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As perspectivas de mudança na formação em Saúde têm suas raízes no movimento da reforma sanitária na década de 80 que culminou na convocação da VIII Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, e estabeleceu a universalidade, a integralidade, a descentralização das ações, a hierarquização, o controle social, como princípios fundamentais da atenção à saúde, posteriormente incorporados à Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988.

Considerado evento político mais importante da época pelo seu caráter democrático, a reforma sanitária representou um novo paradigma de atenção à saúde, fruto de conquistas e avanços que se delinearam a partir da organização dos diversos segmentos da sociedade, na perspectiva da melhoria da qualidade da assistência à saúde da população.

Ainda nessa década, registram-se fatos importantes tais como - aprovação da Lei que regulamenta o exercício profissional21 depois de dez anos de tramitação no Congresso Nacional, a qual redefiniu as regras do exercício profissional da enfermagem no País, atribuindo ao enfermeiro à responsabilidade técnica por todas as ações de enfermagem.

Além disso, a ampliação dos cursos de graduação e de pós- graduação em Enfermagem e a produção de pesquisas contribuíram substancialmente para a análise crítica dos modelos de formação e conduziram a uma nova percepção do perfil profissional.

Ao mesmo tempo, intensifica-se em todo o país, um movimento de mudança em torno do perfil e das competências profissionais necessárias à formação do enfermeiro dentro do projeto Nova Universidade, promovido pelo Ministério da Educação e Cultura e Secretaria de Ensino Superior – MEC/SESU.

A Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN) e outras entidades de classe discutem coletivamente a formulação de um currículo para a Enfermagem e encaminham ao Ministério da Educação e Cultura uma proposta, sendo esta instituída pela Portaria no. 1721, de 15 de dezembro de 1994, que regulamenta um currículo mínimo constituído de quatro áreas: Ciências Biológicas, Sociais e Humanas; Fundamentos de Enfermagem; Assistência em Enfermagem e Administração em Enfermagem (GERMANO, 2003).

Inserido nesse contexto, o Curso de Enfermagem, objeto desta pesquisa, elaborou seu primeiro projeto político-pedagógico, fruto do trabalho coletivo produzido em seminários e oficinas, com a participação de docentes, alunos, enfermeiros da rede de serviços de saúde, representantes de entidades de classe, sob a coordenação dos representantes do Colegiado do curso e Chefia do Departamento. Desse modo, a construção coletiva nos

21 A promulgação da lei do exercício profissional de 1986 foi decorrente da ação conjunta

entre a Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e os Conselhos Regionais de Enfermagem, culminando com sua aprovação em 25 de junho de 1986. Muitos de seus artigos foram vetados, outras emendas surgiram, entretanto, a categoria considerou um grande avanço para o desenvolvimento profissional (KLETEMBERG, et. al., 2010).

possibilitou ampliar os espaços de diálogo, interlocução e ação participativa dos sujeitos produtores do cuidado em saúde.

Para Vasconcellos (2002, p. 169), essa forma de construir

É uma tentativa, no âmbito da educação, de resgatar o sentido humano, científico e libertador do planejamento (...) que se aperfeiçoa e se concretiza na caminhada, que define claramente o tipo de ação educativa que se quer realizar.

Nesse projeto, aprovado em 1991, definiu-se a formação do enfermeiro generalista em cinco anos letivos, incluindo o estágio curricular com o objetivo de formar o (a) profissional enfermeiro (a) com conhecimento científico e habilidade técnica para cuidar do ser humano em sua realidade de vida, apto para interferir no processo saúde-doença em uma perspectiva de mudança social (PPP/ENF/UFAL, 2006).

O arcabouço do curso foi organizado em disciplinas com carga horária total de 4494 horas, ofertadas em regime seriado anual. Partiu-se do pressuposto da integração dos conteúdos em respeito aos princípios do ciclo vital do ser humano e da complexidade crescente na abordagem de conteúdos. Propuseram-se a associação e a integração de conteúdos de várias disciplinas22 na perspectiva da interdisciplinaridade e da aplicabilidade do método científico na sistematização da assistência de enfermagem.

Essa forma de organização tinha a intenção de superar as distorções decorrentes da fragmentação curricular, da frágil articulação teoria/prática, entre tantas outras encontradas no ensino de graduação em Saúde. Guardadas as devidas proporções, antecipavam-se as recomendações das diretrizes curriculares instituídas em 2001.

Não obstante, na prática, os resultados alcançados não refletem os objetivos pretendidos na época da sua elaboração, na medida em que as distorções apresentadas persistem, contudo ganhos de outras naturezas são

22 A título de exemplo e para melhor compreensão do leitor mencionamos a disciplina

Método de Intervenção em Enfermagem II – Estudo da intervenção de enfermagem nas diversas fases do ciclo vital, com ênfase nos aspectos biológicos e sociais da criança, da mulher e do idoso, considerando o perfil epidemiológico em face das diferentes realidades sociais e das políticas públicas de saúde.

identificados em razão da execução desse projeto, como o desenvolvimento da pós-graduação e da consciência dos professores e dos alunos na perspectiva de construção de uma estrutura curricular que permita incorporar outras formas de ensinar e aprender.

Registre-se também, a participação crescente de professores e alunos nos editais de concorrência a projetos de pesquisa, tanto do CNPq como da Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas.

Com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei de nº 9.394, de 20/12/1996, extinguiram-se os currículos mínimos, estabelecendo-se a organização dos cursos a partir de diretrizes curriculares nacionais.

Nesse mesmo tempo, foi se fortalecendo, no cenário nacional o movimento de mudança na formação em Saúde, com a participação efetiva da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN), direcionada à elaboração de diretrizes e estratégias delineadoras da política de educação em Enfermagem no país, baseadas nos perfis epidemiológicos da população e na concepção de integralidade na atenção à saúde.

Destaque-se também a relevante atuação da Rede UNIDA23, que abriga experiências de mudança das diferentes profissões da saúde, construídas em parceria com as instituições de ensino, gestores do SUS, profissionais dos serviços de saúde e a sociedade organizada, fortalecendo os espaços de discussão e a articulação entre as instâncias que definem as políticas públicas em saúde e educação (BARBIERI, 2006).

A Rede Unida, a Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) e a Associação Brasileira de Medicina (ABEM) desempenharam importante papel como agentes articuladores das ações políticas necessárias à reformulação do ensino superior numa perspectiva transformadora da formação dos profissionais de saúde e, consequentemente, a melhoria dos

23 Rede UNIDA: Desde 1992, universidades, serviços de saúde e organizações comunitárias

de 11 países da América Latina participam de um programa inovador conhecido pela sigla: UNI (Uma Nova Iniciativa na Educação dos Profissionais de Saúde: União com a Comunidade). FEUERWERKER, L.C.M., SENA, R.R. A contribution to the movement for change in professional healthcare education: an assessment of the UNI experiences, Interface _ Comunic, Saúde, Educ, v.6, n.10, p.37-50, 2002.

serviços prestados à sociedade (FEUERWERKER, 2002b; ALMEIDA, 2005; BARBIERI, 2006).

Engajado nesse movimento, o curso de Enfermagem, objeto desta investigação, em 2003/2004, retomou, um processo de discussão para a reestruturação do seu projeto político-pedagógico, pelo fato de reconhecer a fragilidade das concepções teóricas e das estratégias de ensino e avaliação adotadas no curso. Também ficou evidente a necessidade de articulação do ensino à prática da enfermagem, com vistas à criação de mecanismos que possibilitem ao aluno conviver com essa realidade e nela intervir. A consolidação da estratégia de saúde da família e os avanços do SUS também contribuíram para visualizar a distância que mais uma vez se comprovava existir entre o egresso do curso e a política nacional de saúde.

Sendo assim, iniciou-se a tarefa com um diagnóstico da situação momento no qual se discutiu sobre o marco estrutural que objetivava a organização das disciplinas, das competências e do perfil profissional para o qual estava orientado o projeto político pedagógico.

Além desses aspectos outros obstáculos identificados no cotidiano do curso influenciavam sobremaneira na formação profissional, tais como – distanciamento entre as concepções do corpo docente e o paradigma da filosofia e do arcabouço do SUS; inexistência de política de educação permanente para docentes e equipe técnica, a fim de que se cumpram os compromissos firmados com os serviços e com o próprio SUS; pouca visibilidade dos grupos de pesquisa e insuficiente adesão dos professores; escassez de professores no ensino de graduação e entraves burocráticos na aprovação da pós-graduação stricto sensu.

Por outro lado, as diretrizes curriculares nacionais (2001)24 e o novo Estatuto da Universidade, aprovado em 200325, reforçaram as oportunidades de debate com vistas à constituição das unidades acadêmicas26, entre elas a Escola de Enfermagem e Farmácia (ESENFAR) e a

24 Resolução CNE/CES N0. 3, de 07 de novembro de 2001 institui as DCN do Curso de

Graduação em Enfermagem.

25 Portaria no. 4.067, de 29 de dezembro de 2003 – Ministério da Educação.

26 As Unidades Acadêmicas são organizadas por área de conhecimento, cabendo a cada uma

Faculdade de Medicina (FAMED). Favoreceu, também, a reestruturação dos projetos-político pedagógicos de ambos os cursos, com a finalidade de reorientar a formação profissional em direção ao fortalecimento e consolidação do SUS como política nacional de saúde.

Diante disso, o processo de discussão tomou como base a análise dessa conjuntura, incorporando-se à situação econômica do Estado27, o perfil epidemiológico, o plano de desenvolvimento que o SUS alcançou neste espaço social, as condições objetivas para a prestação de assistência à saúde. Destaque-se o compromisso assumido pela Universidade de contribuir para o desenvolvimento do Estado, com a formação de profissionais competentes e do cidadão para atuar em sua área e nos processos de transformação social (PPP/ESENFAR/UFAL, 2006).

Nesse sentido, o Curso de Enfermagem tomou a decisão de apresentar uma proposta para concorrer ao Edital n.1-MS/SGTES de 16/11/2005, PRÓ-SAÚDE, da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde, tendo sido um dos dois cursos de Enfermagem selecionados na Região Nordeste.

A proposta conta com aporte financeiro do Pró-Saúde28, Programa Nacional de Reorientação da Formação em Saúde, o qual tem como objetivos incentivar transformações no processo de formação, promover a integração ensino serviço, com ênfase na abordagem integral do processo saúde-doença.

autônoma sob a supervisão da Reitoria e de acordo com as diretrizes emanadas do Conselho Universitário. Regimento Geral, da UFAL, 2006, Cap. V, art. 21, p. 51.

27 O Estado de Alagoas possui 27.818 Km² de extensão, o que corresponde a 0,33% do

território brasileiro e 1,78% da região nordeste. Possui aproximadamente três milhões de habitantes, segundo dados publicados pelo IBGE em 2004.

28 Programa criado pelo Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Gestão do Trabalho

e da Educação na Saúde (SGTES), em conjunto com a Secretaria de Educação Superior (SESu) e com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) do Ministério da Educação. Instituído pela Portaria Interministerial MS/MEC nº 2.101, de 03 de novembro de 2005, publicada no Diário Oficial da União nº 212, Seção I, Página 111, de 4 de novembro do mesmo ano.

4.3 A proposta de reorientação da formação do profissional enfermeiro: