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A compreensão das questões que determinam a formação dos sentidos da avaliação da aprendizagem passa, necessariamente, pela análise da estrutura da atividade humana, nas condições sociais dadas e nas circunstâncias concretas da vida dos indivíduos.

A Teoria da Atividade surgiu no campo da psicologia, principalmente com os trabalhos desenvolvidos por Leontiev (1978a), (1978b) em oposição às teorias idealistas que concebiam a atividade como resposta do sujeito passivo às influências externas, condicionadas por sua estrutura biológica e sua aprendizagem.

Leontiev (1978b) tece críticas às investigações interdisciplinares desenvolvidas nessa época, as quais, embora apoiadas em diversas áreas do conhecimento, não conseguiram solucionar os problemas metodológicos fundamentais da ciência psicológica, porque consistiam tão somente em estudar a dependência entre os elementos da consciência e os parâmetros dos estímulos que os suscitam. Essa relação, por sua vez, exclui do campo da investigação os vínculos dos sujeitos com o mundo objetivo, a atividade objetivada.

Para Leontiev (2006) a atividade estabelece relações do homem com o mundo e tem como objetivo a satisfação das necessidades humanas. O autor concebe atividade como um processo psicologicamente caracterizado por um conjunto de ações dirigidas por um motivo que estimula o individuo

a agir, para atender uma necessidade de conhecer, de compreender o mundo e nele atuar.

Pela sua importância, consideramos pertinente lembrar os estudos de Duarte (2002), os quais investigam o potencial dessa teoria como uma abordagem para a pesquisa em educação, com destaque para os temas relacionados aos processos de produção e transmissão de conhecimento nas atividades contemporâneas, à questão da alienação e, por fim, ao conhecimento como objeto de estudo da epistemologia da psicologia da cognição e da pedagogia.

Na base da Teoria da Atividade, está a concepção marxista da natureza histórico-social do homem, na qual o desenvolvimento dos processos psíquicos superiores tem sua origem nas relações sociais do indivíduo em seu contexto sociocultural.

De modo geral, o conceito de atividade está associado à ideia de movimento, de ação realizada em circunstâncias diversas. É entendido como processo pelo qual um sujeito modifica uma determinada matéria exterior a ele e dela obtém um resultado e/ou um produto. Vásquez (1990, p. 186) afirma que essa compreensão da “atividade geral” não especifica o tipo de agente, tampouco a natureza da matéria prima, nem mesmo qual a espécie de atos que caracterizam a atividade.

A atividade geral envolve processos, atos relacionados e produtos ou resultados, mas o que de fato caracteriza a atividade humana é a de ser determinada pela intervenção da consciência. Dessa maneira, “a atividade propriamente humana só se verifica quando os atos dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal, ou finalidade, e terminam com um resultado ou produto efetivo, real” (VÁSQUEZ, 1990, p. 187).

Assim compreendida, a atividade humana inicia-se quando os processos vitais adquirem caráter objetivo, ou seja, para que se configure como propriamente humana é essencial que seja movida por uma intencionalidade objetivada na consciência para responder à satisfação das necessidades que se impõem ao homem em sua relação com a natureza.

Representa, portanto, a ação do homem mediada pelas suas relações com os objetos da realidade, dando a esta a configuração da natureza humana. Para Leontiev (1978b, p. 17),

A análise da atividade constitui o ponto decisivo e o método principal do conhecimento científico, do reflexo psíquico e da consciência. Em um estudo das formas da consciência social está a análise da vida cotidiana da sociedade, das formas de produção próprias desta e dos sistemas de relações sociais; no estudo do psiquismo individual está a análise das atividades dos indivíduos nas condições sociais dadas e nas circunstancias concretas da vida de cada um deles.

Visto que as condições sociais de existência humana são incrementadas por modificações qualitativas, assim, devemos considerar o desenvolvimento da consciência como um processo sujeito às transformações de natureza semelhante, situado no plano do desdobramento histórico e no seu devir, determinado tanto pelas relações sociais quanto pelo lugar que o indivíduo ocupa na sociedade.

Davidov (1988) se refere à formação da consciência, afirmando que:

Na consciência do indivíduo, onde se reproduzem idealmente determinadas relações sociais, estão representadas, também idealmente determinadas necessidades, os interesses e as posições das outras pessoas incluídas nestas relações, aquelas que inicialmente participaram junto com o dado indivíduo na atividade coletiva. Porquanto a atividade própria deste indivíduo, no caso de sua representação ideal, constitui um objeto peculiar de sua consciência, ele pode examinar valorar e planificar sua atividade como se fora, por assim dizer, com os olhos de outras pessoas, tendo em conta as necessidades, os interesses e as posições destas. Com outras palavras, o dado indivíduo começa a atuar como homem social. Ao mesmo tempo atua em qualidade de representante de determinadas relações sociais (DAVIDOV, 1988, p. 43).

Leontiev (1978a) elegeu o conceito de atividade como categoria central no desenvolvimento do psiquismo humano das funções psíquicas superiores e a indicou como unidade de análise para as ciências humanas. Para ele a atividade humana está vinculada à formação da consciência e essas duas categorias formam uma unidade dialética, ou seja, a atividade é uma “unidade molar na vida do sujeito, é a unidade da vida mediada pela

consciência cuja função consiste em orientá-lo no mundo objetivo” (LEONTIEV, 1978a, p. 66-67).

O aparecimento da atividade humana ocorreu quando o homem passou a viver em sociedade, com a imediata divisão de trabalho. Pela sua importância na vida do homem, a atividade precisa ser compreendida em sua plenitude, uma vez que o psiquismo humano está vinculado à atividade dos indivíduos concretos que transcorre em meio às relações estabelecidas entre eles e a sociedade, possibilitando-lhe a apropriação dos bens materiais e da cultura elaborados historicamente.

Para explicar a gênese histórica desse processo, Leontiev (1978a) toma como exemplo uma atividade de caça, a qual depende, em certa medida, das ações organizadas e coordenadas dos indivíduos que dela participam.

Nessa atividade, um dos elementos do grupo assume o papel de batedor cuja função é assustar o animal. A ação do batedor, colocada de forma isolada, nos parece inadequada para o alcance da finalidade a que se propõe, porque não há coincidência entre e o motivo e o objeto da ação, ou seja, capturar a caça e saciar a fome, ambos estão separados. O que de fato justifica a ação do indivíduo é a perspectiva de satisfação de uma necessidade pelo produto resultante da atividade conjunta, onde cada um dos elementos do grupo obtém a sua parte em virtude das relações que os unem.

Por essa razão, independentemente da estrutura e da forma que tome, a atividade humana é parte constitutiva de um sistema de relações sociais, uma vez que o homem encontra, na sociedade, as condições objetivas que devem adequar a sua atividade, “sendo essas mesmas condições que envolvem os motivos, os fins, os seus procedimentos e meios de realizá-la”. Em síntese “a sociedade produz a atividade dos indivíduos que a formam” (LEONTIEV, 1978a, p. 68).

No campo de análise da psicologia histórico-cultural, a necessidade é a premissa básica da atividade humana, ou seja, é aquilo que, nas palavras de Leontiev (1983, p.83), “orienta e regula a atividade concreta do sujeito no meio objetivo”. Mas, o que de fato promove a orientação da

atividade é o seu objeto, que lhe confere orientação e se constitui em seu verdadeiro motivo.

Além disso, a atividade interna “que se origina a partir da atividade prática externa, não se separa dela, mas conserva uma relação fundamental e bilateral com a mesma” (LEONTIEV, 1978b, p.83). Portanto, tudo que para o indivíduo aparece em um mundo objetivo, como motivos, finalidades e condições de sua atividade, deve ser representado, compreendido, de um modo ou de outro, em sua consciência.

A atividade humana que, por sua natureza, é consciente, corresponde de modo particular, a determinadas necessidades do sujeito e, quando satisfeitas, chegam a se reproduzir em condições distintas e modificadas, podendo se diferenciar pela forma ou pelo modo como o indivíduo a realiza.

Por conseguinte, a atividade humana não existe a não ser na forma de ações e operações orientadas por motivos para o alcance de uma finalidade. As ações são os componentes principais das atividades que os seres humanos realizam, os quais estão vinculados à dinâmica das relações sociais. “São processos subordinados à representação dos resultados que se deve obter, ou seja, a um fim consciente” (LEONTIEV, 1978b, p.82).

Portanto, cada ação é um processo que se dirige a um objetivo determinado e, no seu conjunto, são mobilizadas pelos motivos da atividade de cuja estrutura fazem parte. Se o motivo parte do sujeito da atividade em virtude das suas necessidades, logo “não há atividade sem motivo, senão uma atividade com um motivo subjetiva e objetivamente oculto” (LEONTIEV, 1978a, p. 82).

Desse modo, os motivos estão relacionados à atividade, assim como as ações se relacionam com os objetivos, com os fins a serem alcançados. A ação tem uma qualidade especial que é seu aspecto operacional, incluindo o modo e os meios definidos pelas condições objetivas, que implicam a sua efetivação. Sua peculiaridade consiste em “responder não ao motivo nem ao fim da ação, senão às condições nas quais está dada a tarefa” (LEONTIEV, 1978b, p. 206).

Os motivos, no entanto, não estão separados da consciência, mesmo quando o homem não se dá conta deles quando realizam uma ação ou outra. Essa ligação é percebida pelo homem como reflexo psíquico, pois resulta da interação entre o sujeito e a realidade, ou seja, as ações humanas propiciam objetivamente relações entre pessoas, com a sociedade.

Identificados ou não, os motivos são mecanismos propulsores da existência real da atividade humana em um mundo objetivo, cuja função principal é a de lhe gerar sentido. Leontiev (1978a) categoriza os motivos em: motivos geradores de sentido e motivos estímulos. Os primeiros concedem à atividade um sentido pessoal; o segundo, como o próprio nome insinua, cumpre a função de fator impulsionador da atividade. É assim que surgem novos motivos e, consequentemente novas atividades.

Razão por que a atividade humana é resultado da aprendizagem, do domínio de modos e meios de ações efetuadas objetivamente na relação do homem com o mundo, com as pessoas, com a sociedade e consigo mesmo. Portanto, o sentido, tal como o significado, vai se formando e se transformando socialmente à medida que o sujeito da atividade vai produzindo sua existência.

Colocada sob essa perspectiva, a avaliação da aprendizagem implica no planejamento de ações impulsionadas por motivos e orientadas para o alcance de uma finalidade, subtendendo-se que esses podem ser de ordem material ou existente apenas no pensamento dos sujeitos da atividade. “O fundamental é que por trás do motivo está sempre a necessidade de que aquele responde sempre a uma ou outra necessidade” geradora da produção de sentidos da atividade humana (LEONTIEV, 1978a, p. 82).

2.4 A avaliação da aprendizagem: uma unidade de produção de