Sinem SOMUNOĞLU 1 Erhan ERDEM 2
2. MATERYAL YÖNTEM
Resta-nos, ainda, observar o episódio pelas modalizações veridictórias:
Retomando o quadrado da veridicção de Greimas e Courtés, será mais fácil contemplarmos as relações no primeiro capítulo.
Como sabemos, para que haja a primeira manipulação é evidente a existência de um /saber/ que se instaura no destinador manipulador, e isso se dá de maneira quase exclusiva na dimensão cognitiva. Acima de tudo, gostaríamos de destacar o fato de que o /saber-ser/ se manifesta diferentemente nos actantes presentes no primeiro capítulo: Gandalf, enquanto destinador, sabe das virtudes virtualizadas do destinatário Bilbo, que o destacam dos demais elementos da mistura homogênea. No entanto, o mesmo não pode ser dito a respeito dos demais actantes – os dwarfs –, pois, como vimos, fazem uma sanção precipitada sobre a competência de Bilbo. Ao que isso remonta? Em primeiro lugar, caso nos voltássemos ao início de nossa pesquisa, poderíamos observar que a longa distância percorrida por Gandalf, o longo tempo de vivência, entre outros elementos, qualificam-no como um sábio no nível discursivo, o que lhe permite vislumbrar a realidade de maneira diferente dos demais, que não possuem as mesmas experiências.
O /ser/ que é atestado pelo narrador nesse construto axiológico não é tão evidente para os demais actantes do mesmo nível. O /saber/ extenso de Gandalf leva a um /poder/ que contorna a problemática encontrada pelos demais actantes em situações com impedimentos. Nesse actante, temos os atributos que um indivíduo deve buscar com o intuito de vencer as provações que surgem pelo caminho. O amplo saber desse actante destinador leva a um /poder/ que o conduz à liderança do grupo em sua incursão.
O papel de destinador que Gandalf assume no nível narrativo ocorre, pois, em razão de seu /saber/ construído por um uma experiência ampla, o que irremediavelmente leva a um /poder/.
Pensando no nível narrativo, podemos observar uma diferente perspectiva de cada um dos integrantes da trupe em uma das dêixis citadas acima. Gandalf se encontra, em sua sanção, na dêixis da verdade, devido à sua experiência, construída por percursos anteriores e modalizações particulares: conhece o /ser/ do destinatário, mas, acima de tudo, percebe o /parecer/ que limita a visão dos demais, que os leva à sanção negativa precipitada que observamos no tópico anterior.
O /não-ser/ associado ao /não-parecer/, sabemos, é a configuração da dêixis da falsidade exposta no quadrado acima. Assim, a sanção dos demais actantes se dá dessa maneira, na dimensão cognitiva, devido ao fato de não poderem observar, como Gandalf, os atributos mencionados abertamente em uma debreagem de segundo grau:
– É claro que há um sinal – disse Gandalf. – Eu mesmo o coloquei. Por razões muito boas. Vocês me pediram para encontrar o décimo quarto homem para a sua expedição, e eu escolhi o Sr. Bolseiro. Se alguém disser que escolhi o homem errado, ou a casa errada, podem ficar em treze e com todo o azar que quiserem, ou então vão voltar à extração de carvão (TOLKIEN, 2009, p. 18).
Quando há o conflito de opiniões no capítulo 1, o resultado é que a manipulação de Gandalf prevalece, principalmente em razão de questões fiduciárias, nas quais há um /crer/ que as ações intimidadoras na citação podem ser realizadas, caso haja um encaminhamento diferente do programa narrativo que se constrói. Apesar da forte manipulação, a dêixis dos dwarfs continua sendo a da falsidade, afinal é uma questão relacionada à construção da fidúcia pelos /saberes/ que são atestados pela evidência, somada às experiências que lhes faltam para que conheçam o percurso mascarado de Bilbo: os actantes estariam em uma condição oposta à de Gandalf nesse sentido.
Muito embora em momentos posteriores Bilbo venha a passar por provações, e acabe descobrindo que seus feitos podem ser realizados, o escopo sobre si mesmo acaba sendo o do segredo: a visão reflexiva de seus feitos, que será observada posteriormente, não é compartilhada por outros actantes, fora de seu campo de presença; logo, temos um /não-parecer/ reforçado pela distância ou ocultado pelos efeitos de invisibilidade do anel no nível discursivo; no entanto, em sua essência, temos um /ser/.
A dêixis da mentira seria também observada no actante em algum momento? Parece-nos que quando há o confronto de opiniões entre os dwarfs e Gandalf a respeito da competência relacionada às performances de Bilbo, temos a questão sendo desenvolvida. O julgamento dos dwarfs recai sobre a perspectiva de Gandalf enquanto destinador: creem que se trata de um equívoco, que há um /parecer/ nas habilidades do hobbit, mas um /não-ser/. O jogo dessas modalidades é bastante complexo, afinal diz respeito à perspectiva do narrador, que nos mostra o /ser/ por meio de descrições de várias ordens, no entanto o /parecer/ diz respeito estritamente às interpretações entre os actantes, daí o conflito que se instaura no fragmento observado. Seja como for, a manipulação de Gandalf predomina após a intimidação bem sucedida. Notamos, por fim, que o actante Bilbo passará por todas as dêixis descritas acima em alguns dos momentos do romance.
E como o conceito de herói, tal qual o encontramos no Dicionário de Semiótica, se constrói em meio aos fazeres ao seu redor?
– Desculpem – disse ele – se, por acaso, ouvi o que vocês estavam dizendo. Não vou fingir que estou entendendo o que disseram, ou a referência que fizeram a ladrões, mas acho que estou certo em acreditar – isto é o que ele
chamava “defender sua dignidade” – que acham que eu não sirvo. Eu vou lhes mostrar. Não tenho sinais na minha porta, que foi pintada há uma semana, e tenho certeza de que vocês vieram bater na casa errada. Assim que vi suas caras esquisitas na porta, tive minhas dúvidas. Mas façam de conta que esta é a casa certa. Digam-me o que vocês querem que seja feito e vou tentar fazê-lo, mesmo que eu tenha de andar daqui até o leste do leste e lutar contra os Homens-dragões selvagens no Último Deserto (TOLKIEN, 2009, p. 17-18).
Em sua tentativa de manter a imagem que ruiu ante à sanção negativa dos actantes, Bilbo os contraria, mostrando que consegue romper os limites prostrados diante de si na dimensão cognitiva. Os resquícios da coragem para combater o orgulho ferido se misturam de maneira única, na forma de paixões pontuais: a somação desencadeia as escolhas de Bilbo e levam-no adiante em sua incursão.
Um /dever-fazer/ que se instaura para que haja a manutenção de sua imagem, apesar de um /não-saber-ser/, são os elementos que compõem o percurso canônico observado em muitos romances históricos. Especificamente em The Hobbit, trata-se da coragem que se manifesta por um /querer-fazer/, resultado do cruzamento entre o endógeno e o exógeno, configurando-se como o romper do sujeito na busca pela conjunção.
Temos finalmente a completude da esquizia no capítulo: o sujeito acaba por se distanciar, em certa medida, dos valores de universalidade que existem em harmonia dentro do actante coletivo shire; sua marginalização evidencia modalizações individuais deveras distinta dos demais, por isso o afastamento se torna tão chocante quando pensamos nas relações interactanciais.
Acima de tudo, temos a construção de modalizações exógenas e endógenas distintas, que contrastam com as do actante Bilbo que havia sido descrito no início do romance. Trata-se da dualidade, ou o que o narrador chama de lado Tûk, em oposição ao hobbit comum, e o que chamamos até aqui de alterego, dupla configuração modal, deveras contrastante, pois faz com que entrem em suspensão os elementos contrários, virtualizando-os ou realizando-os.
Se, por um lado, temos as configurações do tipo /querer/ estar em conjunção com o objeto dos demais integrantes do shire, um /dever/ buscar essa conjunção, acompanhados por um /poder/ e um /saber/ (como o sujeito ireniano), temos a primeira configuração hegemônica, algo que não destaca Bilbo dos elementos; por outro lado, quando o /querer/ começa a emanar em conjunto com as paixões que foram descritas até aqui, modalizações contrárias manifestar-se-ão, e sob a égide do lado Tûk. A oposição
que se constrói, evidentemente, é entre o caráter endógeno da mudança de Bilbo em relação ao exógeno ao seu redor.
É claro que a esquizia do sujeito é somente o primeiro passo, e que os fazeres que se desdobrarão ao longo do romance são das mais variadas ordens, mas essa cisão é o primeiro aspecto relevante, que instaura a busca pelo objeto.
Pensando por esse viés, temos a primeira caracterização de Bilbo como um herói, buscando o apogeu das paixões, contrariando o que a moral estabelecida pela forma de vida no shire qualifica como axiologicamente positiva.