantes importadores que em períodos de baixos índices tarifários podem colocar produtos estrangeiros no mercado mais facilmente. A tarifa também traz lucros aos produtores de manufaturados estrangeiros, que podem exportá-los para um país sem barreiras tarifárias. Os cafeicultores – e os exportadores agrícolas em geral – são afetados por elas, pois podem sofrer represálias comerciais dos países compradores de café, insatisfeitos com as tarifas brasileiras. (LEOPOLDI, 2000, p. 93)
Pela passagem anterior, pode-se observar que o problema do protecionismo via política tarifária envolvia todos os principais personagens que constituíam a trama da industrialização do Brasil: o governo, os cafeicultores, os importadores, os países industrializados e – é claro – os industriais brasileiros. Este certamente é um dos motivos pelo qual a teia de relações no processo da industrialização brasileira seja tão complexa, já que envolve interesses de diferentes atores que, se entre alguns se contrapõem claramente – como no caso dos industriais nacionais e dos produtores estrangeiros – em outros casos podem convenientemente se ajustar, como ocorreu na singular relação entre os industriais paulistas e os importadores72.
Mesmo com estas dificuldades, se observa um significativo aprimoramento do ofício fabril a partir do término do trabalho escravo, já que a abolição contribuiu para a renovação da força de trabalho, devido particularmente à política de incentivo à
imigração do europeu, mas também por causa do êxodo dos ex-escravos do interior para os grandes centros urbanos (SKIDMORE, 1998; STEIN, 1979). Além disso, com a abolição em 1888, parte do capital financeiro investido no país migrou do comércio de escravos para a atividade industrial (LUZ, 1975). Entretanto, a transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado não foi algo tão simples, como veremos a seguir.