3. MARKA KAVRAMI VE MARKA DEĞERLEMESĠ
3.6 Marka Değerlemesinin Kullanım Alanları
Vimos, portanto, que haveria a possibilidade de os autores concluírem em suas análises da afasia que a linguagem é integralmente motora e integralmente inteligência. Seria até possível estratificar a fala em elementos separando-os, mas, apesar da divisão, sempre haverá uma alteração global no sentido da linguagem, revelando que não há distúrbio puramente motor ou puramente inteligente e sim que haveria uma alteração global que modifica a experiência linguística. Portanto podemos concluir que toda operação linguística seria uma apreensão de sentido e podemos perceber que se há algum tipo de estratificação da fala é porque existem diferentes “camadas de significação” apreendidas. Mas todas submetidas à “potência essencial à fala”. Essa “terceira noção” permite integrar os fenômenos da fala sustentando-os todos no “edifício da linguagem”. Desse modo, ao utilizar a doença como dispositivo crítico, Merleau-Ponty encontra uma intenção anterior e fundante ao edifício da linguagem. A afasia nos revelaria pela incapacidade dos doentes a necessidade da fala estar em uma “experiência aberta”, na “espessura do ser”, na constituição e no deslocamento das expressões das “zonas de vazios”293. Dessa forma se compreendemos a linguagem como o
meio em que o homem estabelece relações, não poderíamos entendê-las só como um instrumento, mas como um lugar de manifestações no qual revelamos e constituímos nossas
292Ibid, p. 263. 293Ibid, p. 266.
subjetividades, o outro e os objetos culturais. Demarcamos, então, a “essência mais profunda do homem”294.
Veríamos que criar categorias, ou seja, relacionar-se com o mundo por meio delas seria um dos movimentos possíveis em direção ao mundo. Isso denotaria certa atitude. Pensar e falar seriam, assim, formas intencionais de se direcionar aos objetos295. Vimos que o sentido
do mundo nos advém pelas palavras. Direcionar-se aos objetos seria, então, acessar o mundo por ela. Vimos também que a emoção é o combustível linguístico, portanto buscar o mundo é emocionar-se. As emoções nascem da posição do corpo e de seu uso. O elo entre as palavras e o seu sentido seria a possível posição do sujeito falante no mundo de suas próprias significações, ou seja, qualquer possibilidade da existência da linguagem ou de uma linguagem deve-se a sua existência encarnada. O gesto fonético realiza certa estruturação da experiência, estruturação essa que estabelece determinado sentido. Essa apropriação dos núcleos significativos pelo gesto seria o que confere ao ato do corpo sua transcendência296. O
ato humano seria, dessa forma, investido de vários significados. A linguagem nasceria desse investimento específico ocorrido no ato de emitir sons. Por isso o gesto fonético vai além da linguagem preestabelecida, pois seria ele quem cria novos significados na medida em que se expressa. Se o gesto fonético é inerente ao corpo “não se pode dizer da fala nem que ela é uma “operação da inteligência”, nem que é um “fenômeno motor”: ela é integralmente motricidade e integralmente inteligência”297, por isso todo o distúrbio da linguagem afeta a
motricidade e seu sentido298. Se há particularidades em cada distúrbio, se há particularidades
em cada língua constituída, há devido a diferentes camadas de significação299. No entanto
vemos tanto no distúrbio quanto na linguagem, tanto nos sentidos como em suas camadas de significação uma potência essencial à fala, uma unidade da fala na função “que opere tanto
294Ibidem.
295“a palavra, quando perde o seu sentido, modifica-se até em seu aspecto sensível, ela se esvazia” (Ibid, p. 261).
296“Esse ato de transcendência encontra-se primeiramente na aquisição de um comportamento, depois na comunicação muda do gesto: é pela potência que o corpo se abre a uma conduta nova e faz que testemunhos exteriores a compreendam. Aqui e ali, um sistema de poderes definidos repentinamente se descentra, rompe- se e reorganiza-se sob uma lei desconhecida pelo sujeito ou pelo testemunho exterior, e que se revela a eles nesse momento mesmo” (Ibid, p. 262-3).
297Ibid, p. 264.
298“Portanto, a fala repousa em uma estratificação de poderes relativamente isoláveis. Mas, ao mesmo tempo, é impossível encontrar em alguma parte um distúrbio da linguagem que seja “puramente motor” e que não diga respeito, em alguma medida, ao sentido da linguagem” (Ibid, p. 264).
299“Se quisermos resumir essas duas séries de observações, será preciso dizer que toda operação linguística supõe a apreensão de um sentido, mas que o sentido, aqui e ali, é como que especializado; existe diferentes camadas de significação, desde a significação visual da palavra até sua significação conceitual, passando pelo conceito verbal” (Ibid, p. 265).
nas preparações escondidas da fala como nos fenômenos articulares, que sustente todo o edifício da linguagem e que todavia se estabilize em processos relativamente autônomos”300.
Vemos que o pilar que sustenta todas as demais operações, o motor que movimenta toda a máquina é a intenção de falar a qual nasce da experiência das zonas de vazio. A linguagem viva das relações não seria um instrumento, mas um meio de manifestação, de criação ou de transformação dessas zonas.
Temos, portanto, de um lado a intenção da fala e do outro toda a produção da linguagem (tal como a sintaxe, a gramática, sua história, entre outros). A intenção falante se exterioriza através das línguas empíricas, isto é, os depósitos sedimentados de atos de fala. Seria através desses meios de expressão que o sentido não formulado pode encontrar ferramentas para se exteriorizar e para que adquira existência, ou seja, para que se constitua como um genuíno ato de expressão. Merleau-Ponty entende, então, que há esse duplo da linguagem. Haveria todo o material falado que constitui o que ele denominou de uma fala falada. E haveria também toda essa intenção de expressão pela fala que ele chamou de fala falante301. Portanto a falada é a
sedimentação da falante no ser natural, ou seja, no interior da falada advém a criação do sentido falante. A falante nasce da intenção do corpo em projetar o seu sentido ao outro. A fala não adviria, assim, do pensamento ou da alma, mas sim dessa intenção do corpo próprio302. Da relação carnal303 entre mundo e consciência, da intersubjetividade que temos de
um lado a fala falante, originária, gestual, instituidora de sentido e do outro a falada, já instituída, de um pensamento apreendido. É do interior da relação da fala falante e do mundo percebido que surgem os elementos fundamentais da experiência tais como a expressividade do corpo próprio, o mundo perceptivo, a mímica e a fala como significação existencial. No fundo a fala é a expressividade do corpo próprio – milagre da expressão – pela retomada do mundo perceptivo, projetando-se para além de si devido a sua capacidade expressiva. A fala falante nasceria da necessidade da existência a qual nos joga ao não-ser. Dessa forma ela “polariza-se” em um sentido que transcende o ser, porque ela não pode ser definida por
300Ibid, p. 265.
301“Ou, ainda, poderíamos distinguir entre uma fala falante e uma fala falada. A primeira é aquela em que a intenção significante se encontra em estado nascente. Aqui, a existência polariza-se em um certo “sentido” que não pode ser definido por nenhum objeto natural; é para além do ser que ela procura alcançar-se e é por isso que ela cria a fala como apoio empírico de seu próprio não-ser” (Ibid, p. 266-7).
302“Sempre observaram que o gesto ou a fala transfiguram o corpo, mas contentavam-se em dizer que eles desenvolviam ou manifestavam uma outra potência, pensamento ou alma. Não se via que, para poder exprimi-lo, em última análise o corpo precisa tornar-se o pensamento ou a intenção que ele nos significa. É ele que mostra, ele que fala, eis o que aprendemos neste capítulo” (Ibid, p. 267).
nenhum objeto natural. Ela seria esse excesso sobre o ser natural ao qual é expresso pela fala. Ao expressar-se, a fala constitui um “mundo linguístico” e um “mundo cultural”. A existência repousa no ser “aquilo que tendia para além”. Nasce a fala falada que colhe os frutos gerados, mas que do seu interior torna “impossível outros atos de expressão autênticos”. Faz-se necessário encontrar as fissuras dessa “abertura sempre recriada na plenitude do ser” para que advenha através da linguagem, como as primeiras palavras da criança ou do escritor, novas formas de “projetar-se para além de si mesmo”304. A fala emerge305 de um gesto do corpo
imerso no sentido/mundo, esse gesto significa uma posição frente ao mundo em articulação com o ser social. O retorno à origem da fala seria um retorno às coisas mesmas em que se capta o sujeito falante, a língua falada e vivida. Captar a essência da linguagem seria, então, captar o movimento falante que significa, também, criticar o objetivismo ou o subjetivismo da linguagem, recolocando-a na dimensão expressiva.
304Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 267. 305Segundo Furlan & Bocchi (2003).
Conclusão
O presente trabalho teve o intuito de compreender a linguagem como expressão do corpo. Visou-se buscar uma abordagem distinta da tradição em que a vinculava com as estruturas do pensamento reduzindo-a, pois ela era vista como resultado de processos distintos dos seus fenômenos. Reconduzi-la ao centro da fala, ou mais precisamente ao gesto fonético, tornou-se tarefa central. Para isso foi necessário buscar as críticas e construções centrais do pensamento de Merleau-Ponty. Inicialmente buscou-se demonstrar a quê o autor se opunha. Consequentemente, buscou-se os elementos constitutivos do caminho que evidenciam a linguagem como expressão do corpo. Desse modo almejou-se colocar o fenômeno fonético no seu devido lugar, desconstruindo a visão dominante tanto na filosofia quanto na ciência que colocavam no topo, equivocadamente, a representação e suas relações formais. O trabalho contemplou, assim, o centro da linguagem como manifestação do corpo.
Inicialmente buscamos evidenciar o pensamento de Merleau-Ponty a partir de sua crítica, iniciada pelo seu diagnóstico a todas as concepções tradicionais do pensamento. O principal prejuízo detectado por ele seria a redução da realidade à dicotomia sujeito/objeto a qual denominou de pensamento de sobrevoo ou, especificamente na Fenomenologia da Percepção, como prejuízo clássico. Em seu diagnóstico, Merleau-Ponty compreende que essa dicotomia gerou uma determinada entidade denominada de sujeito cognoscente que transformou o mundo em uma representação para que ele possa, assim, apreendê-lo. Dessa forma criou-se a necessidade de buscar sempre o mundo para confirmá-lo, pois, em vez de vivê-lo, eu o represento, obrigando-me a sempre verificar se aquilo que represento está de acordo com o representado. A existência resumiu-se, portanto, a tudo aquilo que é passível de representação, pois não haveria outra forma de relação com o mundo pelo sujeito cognoscente que não seja mediada por ela. Tudo aquilo que estaria fora dessa via não seria passível de compreensão e estaria relegado ao esquecimento. Portanto Merleau-Ponty entende que o primeiro passo a ser dado para a real compreensão do mundo seria retornarmos aos fenômenos originários. Essa tentativa de religar essa relação perdida pelas representações da consciência deveria ser buscada fora dela. Buscar essa vida fora da representação.
Esse novo caminho proposto pelo autor seria encontrado na experiência perceptiva, pois ela seria a única apta a captar os fenômenos originários, restabelecendo o contato com o
mundo. Desse modo aparece a importância do corpo, visto que toda percepção se dá de maneira encarnada. As sensações que aparecem ao e no corpo sempre se dão pela perspectiva atual do posicionamento do sujeito encarnado. Essa proposta realizada por Merleau-Ponty exigiria uma nova compreensão do corpo distinta do pensamento de sobrevoo. Há na redução da realidade realizada pelos prejuízos clássicos a divisão do sujeito em res cogitans e res extensa, preenchendo o mundo e o corpo de uma substancialidade que os transformariam em simples objetos da consciência. Negligenciaram, assim, o funcionamento corporal integrado com a natureza, ignorando a comunicação natural mundo/corpo. Consequentemente não compreenderam, desse modo, a verdadeira atividade transcendental, pois ela seria corporal em que se destacaria a importância da posição do corpo na constituição do mundo e, a saber, do próprio sujeito cognoscente.
Merleau-Ponty pretende, portanto, romper a dualidade pelas experiências proporcionadas pelo corpo, pois seria pela sua posição que se gera tanto a subjetividade quanto a objetividade. Nesse processo não há espaço à representação, visto que seria pela via corpórea que a consciência e a razão encarnadas se deparariam com o mundo apresentado pela percepção. Dessa forma o enfoque passaria à compreensão de como se formaria o campo da experiência, de como nos deslocamos no mundo, de como experimentamos o tempo e o espaço. Vislumbramos desse interior a importância do movimento, pois seria através dele que o mundo delinearia seus contornos advindos das experiências espaciais e temporais. A espacialidade e a temporalidade, essa familiaridade com o mundo, faz com que o movimento advenha e nasça com sentido. Esse ato de projeção compreende o mundo como fundo e como polo de ação. Da intencionalidade corporal floresce a consciência e o seu objeto, pois, ao movimentar-se, o corpo visa sempre a algo, ou seja, funda o objeto, nosso polo de ação, instaurando a consciência. O alvo sempre é o sentido incoativo na intencionalidade.
Percebemos, desse modo, que o corpo está sempre em movimento e que se expressa através dos gestos de projeção e evocação. Seria essa a forma com que o corpo se depara com o outro e habita o mundo. Seria desse encontro que se abririam as portas aos fenômenos originários, isto é, é por morarmos no mundo, essa experiência originária, que perceberíamos que habitamos o tempo (experiência tempo, temporalidade) e o espaço (experiência espaço, espacialidade). À medida que os experimentamos vamos transformando nossos movimentos em hábitos, executando o processo de sedimentação de nossos gestos. Percebemos pelo corpo o constante desdobramento da intenção à efetuação. É nessa passagem que há a utilização dos
hábitos e o surgimento do gesto – esse rearranjo das sedimentações, possibilitando o aparecimento do novo. Esse nódulo essencial do movimento se manterá praticamente inalterado na fala. Na verdade ela é identificada como algo específico e fundamental ao homem, e, por isso, manterá as características essenciais do movimento. No final da análise da linguagem como expressão do corpo por Merleau-Ponty, teremos a fala falada – movimento fonético habitual e sedimentado - e a fala falante – movimento fonético gestual e instaurador de sentido.
Desse modo, ao abandonar o pensamento de sobrevoo e lutar contra o império da representação, percebemos que a fonte da fala é a modulação existencial do corpo próprio. Falar se apoia na intenção do sujeito falante o qual infla as palavras de significação própria, pois seu sentido adviria do gesto e não do pensamento. Portanto é pelo interior do gesto que perceberíamos que a palavra é fonte de sentido e não representação de algo. A fala nasceria para ampliar a capacidade de movimento do corpo e não para representar os objetos ou suas relações. Ao retomar o sentido instaurado pela percepção, a fala o prolongaria à comunicação. Teríamos, portanto, duas modulações da fala, a falante que seria da ordem do gesto fonético, e a falada (pensamento ou propriamente a cultura) que seria da ordem do hábito sedimentado. Falar significa, assim, uma forma de projeção ao mundo e uma forma de evocação das experiências. Retomar-se-ia o passado seja para dar-lhe um novo sentido (gesto) ou para recordá-lo (hábito).
Merleau-Ponty compreende que a fala lhe revela a última faceta do corpo próprio. Dessa forma ele acredita ter reformulado o problema do mundo, pois, para ele, a “tradição cartesiana” nos acostumou a conviver com a distinção abstrata entre nós e os objetos. Com isso a reflexão consolidou a cisão na “noção comum” de corpo e alma. De um lado, teríamos um objeto aglutinado de partes independentes sem interior. Do outro, um ser “celeste” dado ou que se revela inteiramente em um só golpe. Desse modo a “transparência”, tanto do objeto quando do sujeito, dar-se-ia pela atualidade do pensar ou daquilo que se “pensa ser”. Resume- se a existência a duas formas: a coisa ou a consciência. A constatação da existência do corpo próprio, que se dá através de nossas experiências ou expressões, vem mostrar a nossa existência ambígua. A busca por apreendê-lo como um objeto, ou seja, como um processo em terceira pessoa, fracassa, porque não conseguimos interligar suas partes entre si e entre si e o mundo através das relações de causalidade. Portanto o corpo não se resume a ser um objeto. Da mesma maneira a forma como nos conscientizamos dele escapa ao pensamento, visto que
ele não se manifesta por uma “ideia clara”, pois não consigo decompô-lo ou recompô-lo tal como requer a análise intelectual. Há sempre no corpo a abertura para outra coisa, pois ele é livre, mas é enraizado na “natureza”, ele se transforma pela “cultura”, mas sempre é sexualidade.
Devido a sua experiência nunca se reduzir à tradição cartesiana, o corpo nos impõe um único meio de conhecê-lo, a saber, temos que vivê-lo, ou seja, experienciar seu “drama”. Nessa medida, chego ao mundo e a ele porque sou ele, ou seja, ao mesmo tempo em que o corpo é um “sujeito natural”, ele é um “esboço provisório” do meu ser e seria esse o saber que adquiro ao vivê-lo. A superação do “movimento reflexivo”, essa tentativa de formular o corpo ideia para estabelecer o “pensamento do corpo”, adviria da oposição da experiência corpórea em destacar o sujeito do objeto e vice-versa. Por isso Merleau-Ponty reformula o problema do mundo. Ao exaltar a experiência do corpo próprio e a restituir a linguagem na fala, ele compreende que o problema do mundo não seria mais epistêmico, mas sim “no fato que tudo reside ali”306 para o corpo. Desse modo o autor, depois de ter revelado o drama corporal, passa
ao mundo percebido.
Poder-se-ia, aqui, abrir um interessante tema para futuras investigações, como nos mostra a nota nº 88do primeiro capítulo acima: “Sujeito Falante”. Resvalamos sem-querer em um problema extremamente difundido e deveras debatido entre os comentadores sobre a continuidade ontológica ou não do pensamento de Merleau-Ponty pós Fenomenologia da Percepção. Talvez sob o prisma da linguagem possa-se lançar alguma luz nova sobre essas desavenças, pois se focarmos na primeira parte da obra supracitada, perceberemos que há alguns pontos ou argumentos que serão retomados ou reutilizados posteriormente no pensamento do autor. Por exemplo na página 243 da Fenomenologia da Percepção há a posição contrária à concepção da “máquina de linguagem”, pois ela nos levaria a uma experiência de comunicação de uma forma ilusória, e há, também, a página 255 a qual o autor coloca-se contra a concepção do “pensamento puro” ou “universal” que nos levaria a um “algoritmo convencional”. Os argumentos desenvolvidos nessas páginas se aproximam muito dos utilizados no capítulo “O Fantasma de uma Linguagem Pura” de A Prosa do Mundo307.
Talvez aqui seja importante fazermos uma pequena pausa nas considerações e buscar revelar de maneira sucinta e de forma mais clara, como se daria uma possível correlação entre esses
306Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 268.
307Como se propõem MARTINS, P. M. (A “linguagem traz nela mesma a fonte de sua significação”. Manuscrito, Campinas, v. 29, n. 2, p. 575-96, 2006) e MUÑOZ, A. A. (“Linguagem e experiência em Merleau-Ponty”. Discurso, n. 29, p. 175-207, 1998).
dois textos. Para isso, vamos explorar um pouco mais o texto “O Fantasma de uma Linguagem Pura”.
Nele, Merleau-ponty busca mostrar que o pensamento puro denotaria uma Natureza sem homem, pois ele visaria forma a base da linguagem em seus casos puros de expressão. O pensamento teria a capacidade de assinalar sem equívocos os acontecimentos. Expressaria de forma clara e distinta suas ideias. Apontaria sem erros os estados de coisas. Do pensamento a linguagem, calcada nos seus casos puros, “não deixa mais nada a desejar, não contém nada que não mostre e nos faz deslizar ao objeto que designa”308. Desse modo a comunicação seria
vista como um efeito dessa linguagem, ignorar-se-ia toda a caracterização da fala em vista do outro, em que há todas as escorregadelas do sentido e o nascimento do mal-entendido no qual “se constrói acima da natureza um reino sussurrante e febril”309. Ela sucumbiria, portanto, à
mera substituição direta daquilo que haveria de se exprimir pelos sinais convencionais da sintaxe e da gramática. Haveria, na concepção de Merleau-Ponty, um descompasso entre essa concepção fechada de linguagem pura e o nascimento de expressões novas no interior da língua. Haveria o problema entre a possibilidade de se dizer algo novo calcado em um